ECONOMIA – Silêncio ou derrota? Artigo de Pedro A. Ribeiro de Oliveira

Essa dominação cultural merece ser mais estudada, porque ela funciona em cascata: os muito ricos ocupam o topo da admiração de todos; abaixo deles os milionários e o/as famoso/as cujo estilo de vida todos querem imitar Você delimita bem sua referência: “nós que, dotados de consciência crítica, não sabemos como agir”. Além de consciência crítica, acrescento a motivação ética porque há quem tenha consciência crítica, mas falta-lhe motivação para a ação. Mas concordo: hoje não sabemos o que fazer. Você responsabiliza nossa inação pela crença no “determinismo histórico”, que levaria a sociedade do capitalismo ao socialismo. De fato, o capitalismo está aí mas teve que mudar de forma: agora o lucro vem do pedágio que os proprietários das big techs cobram de tudo que passa por elas (o tecnofeudalismo, de Varoufakis) e o rentismo do capital financeiro (L. Dowbor). Ambos se referem à intermediação da compra e venda em larga escala por quem controla a informática e/ou a finança. De fato, o capitalismo regrediu a um tipo de feudalismo fundado sobre o domínio de patentes e de tecnologia. Mas esta é uma questão que pode ser deixada de lado, pois o que importa é que ao desmoronar nossa crença na necessidade do socialismo ficamos sem saber para onde caminhar. Nisso estamos de acordo. Sigo a diante. Antes disso, porém, quero fazer a distinção entre ser de esquerda (seguindo N. Bobbio) e se opor ao imperialismo dos EUA. O ideal igualitário combina bem com o respeito à soberania dos povos, mas são coisas distintas. O imperialismo dos EUA não aumentou porque caiu o socialismo soviético, mas sim porque a Rússia perdeu sua capacidade política e militar de fazer frente a ele. Putin recuperou essa capacidade e a Rússia voltou a se opor ao imperialismo dos EUA mesmo sendo agora capitalista. Se bem que a esquerda torce(mos) pela Rússia e pela China na geopolítica atual, como se isso favorecesse o socialismo. Apesar da boa definição do N. Bobbio, esquerda e direita hoje são categorias de pouca utilidade fora do quadro estritamente eleitoral. Agora vou ao cerne da questão: as redes digitais, que são um subproduto da informática. Antes de ser uma arma dos poderosos, a informática é a base de sua riqueza: ela submete o mercado (as relações entre demanda e oferta) a seu controle. Além disso, a informática controla as tecnologias de produção, transportes, comunicação, etc. Enfim, por meio das redes, controla os corações e as mentes da população mundial. Por isso os super-ricos são superpoderosos. A classe dominante é minúscula, mas mundializada e poderosíssima. Tem a seu serviço os ricos e a classe média (20 a 30% da população mundial?): gente que se identifica com eles e comanda o capitalismo de rapina (mineração, agronegócio, exploração de petróleo, expansão sobre territórios preservados, etc.). Nos setores intelectuais dessa grande classe média está quem não deseja servir os super-ricos, mas se submete – como nós – para não cair na pobreza da massa (os 80% da população mundial). Aqui situo a novidade do mundo atual: a luta de classes tornou-se tão desigual, que as classes dominadas já não lutam mais. Exceto algumas minorias – como o Palestino que prefere a morte à perda de sua dignidade – a massa empobrecida desistiu de lutar e adere aos influenciadores/as. Essa dominação cultural merece ser mais estudada, porque ela funciona em cascata: os muito ricos ocupam o topo da admiração de todos; abaixo deles os milionários e o/as famoso/as cujo estilo de vida todos querem imitar; enfim vem as classes mais ou menos empobrecidas que acreditam no sonho de serem ricas ainda que pelo jogo ou por intervenção divina. Essa gente percebe que acredita em promessas que podem não ser verdadeiras, mas, como não se pode ter certeza de coisa nenhuma, são – somos! – levados a aderir à informação que nos parece mais conveniente, mesmo tendo motivos para suspeitar de seu fundamento. Isso coloca o tema da plausibilidade. Uma informação é plausível se corresponde à experiência vivida e ao desejo. Vivemos a experiência do desmoronamento do mundo – o fim da civilização ocidental-cristã, a ameaça de guerra nuclear e até de extinção da espécie humana – mas este é um assunto proibido embora no fundo, no fundo, intuímos que é verdade. Não queremos que seja, e para contrabalançar essa experiência, o jeito é aderir alguma verdade contrária oferecida pelas redes digitais e pela mídia corporativa, sendo secundadas por igrejas, sociedades esotéricas, institutos e todo tipo de influenciadores/as. Gente como Francisco e quem publica no IHU pode demonstrar por A+B que o negacionismo mente; mas é uma mentira que agrada porque é plausível para quem foge da incômoda realidade sem saída. Por isso, só dialogamos dentro da nossa redoma (não é simples “bolha”, que estoura facilmente), se é que as redes digitais possibilitam o diálogo! O resultado é o que você constata: “somos incapazes de nos levantar da cadeira para participar de reunião do movimento social, de assembleia sindical, de evento partidário”. Digo mais: e vamos participar pra quê? Quem ainda acredita que nossa Causa é invencível, como proclamava o bispo Pedro do Araguaia? Devemos festejar nossas vitórias – como eleger prefeitas em Juiz de Fora e Contagem – mas sabemos que são efêmeras. Face a essa realidade, o jeito é renunciar à utopia da sociedade sem classes onde Justiça e Paz se abracem incluindo toda a Terra. Politicamente, é uma atitude sensata… Nessa realidade, meu irmão, não é “a comiseração que nos faz pensar que somos inocentes”, mas sim a consciência da derrota que não queremos (ou não podemos) aceitar, porque nossos erros históricos não mereciam tão duro castigo. A experiência dos primeiros seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré, gente perseguida por ter levado a sério a Fé na promessa do Reinado de Deus na História humana, produziu o livro do Apocalipse, que relata suas derrotas diante da Besta – o todo poderoso império romano. Só quando tudo parecia perdido, o poder do Cordeiro intervém, descendo do céu para instaurar um novo céu e uma nova terra. Ao reler hoje o Apocalipse na perspectiva da Cosmogênese, de L. Boff, entendo a promessa de que a Terra virá em nosso socorro: vai destruir o modo de produção capitalista e toda opressão que ele produz. A população humana será reduzida a um conjunto de pequenos grupos, cada qual vivendo em paz no seu

