MUNDO – Uma Igreja a ser “desmasculinizada”

Com estas palavras de desaprovação, o Pontífice sublinhou, naquele contexto, a embaraçosa escassez da presença feminina. Na Aula Magna do Seminário de Mântua, no dia 28 de fevereiro, dia da Páscoa de Ivana Ceresa, primeira aluna da ISSR, Lucia Vantini, presidente da Coordenação das Teólogas Italianas, e Donata Horak, professora de Direito Canônico e membro do conselho da CTI, fizeram um relato do que está se movendo na Igreja a partir do neologismo extemporâneo, mas significativo – smaschilizzare – cunhado pelo Papa Francisco e usado por ele, em 2023, diante de um público exclusivamente masculino durante a Comissão Teológica Internacional. “Desculpem-me a franqueza… Uma, duas, três, quatro mulheres: coitadas! Eles estão sozinhos! Ah, desculpe: cinco! Precisamos avançar nisso.” Com estas palavras de desaprovação, o Pontífice sublinhou, naquele contexto, a embaraçosa escassez da presença feminina. A reportagem é de Laura Destro, publicado por Settimana News, 19-03-2025. “Desmascaramento” é, portanto, o convite do Papa e, para isso, ele confia ao Conselho de Cardeais a tarefa de um debate aberto com as mulheres. O fruto dos quatro encontros, realizados entre o final de 2023 e o início de 2024, está contido em uma quadrilogia, da qual os palestrantes presentes também são autores. Na esteira da sensibilidade profética de Ivana Ceresa que, já em 1994, em seu livro Minhas Queridas Irmãs, expressava o forte desejo de leitoras das Escrituras, capazes de falar de Deus, Lucia Vantini aprofunda o tema da desmasculinização da Igreja, tema do primeiro livro. Os tópicos abordados nas reuniões subsequentes estão definidos em Mulheres e Ministérios na Igreja Sinodal, Mulheres e Homens: uma Questão de Cultura, Poder e Vida. A pedido do Papa, o primeiro encontro explora o princípio petrino e mariano enunciado pelo teólogo suíço von Balthasar, que Lucia Vantini define como inquietante, assim como o verbo “desmascarar” o é, pela ideia subjacente de diferença de gênero e pelas reações que ela produz nas almas mais conservadoras do mundo católico, incluindo homens e mulheres. Por petrino entendemos aquilo que diz respeito à objetividade (o público, a autoridade, o ministério), dimensão própria dos homens; por mariano, a subjetividade (privada, emocional, de gestão da dor), uma esfera de relevância feminina. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – Profecia de uma comunidade intercongregacional na Amazônia

