ARTIGO – A FÉ SEM FÉ

A vida, no entanto, nos coloca circunstâncias com certos limites. Aquele jovem em fase terminal que se julgava ateu, desejava acreditar em algo e não conseguia. Preciso ver para crer. Acredite se quiser. Verdade? Construo casas, prédios, fabrico tudo que preciso, para que Messias? (Herodes, filme Mary) A revelação como a manifestação de Deus na história na pessoa de Jesus de Nazaré aconteceu e continua acontecendo. A questão é como foi e continua sendo recebida, interpretada. Para os cristãos o referencial é a fé. O testemunho da adesão e seguimento de Jesus de Nazaré inicialmente não traduz uma fé no seu sentido pleno “ a fé é confiança que não se deixa dissuadir” (JJ, 250). A fé neste aspecto se consolida após Pentecostes. A fé é um dom de Deus, concedido pelo Espírito Santo, e ela se desenvolve à medida que ouvimos a Palavra de Deus e a colocamos em prática. (g.) Como a semente precisa ser alimentada. De fato, o que encontramos na trajetória de Jesus foram situações que expressam fé no poder e na compaixão de Jesus. Nos discípulos há uma manifestação diversificada da fé. Jesus elogia a fé de pagãos, a fé duvidosa dos discípulos. Mostra que é mais qualitativa que quantitativa (grão de mostarda). A arte do impossível (para Deus tudo é possível). Talvez fosse interessante analisar até onde vai a capacidade humana e a capacidade crente. Qual seria o limite entre o natural e o espiritual. Por exemplo, muitas decisões religiosas são a partir da fé ou da vontade política? A vida, no entanto, nos coloca circunstâncias com certos limites. Aquele jovem em fase terminal que se julgava ateu, desejava acreditar em algo e não conseguia. Parece que, quando o limite humano chega, a ânsia do limite eterno começa. Entre os muros sem saída, o salto da fé nos lança fora. Entre o primeiro choro e no último suspiro, pela fé, seguro na mão de Deus. A firmeza, a consistência, a confiança em Jesus de Nazaré afasta qualquer medo e nos lança para o salto no escuro, que se transforma em luz eterna. Fortaleza, 15.01.2025 Ozanir Martins Silva