Francisco: a hora da verdade (fracassada?). Artigo de Jesús Martínez Gordo

  Admito ter ficado surpreso e quase alucinado com a vitalidade desse homem singular que, aos 87 anos, coloca uma viagem muito longa a algumas das “periferias” da outra parte do mundo entre o peito e as costas e que, como se isso não bastasse, às vésperas da última sessão do Sínodo Mundial 2024 – que já está sendo realizada em Roma de 2 a 29 de outubro – viaja, de 26 a 29 de outubro em setembro, para Luxemburgo e Bélgica para celebrar, neste último país, o 600º aniversário de uma das maiores universidades católicas do mundo: a de Louvain. Além disso, o meu reconhecimento por tal vitalidade anda de mãos dadas com a gratidão, porque, como teólogo, tenho desfrutado desde a sua eleição como Papa de uma liberdade de pensamento que a grande maioria dos meus colegas que me precederam não teve. E que, felizmente, todos os cristãos no coração da Igreja Católica também desfrutam. Mas, já que me aprofundei no provérbio, não acho supérfluo lembrar que “o educado não tira o bravo”, sem que isso signifique que eu sou um, mas, sim, que vou fazer uso da liberdade que digo estar desfrutando graças a Francisco. Acho que tenho que usá-lo para explicar por que coloquei entre parênteses e perguntas que o momento da verdade de Francisco (fracassado?) chegou. Eu gostaria que não falhasse, mas tenho indicações importantes de que, no fim, será assim, pelo menos, em quatro questões que considero cruciais para o futuro da reforma da Igreja Católica na Europa Ocidental: 1) o acesso das mulheres ao sacerdócio ordenado; 2) a defesa de sua dignidade e protagonismo em igualdade de condições com os homens; 3) o despejo do exercício e justificação do modelo de um poder único, absolutista e monárquico que continua a prevalecer; 4) o compromisso claro e firme em favor de uma reorganização codecisiva, descentralizada e policêntrica em tudo o que é discutível, o que, aliás, é muito; muito mais do que se acredita. E como é altamente provável que Francisco falhe ou fique muito aquém da resolução dessas questões, não tenho escolha a não ser esperar por outro papa que, além de “abrir processos” de reforma (como o atual diz e faz), os encerre de forma criativa e esperançosa. E, igualmente, esperar que não seja do perfil, por exemplo, de João Paulo II e que haja, pelo menos, remanescentes ou brasas significativas da Igreja Católica na Europa Ocidental. Tenho muitas dúvidas sobre a primeira das questões: acho que Francisco vai falhar novamente na primeira das emergências. Sinto-o desde o início do seu pontificado, em particular quando expôs o seu programa. Desde então, ele não fez nada além de repetir, ativa e passivamente, que “o sacramento da ordem sacerdotal é reservado aos homens”. É por isso que, parece-me, ele criou três comissões para não dar em nada e, dessa forma, dar a impressão de que a solução para o problema não é sua. Mas isso, embora importante, não é tudo. Há poucos dias, na Universidade Católica de Lovaina, repetiu de novo, em resposta a perguntas de estudantes e professores, algo que também já disse sobre a igualdade de gênero: “as mulheres, no povo de Deus, são filhas, irmãs, mães”. A dignidade que “caracteriza a mulher”, sentenciou, “não é determinada por consensos ou ideologias”, mas “garantida por uma lei original, não escrita no papel, mas na carne”. Fonte: Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

ECONOMIA – O mito do desenvolvimento econômico. Artigo de Luiz Carlos Bresser-Pereira