Eis o artigo. Uma comunidade intercongregacional de religiosas na Amazônia peruana, situada na Tríplice Fronteira entre Colômbia, Peru e Brasil. Três freiras que administram a paróquia do Senhor dos Milagres na Islândia (Peru), às margens do Rio Yavarí. Este texto é uma provocação para que diferentes comunidades religiosas se unam a esta comunidade intercongregacional ou para que outras comunidades religiosas formem outra comunidade intercongregacional na Tríplice Fronteira Amazônica da Colômbia, Peru e Brasil. Diferentes carismas na mesma comunidade As freiras que compõem esta fraternidade intercongregacional são duas freiras brasileiras e uma freira equatoriana, cada uma pertencente a uma congregação religiosa com diferentes identidades carismáticas dentro da Igreja Católica. Na Tríplice Fronteira Amazônica, existem diversas comunidades religiosas, masculinas e femininas, que atuam no Vicariato de San José del Amazonas (Peru), no Vicariato de Letícia (Colômbia) ou na Diocese de Alto Solimões (Brasil). Várias dessas comunidades religiosas são fraternidades internacionais, ou seja, são formadas por religiosos e religiosas, e alguns por leigos, do mesmo carisma, mas de países diferentes. Existe apenas uma comunidade religiosa que é intercongregacional, com irmãs de diferentes carismas dentro da Igreja Católica vivendo e servindo juntas. Está localizada na Islândia (Peru), no vicariato apostólico de San José del Amazonas. Esta comunidade intercongregacional se torna uma voz profética de fraternidade, missão compartilhada, sinodalidade, humildade e serviço carismático para o bem do povo de Deus da Amazônia. Superando as diferenças em prol da unidade Algo que chama a atenção nessa comunidade intercongregacional é que, apesar de as religiosas terem carismas diferentes, elas conseguem, por assim dizer, superar essas identidades carismáticas, concentrando-se em ter o mesmo Deus, a mesma Igreja, a mesma fé, o mesmo batismo e o chamado a viver em fraternidade, compartilhando a vida, a oração e a missão. Outra característica única desta comunidade intercongregacional é que são mulheres que lideram e acompanham uma paróquia na Amazônia peruana. Uma paróquia que, em seu centro urbano, tem uma minoria de católicos, pois a grande maioria de seus habitantes pertence a uma seita chamada Israelitas. A freguesia é muito grande, com muitas comunidades ribeirinhas e indígenas que fazem fronteira com o Brasil e a Colômbia. Essas freiras, em suas viagens missionárias para visitar as diferentes comunidades da Amazônia peruana dentro da jurisdição da paróquia que acompanham, encontram realidades complexas decorrentes da negligência do Estado, como falta de emprego, pobreza e cobertura limitada de saúde, entre outras realidades. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – O ‘Caim’ de Saramago. Artigo de Eduardo Hoornaert

“O romance de Saramago pode criar desconforto em leitores(as) acostumados(as) à apresentação de um Deus Senhor Todo-poderoso. Pois a apresentação da história bíblica feita pelo autor é de caráter militante. Por trás do tom de leveza e humor, que perpassa o texto, existe a ânsia de alguém que percebe que a humanidade se deixa enganar”, escreve Eduardo Hoornaert, historiador, ex-professor e membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), em artigo publicado em seu blog, 15-03-2025. Eis o artigo. Esplendidamente escrito e demonstrando um domínio insuperável da língua portuguesa, o romance de José Saramago, Prêmio Nobel de literatura, intitulado Caim e editado pela Companhia das Letras (São Paulo, 2009), vem nos surpreender. Caim, irmão de Abel, é inimigo jurado de Senhor Deus. Condenado a viajar do futuro ao passado, das terras do amanhã às terras de ontem, sem nunca encontrar repouso, Caim vê por todo lado maus feitos desse Senhor Deus: por que rejeitar as ofertas de Caim e aceitar as de Abel, se ambos agem de boa vontade? Por que condenar com penas tão cruéis duas mulheres, Eva e a mulher de Lot, que agem por curiosidade, ou seja, por inteligência? Por que ordenar a Abraão matar seu próprio filho? Haverá ordem mais cruel e mais sem sentido? Por que lançar fogo e enxofre do céu sobre as crianças inocentes de Sodoma e Gomorra? Não são elas em maior número que as dez almas sem culpa que o Senhor Deus exigiu para não exterminar as cidades e toda a planície? O que as crianças têm a ver com a perversidade de seus pais? Por que contemplar com benevolência, do alto do Sinai, a matança de três mil pessoas, só porque alguns dançaram em torno de uma imagem, no acampamento do povo no deserto, já que toda criação é feita à imagem e semelhança de deus? Por que vingar de forma tão cruel a matança de 17 soldados israelitas pelas forças de Madiã, a ponto de ordenar o extermínio da cidade? E o que dizer das crueldades cometidas por Josué e seu exército na destruição total de Jericó, por ordem do Senhor? A lista é interminável. Caim conclui: as ordens do Senhor, além de incompreensíveis, são maldosas. O Senhor Deus só quer a derrota dos homens e Caim resolve combatê-lo de todas as forças. O romance termina dizendo que o Senhor Deus e sua criatura inconformada continuam discutindo pelos séculos afora. A única coisa que se sabe de ciência certa é que continuaram a discutir e que a discutir estão ainda (p. 172). Que discussão é essa? Eis o que constitui o segredo do romance. O que se pode dizer que Saramago não tem a intenção de escandalizar seus (suas) leitores(as) com disparates levianos e incongruentes contra os textos bíblicos, mas pretende lutar contra uma apresentação banalizada da Bíblia, que tira o sentido do texto, mas que infelizmente constitui a leitura comum nos dias em que vivemos. A estranheza que esse romance provoca em nós mostra que não conhecemos a Bíblia, mas estamos presos(as) a uma apresentação da literatura bíblica feita durante séculos pelas igrejas, por meio de sermões e do catecismo. O(a) leitor(a) atento(a) descobrirá logo que Saramago não comenta textos bíblicos. O romance todo só tem uma citação (da Carta aos Hebreus, 11, 4) no pórtico de entrada. Pelo resto, Saramago não comenta a Bíblia, ele se refere o tempo todo ao que se pode chamar de apresentação catequética da Bíblia, ou seja, à ‘História Sagrada’. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