ARTIGO – A MISSÃO DA IGREJA

“Todos devem cooperar na dilatação e incremento do Reino de Deus no mundo. Por essa razão, os leigos, diligentemente, procurem um conhecimento mais profundo da verdade revelada e, insistentemente, peçam a Deus o dom da sabedoria” (LG nº 35). Já o Papa Paulo VI, em Evangelii Nuntiandi, afirmava: “Nunca haverá evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados” (nº 32). Todos somos mediadores, cooperadores na dilatação e incremento do Reino de Deus no mundo. Ou seja, a missão da Igreja é anunciar o mistério de Jesus de Nazaré. De onde vem esta missão? Para onde vai? Qual o objetivo? A quem é dirigida? O Filho foi enviado pelo Pai para espalhar o amor divino pelo mundo. O Filho na sua vida histórica cumpre este mandato anunciando o Reino de Deus, que significa uma ação concreta de transformação da realidade para o horizonte do bem, da verdade, do amor que expressam as características divinas. Os evangelhos são narrativas que testemunham as experiências vividas do Evangelho – Jesus Cristo. Esses testemunhos são a âncora da fé cristã que prossegue na vida eclesial. O texto recomenda que os cristãos devam ter um melhor conhecimento da verdade revelada, inteligência da fé, que poderíamos acrescentar inteligência do amor, da justiça e da misericórdia. A vida eclesial deve ser a atualização do testemunho de Jesus Cristo, ou seja, como vender o produto Jesus Cristo. De maneira genérica existe uma fé em Jesus Cristo, mas para muitos não convence. A história de Emaús (LC: 24,15) é paradigma como experiência da presença e do anúncio de Jesus Cristo. Se quisermos conhecer uma pessoa basta olhar o que ela fala e faz (Jaspers). É o que acontece em Emaús. Eles identificam o Mestre pela fala (aquecia o coração) e pelo partir do pão (tirou o véu do mistério). Isto chega até nós. Temos uma história construída pelo que vimos e ouvimos. É interessante rever nossas narrativas. De como repassamos o recebido e pensar no a ser transmitido. Devemos olhar o nosso lugar de fala. Eu falei muito. Quantos sermões, reflexões, palestras, conselhos, retiros, celebrações e quantos feitos de solidariedade, de compaixão, de carinho, força junto dos fracos, esmorecidos da vida. Todo o nosso potencial estava voltado para uma missão. Esta tomou características comunitárias e depois se direcionou para um serviço específico, no sacramento da família. Ao mesmo tempo, que diz o texto, contamos com o dom da sabedoria, que foi a força do Espírito Santo. Penso que a missão da Igreja é continuar o anúncio de Jesus Cristo por meio de palavras e ações, ou seja o testemunho da experiência originante da fé e da Igreja, o mistério pascal: o morto e ressuscitado, ou ainda, as palavras e ações de Jesus Cristo. Assim, o caminhar da Igreja não é um caminhar triunfante, dominante, mas um caminhar ouvinte (dos gritos e gemidos de dor, fome dos maltratados, excluídos, dos humilhados), um caminhar solidário com os irmãos que sofrem o racismo estrutural, a discriminação racial, o desconforto das opções de gênero. (Não é sem razão a defesa dos direitos humanos feita por um ativista, preso, que recebe o Nobel da Paz – Ales). “A vida se torna um caminhar com profundo sentido, não porque nós cristãos já tenhamos soluções para tudo, mas porque, objetivamente, conhecemos a direção para a qual nos movemos: o Reino de Deus; nos colocamos a serviço da vida” (Jon Sobrino).   Questões: 01. Conhecemos as propostas concretas da igreja local sobre o mês missionário? 02. O MFPC deve ter um projeto coletivo para a vida missionária, ou, as experiências sejam particularizadas?   Fortaleza, 21.10.2022 – Ozanir Martins Silva

SAÚDE – Dados do SUS nas calculadoras de risco da saúde privada?

Sob a lógica da especulação financeira, corporações utilizam a inteligência artificial para decidir quem recebe os melhores tratamentos – e quem fica de fora. Em nome de uma estranha “digitalização da saúde”, Brasil entrega informações a essas empresas… O ano de 2024 terminou com episódio envolvendo uma das maiores seguradoras de saúde dos Estados Unidos, a UnitedHealth (UHG). Retomando os fatos: em 9 de dezembro um de seus diretores executivos foi assassinado de chofre em plena rua na cidade de Nova Iorque, antes de sua participação no dia anual de investidores do grupo. O suspeito é um jovem americano, que deixara um manifesto contra as empresas do setor de saúde, chamando-as de “parasitas” e mencionando o tamanho descomunal da UHG em seu país. Não fosse só por isso, após o caso ganhar as redes sociais, “a morte do executivo desencadeou uma onda de sentimentos negativos sobre o setor e atraiu críticas ao próprio braço de seguros”. Em poucas palavras, milhares nas redes sociais saíram a favor do assassino. Nos projéteis utilizados para execução, o suspeito deixou marcado “Deny, Defend, Depose”, cujo significado Reinaldo Guimarães resumiu aqui no Outra Saúde: “negue o atendimento da demanda para cobertura de serviço, defenda-se no tribunal se o demandante o acionar, e derrube o demandante contando com a morosidade da justiça, quando ele já pode ter morrido”. O cenário é de uma longa crise estrutural do sistema de saúde estadunidense – um dos mais caros per capita do mundo e um dos mais inefetivos, “curiosamente” também o mais privatizado e financeirizado. Algo que, por sinal, tem feito da agenda dos negócios com a saúde uma corrida ainda mais brutal por “cortes de gastos”. Como sabemos, uma das maneiras de diminuir custos no setor é a radicalização dos cálculos de riscos. Algumas seguradoras, por exemplo, recusam ou aumentam os preços para pessoas com histórico de doenças, por se tratarem de pacientes potencialmente mais custosos; ou classificam os perfis dos pacientes de maior “custo-benefício” para receber determinados tratamentos, priorizando aqueles com maior expectativa de vida ou chance de recuperação; ou ainda, tornam exames e consultas mais burocráticos ou caras, desestimulando a procura precoce por atendimento. Entre tantas outras possibilidades – legais e ilegais. De acordo com um relatório recente de Investigações do Senado dos Estados Unidos, as taxas de recusas em assistência à saúde têm crescido anualmente e aceleradamente em todas as seguradoras do país, sendo justamente a UHG a campeã dentre elas – com a marca de 32% de recusa em 2024. Não por acaso, já em 2009 aproximadamente 44 mil trabalhadores e trabalhadoras estadunidenses morriam anualmente por falta de seguro médico, por desassistência deliberada – sem somar as mortes em razão do cálculo voltado ao “custo da operação”. Fonte: Site OUTRASAÚDE Matéria Completa: Acesse Aqui