O caminho do desenvolvimento capitalista estava se transformando em um mito. No primeiro ensaio, que é também o mais importante do livro, o autor discute as mudanças que vêm ocorrendo no capitalismo e, em particular, o papel das grandes empresas, as corporações, nesse capitalismo. Mas esta discussão tem como objetivo mostrar como o caminho do desenvolvimento capitalista estava se transformando em um mito. Logo no início do livro, Celso Furtado cita mitos como o do bon sauvage de Rousseau, a ideia do desaparecimento do Estado de Marx, a concepção walrasiana do equilíbrio geral, e afirma que “os mitos operam como faróis que iluminam o campo de percepção do cientista social, permitindo-lhe ter uma visão clara de certos problemas e nada ver de outros, ao mesmo tempo que lhes proporciona conforto, pois as discriminações valorativas que realiza surgem ao seu espírito como um reflexo da realidade objetiva” (p. 15). A questão que Celso Furtado se põe é o que acontecerá para e com a economia mundial se o desenvolvimento econômico, que desde a Segunda Guerra Mundial se tornou o objetivo para o qual se voltam todos os povos, vier a ser bem-sucedido e lograr estabelecer um padrão de vida semelhante ao existente no mundo rico para todos. E sua resposta é clara: “se tal acontecesse a pressão sobre os recursos não-renováveis e a poluição do meio ambiente seriam de tal ordem que o sistema econômico mundial entraria necessariamente em colapso” (p. 19). Bastaria substituir ‘poluição’ por ‘aquecimento global’ e o problema se agravaria muito. Para Celso Furtado, o capitalismo que surgiu depois da Segunda Guerra Mundial caracterizou-se pela unificação do centro, sob o comando dos Estados Unidos. Já se esboçava então, pela ação persistente do GATT, o processo de liberalização comercial que ganharia força total com a virada neoliberal de 1980. Ele observa que “não pode se afirmar que as transformações estruturais que então aconteciam hajam sido desejadas e muito menos planejadas pelos centros econômicos e políticos dos Estados Unidos” (p. 36). Foram antes pensadas, acrescentaria eu, por economistas neoclássicos e da escola austríaca que haviam ficado fora do mainstream acadêmico em 1930, ansiavam pela volta ao poder nas universidades. Eles encontraram um espaço favorável criado pela crise dos anos 1970. Celso Furtado dá grande importância ao surgimento das grandes empresas internacionais e suas novas relações com a periferia. Ele afirma que “a evolução do sistema capitalista, no último quarto de século, caracterizou-se pela homogeneização e integração do centro, um distanciamento crescente entre o centro e a periferia e uma ampliação considerável do fosso que, dentro da periferia, separa uma minoria privilegiada e as grandes massas da população” (p. 46). O pós-guerra foi um período de crescimento no centro e na periferia. “A intensidade do crescimento no centro condiciona a orientação da industrialização na periferia, pois as minorias privilegiadas desta última procuram reproduzir o estilo de vida do centro” (p. 46). Esta é uma afirmação que Celso Furtado repetirá muitas vezes em toda a sua obra. Para conquistar e manter esse privilégio, estas minorias passarem a se associar antes com a maioria privilegiada do centro do que com seus concidadãos. Dessa maneira, perdido o apoio da classe média e mesmo dos empresários industriais, o nacionalismo econômico ou desenvolvimentismo, que caracterizara o Brasil desde os anos 1930, começava a ser ameaçado. Fonte: Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