SOCIEDADE – As molas mórbidas do capitalismo tardio

Nos EUA, 20% do PIB já se originam de doença ou vício: em opioides, tabaco, bets, ultraprocessados e dispositivos digitais. Mobilizar nas pessoas aquilo que elas não controlam é agora indispensável ao sistema. Há um pretexto: liberdade de escolha A rápida recuperação econômica dos Estados Unidos no pós-pandemia consagrou o lugar comum do “excepcionalismo norte-americano”, que Tej Parikh procura desmistificar, numa recente coluna no Financial Times. É verdade, escreve ele, que, a partir de 2022, o mercado de ações bombou e que as inovações tecnológicas ligadas ao avanço da inteligência artificial deram notável impulso ao setor privado. Mas isso não pode escamotear o fato de que 20% do PIB norte-americano vem de gastos com saúde, muito mais (mesmo em termos per capita) que em outros países da OCDE. 40% dos novos empregos privados criados desde 2023 estão em healthcare. Na verdade, é mais apropriado falar em gastos com doença e não com saúde: nos EUA, morrem mais jovens e as doenças evitáveis ou passíveis de tratamento matam mais do que em outros países ricos. Dos dez setores econômicos norte-americanos com maior faturamento, em 2020, os três primeiros estão ligados a tratamentos médicos, seguros médicos, remédios e hospitais.. A conclusão de Tej Parikh é peremptória: parcela significativa do boom econômico norte-americano é gerada pela doença. E o que propaga e pereniza a doença é o empenho meticuloso em difundir em larga escala o vício. Cuidadosamente formulado, planejado e propagado, o vício é um vetor decisivo, talvez o mais importante, das doenças que marcam parcela significativa do crescimento econômico contemporâneo e não só nos EUA. Que se trate dos opioides, do tabaco, dos alimentos ultraprocessados, das famigeradas bets ou dos dispositivos digitais em que nossa interação social está compulsivamente mergulhada, conquistar a adesão das pessoas por meio de fatores sobre os quais elas não exercem qualquer controle se tornou um componente decisivo do próprio crescimento econômico contemporâneo. O pior é que esta perda de autonomia, esta interferência corporativa organizada na decisão pessoal é apresentada e cada vez mais socialmente legitimada como seu contrário, ou seja, como expressão de liberdade de escolha. Tudo se passa como se a vontade de cada um de nós tivesse força suficiente para se contrapor ao trabalho de milhares de profissionais especializados em moldar e determinar as preferências humanas. Esta ingerência não seria tão grave se ela não tivesse consequências tão sérias sobre a saúde pública e, quando se trata dos dispositivos digitais, sobre a saúde da própria democracia. Hoje há uma farta documentação e um conjunto robusto de decisões jurídicas baseadas na evidência de que a indústria do tabaco, por exemplo, sempre soube que seu produto era não apenas tóxico, mas, sobretudo viciante e daí derivava, claro, seu benefício econômico. Mas tanto em sua publicidade, como nos tribunais, os dados vinculando o cigarro a graves enfermidades eram sistematicamente negados por cientistas contratados para chegar aos resultados convenientes à indústria. É verdade que campanhas (das quais o Brasil está entre os pioneiros) antitabagistas vêm provocando a diminuição da quantidade de fumantes em várias partes do mundo. Mas, como mostra um relatório recente da Organização Mundial da Saúde, a pressão da indústria sobre diferentes governos (na tentativa de atenuar as restrições pelo atrativo da arrecadação fiscal) segue firme. Um dos mais emblemáticos sinais da relevância do vício planejado como base do bom desempenho corporativo é apresentado nas fascinantes Royal Institutions Christmas Lectures pelo médico Chris van Tulleken. Para se ter uma ideia de sua importância, trata-se de um evento criado por ninguém menos que Michael Faraday, em 1825, e que recebe anualmente, desde então, cientistas de grande prestígio e reconhecimento internacionais. Chris van Tulleken montou um evento espetacular onde convidou profissionais que trabalharam na indústria de ultraprocessados e que revelam as técnicas pelas quais estes, que mal podem ser chamados de alimentos, tornam-se irresistíveis e, sobretudo viciantes. E tanto nestas conferências como em seu livro lançado há alguns meses pela Editora Elefante (Gente Ultraprocessada), ele mostra que alguns dos gigantes corporativos do tabaco se tornaram grandes acionistas e atores decisivos na indústria de ultraprocessados. No tabaco e nos ultraprocessados, quando confrontados com os prejuízos à saúde pública trazidos pelo consumo de seus produtos, as empresas respondem cultivando o mito de que quem decide é o indivíduo e que interferir em sua liberdade de escolha abre caminho ao autoritarismo. Fonte: Site OUTRAS PALAVRAS Matéria Completa: Acesse Aqui

