ECONOMIA – Super-ricos aprofundam a desigualdade e colocam a democracia em perigo. Entrevista especial com Pedro Abramovay

Para o advogado a alternativa para as encruzilhadas sociais, políticas e ambientais que vivemos passa por combater a insuportável desigualdade que caracteriza os tempos de hoje Entre o final dos anos 1970 e 2008, quando houve a grande crise financeira internacional, o neoliberalismo viu sua curvatura ascendente como grande paradigma econômico, político e social. De lá para cá, o que se sucedeu foram sempre posturas ainda mais reativas a qualquer avanço social promovido pelo Estado, capturando-o em favor do sistema financeiro mundial. Hoje vivemos a aceleração radical disso com consequências políticas concretas em relação às populações vulnerabilizadas. “A partir de 2008, com a crise financeira global, passou a ficar cada vez mais difícil defender a ideia de que era possível gerar prosperidade com um estado mínimo. Mas o debate se intensificou com a emergência da China como uma superpotência global, valorizando um modelo de desenvolvimento no qual o Estado tem um papel enorme na definição das prioridades do país e na implementação de políticas industriais”, pondera Pedro Abramovay, em entrevista por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Na contramão de um discurso ainda hegemônico que se deve reduzir impostor, Abramovay demonstra que o único caminho possível é o contrário. “Reforçar a capacidade dos Estados de arrecadar recursos próprios é o ponto central para que os Estados possam ser soberanos e também para que a democracia possa fazer sentido. Pois tanto um estado mínimo quanto um estado profundamente endividado transformam a democracia em um esforço vazio, afinal a disputa política se dá em torno de uma instituição sem autonomia, sem poder”, propõe. Pedro Abramovay é advogado e vice-presidente de programas da Open Society Foundations. Formado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, possui mestrado em Direito Constitucional pela Universidade de Brasília e doutorado em ciência política pelo IESP-UERJ. Casos como o de Elon Musk, herdeiro, extremista de direita e bilionário que após a vitória de Trump faturou milhões de dólares em ativos financeiros, são exemplares de como os super-ricos produzem desigualdades insuportáveis. “Claro que o caso mais gritante é o de Elon Musk, o homem mais rico do mundo, que praticamente comprou seu assento no Salão Oval da Casa Branca, nos Estados Unidos. Após décadas de discussão sobre os mecanismos de controle para que o dinheiro privado não pudesse controlar diretamente a política, todos esses mecanismos desabam e vemos o uso do poder beneficiando diretamente pessoas que compraram a acesso a ele”, acrescenta. “A democracia não é um exercício simbólico. É uma forma de se decidir sobre o exercício do poder. As décadas de prevalência do neoliberalismo foram esvaziando o papel do Estado, tanto do ponto de vista decisório (com enorme pressão de organismos internacionais para a adoção de uma agenda ‘consensual’) quanto do ponto de vista de recursos”, sublinha o entrevistado. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui
ARTIGO – DE QUEM É A CASTANHA?
A castanha é fruto da castanheira – uma obviedade, mas com definição própria para este caso. A castanheira, de nome botânico bertholletia excelsa, como expressa o nome latino, é uma gigantesca árvore Domingo,06 de abril de 2025. Acordo às 5h30 da manhã e faço as abluções matinais. Estou em uma enfermaria em Manaus. Sento no leito hospitalar e zapeio o celular: mais um naufrágio na Amazônia envolvendo um barco em navegação no caudaloso rio Amazonas para as bandas de Breves; milhares em manifestações contra o Trump, nos Estados Unidos; forças orientais se unem – China, Coreia do Sul e Japão dando as mãos em foto histórica que sela a disposição de um enfrentamento político e econômico numa determinação de briga de poderes no Primeiro Mundo. E chego a uma notícia publicada no último dia 4: vai virar lei no Amazonas a mudança do nome da castanha do pará para castanha do amazonas. No silêncio da enfermaria, ocupada por quatro “hóspedes”, pensei: pronto, agora inventaram a roda e atiçaram um formigueiro cultural. Não sou um especialista na botânica, mas é preciso fazer uma imersão no conhecimento botânico, histórico em esmo etimológico do produto em tela. A amêndoa é rica em vitaminas A, B e E, com concentração também de ômega e em outros nutrientes. Há recomendações de consumo diário para combater e prevenir várias doenças. A concentração vitamínica é grande que duas castanhas apenas correspondem a um ovo em valor nutritivo.Como não pretendo me ater às discussões proteicas e nutritivas do produto, mas apenas estabelecer relação com o pomo da discórdia aqui, não buscarei fundamentar essas