RELIGIÃO – Diferenças claras emergem no Sínodo Mundial

Como relataram os participantes do Sínodo, um teólogo foi consultado para esclarecer a disputa teológica sobre os limites e possibilidades da autoridade descentralizada. Na Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos sobre as mudanças na Igreja Católica, houve uma discussão invulgarmente clara sobre questões teológicas fundamentais na quarta-feira. Tal como foi relatado na coletiva de imprensa do Vaticano, tratava-se de estruturas novas e descentralizadas na maior comunidade religiosa do mundo e, acima de tudo, de se o ensino vinculativo da Igreja só pode ser estabelecido de forma geral pela sede em Roma. Em resposta às sugestões de mudanças feitas por alguns participantes, um membro do Sínodo advertiu: “Uma fé fragmentada também significa uma Igreja fragmentada!” Sublinhou que a unidade da Igreja, garantida na pessoa do Papa e através da sua autoridade máxima, é indispensável para a Igreja Católica. NOVOS ORGÃOS PARA UMA IGREJA DESCENTRALIZADA? Anteriormente, entre outras coisas, houve apelos para a criação de órgãos continentais consultivos e de tomada de decisão com as suas próprias regras, além ou como alternativa às conferências episcopais nacionais existentes. Eles também deveriam ter autoridade própria em questões de doutrina e disciplina eclesial. Isto inclui, entre outras coisas, o celibato dos padres. Como relataram os participantes do Sínodo, um teólogo foi consultado para esclarecer a disputa teológica sobre os limites e possibilidades da autoridade descentralizada. A liderança do Sínodo pediu esclarecimentos ao professor Gilles Routhier, que leciona na renomada universidade “Institut Catholique” de Paris. O canadense tentou então explicar em uma breve palestra o conceito de autoridade docente, da qual também participam os bispos, com base nas decisões do Concílio Vaticano II (1962-1965). Segundo os observadores, as propostas para a descentralização e regionalização das estruturas de tomada de decisão da Igreja estarão provavelmente entre os pontos mais polêmicos na votação final do Sínodo em 26 de outubro.   Fonte: Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

ECONOMIA – Conheça as ‘Gigantes do Agro’ em recuperação judicial, dívidas somam R$ 12,3 bilhões