RELIGIÃO – O peso do papado: a urgência de uma aposentadoria com dignidade dos pontífices

As recentes imagens do Papa Francisco no Hospital Gemelli, visivelmente envelhecido e mostrando sinais de sofrimento, reabriram um antigo debate: os papas devem permanecer ativos até o fim de seus dias? A história recente do papado mostrou os danos físicos e mentais que o exercício do poder pode causar em um homem idoso, especialmente em figuras como João Paulo II, que suportou a última fase de seu pontificado com uma evidente deterioração que o deixou praticamente incapacitado. O artigo é publicado por Ataque al poder, 17-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini. Em um mundo em que a expectativa de vida aumentou e a medicina permite que a vida seja prolongada além da plena capacidade de cada um, a liderança da Igreja Católica continua presa a uma lógica que associa a permanência no cargo à vontade divina. Essa visão, no entanto, não só pode afetar a capacidade de governo da Igreja, mas também impõe um sacrifício desnecessário aos próprios papas. A renúncia de Bento XVI em 2013 marcou um ponto de virada na história do papado, mas não foi suficiente para consolidar uma norma sobre a aposentadoria dos bispos de Roma. A Igreja, como qualquer outra instituição, precisa de uma liderança dinâmica e ativa. Um papa idoso, enfraquecido pelo peso dos anos, inevitavelmente delega responsabilidades às pessoas mais próximas a ele, com o risco de que o poder real acabe nas mãos de outros. No caso de João Paulo II, a fase final de seu pontificado foi marcada pela crescente influência de seu secretário pessoal e da Cúria do Vaticano, que tomavam decisões em seu nome, enquanto o pontífice se mostrava cada vez mais frágil. Essa situação não apenas questionou a governança efetiva da Igreja, mas também projetou uma imagem de sofrimento desnecessária. A tradição católica exalta o valor do sacrifício, vendo o sofrimento como uma forma de se aproximar de Deus. Entretanto, essa visão não pode ser aplicada indiscriminadamente à gestão da Igreja. A insistência de que os papas devem morrer durante o seu mandato, independentemente de sua saúde, é uma visão anacrônica que contradiz a própria mensagem sobre a dignidade humana que a Igreja defende. Permitir que um pontífice se aposente com honra, quando sua saúde assim o exigir, é uma questão de humanidade e de responsabilidade institucional. Outro argumento a favor da aposentadoria papal é a possibilidade de uma renovação doutrinária e pastoral. A Igreja Católica se vê enfrentando desafios constantes que exigem respostas rápidas e uma adaptação às realidades do mundo contemporâneo. É improvável que um papa idoso e debilitado consiga empreender com energia as reformas necessárias ou responder prontamente às crises que poderiam se apresentar. A permanência indefinida no cargo limita a capacidade da Igreja de se renovar e se conectar com as novas gerações. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