MUNDO – Conselho Mundial de Igrejas acusa Trump de “propor limpeza étnica” em Gaza

A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 05-02-2025. O anúncio do presidente dos EUA de expulsar os habitantes de Gaza da Faixa de Gaza para reconstruir a área e transformá-la em uma espécie de “Riviera Maia” no Oriente Médio está ” propondo uma limpeza étnica em larga escala e uma neocolonização da terra natal de dois milhões de palestinos em Gaza”. Foi assim que o Secretário-Geral do Conselho Mundial de Igrejas, Jerry Pilay, foi direto ao responder à proposta de Donald Trump durante seu encontro com o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Em uma declaração , Pillay insistiu que a proposta “viola todos os princípios aplicáveis ​​do direito internacional humanitário e dos direitos humanos, desrespeita décadas de esforços da comunidade internacional, incluindo os EUA, para alcançar uma paz justa e sustentável para os povos da região e, se implementada, constituiria múltiplos crimes internacionais do tipo mais grave “. “A posição dos Estados Unidos da América como um membro responsável da comunidade internacional foi seriamente prejudicada pela proposta em si, sem mencionar sua implementação real”, enfatizou o reverendo, que critica duramente o anúncio de Trump de que ele “assumirá o controle” da Faixa de Gaza. “Após tantos meses de violência desenfreada, morte, destruição e deslocamento infligidos ao povo de Gaza pelas forças armadas israelenses apoiadas pelos EUA, esta proposta de limpeza étnica do território revela o objetivo final inconcebível deste conflito, há muito buscado por elementos extremistas na política e na sociedade israelense”, disse Pillay, acrescentando que “a proposta do presidente Trump ignora flagrantemente os direitos fundamentais do povo de Gaza, que tem lutado e sofrido por tantas décadas”. “O Conselho Mundial de Igrejas apela ao Presidente Trump para reconsiderar esta proposta vergonhosa e respeitar o direito internacional e a dignidade humana e os direitos do povo de Gaza”, enfatizou o secretário-geral do CMI, que apela a “todas as pessoas de fé e boa vontade para se oporem a esta terrível violação da dignidade humana e do direito internacional”. Pillay pediu que igrejas e comunidades cristãs ao redor do mundo se manifestem por justiça, defendam a proteção das vidas e direitos palestinos e pressionem seus governos a rejeitar quaisquer propostas que facilitem a limpeza étnica e a ocupação permanente. “Que as igrejas sejam firmes em seu testemunho enquanto Cristo nos chama para ficar com os oprimidos e buscar a paz baseada na justiça. Oramos por paz, justiça e respeito por todas as pessoas que sofrem sob a tirania dos poderosos neste mundo.” Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – CONTEMOS E CANTEMOS – PEQUENAS NARRATIVAS