informações. A castanha é fruto da castanheira – uma obviedade, mas com definição própria para este caso. A castanheira, de nome botânico bertholletia excelsa, como expressa o nome latino, é uma gigantesca árvore que pode atingir 60 metros de altura e 5 metros de diâmetro,com vida de mais de 800anos. É madeira de lei concorrida e protegida por decreto federal nº 1.282, de 1994, que proíbe sua derrubada sem autorização pelo órgão ambiental. As castanhas são o conteúdo dos ouriços. Cada ouriço–que caído alto das árvores quando já está maduro – pode ter entre 10 a 25 castanhas, 16, em média. Historicamente, a castanha, sem a denominação de sua especificidade como substantivo composto, é de prática de cultivo milenar, conforme os estudos arqueobotânicos. Há mais de 11 mil anos se tem informações de que populações indígenas cultivavam o produto não apenas como um produto de subsistência, mas também de princípio cultural. Plantavam as árvores gigantescas ao redor de suas aldeias como uma proteção para garantir frutos para gerações futuras. O projeto de lei, de autoria do deputado Sinésio Campos (PT), muda o nome de castanha do pará para castanha do amazonas. E faço a distinção na grafia com minúscula e maiúscula para que se entenda melhor o que exponho logo a seguir. Basta agora o jamegão do governador Wilson Lima (União) para a oficialização em seu estado do novo substantivo da castanha, que, na realidade, já vem sendo aplicado há muito tempo numa briga talvez mais bairrista cultural que comercial. Eis o pomo da discórdia. Assim, a estampa no produto exposto das feiras aos supermercados, ou em outros nichos mercadológicos, será castanha do Amazonas. O parlamentar justifica que o nome de castanha do Pará é uma restrição à produção paraense. Sinésio pretende ir mais adiante. Quer sugerir que cada estado produtor dessa amêndoa adote a mesma medida. Vai levar a proposta debaixo do braço para o Parlamento Amazônico, que reúne 270 parlamentares da região. Tudo bem quanto à ideia do parlamentar da mudança do nome da castanha pelo viés econômico, mas causa polêmica. Sinésio, tem origem fincada nas minhas raízes também. Nasceu no interior de Santarém, em 1963, com uma diferença de idade de apenas alguns meses. Está no sétimo mandato consecutivo na assembleia amazonense, o que o chancela a pensar em voos mais altos, talvez o Senado Federal nas próximas eleições. É um paraense amazonense. Não sou economista, mas ouso meter o dedo na combuca alheia. A castanha é produzida em todos os estados amazônicos e mesmo em regiões de países pan-amazônicos. A Bolívia mantinha-se como um dos países de maior produção. A dicotomia que se cria ao redor da nova nomenclatura da amêndoa amazônica é que, se cada estado produtor criar o seu próprio nome, o comércio poderá se restringir ao seu espaço geopolítico. O Amazonas poria em suas prateleiras a “castanha do acre”?, ou “castanha de rondônia”? Dificilmente. Mas, a consequência poderia ser um possível desastre econômico, embora, esse produto comumente seja consumido pela produção interna que abastece suas feiras e mercados em seus estados. Mas, e como ficaria o comércio exterior sem uma referência específica. O comércio exterior faria uma confusão, sem se saber se haveria diferença de origem botânica. Observe-se que eu mantenho a grafia em minúscula. Por quê? Porque se trata de um nome comum, o nome de um produto. Por isso, não é o enaltecimento de um estado em si. O imbróglio é discussão de raízes bairristas. O nome de castanha do pará foi adotado no período do Grão-Pará, no século 19, em virtude da grande produção dessa amêndoa, que passou a ser exportada, ganhando uma referência de sua origem. A propósito, essa província teve nome maior, Província do Grão Pará e Maranhão. À época não havia a configuração do Amazonas, nem Acre ou outros estados da região. Por isso, o nome de castanha do pará não foi especificamente para enaltecer o Pará, quanto geoestado inexistente à época, mas uma catacrese. O Acre, na época do Chico Mendes, tinha a castanha como o maior pilar do extrativismo. E não se brigava pelo nome. Para exportação, o governo brasileiro adotou a amêndoa, na década de 1950, como castanha do brasil. E não se ouviu nenhuma polvorosa em torno da questão entre os demais países da Pan-Amazônia. Mas internamente, a medida foi aceita pela referência internacional do produto. Metonímia aceitável. Então, e agora, como fica?Apostas na mesa. Com quem
MUNDO – Papa Francisco: “Em Gaza, as pessoas são forçadas a viver em condições inimagináveis, sem abrigo, sem comida, sem água limpa”