SOCIEDADE – Lucro de planos de saúde aumentou 271% em 2024

Os planos de saúde registraram lucro líquido de R$ 11,1 bilhões em 2024, um aumento de 271% na comparação com 2023. Este resultado também é superior ao que foi obtido nos três anos anteriores somados. De acordo com os dados divulgados nesta quarta-feira pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a parcela equivale a aproximadamente 3,16% da receita total das operadoras, que foi de aproximadamente R$ 350 bilhões. Isso significa que para cada R$ 100 gerados, as empresas obtiveram cerca de R$ 3,16 de lucro. O Painel Econômico-Financeiro da Saúde Suplementar mostra ainda que a sinistralidade registrada no último trimestre do ano passado foi a menor para este período desde 2018: 82,2%. Esse calculo mede qual a proporção da receita recebida com as mensalidades dos planos de saúde são utilizada em despesas assistenciais. Isso significa que os planos utilizaram cerca de 82,2% do que receberam dos clientes para custear os serviços e insumos utilizados por eles. De acordo com a agência, isso é resultado da reorganização financeira promovida especialmente pelas operadoras de grande porte, que têm reajustado as mensalidades dos planos de saúde em patamar superior à variação dos custos com as despesas assistenciais. Outra parte importante do resultado financeiro positivo também é devido às aplicações financeiras. A maior parte do lucro total do setor ficou com as operadoras médico-hospitalares de grande porte: R$ 9,2 bilhões. Considerando apenas essas empresas, a diferença entre as receitas e as despesas diretamente relacionadas às operações de assistência foi positiva em R$ 4 bilhões. Fonte: Site ICL Notícias Matéria Completa: Acesse Aqui