Algumas das características da pós-modernidade são: os fragmentos, a interrupção, as pequenas narrativas, os intervalos. As narrativas podem ser positivas ou negativas. Faço questão de insistir nas positivas. Com razão a história das pessoas, como a história da humanidade é feita assim: com fragmentos, pedaços, etapas, episódios, fatos. Daí é, que contar e cantar a vida talvez seja simples e agradável. Seria interessante e atraente ouvir as pequenas histórias e cantá-las. Lembro algumas. Quando aquela psicóloga falou meu nome e disse que eu teria sido o seu segundo pai, as lágrimas vieram. Ela relembrou, garotinha no colégio que eu era o diretor foi acolhida com a mãe e os irmãos quando o pai faleceu. (Bianca) Quando aquela outra psicóloga veio me abraçar por eu ter sido seu professor na universidade, e disse que eu fazia parte da vida dela, tocou me muito, pois não lembrava (Janaina). Quando aquela jovem veio me agradecer pelo que fiz por ela na solução de seus problemas, fiquei interrogativo, pois eu apenas sugeri que ela fizesse o que estava pensando fazer. Quando aquele pequeno empresário me agradeceu porque quando eu era diretor o ajudava ou com a passagem de retorno para casa ou oferecendo um almoço. Não lembrava, mas tocou-me. Quando aquela mulher pobre de uma comunidade perguntou se eu não iria receber o ovo que ela me ofertava, fiquei emocionado, talvez fosse o que ela tinha para me oferecer. Quando eu me coloquei, rezando o terço, diante de Maria, dizendo que ela sabia da minha situação, e agisse a meu favor, foi o silêncio e confiança que dominou. E então, por que não cantar os feitos bonitos? Eu não sei cantar. Mas não precisa voz de cantor. O coração canta no ritmo de suas batidas. A emoção se espalha no ritmo de suas manifestações, sorrisos, abraços, beijos. E sentimento extravasa por palavras, obrigado, graças a Deus.   Fortaleza, 08.02.2025. Ozanir Martins Silva

ARTIGO – MONOS E HUMANOS ORIGEM E ORIGINALIDADES

O que é o Homem? Ao longo dos séculos, foram-se sucedendo, numa lista quase interminável, as tentativas de resposta: animal que fala, animal político (Aristóteles); animal racional (os estóicos e a Escolástica); realidade sagrada (Séneca); um ser que pensa (Descartes); uma cana pensante (Pascal); um ser que trabalha (Marx); um animal capaz de prometer (Nietzsche); um ser que cria (Bergson); um animal que ri, um animal que chora, um animal que sepulta os mortos… Saído da gigantesca aventura cósmica com uns 13.700 milhões de anos, o Homem tem, segundo Edgar Morin, “a singularidade de ser cerebralmente sapiens-demens” (sapiente-demente), ter, portanto, com ele “ao mesmo tempo a racionalidade, o delírio, a hybris (a desmesura), a destrutividade”. O filósofo André Comte-Sponville apresentou a sua “definição”, que julga suficiente: “É um ser humano qualquer ser nascido de dois seres humanos.” Sim, é verdade. Mas será mesmo suficiente? O que dizer em relação aos primeiros homens, que, na história da evolução, não nasceram de outros humanos? De qualquer modo a pergunta continua aí, gigantesca, a pergunta das perguntas… Os grandes espíritos — Diderot, por exemplo — deram-se conta de que o que somos não pode ser encerrado numa definição. O Homem é o ser que leva consigo a questão do ser e do seu ser e que originária e constitutivamente pergunta: o que é o Homem? O que, antes de mais, une a Humanidade inteira é precisamente esta pergunta: o que é ser Homem? Se o chimpanzé, por exemplo, também sente, recorda, procura, espera, joga, comunica, aprende e inventa, o que é que nos distingue? Afinal, há muito de idêntico em nós e no chimpanzé, “no mono e no Papa”, disse ironicamente o filósofo confessadamente ateu Michel Onfray. O professor de filosofia e o chimpanzé têm necessidades naturais comuns: comer, beber, dormir. A etologia mostra que há comportamentos naturais comuns aos animais e aos humanos. Veja-se, por exemplo, as relações de violência e de agressão e compare-se inclusivamente os rituais de cortejamento sexual. Mas é interessante constatar que já na resposta às necessidades naturais há uma diferença: os homens inventaram a cozinha e a gastronomia e também o erotismo. No entanto, escreve M. Onfray, “o Homem e o animal separam-se radicalmente quando se trata de necessidades espirituais, as únicas que são próprias dos homens e das quais não se encontra nenhum vestígio — mínimo que seja — nos animais.” Há nos humanos uma série de actividades especificamente intelectuais, que os distinguem radicalmente dos monos: nestes, não encontramos filosofia nem religião nem técnica nem arte. A tentativa de compreendê-lo no quadro de um materialismo mecanicista ou do biologismo não dá conta do Homem. De facto, o animal é conduzido pelo instinto. Por isso, esfomeado, não se conterá perante a comida apropriada que lhe apareça. Face à fêmea no período do cio, não resistirá. O Homem, pelo contrário, é capaz de transcender a dinâmica biológica. Por motivos de ascese ou religiosos ou até pura e simplesmente para mostrar a si próprio que se não deixa arrastar pelo impulso, é capaz de conter-se, resistir, dizer não. Foi neste sentido que Max Scheler, um dos fundadores da Antropologia Filosófica escreveu que o Homem é “o asceta da vida”, o único animal capaz de dizer não aos impulsos instintivos. Cá está: esta é a base biológica da conduta moral, uma característica essencialmente específica humana. Uma vez que o Homem é capaz de ponderar, renunciar, abster-se, optar, dizer sim, dizer não aos impulsos, é livre e, por conseguinte, animal moral. O Homem é corpo, mas um corpo que fala e que diz “eu”. Porque fala, é capaz de debater questões, de defender pontos de vista, distinguir o bem e o mal, tomar posições sobre valores morais, políticos, religiosos, estéticos, filosóficos… Então, o enigma é este: provimos da natureza, mas contrapomo-nos a ela, somos simultaneamente da natureza, na natureza e fora dela. Monos e humanos têm a mesma origem, mas os humanos têm originalidades únicas e irredutíveis.  