Conheça as dez ‘Gigantes do Agro’ em recuperação judicial. Segundo o estudo, esse valor representa um aumento expressivo de 150% em relação ao montante registrado O estudo aponta um aumento de 150% nas dívidas em recuperação judicial desde maio, chegando a R$ 12,3 bilhões, impulsionado pela inclusão de grandes empresas como AgroGalaxy e Portal Agro. O setor do agronegócio, que por anos foi o pilar de sustentação da economia brasileira, agora enfrenta uma realidade preocupante. As dez maiores empresas em recuperação judicial (RJ) no agronegócio acumulam uma dívida total de R$ 12,3 bilhões, de acordo com um estudo encomendado pelo Metrópoles e elaborado pelo escritório Diamantino Advogados Associados, especializado no setor. Conheça as dez ‘Gigantes do Agro’ em recuperação judicial. Segundo o estudo, esse valor representa um aumento expressivo de 150% em relação ao montante registrado em maio deste ano, que era de R$ 5 bilhões. O crescimento acelerado foi impulsionado pela inclusão de grandes empresas, como AgroGalaxy e Portal Agro, que recentemente entraram em processos de recuperação judicial. Nos últimos dois meses, o valor total das dívidas aumentou consideravelmente, principalmente com a entrada de AgroGalaxy, de Goiânia (GO), e Portal Agro, de Paragominas (PA), ambas atuantes na venda de insumos agrícolas. Esses novos casos se juntam a outras grandes recuperações judiciais, como a do Grupo Patense, de Patos de Minas (MG), especializado no processamento de resíduos de origem animal para rações e biocombustíveis, e da Elisa Agro, de Aruanã (GO), uma das maiores empresas de agricultura irrigada do Brasil. Essas recuperações judiciais ilustram um cenário desafiador para o agronegócio, que historicamente tem sido um dos setores mais fortes da economia brasileira. Eduardo Diamantino, sócio do escritório responsável pelo estudo, ressalta que “essas são as RJs gigantes, dos grandões”, referindo-se ao fato de que nove das dez maiores recuperações judiciais são de empresas de grande porte (pessoas jurídicas), sendo o Grupo Cella, de Sorriso e Nova Maringá (MT), o único representante de uma pessoa física no ranking. Mudança de Ciclo no Agronegócio A crise no agronegócio brasileiro é o resultado de uma combinação de fatores que formaram o que especialistas têm chamado de “tempestade perfeita”. Eduardo Diamantino observa que o setor, que viveu um período de bonança entre 2020 e 2022, agora enfrenta uma realidade completamente diferente. “Há tantos problemas que fica difícil imaginar que mais um possa acontecer”, afirma ele, referindo-se à confluência de desafios enfrentados pelos produtores e empresas do setor. Entre 2020 e 2022, o agronegócio experimentou um crescimento impulsionado pela alta demanda global e por preços favoráveis das commodities. No entanto, o atual cenário de excesso de oferta no mercado internacional resultou em uma queda nos preços e na necessidade de ajustes severos nas operações das empresas. Além disso, o aumento dos custos de produção, impulsionado pela alta nos preços de insumos e pela elevação das taxas de juros, complicou ainda mais o panorama financeiro das empresas e produtores rurais. Fonte: Site Compre Rural Matéria Completa: Acesse Aqui  

SOCIEDADE – A esquerda não tem nada a dizer à periferia’, diz Vladimir Safatle.

As regiões periféricas da cidade de São Paulo se dividiram entre os três principais candidatos que disputaram a prefeitura O filósofo e professor da USP (Universidade de São Paulo) Vladimir Safatle, 50 anos, afirma que a esquerda “não tem o que dizer à periferia”. Em entrevista ao UOL, Safatle, que é filiado ao PSOL e suplente de deputado federal pelo partido, diz que o primeiro turno de 2024 foi um “alerta vermelho” para o PT. “Se as coisas continuarem como estão, a extrema direita volta ao poder em 2026, com certeza”, declara… O filósofo, que vem insistindo na tese de que a esquerda brasileira está morta, diz que a política deve caminhar para os extremos não apenas no Brasil, como em todo o mundo. “Quem dá a pauta do debate hoje é a extrema direita. O que nos resta até agora é ficar desesperadamente tentando construir frentes amplas para tentar barrar a ascensão da extrema direita. Com isso, as pautas da esquerda vão se descaracterizando.”… A esquerda nas periferias As regiões periféricas da cidade de São Paulo se dividiram entre os três principais candidatos que disputaram a prefeitura: Ricardo Nunes (MDB), Guilherme Boulos (PSOL) e Pablo Marçal (PRTB). Para Safatle, a esquerda “não tem o que dizer para a periferia”. A esquerda não chegou à periferia porque não tem o que dizer para a periferia. O que tem para dizer para a população periférica? Serão criadas macroestruturas de proteção social, grandes estruturas de educação pública, vamos fazer o ensino secundário totalmente gratuito para que as pessoas não sejam obrigadas a pagar, ou um investimento sólido no sistema educacional? Não tem nada disso acontecendo. Nada disso está na pauta do dia. A extrema direita diz: ‘Agora é cada um por si.’ E isso tem um nome, que é empreendedorismo. O problema é que a esquerda integrou o discurso do empreendedorismo, e isso é uma lógica suicida. Porque se esse é o jogo, se essa é a gramática, a esquerda não tem nada para oferecer. Fonte: Portal UOL Matéria Completa: Acesse Aqui