MUNDO – Satélites da Starlink avançam na educação no Amazonas e Pará

Governo do Amazonas renova contrato milionário com revendedora da Starlink, apesar de suspeita em acordo anterior Uma revendedora brasileira da Starlink, de Elon Musk, tem fechado contratos milionários com o governo do Amazonas — e conseguido estender e aumentar o valor desses acordos ano após ano. Segundo a Agência Pública apurou, nos primeiros meses de 2025, o governo do Amazonas alterou pela 34ª vez um contrato de R$ 42,9 milhões com a Via Direta Telecomunicações. Duas semanas depois, o governo fez uma alteração num segundo contrato com a mesma empresa, ainda mais caro: de R$ 203 milhões. Anteriormente, a Via Direta, com a DMP Design Marketing e Propaganda, já havia conseguido ao menos 27 alterações num terceiro contrato de mais de R$ 18 milhões, assinado em 2015, no qual o Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM) já havia apontado “suspeita de ilegalidades”. Esse acordo também foi alvo de uma ação civil de improbidade administrativa, que segue ainda em tramitação, movida pelo Ministério Público Federal do Amazonas (MPF-AM) em 2020. Juntando os três contratos, o governo já teria se comprometido a pagar R$ 263,9 milhões para as empresas. A Via Direta fornece o serviço de acesso à internet via satélite da Starlink, de Elon Musk, que é usado para transmitir as aulas nas escolas públicas localizadas em áreas remotas do Amazonas. O dono da empresa é Ronaldo Lázaro Tiradentes, ex-deputado estadual do Amazonas (PPR), ex-secretário de Comunicação do governo de Amazonino Mendes (PPR) e dono do grupo de rádio e TV Tiradentes (89,7). Ele é dono também da DMP. Ao menos desde 2015, a empresa tem fechado negócios com diversos governos. A Via Direta se apresenta como a primeira revenda autorizada da Starlink no Brasil e diz atuar no Paraná, Pará e Bahia. Em 2025, a empresa esteve na Paraíba durante a primeira Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), evento que reúne secretarias estaduais de todos os estados do Brasil. No site da Starlink, a empresa aparece como revendedora autorizada na América Latina e Caribe. Fonte: Site ICL Notícias Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – A nova estrutura do poder global. Artigo de Ladislau Dowbor

Após quatro décadas de retrocessos, 117 Titãs globais e seus fundos opacos manejam mais dinheiro que qualquer governo no Ocidente. E impõem lógicas que vão reduzir o planeta a um inferno social e ambiental – até que sejam detidos O artigo é de Ladislau Dowbor, publicado pela Revista Meer e reproduzido por Outras Palavras, 14-03-2025. A tradução é de Antonio Martins. Ladislau Dowbor é economista e professor titular de pós-graduação da PUC-SP. Foi consultor de diversas agências das Nações Unidas, governos e municípios, além de várias organizações do sistema“S”. Nossas atividades econômicas diárias geralmente são bem simples. A farmácia, as lojas, o supermercado, o ônibus, eventualmente um Uber, o posto de gasolina, levar as crianças para a escola e assim por diante. Parece bem local. Mas olhar para cima, em vez de obedecer ao filme Don’t Look Up, é o mais necessário, se quisermos entender por que os preços sobem, por que há tanto plástico e por que as prateleiras dos supermercados estão cheias de comida ultraprocessada. Sabemos que tudo isso é ruim, e as lojas também sabem. Tudo isso deveria ser regulado – mas se espalha, cada vez mais. Na verdade, quem está no comando? Finalmente, muitos pesquisadores ousaram olharam para cima e aos poucos trouxeram luz à bagunça que temos e às formas estamos começando a distinguir. Um bom ponto de partida é a crise financeira global de 2007, que levou o ETH, o principal instituto público de pesquisa suíço, a apresentar em 2011 o primeiro estudo abrangente sobre a rede de controle corporativo global [1]. Os resultados foram impressionantes: 737 corporações controlam 80% do mundo corporativo global. Destas, 147 controlam 40% — e 70% delas são instituições financeiras. Este é o topo da pirâmide: basicamente, gestão de dinheiro. O governador do Banco da Inglaterra comentou à época que o estudo mudava nossa visão sobre como a economia funciona. Os autores da pesquisa afirmavam no artigo: não havia como evitar a constatação de que estávamos diante do “clube dos ricos”. Igualmente impressionante é o fato, destacado por eles, de que este foi o primeiro estudo global sobre o poder corporativo, embora o processo de sua formação estivesse em andamento por décadas – basicamente desde que Margareth Thatcher e Ronald Reagan colocaram-se a serviço das corporações. Claramente, não havia interesse em jogar luz sobre o assunto. Mas agora temos uma imagem mais clara. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – O QUE PODE O BOM SENSO DIANTE DA ESTUPIDEZ GLOBALIZADA?

Por favor, alguém que me faça estas contas, dêem-me um número que sirva para medir, só aproximadamente, bem o sei, a estupidez e a maldade humana (José Saramago). 01. Em rápida visita ao Brasil no dia 16 de março de 2025, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, instigado por Goya a verificar que o “sono da razão” também se veste de verde e amarelo e 388 anos depois de ter publicado o seu Discurso do método, Descartes reconsiderou as palavras de abertura de seu clássico escrito e solicitou aos impressores considerar a errata: onde se lê “o bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada”, leia-se: “a estupidez, e não o bom senso, é a coisa do mundo melhor partilhada”. 02. O que pode o bom senso diante da velocidade da estupidez, a cada dia mais globalizada e a pôr ao rés do chão, pisoteado, o alegado poder da filosofia, conforme o dito heideggeriano, de estabelecer-se como “guarda da ratio”? O século XXI, malmente iniciado, já deu sobejas mostras de que a humanidade já caminha sob o guia automático da estupidez e, em ritmo de cegueira, segue, como gado para o matadouro, rumo ao abismo iluminado pelas luzes suicidáriasdo capital. 03. Não há redenção à vista. José Saramago, uma das mais iluminadas mentes literárias que passou entre nós, ateu humanista, para quem “ser comunista ou ser socialista é um estado de espírito”, escreve sem meias medidas ou concessão à felicidade burguesa: “Qualquer observador imparcial reconheceria que nenhum deus de outra galáxia teria feito (um mundo) melhor. Porém, se a olharmos de perto, a humanidade (tu, ele, nós, vós, eles, eu) é, com perdão da grosseira palavra, uma merda”. 04. Em 2011, Oscar Niemeyer, aos 103 anos de idade, com uma lucidez a mais acutilante, e igual estado comunista de espírito do mestre Saramago, desabafou numa entrevista: “Eu acho a vida uma merda, apesar de seus encantos. Já nascemos condenados a desaparecer”. Tivesse o Criador levado em conta o testemunho humano, honesto e ateu de seus filhos Niemeyer e Saramago, expulsos do Paraíso, mais do que arrepender-se de ter criado a humanidade, teriaabortado no nascedouro o Projeto Arca de Noé. 05. Sem redenção à vista, como apostar na Parusia? Conhecendo como ninguém a condição humana, sabendo que não há limite para a estupidez humana, vendo por dentro o mundo hipócrita dos fariseus de seu tempo e tanto mais a violência estúpida da extrema direita mundial e brasileira, porque, como relata o evangelista João, não necessitava recorrer aos esquemas cristalizados pela religião para saber “o que havia no coração do homem”, que razões teria Jesus de Nazaré para voltar ao inferno de 2025? 06. A humanidade seria bem outra se o ser humano tivesse para o conhecimento e a sabedoria a mesma disponibilidade que devota à estupidez e à ignorância. Como soam atuais as palavras dos Provérbios: “até quando, óinsensatos, amareis a tolice, e os tolos odiarão a sabedoria?” Sob a globalizada gramática do capital, a envenenar corações e mentes com “a peste emocional da humanidade” (Reich) e uma subjetividade submetida à heteronomia cognitiva, o que resta ao ser humano senão afundar na barbárie? 07. A gravidade maior da estupidez promovida pela voracidade do capital reside, hoje, no primeiro quartel do século XXI, no patente e irreversível esgotamento da natureza diante do padrão de produção e consumo insustentável e requerido pela necrocracia do sistema do capital, com declarado prazo de validade, e jamais admitido pela burguesia suicidária. Haverá freio para a lógica do lucro acima da vida, para o colapso ambiental e para a barbárie social, ecocida, promovida pela burguesia? José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), onde concluiu e defendeu seu mestrado e doutorado. É também teólogo heterodoxo e sem cátedra, ocupa a segunda vice-presidência da Associação dos Docentes da UFAM (ADUA – Seção Sindical) e é filho orgulhoso do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Em Manaus – AM, março de 2025.