SOCIEDADE – Homossexuais no Sacerdócio: portas entreabertas. Artigo de Luís Corrêa Lima

O papa Francisco reiterou a posição de seu antecessor, em 2016, e teve conversas com os bispos italianos a portas fechadas sobre este assunto. Em uma delas, no ano passado, ele comentou em tom de brincadeira que em certos seminários já existe muita “viadagem” (frociaggine). “É chegado o momento de reconhecer que pessoas homossexuais podem ser sacerdotes de valor, com integridade, zelo e responsabilidade. Assim como em outras áreas e profissões, a orientação homossexual não é empecilho e não deve ser vista como ameaça”, escreve Luís Corrêa Lima, padre jesuíta, professor da PUC-Rio e autor de “Teologia e os LGBT+”, em artigo publicado por Contém Amor, 03-02-2025. Eis o artigo. A Conferência Episcopal Italiana publicou novas diretrizes para os seminários. Uma grande novidade dessas diretrizes é a admissão de candidatos homossexuais ao sacerdócio — desde que eles, assim como os demais candidatos, empenhem-se em viver a castidade no celibato. À primeira vista, este assunto é algo interno da Igreja Católica. Porém, há implicações sobre a imagem da pessoa homossexual, com consequências éticas e pastorais. Há duas décadas esta questão envolve controvérsias e agora um novo cenário se apresenta. Em 2005, uma Instrução aprovada pelo papa Bento XVI afirmava que a Igreja não deve admitir ao seminário e à ordenação os que: “praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente radicadas ou apoiam a chamada cultura gay. Estas pessoas encontram-se, de fato, numa situação que obstaculiza gravemente um correto relacionamento com homens e mulheres”. E cabe ao bispo ou ao superior religioso chamar à ordenação depois de ouvir os encarregados da formação. O cardeal que assina a Instrução afirmou, em entrevista, ser inoportuno ordenar candidatos homossexuais, ainda que haja sacerdotes de conduta exemplar com essa orientação sexual. Mas como a questão remete aos bispos locais e superiores religiosos, alguns deles se manifestaram com interpretações mais matizadas e flexíveis. O então presidente da Conferência Episcopal Alemã, cardeal Karl Lehmann, afirmou que se deve entender por tendências homossexuais profundamente radicadas não quaisquer tendências pelo mesmo sexo, mas aquelas que são um grave obstáculo a uma correta relação com os fiéis. Nesta linha, também as tendências heterossexuais profundamente enraizadas são um grave obstáculo. O ex-superior geral dos dominicanos, Timothy Radcliffe, trabalhou em todo o mundo com bispos e padres, diocesanos e religiosos. Ele afirmou não ter dúvidas de que Deus chama homossexuais ao sacerdócio e que eles estão entre os sacerdotes mais dedicados e impressionantes que encontrou. Por isso, nenhum sacerdote que esteja convencido de sua vocação deve se sentir classificado pela Instrução como incapaz. E presume que Deus continuará chamando ao sacerdócio tanto homo como heterossexuais, porque necessita dos dons de ambos. O papa Francisco reiterou a posição de seu antecessor, em 2016, e teve conversas com os bispos italianos a portas fechadas sobre este assunto. Em uma delas, no ano passado, ele comentou em tom de brincadeira que em certos seminários já existe muita “viadagem” (frociaggine). A frase se tornou pública. O papa, então, comunicou que nunca teve a intenção de ofender ou de se expressar em termos homofóbicos, e pediu desculpas aos que se sentiram ofendidos pelo uso do termo. Na época, bispos italianos explicaram à imprensa o que ficou claro para eles: Francisco não pretendia se referir aos homossexuais como tais, mas àqueles que, nos seminários, não mantêm a castidade. Pouco depois, o papa escreveu a um jovem que afirmava ter sido expulso do seminário por se declarar homossexual. Francisco disse: “a Igreja deve estar aberta a todos. Irmão, siga em frente com sua vocação”. Recentemente, o papa tornou Timothy Radcliffe cardeal, o que revela notável apreço por este dominicano e suas posições. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