IA: Que consciência podem ter as máquinas

Sem linguagem, não há cognição, sínteses mentais nem empatia. Mas sistemas sem corpo e sem cérebro poderão servir-se do domínio da linguagem para se tornar conscientes? Provocações a partir de casos de “crianças ferais” Encontrado nos bosques montanhosos de Haute-Languedoc, ele deve ter parecido um tipo estranho de animal: nu, com medo, muitas vezes de quatro, procurando comida na vegetação rasteira. Mas esse não era um simples animal. Victor, como viria a ser conhecido, era uma maravilha científica: uma criança selvagem, talvez com 12 anos de idade, completamente intocada pela civilização ou pela sociedade. Os relatos variam, mas sabemos que Victor acabou sendo levado para um hospital francês, onde a notícia de sua descoberta se espalhou rapidamente. No inverno de 1799, a história do “Selvagem de Aveyron” chegou a Paris, onde eletrificou a comunidade acadêmica da cidade. No início de um novo século, a França estava em meio a uma transição nervosa, e não apenas por causa da tirania crescente dos Bonaparte. Nas décadas anteriores, as investigações racionais de filósofos como Jean-Jacques Rousseau e o Barão de Montesquieu haviam abalado os fundamentos religiosos da nação. Foi uma época de debates vigorosos sobre quais poderes, exatamente, a natureza conferia ao ser humano. Havia alguma inevitabilidade biológica para o desenvolvimento de nossa consciência elevada? Ou será que nossas sociedades nos transmitiram uma capacidade de raciocínio maior do que a natureza poderia nos proporcionar? Victor, um exemplo extremamente raro de uma mente humana desenvolvida sem linguagem ou sociedade, aparentemente poderia responder a muitas dessas perguntas. Portanto, era natural que sua chegada a Paris, no verão de 1800, fosse recebida com grande entusiasmo. “As expectativas mais brilhantes, porém irracionais, foram formadas pelo povo de Paris em relação a Selvagem de Aveyron antes de sua chegada”, escreveu Jean Marc Gaspard Itard, o homem que acabou se tornando responsável por sua reabilitação. “Muitas pessoas curiosas previram ter um grande prazer em ver o que seria seu espanto ao se deparar com todas as coisas boas da capital.” “Em vez disso, o que eles viram?”, continuou ele. “Um menino nojento e desleixado (…) mordendo e arranhando aqueles que o contrariavam, não expressando nenhum tipo de afeição por aqueles que o atendiam; e, em suma, indiferente a todos e não prestando atenção a nada.” Diante da realidade de uma criança abandonada e com atraso no desenvolvimento, muitas das grandes mentes de Paris rapidamente se voltaram contra ele. Alguns o chamaram de impostor; outros, de “idiota” congênito – uma mente defeituosa ou um elo perdido, talvez, de alguma raça inferior de humanos. Seus críticos se juntaram a uma posição cada vez mais dura de essencialismo biológico – uma reação conservadora às ideias do Iluminismo sobre a excepcionalidade de nossas mentes, que contestava o fato de nossas capacidades serem determinadas apenas por desigualdades naturais. Fonte: Outras Palavras Matéria Completa: Acesse Aqui  