A reportagem é de Jesus Bastante, publicada por Religión Digital, 06-04-2025. Por fim, vimos e ouvimos novamente o Papa Francisco, que abençoou os fiéis durante o Jubileu dos Enfermos. Ele não leu, embora o Vaticano tenha distribuído, sua reflexão do Angelus, na qual pudemos ver o próprio Bergoglio fiel à interpretação fiel da realidade e atento aos pequenos detalhes, como sua gratidão aos internos da Rebibbia, que nesta Quinta-feira Santa esperavam sua visita no Lava-Pés, e que lhe enviaram um cartão. Francisco, que continua informado sobre a dura realidade de um mundo que continua sangrando pelas costuras. “Continuemos a rezar pela paz: na atormentada Ucrânia, atingida por atentados que causaram muitas vítimas civis, incluindo muitas crianças”, disse o Papa no texto distribuído pela Santa Sé no final da Missa do Jubileu dos Enfermos. “E a mesma coisa está acontecendo em Gaza, onde as pessoas são forçadas a viver em condições inimagináveis, sem abrigo, sem comida, sem água potável”, lamentou Bergoglio, pedindo “a deposição de armas e a retomada do diálogo; a libertação de todos os reféns e o alívio da população”. “Rezemos pela paz em todo o Oriente Médio; no Sudão e no Sudão do Sul; na República Democrática do Congo; em Mianmar, também severamente testado pelo terremoto; e no Haiti, onde a violência está em alta e matou duas freiras há alguns dias”, concluiu. Jubileu dos Enfermos Em seu discurso de abertura, Francisco confessou que “assim como durante minha hospitalização, agora em minha convalescença sinto o ‘dedo de Deus’ e experimento sua carícia amorosa”. No dia do Jubileu dos Doentes e do Mundo da Saúde, “peço ao Senhor que este toque de seu amor possa alcançar aqueles que sofrem e encorajar aqueles que cuidam deles”, disse ele. “E rezo pelos médicos, enfermeiros e profissionais de saúde, que nem sempre têm condições de trabalho adequadas e às vezes são até vítimas de agressão. A missão deles não é fácil e deve ser apoiada e respeitada”, ela proclamou, exigindo que “espero que os recursos necessários sejam investidos em cuidados e pesquisas, para que os sistemas de saúde sejam inclusivos e cuidem dos mais vulneráveis e pobres”. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui
MUNDO – A história dos insurgentes Médicos para o Povo

Expondo falhas do sistema belga, esta notável organização mostra um caminho para a luta pelo direito à saúde em nosso tempo. Oferece consultas gratuitas – mas também mobiliza por farmacêuticas públicas, abordagem preventiva e locais de trabalho seguros Como defender – e ampliar – o direito à saúde no século XXI? Em meio a uma nova onda global de precarização e privatização nos sistemas de saúde, essa é uma pergunta a que muitos buscam resposta. Uma das mais instigantes iniciativas de nosso tempo é a da organização belga Médicos para o Povo (MPLP, na sigla em francês), com quem é possível retomar a lição sobre a indissociabilidade entre a mobilização social e popular e a garantia da saúde para todos – um aprendizado histórico que, no Brasil, esteve no centro da conquista do Sistema Único de Saúde (SUS). Surgido em 1971 oferecendo consultas de graça aos moradores dos bairros operários e fabris da cidade de Antuérpia, o MPLP está longe de se resumir à garantia imediata de cuidados aos que mais precisam. Por incrível que pareça, a Bélgica não possui um sistema público e gratuito de saúde – mas um sistema misto, onde a Previdência ressarce apenas parte dos gastos dos cidadãos com consultas e remédios, o que dificulta o acesso de milhares de pessoas pobres à saúde. “Para combater as doenças, acreditamos que é preciso sair dos consultórios médicos e nos debruçar sobre as condições sociais que deixam as pessoas doentes”, define o portal da organização. É de autoria do MPLP, por exemplo, a ideia do Instituto Salk da Europa, uma proposta de empresa farmacêutica pública que concentre o desenvolvimento de pesquisas para baratear os preços e ampliar o acesso a medicamentos, orientando-se pelas necessidades da população e não pelo lucro. Além disso, seus 11 centros comunitários de saúde que atendem 25 mil pessoas são operados por equipes multiprofissionais, que integram saúde, ciência e mobilização. “O que queremos mostrar é que é possível organizar a saúde de uma forma acessível, barata, empoderadora e de alta qualidade. Queremos mostrar que existe outro caminho”, defende a médica de família Sofie Blancke, que atua em uma das clínicas dos Médicos para o Povo. Em entrevista a Outra Saúde, Blancke conta detalhes sobre a história e as ações da organização. Como ela explica, as atividades do MPLP também se estendem à realização de campanhas em defesa da saúde do trabalhador e da redução do preço dos medicamentos, à promoção de uma abordagem preventiva na saúde belga e à condução de pesquisas científicas. Assim, suas clínicas também se tornam “centros de ação pelo direito à saúde”, diz a médica. Fonte: Site OUTRAS PALAVRAS Matéria Completa: Acesse Aqui
ARTIGO – MÍRIAM – QUANTAS MULHERES PARA FAZER UM MOISÉS?