MUNDO – Palestinos, judeus, armênios e mais: a limpeza étnica que mancha a história do mundo

O plano de reassentar moradores de Gaza lembra a perseguição que muitas minorias sofreram no passado. Desde os tempos antigos até hoje, em muitos conflitos foram feitas tentativas de exterminar um povo inteiro. A reportagem é de Enrico Franceschini, publicada por Repubblica, 06-02-2025. “Evitem qualquer forma de limpeza étnica em Gaza”: ontem, o secretário-geral da ONU, António Guterres, respondeu desta forma à proposta de Donald Trump de transferir os dois milhões de palestinos da Faixa para vários países árabes e transformá-la num balneário “internacional”. Enquanto isso, a porta-voz da Casa Branca voltou atrás parcialmente nas palavras do presidente, afirmando que Trump não se comprometeu a enviar tropas americanas a Gaza para “tomar posse dela”, como havia dito na entrevista coletiva conjunta com o primeiro-ministro israelense Netanyahu, e que a transferência de palestinos seria apenas uma medida temporária. Mas enquanto o mundo árabe e a Europa discordam de um projeto que violaria as normas internacionais, nos Estados Unidos não faltam aqueles que o consideram um estímulo à paz, à prosperidade e aos negócios, desenvolvendo a construção e o turismo em “40 quilômetros de litoral”. Washington nega que isto tenha sido uma “limpeza étnica”. Aqui está um histórico deste termo e os casos aos quais ele foi aplicado no passado. O que é limpeza étnica? Limpeza étnica refere-se a uma variedade de ações que visam remover à força de um território a população de uma minoria étnica ou religiosa, mesmo recorrendo à violência, a fim de preservar a identidade e a homogeneidade de um grupo étnico predominante. Pode ocorrer por meio de deportação em massa ou métodos indiretos que visam forçar a minoria a migrar e impedir seu retorno, como assassinato, estupro e destruição de propriedade . O termo entrou em uso comum com os conflitos entre albaneses e sérvios em Kosovo a partir da década de 1980 e com as guerras na antiga Iugoslávia na década de 1990, mas o fenômeno tem precedentes muito antigos. Foi definido como um crime contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia e pelo Tribunal Penal Internacional em Haia. Nos tempos antigos Entre os primeiros exemplos de limpeza étnica, os historiadores consideram a expulsão de dezenas de milhares de judeus do Reino de Israel pelo Império Babilônico em 597 a.C., o massacre de romanos que viviam na Anatólia cometido pelo rei Mitrídates VI em 88 a.C., e as guerras romanas contra os judeus entre 115 e 136 d.C., nas quais centenas de aldeias foram arrasadas e centenas de milhares de pessoas mortas ou expulsas. Da Idade Média à Idade Moderna Casos mais recentes incluem a expulsão e o extermínio de armênios e gregos da Anatólia durante as invasões turcas entre 1071 e 1453 d.C.; a expulsão de judeus de vários países europeus, incluindo Espanha, França e alguns estados alemães entre os séculos XIII e XVI, com a medida alternativa, em Espanha, de conversão compulsória ao catolicismo; o deslocamento forçado de nativos americanos de 1492 até a segunda metade do século XIX por colonos britânicos, espanhóis e finalmente americanos, que segundo muitos historiadores assumiu as características de genocídio; o confisco de terras e a expulsão dos irlandeses na atual Irlanda do Norte por tropas e colonos ingleses entre 1566 e 1652; o extermínio em massa das populações mongóis na região de Dzungar por ordem da dinastia chinesa Qing entre 1755 e 1757; o extermínio e deslocamento de aborígenes na Austrália por colonos brancos de 1788 até o início do século XX. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – CAMINHANDO COM DOM HELDER CAMARA EM FORTALEZA