Colégio Cardinalício: o que as novas escolhas de Francisco significam para o próximo papa

O consistório surpresa, que será realizado em 8 de dezembro, será, em muitos aspectos, semelhante aos nove consistórios anteriores durante o papado de quase 12 anos de Francisco, com os novos barretes vermelhos sendo concedidos àqueles das periferias, em vez das principais capitais mundiais. No entanto, com a cerimônia ocorrendo apenas nove dias antes de seu 88º aniversário, o mais recente jogo de poder de Francisco garante que o Colégio dos Cardeais — cuja principal função é eleger o próximo papa — agora seja composto majoritariamente por clérigos de sua própria escolha. Dos 21 novos cardeais, 20 têm menos de 80 anos e, portanto, podem votar em um conclave papal. Dom Angelo Acerbi, de 99 anos, serviu no corpo diplomático do Vaticano por mais de 50 anos. Ao longo de sua carreira internacional, ele foi mantido refém por guerrilheiros na Colômbia, ajudou a negociar as relações igreja-estado na Espanha e ajudou a reconstruir a hierarquia católica da Hungria após a queda do comunismo. Ele não poderá votar em um futuro conclave — ou talvez nem esteja vivo para testemunhá-lo — mas este é o chapéu simbólico de Francisco para uma carreira histórica de serviço. No outro extremo do espectro está o bispo redentorista D. Mykola Bychok, o prelado católico grego ucraniano de 44 anos que lidera a Eparquia de São Pedro e São Paulo em Melbourne, Austrália. Ao nomear Bychok cardeal, Francisco agora concede seu primeiro chapéu vermelho a um católico grego ucraniano, optando por ignorar seu primaz, o arcebispo-mor D. Sviatoslav Shevchuk de Kiev-Galícia, que anteriormente criticou algumas das observações do papa sobre a guerra em andamento na Ucrânia. A elevação de Bychok também dará à Austrália seu primeiro cardeal após a morte do cardeal George Pell em janeiro de 2023. No estilo típico de Francisco, a mudança ignora as principais sedes de Sydney e Melbourne, embora os atuais líderes dessas duas dioceses que são mais associados ao falecido Pell, que brigava regularmente com Francisco, nunca tenham sido esperados para receber a honra. Mais surpreendente é a decisão de ignorar o arcebispo salesiano D. Timothy Costelloe, atual presidente da Conferência dos Bispos Católicos Australianos, que tem se envolvido profundamente no sínodo em andamento do papa sobre sinodalidade. Fonte: Instituto Humanista UnisinosMatéria Completa: Acesse Aqui