Exôdo 1-2,10 e Num 12 A memória de Agar atravessou os séculos e aparece viva e forte na história de resistência às ordens de morte do faraó do Egito. Conhecemos muito bem as narrativas sobre Moisés e sua história de libertador e líder, que atravessa o mar e conduz o povo pelo deserto, rumo à terra de leite e de mel. Mas vamos continuar o exercício de buscar pegadas aparentemente escondidas, mas que não podem ser ignoradas e estão registradas no começo do livro do Êxodo. No início eram as mulheres: duas parteiras, uma mãe, uma irmã e até a filha do Faraó do Egito com suas servas. Todas elas ignoram a ordem de morte do Faraó contra os recém-nascidos, primogénitos do sexo masculino do povo judeu.(Ex 1) Esta primeira intuição profética e teológica, pois revela algo sobre Deus, vem das mulheres e se torna, nelas, ação concreta: Faraó não é Deus; a sua vontade não é a vontade de Deus. Para estas mulheres, como para Deus, o que importa é a vida, especialmente a vida dos pequenos. Por isso são capazes de desobedecer, colocando até a vida delas em risco. Temiam a Deus mais que ao faraó, por isso, transgredem a ordem de morte e mentem para poder salvar os meninos. Para elas Deus é o Deus da vida. Eram parteiras egípcias, como nos dizem seus nomes, que “temiam a Deus” e não obedeciam ao faraó. A bênção de Deus sobre ela é: dar-lhes uma família (Ex 1,17-21). Parteiras, mãe, irmã, princesa e servas: é graças à sua coragem e desobediência que Deus age e a vida de Moisés é salva. De diferentes raças e povos, de diferentes grupos sociais – há até uma princesa – todas escolhem salvar a vida de um pequeno e desobedecem a ordem do rei. Esta é e será sempre a essência da profecia: ser fiéis ao Deus da vida, especialmente quando a vida ameaçada é a dos pequenos e dos pobres, colocando-nos, como Ele, ao serviço e em defesa destas vidas. Miriam tem um papel decisivo nesta breve memória: é ela quem, junto com a mãe, leva a criança até a margem do rio. É ela quem fica ali, escondida, mas seus olhos nunca se desviam do irmãozinho. Os olhos de Miriam recordam-nos o olhar de Deus que “viu” o filho de Agar e que “ouviu o seu choro”, tal como a princesa escuta o choro do menino e o leva consigo, mesmo sabendo que ele é judeu. Estas mulheres fazem história de salvação, uma história conduzida por um Deus que vê, um Deus que escuta o grito, mesmo que seja apenas o grito fraco dos pequenos, e que intervém para salvar. Um Deus que age como essas mulheres, através das ações dessas mulheres. É novamente Miriam, a irmã que se oferece para procurar uma ama de leite entre as judias para amamentar o irmãozinho e vai chamar a mãe, que, para isso, entrará e ficará no palácio. Até o palácio do faraó se torna lugar de vida para a criança graças à ação dessas mulheres. Quando, mais tarde, Moisés terá que enfrentar a opressão do faraó contra o povo judeu, encontrará, no deserto, em Madiã, no monte Horebe, o Deus destas mulheres que o salvaram: Deus que vê, Deus que ouve, Deus que sabe, Deus que desce ao lado dos oprimidos. Deus que agora envia ele Moisés, para que o povo viva (Ex 3,7-10). Moisés que deve ter ouvido muitas vezes a história de como foi salvo pela sua mãe, pela irmã, pela princesa, aprendeu com elas que Deus age assim. Caberá a ele, não sem esforço e relutância, fazer o mesmo. Mais tarde, atravessado o mar de juncos, o povo já libertado do Faraó, será Miriam, a “profetisa”, quem conduzirá a celebração com todas as mulheres, numa dança festiva, ao som de pandeiros, repetindo com elas o refrão da vitória: “Cantai ao Senhor, porque ele se tornou verdadeiramente grande: lançou ao mar cavalo e cavaleiro” (Êx 15,20-21). A profecia não é adivinhar o futuro, mas como Miriam e sua mãe, como as parteiras egípcias, é reconhecer a verdadeira face de Javé, nosso Deus, é saber do lado de quem está e se manifesta salvando os pequenos, os fracos, os pobres e abatendo aqueles que ameaçam as suas vidas. Esta é a memória que não poderá desaparecer e que será assumida, ao longo dos séculos, por outras mulheres, como Ana (1Sm 2,1-10), como Ester (Est 4,17m-17s), como Judite (Jdt 9,8-14), como Miriam de Nazaré que também canta: Ele viu minha humilhação, fez grandes coisas, dispersou os orgulhosos, exaltou os humilhados, derrubou os poderosos, saciou os famintos, esvaziou os ricos. Ele é fiel! E isso é misericórdia! (Lc 1,46-55) Mulheres que celebram e