Com Dom Aloísio Lorscheider em Fortaleza Helder Pessoa Camara nasceu em Fortaleza no domingo, 07 de fevereiro de 1907, isto é, há 118 anos. É o 11.º filho de Adelaide Rodrigues Pessoa e João Eduardo Torres Camara Filho. Helder foi batizado em 31 de março do mesmo ano na capela da Santa Casa de Fortaleza por Monsenhor José Leorne Menescal. Estudou no “Seminário Episcopal do Ceará”, conhecido como “Seminário da Prainha”, entre os anos de 1923 e 1931. Foi ordenado padre em 15 de agosto de 1931, na Catedral de Fortaleza pela imposição das mãos de Dom Manoel da Silva Gomes. Trabalhou na Diocese de Fortaleza durante cinco anos, entre 1931 e 1936: – Organização da JOC (Juventude Operária Católica) – Liga dos Professores Católicos – Professor de Religião no Liceu do Ceará – Coordenador da “Instrução Pública” (atual SEDUC) – Fundador do movimento “Legião Cearense de Trabalho” e da sindicalização “Operária Católica Feminina” reunindo lavadeiras, engomadeiras, domésticas, cozinheiras, amas e copeiras. – Membro da LEC (Liga Eleitoral Católica) – Participação na “Ação Integralista Brasileira”, sobre a qual escreveu nas suas ‘Declarações Testamentárias’, em 24 de março de 1943: “Cometi, que eu saiba, três pecados contra o espírito sacerdotal. O primeiro é que me fiz político”. – Assistente Eclesiástico da “União dos Moços Católicos”. Foi transferido para a Arquidiocese do Rio de Janeiro em 1936, onde foi sagrado bispo em 1952. Realizou obras importantes de assistência aos pobres, organizou a CNBB e foi co-fundador do CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano). Foi transferido para a Arquidiocese de Olinda e Recife em 1964. A partir de antão tornou-se a voz dos pobres, clamando por paz e justiça pelo mundo afora. Nos anos de 1970, 1971, 1972 e 1973, foi candidato ao Prêmio Nobel da Paz, que lhe foi negado por influência e insistência da Ditadura Militar no Brasil. Dom Helder foi chamado pelo Pai da Criação, como gostava de chamá-Lo, em 27 de agosto de 1999, no Recife. O processo de beatificação e Canonização de Dom Helder foi aberto em 03 de maio de 2025. Dom Helder foi um homem de relevância mundial, mesmo tendo uma atuação mais duradoura e expressiva no Rio de Janeiro e no Recife. Diante desta constatação e após ter percorrido os passos e o legado de padre Helder em Fortaleza, podemos questionar porque este filho ilustre desta cidade, de reconhecimento mundial, em processo de beatificação e canonização, recebe tão pouco atenção pela Arquidiocese de Fortaleza e também pelos demais poderes e entidades públicas cearenses? Fortaleza, 7 de fevereiro de 2025, Geraldo Frencken – Membro do “Grupo Dom Helder”