Europa: As falsas promessas de cooperação com o Sul

Relatório recém-lançado prova: bilhões do Velho Continente em projetos “sustentáveis” e de “erradicação da pobreza” só alimentam suas corporações – e lógicas predatórias. Na periferia do mundo, o novo colonialismo vem disfarçado de altruísmo… O novo colonialismo veste pele de cordeiro. O Global Gateway é uma iniciativa financiada pela União Europeia cujo principal objetivo, diz ela, é promover o desenvolvimento em países do Sul global, com “investimentos inteligentes, limpos e seguros em infraestrutura de qualidade”, nas palavras de Ursula von der Leyen, presidenta da Comunidade Europeia. Promete mobilizar, até 2027, 300 bilhões de euros em investimentos, com ênfase em parcerias público-privado. Mantém projetos em 29 dos 37 países mais empobrecidos do mundo. Seus pilares seriam a “redução e, a longo prazo, a erradicação da pobreza” e a luta contra as mudanças climáticas. Mas um relatório recém-lançado pela Counter Balance, Eurodad e Oxfam escancara a farsa: mais de 60% dos projetos analisados beneficiam diretamente corporações europeias como a Siemens, Moller Group e a Suez. E apenas 16% de todos os projetos do Global Gateway investem em setores-chave para o desenvolvimento em regiões empobrecidas, como Saúde, Educação e pesquisas. A realização da pesquisa, intitulada “Quem lucra com o Global Gateway? A nova estratégia da UE para cooperação para o desenvolvimento”, foi árdua: o direcionamento dos vultosos recursos do Velho Continente “com consciência socioambiental” é opaco. Informações que deveriam ser públicas – como os projetos em andamento, as fontes de financiamento, natureza dos contratos ou avaliações sobre impactos nos direitos humanos e no meio ambiente – estão indisponíveis. O Global Gateway lançou 225 projetos entre 2023 e 2024 – a maioria no setor energia (49%), seguidos pelo transporte (22%) e digital (13%). A estratégia parece clara: o orçamento disponibilizado pela UE busca mais impulsionar seus próprios interesses geopolíticos e econômicos do que uma cooperação real com o Sul – e tudo isso travestido de “nobres intenções humanitárias”. Alguns casos notórios ilustram o modus operandi da espoliação da Global Gateway. No Peru, fomentou um programa de habitação urbana sustentável, por meio dum “generoso” pagamento inicial, mas, ao final, levou famílias inteiras a se endividarem, agravando a vulnerabilidade na região. Em Ruanda, um projeto de hidrelétrica pode levar, ao menos, 4,5 mil pessoas a abandonarem suas casas, além de impactar a agricultura e a pesca. Pesquisas energéticas com hidrogênio, o que requer água em abundância, estão sendo conduzidas em regiões com escassos recursos hídricos na Namíbia, Chile e África do Sul. Na maioria dos países onde atua, a Global Gateway furta-se a investir em infraestrutura – e até abandona projetos onde ela é precária, como ocorreu na Argentina, que receberia investimentos em grandes projetos de energia renovável, descontinuados devido a sua capacidade limitada de distribuição elétrica. Junto a estratégias de dependência financeira, acordos comerciais desiguais e captura de matérias-primas, o Norte agora usa o “altruísmo desenvolvimentista” para aprofundar a dependência na periferia do capitalismo. Fonte: Site Outras Palavras Matéria Completa: Acesse Aqui

Futuro cardeal brasileiro defende discussão sobre padres casados

Spengler disse que tema precisa ser discutido ‘com franqueza’ O arcebispo de Porto Alegre e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Jaime Spengler, defendeu nesta terça-feira (8) uma abertura da Igreja Católica para discutir “com franqueza” a questão da ordenação de homens casados como padres.     O religioso brasileiro é um dos 21 nomes indicados pelo papa Francisco para tornar-se cardeal no consistório que será realizado no próximo dia 8 de dezembro. Considerando o número cada vez menor de padres e as áreas cada vez maiores que eles precisam cobrir, Spengler disse que a possibilidade da ordenação dos chamados “viri probati” – homens casados, de fé comprovada e capazes de administrar espiritualmente uma comunidade de fiéis – “necessita de um estudo mais aprofundado”.     “Não sei se a possibilidade de homens casados assumirem o papel de sacerdotes é ou poderia ser a melhor solução, mas precisamos de franqueza e abertura em relação a esta questão”, afirmou o arcebispo no briefing diário sobre o Sínodo que acontece no Vaticano em outubro.     Dom Spengler informou ainda que, na sua diocese, paróquias já estão sendo confiadas a diáconos permanentes casados. “Num futuro, espero que não muito distante, estes homens poderiam ser ordenados presbíteros para uma comunidade específica”, defendeu ele, acrescentando que “é necessária abertura” da Igreja Católica.     “Não sei qual é o caminho certo, não tenho uma resposta pronta, mas, sim, devemos enfrentar esta questão com coragem, levando em conta o que está escrito na Bíblia e na tradição, mas também considerando os sinais dos tempos”, concluiu.     A Igreja Católica ensina que o sacerdote deve dedicar-se totalmente à sua vocação, tomando essencialmente a Igreja como esposa. No entanto, embora o celibato seja uma tradição, não é considerado imutável e tem sido tema de debates. Fonte: Site TerraMatéria Completa: Acesse Aqui