cantam, como Miriam, que souberam defender a vida, contra o poder do palácio, do templo, do mercado, do império militarista e mercantilista e contra qualquer patriarcalismo opressor e excludente. A memória de Miriam continua aparecendo, durante a viagem no deserto, no capítulo 12 do livro de Números, capítulo relido e posteriormente retocado com claros interesses do grupo sacerdotal que nos deixou a redação final. O contexto deste livro de memórias é a controvérsia a respeito do exercício da profecia. O capítulo 11 de Números nos remete ao espírito de profecia que desce sobre os 70 homens escolhidos que estavam na tenda com Moisés, mas também desce sobre outros dois que permaneceram no acampamento, junto com todos. A Josué, que gostaria de proibi-los de profetizar, Moisés responde: “Tens ciúmes de mim? Quem pode dar profetas a todo o povo do Senhor? É o Senhor quem lhes dá o seu espírito” (Nm 11,29). Esta memória de uma profecia que poderia pertencer a todo o povo, poderia questionar o poder sagrado de sacerdotes e sua corte e por isso, precisa ser controlada e negada e isso acontecerá com as reformas de Esdras e Neemias, até ser exclusiva do Sumo Sacerdote. É importante questionar e buscar autoria de alguns relatos posteriores. É legitimo
ARTIGO – DESACELERAR PARA VIVER MELHOR
Com o tempo, fui entendendo que a pressa nem sempre me leva mais longe. Comecei a ser mais gentil com meus passos, permitindo-me sentir cada momento sem a ansiedade de um destino final. Porque, no fim das contas, não há um lugar específico onde preciso chegar. O verdadeiro caminho sou eu mesma. Aprendi a aproveitar cada respiração, cada amanhecer, cada conversa sincera. Percebi que a pressa rouba a beleza do presente, enquanto a calma me ensina a apreciar a jornada. E que jornada linda tem sido! Então, hoje, te convido a desacelerar. A sentir o vento no rosto, a saborear cada instante e a entender que a vida não é uma corrida, mas sim um caminho a ser trilhado com leveza. Porque você não é apenas o viajante, você é a própria viagem. Colunista Colaborador – Álvaro Silva
ARTIGO – CARTA AOS BISPOS CATÓLICOS DO BRASIL
Eminências: O catolicismo era, no Brasil, a confissão religiosa majoritária na década de 1950, abraçada por 93,5% da população. (IBGE). No censo de 2010, declararam-se católicos 64,6% da população. Os evangélicos, 30%. Em 2030, segundo prognósticos, os católicos serão de 35 a 40% da população e os evangélicos, de 38 a 40%. Enquanto os católicos declinam 1 ponto percentual ao ano, os evangélicos crescem na mesma proporção. Por que o catolicismo retrocede? São várias as razões. A hierarquia católica cometeu dois pecados capitais nos últimos 60 anos: fragilizou o apoio às Comunidades Eclesiais de Base – o movimento eclesial mais expressivo da história da Igreja no Brasil e de maior capilaridade nacional. Mas o primeiro pecado foi, após o golpe militar de 1964, levar a Ação Católica à agonia e morte. Onde se encontra, hoje, o laicato participativo, crítico, apostolicamente ativo entre operários, universitários e intelectuais? Aliás, nossas universidades católicas evangelizam? Em muitas delas se formaram notórios políticos corruptos e legitimadores da opressão social. De fato, o clero sempre temeu o protagonismo dos leigos. Devem ser apenas cordeiros cuja lã serve para ser tosquiada pelos pastores, como declarou o papa Inocêncio III. Por que, em nossas missas dominicais em paróquias de classe média, os patrões comparecem, mas seus empregados (cozinheiras, faxineiras, porteiros de prédios etc.) vão para a Igreja evangélica? Diz-se que a Igreja Católica fez opção pelos pobres, e os pobres, pelas Igrejas evangélicas… Aponto algumas causas da redução de nossa grei. Uma delas, com frequência denunciada pelo papa Francisco, é o clericalismo. Vide uma missa dominical. Tudo centrado na figura do sacerdote. Quando muito, um leigo ou leiga lê um dos textos litúrgicos. Os fiéis ignoram uns aos outros. No “abraço da paz” saúdam os vizinhos de banco sem sequer perguntar pelos nomes deles. Na hora da homilia, por vezes suportam a pregação aborrecida de um celebrante que nunca fez curso de oratória, não tem conteúdo (não lê e teve formação medíocre em filosofia e teologia), adota um discurso moralista. Procura se salvar com evocações emotivas porque não sabe como abastecer “as razões de nossa esperança”. Sei que a maioria dos senhores jamais participou de um culto evangélico. Nosso ecumenismo não ultrapassa os limites de algumas Igrejas protestantes históricas. O que é uma lástima. Os seminaristas não são incentivados a abraçar o diálogo interreligioso e, em geral, têm visão preconceituosa das outras confissões religiosas. O que sabem de nossas religiões indígenas? Alguma vez foram a um terreiro de candomblé ou umbanda? Ou a um centro espírita? A maioria ignora as matrizes da religiosidade brasileira. Se os senhores bispos fossem a um culto evangélico veriam os motivos do crescimento exponencial desse segmento cristão. Há cultos que duram duas ou três horas sem aborrecer os fiéis, ao contrário de muitas de nossas missas. Sabem por quê? Porque os fiéis têm participação ativa. Dão testemunhos de vida, vídeos atrativos são exibidos, os músicos e cantores aprimoram seus talentos, há escolas bíblicas. Os fiéis se conhecem pelo nome, o aniversário de cada um é comemorado em comunidade, há forte corrente de entreajuda (um dentista ou médico atende irmãos e irmãs). Ali as pessoas não são anônimas; ganham autoestima. Um cuida de arrumar emprego para o outro. Há entre eles forte vínculo afetivo. E a pauta de costumes leva-os a conhecer a prosperidade, pois abandonam os vícios e, assim, aumentam a poupança familiar. Não me sinto afinado com a teologia da maioria das Igrejas evangélicas, porque enfatizam mais o Antigo que o Novo Testamento; o diabo mais que Deus; o Deus da punição mais que o Deus do amor; o pecado mais que a graça. E muitas Igrejas estão politicamente alinhadas ao conservadorismo, à naturalização da desigualdade social, à exaltação das riquezas. Incutem nos fiéis a “servidão voluntária”. Fazem uma leitura equivocada da Bíblia ao retirar o texto do contexto, como também acontece entre nós, católicos. Porém, conseguem criar forte senso de pertença e comunidade, imprimindo sentido à vida de todos. Não escrevo aos senhores para suscitar espírito de competição entre Igrejas. Temos muito a aprender com nossos irmãos evangélicos. Escrevo porque me inquieta o retrocesso da Igreja Católica, a perda do profetismo de nossos pastores, o esvaziamento de nossas paróquias, essa nova geração de seminaristas e padres apegada à batina, aos símbolos religiosos, às imagens sacras. Sacerdotes próximos às classes média e rica, e distante dos excluídos e vulneráveis, apegados ao conforto e à acumulação de bens. Escrevo porque sinto que Francisco, como João Batista, é um papa que clama no deserto… Será que dentro da Igreja Católica ainda há salvação para o Evangelho de Jesus? Deus nos encoraje e ilumine! Frei Betto é escritor, autor de “Jesus rebelde” (Vozes), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org Assine e receba todos os artigos do autor: mhgpal@gmail.com
ARTIGO – ESSE TAL PECADO
Essa história do pecado é complicada. Ficamos pensando no momento em que começa o pecado. A Bíblia pretende explicar os fatos que aconteciam 600 anos depois, olhando para o início. Tem certa lógica pois a história é a mesma. A ideia que o criado era bom, mostra uma inocência original. Também o quadro comparativo do gênesis entre um mundo em harmonia e outro em desarmonia indica que algo aconteceu nesta mudança. Na classificação do pecado em ser um ato livre e consciente indica uma certa responsabilidade pela ação. A pessoa ter liberdade, consciência e absoluta certeza é meio complicado. Muitos fatores acompanham as ações. Na dúvida não há culpa. Se a liberdade se manifesta a partir do consciente, o pecado ficaria por aqui e não na catequese sobre o mesmo. Ou seja, se a consciência e a liberdade são construídas pelo sujeito, ele é senhor de seu destino. O certo é que existem ações corretas e incorretas. Qual seria o limite entre elas? E como julgá-las? Quando entra Jesus Cristo a conversa é outra. Fundamentalmente ele foi enviado pelo Pai ao mundo para libertar a humanidade do pecado. Da libertação de um povo (Ouviu o clamor), morre por todos. Qual pecado? Se pensarmos que Jesus Cristo com o Pai e o Espírito Santo formam um círculo amoroso divino desde toda eternidade e que a criação do mundo e do ser humano foi uma oferta graciosa desse amor. Deus é amor e quem permanece no amor permanece nele. Deus está onde estiver o amor. Pecado, será então, sair deste círculo, ou seja, não amar. Ama e faze o que quiseres (Santo Agostinho). Pela encarnação Jesus Cristo entra no círculo humano, pela ressurreição eleva o círculo humano ao divino. O sacrifício da cruz de Jesus Cristo, foi recriar a possibilidade de reintegração humana no círculo amoroso divino. Aqui também, o gesto de Jesus Cristo, foi uma oferta livre. Uma recriação. Ele reintegrou o círculo amoroso humano. A dificuldade é o seguimento, a adesão a esta proposta. Deve ser também gratuita e livre. Ele espera o momento oportuno. Ele não tem pressa, nós sim, devemos ter pressa. A figueira dá duas safras por ano. Há três anos (seis safras) não dava nada e acrescentou mais um ano (duas safras). Haja paciência! E como a reintegração envolve o sangue da nova e eterna aliança, para o seguidor a marca da cruz e o sangue entram na história. Fortaleza, 28.03.2025. Ozanir Martins Silva
ARTIGO – TEMPO DOS FRUTOS – OUTONO
O outono vai de março a junho. É considerado o tempo da colheita. Lembro, de quando criança, no trabalho rural, toda a família se empenhava no tempo da colheita. No mês de maio não frequentávamos a escola para ajudar na colheita. O produzido neste período sustentava a família por um ano. Eram organizados os “paiós”, espécie de depósitos. Na natureza, tudo segue uma lei lógica. Tempo de plantar, de adubar, de florescer, cair das folhas e colher. É o ciclo das estações. As interferências na natureza criam problemas e soluções. As temperaturas altas ou baixas provocam mudanças e muitas vezes prejuízos. A tecnologia pode favorecer a melhora da produção (Ex. do pimentão, 23.03.2025, globo rural). No evangelho de hoje (LC 13,6-9) temos a história da figueira que não produzia frutos. A solução proposta foi eliminá-la. A contraproposta foi esperar, adubar e ver o resultado. A condição humana segue também a lei da natureza. Possui ciclos. Semeadura ao longo da formação, o florescer e frutificar. Somos também seres produtivos pelo trabalho e pela vida. Seria interessante olharmos e avaliarmos os frutos que estamos produzindo e que tipo de frutos. Pode ser que tenhamos um trabalho produtivo quantitativo, mas o mais importante é a produção qualitativa como gestos humanitários. Na parábola da figueira, a proposta de mudança para o melhor, aparece a bondade de Deus que espera, oferece tempo, coloca adubo (graça divina) para que todos possam produzir frutos de conversão, bondade, justiça, amor. ”A bondade de Deus é a única força que pode realmente levar o homem à conversão” (JJ. 241, Teologia do Novo Testamento, 1980). Vamos viver o outono produzindo muitos e bons frutos! Fortaleza, 23.03.2025 – Ozanir Martins Silva
ARTIGO – DA ESTUPIDEZ COMO PROGRAMA EDUCATIVO DE TEMPO INTEGRAL
(notas filosóficas sobre a magna didática do capital e a derrota do pensamento) – José Alcimar de Oliveira* De um lado, os inimigos de sempre, alojados em instâncias do Estado e das redes antissociais, atacam de frente a Universidade e a Escola, porque sua mera existência é uma ameaça ao ressentimento e ao ódio de que se locupletam em estado de parasitismo e inanição intelectual. Eles, sim, os grandes ideólogos do nada, tão ruidosos em sua vacuidade de mente e alma. Simples pregoeiros do mercado da morte (Francisco Foot Hardman) 01. Em acréscimo à celebre observação de Marx sobre Hegel, de que é como farsa que fatos e grandes personagens da história costumam se repetir, permito-me dizer que é sob forma de escárnio que o repetível pode ocorrer pela terceira e muitas vezes mais. Afinal, mais do que o bom senso e a crença no poder emancipatório do iluminismo, a razão no século XXI, presidida pelo capitalismo em sua atual fase (derradeira? muitoprovavelmente) de colapso ambiental e barbárie social, opera por cinismo e estupidez. A estupidez, aliada ao medo, ao ódio e à ignorância, converteram-se em instrumentos de dominação e armas de destruição sob o férreo controle da necrocracia capitalista. 02. Há método e racionalidade na estupidez como cinismo e escárnio. E apostar na estupidez é hoje um programa ideológico, que requer e mobiliza elevado aporte técnico e científico, e sua execução não está nas mãos de curiosos ou amadores. Diferentemente da sociedade disciplinar, sob o capitalismo digital, do cada um por si e ninguém por todos, a repressão, mesmo a mais heteronômica, é assumida como cultivo reificado de si mesmo. É o reino da meritocracia, do indivíduo empreendedor de si mesmo, como forma de autonomia reversa. E nada é barato. Para pensar com o educador brasileiro Anísio Teixeira, assim como não é possível uma guerra barata, menos ainda é barata a manutenção de um projeto racional de difusão da estupidez. Se a ditadura mata, mata muito mais a ditadura da estupidez. 03. A grande diferença, mais perversa e cruel, é que hoje a extrema direita (contida até então pela direita, dita democrática ou menos incivilizada) desinibiu-se de vez, converteu a estupidez em arma de guerra contra o conhecimento e o bom senso, passou a engajar corações e mentes de forma miliciana e a fidelizar seguidores com a força de uma seita religiosa. O regime da razão iluminista cedeu lugar ao poder da crença. O que em tese diferencia a crença do procedimento da filosofia e da ciência é que nessas o sujeito elabora um processo de apropriação do objeto, enquanto naquela, é o objeto (da crença) que se apossa do sujeito. Trata-se de um sujeito possuído. O que pode o bom senso diante da força e do êxito do ridículo quando o conhecimento se torna o alvo preferido da ridicularização? 04. O pensamento, a consciência ou espírito não conhecem vácuo ou vazio cognitivo. Os ideólogos da extrema direita sabem como tirar proveito dessa condição humana, mobilizando preconceito e mentira de forma programática e monolítica, o que deixa a esquerda, por ser muito analítica (e pouco dialética) sempre acuada, imobilizada, sem condições de conter ou neutralizar o poder maquínico da estupidez. Na guerra contra a estupidez já não basta ao materialismo ser histórico e dialético, deve ser bélico e armar a classe trabalhadora com as armas da crítica. Não confundir com a crítica das armas promovida pelo sistema do capital. O belicismo dialético se faz com o método da organização, da consciência e da luta de classes. 05. Armada com eficientes dispositivos digitais, a estupidez cínica da grande burguesia produz e fideliza verdadeiras milícias de estúpidos digitais e utilmente inocentes. Meu santo de profana devoção, Walter Benjamin, haverá de concordar comigo que a barbárie da civilização industrial se torna primitiva quando comparada à produzida pelo capitalismo digital. Sem as armas teóricas do belicismo dialético o chamado pobre de direita nunca se reconhecerá como pobre de direitos, nem fará a transição epistêmica da alienação cognitiva para a consciência de classe. 06. O que pode a razão analítica ou dialética, conceitual, diante da ignorância e da estupidez promovidas pela magna didática capitalista, a verdadeira escola de tempo integral, sempre online, maximamente inclusiva e reconhecidamente exitosa em seu projeto de manter sob o regime da alienação o trabalho e a consciência da classe trabalhadora? Se para o sábio materialismo de Epicuro a filosofia é uma espécie de saúde da alma, para o materialismo histórico e dialético (por que não bélico?) a filosofia deve ser antes de tudo luta de classes, compreendida essa como fato social, como categoria epistêmica de objetivação social, como chave de leitura da história e, não menos importante, como estratégia de organização política da classe trabalhadora. 07. Estamos diante da derrota da educação, do pensamento, da formação. Falar em pensamento dialético quando pontificam a ignorância e a estupidez pode configurar crime cognitivo. Em reversa referência a Wittgenstein, nesses tempos regressivos, de ódio ao conhecimento, de afronta à cultura, de falsificação da história, de destruição da memória, os limites da sensação passam a demarcar os limites da verdade. É a epiderme que define, por toques digitais, o trabalho de cognição. Há cerca de três décadas, antes do atual poder da estupidez digital, Darcy Ribeiro afirmava que o fracasso da educação brasileira produzido por nossa elite (do atraso, diga-se) já se afigurava como um projetocom método, hoje potencializado em intensidade e extensão pela extrema direita, no Brasil e no mundo. A tragédia política do processo educacional brasileiro, sempre refratário à práxis, é também não reconhecer as consequências políticas e sociais dessa tragédia. Há mais de dois mil anos o profeta Oseias denunciava: meu povo perece por falta de conhecimento. *José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e concluiu o mestrado e doutorado. É teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA, Seção Sindical, e filho orgulhoso do cruzamento dos rios Solimões (Manacapuru – AM) e Jaguaribe (Jaguaruana – CE). Em Manaus,