MUNDO – Desmercantizar a moradia, luta pós-capitalista

Submetido às lógicas do lucro, o morar corrói salários, endivida e precariza. E se viver em casa digna fosse direito universal e gratuito, como devem ser Educação e Saúde? Miragem? Construir outra sociedade requer desafiar o senso comum Imaginemos por um momento que trabalhássemos para uma empresa que nos paga muito abaixo dos rendimentos que geramos para organizar nossa vida. Na verdade, não será tão difícil imaginar isso, porque o capitalismo se baseia precisamente nessa dinâmica: os trabalhadores geram riqueza com seu trabalho, da qual só recuperam uma pequena parte na forma de salário, enquanto todo o valor restante é apropriado pela classe capitalista. Os benefícios que nunca retornam aos trabalhadores, que nunca são objeto de administração democrática por parte da força de trabalho, constituem o que Marx chama de mais-valia. Em resumo, a acumulação de capital de alguns poucos se baseia no princípio de não remunerar integralmente os frutos dos esforços dos próprios trabalhadores. Mas agora imaginemos que, além desse roubo sistemático, os trabalhadores tivessem que pagar pela luz, seguros ou créditos que os capitalistas adquirem. Nos pareceria absurdo. A tirania dentro da tirania. Afinal, o trabalhador já vende sua força de trabalho por um preço injusto; além disso, teria que arcar com os custos que envolvem a atividade econômica? Eis um aspecto crucial da acumulação de capital: o trabalhador recebe um salário que, na maioria das vezes, é o mínimo que o empregador está disposto ou obrigado a pagar. É tão miserável que obriga o trabalhador a gastá-lo quase inteiramente na luta pela sobrevivência. Ou seja, para comer, beber, abrigar-se e reproduzir-se. De fato, é curiosa a crítica de Marx de que, no sistema capitalista, só nos sentimos livres ao cobrir necessidades básicas, o que paradoxalmente reduz nossa vida à ditadura do ciclo de trabalho, consumo, descanso e reinício do ciclo; limitando o tempo para a participação política, a criatividade pessoal e a socialização com entes queridos. A esse respeito, Federici vem realizando análises magistrais que apontam que a base sobre a qual todo o sistema capitalista se sustenta é a reprodução da força de trabalho. Ou seja, se os trabalhadores não se reproduzem, não são criados e não conseguem sobreviver, simplesmente o sistema de acumulação de capital não pode funcionar. Alguém tem que criar a riqueza que os capitalistas saqueiam e, por enquanto, esse sujeito tem um corpo biológico com necessidades materiais. O argumento é bastante simples, até mesmo óbvio, e no entanto está oculto por trás de falsos consensos. Em outras palavras, se não há atividade empresarial sem que o ser humano tenha acesso a bens como água, ar, alimentação ou cuidados, por que esses bens devem ser custeados pelos trabalhadores? O empresário não estaria externalizando custos que deveria assumir para os trabalhadores? Essa externalização dos custos não só permite que a classe capitalista acumule mais riqueza, mas também gera um circuito fechado no qual o trabalhador não pode se emancipar, já que não tem possibilidade real de economizar, o que o leva a uma maior dependência e vulnerabilidade. O capitalismo tende a conceder, no máximo e a contragosto, um salário ajustado para consumir bens básicos; oferecidos muitas vezes a preços inflacionados. Um bom exemplo cinematográfico é o filme As Vinhas da Ira, baseado no romance de John Steinbeck e ambientado na crise de 1929. No filme, alguns trabalhadores migrantes são mal pagos pelos donos de uma fazenda agrícola em troca de colher frutas. E sua escassa remuneração se esvai no momento de comprar alimentos, que são fornecidos pelos próprios donos da fazenda. Mas no filme, além dos alimentos, há outro bem básico para a reprodução da vida que leva ao desaparecimento de todo o salário restante: a moradia, que também é monopolizada pelos latifundiários da fazenda. Fonte: Site OUTRAS PALAVRAS Matéria Completa: Acesse Aqui