SOCIEDADE – “A inteligência artificial está nos levando a uma nova fase do conhecimento”. Entrevista com Paolo Benanti

A entrevista é de Ignacio Santa Maria, publicada por Ethic, 06-02-2025. A tradução é do Cepat. Ele frequenta as universidades, fóruns de debate e estúdios de televisão ao redor do mundo com o seu hábito de frade franciscano e uma mochila nas costas. Paolo Benanti (Roma, 1973) é um dos especialistas em inteligência artificial mais requisitados do mundo. Assessor da ONU, do Papa Francisco e do Governo italiano, acaba de publicar na Espanha o livro A era digital, no qual aborda os grandes desafios antropológicos, éticos e sociais que os últimos avanços tecnológicos estão levantando. A entrevista é de Ignacio Santa Maria, publicada por Ethic, 06-02-2025. A tradução é do Cepat. Eis a entrevista. Em ‘A era digital, você diz que a quarta revolução em que estamos imersos não é apenas tecnológica. Quais são suas outras implicações? Representa uma transformação radical da nossa compreensão da realidade e de nós mesmos. Hoje, graças à tecnologia, podemos remapear a realidade segundo outros paradigmas. É a mesma coisa que aconteceu séculos atrás com a invenção da lente convexa, que deu origem a dois instrumentos: o telescópio, que nos permitiu estudar o infinitamente grande, e o microscópio, que nos abriu caminho para estudar o infinitamente pequeno. Esses dois instrumentos transformaram nossa compreensão da realidade porque percebemos que não somos o centro do universo, mas um planeta de um sistema solar secundário e, por outro lado, entendemos que não somos uma coisa única, somos feitos de pequenas partículas vivas que chamamos de células. Ou seja, o telescópio e o microscópio mudaram a cosmologia e a antropologia. Hoje, a inteligência artificial, que estuda não o infinitamente grande ou pequeno, mas o infinitamente complexo, está reescrevendo nossa compreensão da realidade e de nós mesmos e nos levando a uma nova fase do conhecimento. No entanto, pensadores como Pascal Bruckner argumentam que, com a transformação digital, passamos da era da compreensão à da distração. Dizer que a era digital é apenas uma época da distração é o mesmo que dizer que há uma competição entre o homem e a máquina. Isto não está certo. A máquina é um instrumento. É verdade que também pode ser uma arma, mas como instrumento pode ampliar nossas capacidades de conhecimento. E quais são, em sua avaliação, os maiores riscos éticos da inteligência artificial? A máquina pode chegar a tirar a liberdade do ser humano? Se aplicarmos os algoritmos à liberdade das pessoas, não só serão capazes de prever um comportamento, como também de produzi-lo. Nas plataformas, sabem disso muito bem, pois quando fazem sugestões aos usuários, não só estão prevendo o seu comportamento, como também fazendo com que comprem determinadas coisas. Este é o motivo pelo qual precisamos ter uma boa governança sobre essas inovações. Então, o dilema ético não está na tecnologia em si, mas nos seres humanos que a controlam? É importante destacar que a máquina sozinha não faz nada. Os homens podem delegar tarefas às máquinas ou utilizá-las para controlar outros homens. Os riscos dependem do que o homem quer que a máquina faça. Quando falamos de riscos e problemas éticos, a questão deve sempre recair sobre o lado humano. A máquina não inicia sozinha, não se constrói sozinha, não começa a funcionar sozinha. Portanto, é uma questão do que queremos que a máquina seja e o que queremos que ela faça. Quais são os desafios políticos e sociais desta era digital em que estamos imersos? A realidade que estamos vivendo está definida pelo software. Nos dispositivos, nós, usuários, somos proprietários do hardware, mas temos apenas uma licença de software. No Direito Romano, eram estabelecidos três direitos relativos à propriedade de uma coisa: usus, abusus e fructus. Podemos usar nosso celular ou tablet como quisermos, mas os frutos desse uso não são nossos, vão para a nuvem ou outro tipo de formato. E isto é importante, porque na Roma Antiga aqueles que eram privados dos frutos das coisas eram os escravos. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui