SOCIEDADE – Por que os jovens se distanciaram dos sindicatos?

Não é “despolitização”. Eles desejam autonomia, mas também apoio ao trabalho hoje isolado e precário. Mobilizam-se de forma mais flexível e valorizam a diversidade. Assistência aos “plataformizados” e comunicação inovadora podem ser o começo para a renovação de bases A sindicalização é uma ação contínua e essencial no trabalho de base dos dirigentes e ativistas sindicais. Os desafios para atrair e engajar trabalhadores de todas as idades são constantes, mas os jovens sempre representam uma barreira a ser enfrentada. Os debates indicam a necessidade de inovações nas estratégias que visam à filiação dos trabalhadores aos sindicatos, ampliando, assim, a representatividade, a proteção e o poder sindical. Estudos da OCDE1 indicam que a baixa taxa de adesão sindical entre os jovens é um fator importante na queda global da densidade sindical. De acordo com o levantamento, apenas 7% dos sindicalizados na área da OCDE são jovens e a adesão a sindicatos tende a seguir uma curva em “U” invertido, atingindo seu ponto mais alto em trabalhadores com cerca de 40 anos. Para que um trabalhador decida se sindicalizar é fundamental que se sinta conectado ao sindicato e veja valor em sua atuação e, com o jovem, não é diferente. O que cabe considerar é quais são as características que marcam as atuais novas gerações que chegam para ingressar no mundo do trabalho remunerado. As transformações econômicas, sociais, políticas e culturais definem a visão de mundo e as novas gerações desenvolvem abordagem existenciais e de modo de vida que se diferem das gerações anteriores. O desenvolvimento da relação com o sindicato passa pela presença constante e significativa dos dirigentes no ambiente de trabalho, pela apresentação dos benefícios que a filiação pode proporcionar e pela demonstração do impacto positivo que o sindicato pode ter nas condições de trabalho e de vida dos trabalhadores. Quando um sindicato é percebido como ativo e eficaz, capaz de melhorar salários, defender direitos e cuidar das condições de trabalho, ele se torna mais atrativo também para os jovens, que buscam suporte e segurança em suas trajetórias profissionais. O sindicato também tem o desafio de se apresentar como um espaço de encontro, de acesso e de promoção de atividades culturais e recreativas, de lazer, de momentos lúdicos, com sessões de cinema, teatro, atividades de literatura e de música, com atividades esportivas, entre outras possibilidades. Nesses espaços e momentos as pessoas se conhecem, relacionam-se, criam identidades e confiança. Quem é jovem? Segundo a OIT – Organização Internacional do Trabalho, jovem é a população na faixa etária de 15 a 24 anos. As políticas públicas no Brasil consideram juventude a população na faixa etária de 15 a 29 anos. É longa a extensão da faixa etária da juventude, compreendendo a possibilidade de identificar-se vários recortes que estarão associados a outras características como a inserção educacional, a formação profissional acumulada, a experiência em curso ou vivida de transição escola – trabalho, a necessidade ou urgência de um emprego e de renda etc. E a sua situação econômica, suas carências e necessidades, suas expectativas com o presente e o futuro. A juventude é uma diversidade complexa de vivências, é um período de arriscar-se, de colocar-se no e para o mundo, de conquistar autonomia, de estabelecer relacionamentos. Vencer o desafio de agregar-se, relacionar-se, posicionar-se, estabelecer metas, tomar iniciativa, ser recebido e incluído. A juventude irrompe suas demandas, seus anseios, seus sonhos e esperanças e é com elas que o sindicato deve saber trabalhar. Chegar ao mundo do trabalho é vencer barreiras que estão associadas a educação formal recebida, a qualificação profissional, a origem de classe, de gênero, de raça. Chegar para a procura do primeiro emprego em um mercado de trabalho aquecido é uma coisa, outra é chegar com o desemprego bombando. Procurar o primeiro emprego, ser demitido ou pedir demissão pela primeira vez gera expectativas, ansiedade e causa insegurança, algumas das questões que afligem os jovens. Fonte: Site Outras Palavras Matéria Completa: Acesse Aqui

SOCIEDADE – Esperança em tempos de escuridão. Editorial do National Catholic Reporter

Suportaremos Donald Trump e seus bajuladores. Seu tempo passará. Infelizmente, ele causará danos significativos. No entanto, podemos, de fato, devemos, limitar esses danos por meio de nossa determinação incessante. O incompetente, desonesto, divisivo e autoritário Donald J. Trump foi novamente eleito presidente dos Estados Unidos. Com o tempo, volumes de livros tentarão explicar esse colossal lapso de julgamento. Mais cedo serão exploradas as terríveis consequências dessa eleição para nossa nação, a família humana mais ampla e o planeta. Por enquanto, enquanto embarcamos em uma jornada desconhecida, não temos tempo para autopiedade ou raiva debilitantes. Livremo-nos dessas tentações em prol da saúde individual e coletiva. Precisamos de equilíbrio e integridade para seguir em frente enquanto protegemos os mais vulneráveis. Precisamos de acuidade mental para decidir como apoiar uns aos outros e às instituições democráticas da nossa nação. Não somos os primeiros a enfrentar tal escuridão; agora nos juntamos a inúmeros outros vivendo vidas incertas em meio à turbulência política. Podemos aprender com eles, primeiro tomando aprendendo com eles e sabendo que nada está garantido e com eles e com resto da família humana compreender e saber melhor como manter a fé, construir coragem e sustentar a resiliência e a resistência. Precisamos uns dos outros mais do que nunca para evitar dúvidas e nos apegarmos aos princípios de justiça, decência e verdade. Então, quão grande é essa comunidade da qual precisamos desse encorajamento? Ela é global, atravessa culturas, raças e religiões e alcança gerações passadas. Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América Precisamos de esperança. Esperança gera esperança. Lembre-se, somos pessoas de esperança. Crescemos em esperança ao abraçar a interdependência e a conexão, apoiando-nos uns nos outros quando vacilamos e oferecendo uma mão quando vemos a necessidade. Nossa esperança não está enraizada em algum otimismo passageiro, mas nas verdades duradouras de nossa fé fundamentadas nos Evangelhos, que ensinam o amor sem limites e a crença central de que a escuridão não tem a última palavra. Considere este ditado tibetano: “A tragédia deve ser utilizada como uma fonte de força.” A dor convida ao propósito. Deixado sem atenção, o desespero paralisa. Com propósito, ele pode se tornar uma força poderosa para a mudança. Precisamos canalizar nossas lutas internas para a ação externa. Sim, temos fardos adicionais, mas sim, temos novos chamados. O sobrevivente do Holocausto Elie Wiesel demonstrou uma resiliência notável ao confrontar o mal e a injustiça. Ele escreveu: “Nunca esquecerei aqueles momentos que massacraram meu Deus e minha alma.” Apesar da dor inimaginável, Wiesel se tornou um defensor incansável da justiça, da paz e da dignidade humana. Ele nos ensinou que, durante os momentos mais sombrios, sempre temos uma escolha: deixar nossa dor nos consumir ou nos levar adiante. Seguindo em frente, damos voz àqueles que não podem falar por si mesmos. Fonte: Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – O ENCONTRO EM ROMA: EXPECTATIVAS E VOZES SILENCIADAS

  Quando a Fé nos convoca a um compromisso verdadeiro, ela também nos desafia a confrontar nossas próprias indagações e anseios. O Encontro em Roma, marcado pelo Sínodo da Sinodalidade, levantou grandes expectativas, especialmente entre aqueles que vislumbram mudanças profundas e necessárias na vida eclesial. A Federação Latino-Americana de Padres Casados, por exemplo, enviou ao cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo, uma carta propondo uma revisão corajosa do celibato clerical, uma questão que atravessa séculos de tradição e se embrenha nas vivências e desafios dos próprios sacerdotes. O clamor destes padres é um convite à Igreja para que reflita sobre o valor do ministério presbiteral que abraça tanto o serviço quanto a vida conjugal. Eles não pedem a eliminação do celibato, mas sim a liberdade para que ele seja opcional, uma vez que acreditam que essa possibilidade poderia enriquecer e fortalecer o testemunho cristão. Contudo, a resposta de Grech, mesmo demonstrando apreço, reflete o aparente bloqueio institucional à inclusão de vozes divergentes no debate sinodal, mantendo a composição dos participantes restrita aos mesmos que participaram do encontro anterior. As limitações impostas pela hierarquia levantam uma questão incômoda: o quanto realmente estamos abertos a acolher as inquietações que emergem da própria base da Igreja? A insistência na manutenção de práticas que, embora sagradas, não são dogmas, reflete uma resistência à pluralidade que contradiz a proposta sinodal de diálogo e de busca de novas perspectivas. Afinal, o que se espera da sinodalidade, senão o encontro das diferenças e a escuta mútua para o crescimento comum? De maneira significativa, o Cardeal Grech menciona que “o Senhor sabe fazer presente o clamor na sala do Sínodo”, uma metáfora que oferece certo alento, mas também deixa entrever uma inquietante conformidade com a ausência de vozes na prática. Pois a Igreja não é apenas uma estrutura hierárquica; ela é feita do corpo vivo dos fiéis, que anseiam por uma instituição capaz de dialogar abertamente com as realidades de todos os seus membros, e não apenas dos que ocupam lugares de autoridade. A questão dos padres casados, tão antiga quanto a própria Igreja, remonta aos primórdios do cristianismo e, ironicamente, ainda hoje é vista como uma inovação ou como uma ameaça ao status quo eclesial. No entanto, o verdadeiro desafio reside em resgatar a autenticidade do serviço pastoral, reconhecendo que a prática do celibato compulsório pode afastar muitas vocações e dificultar o exercício ministerial para quem sente o chamado ao matrimônio. Assim, o encontro de Roma torna-se um reflexo da expectativa frustrada, pois, embora muitos tenham enviado suas contribuições, parece que o diálogo permanece em níveis superficiais, longe do impacto que poderia ter nas transformações necessárias. Mais do que nunca, a Igreja é desafiada a responder se a sinodalidade será apenas um exercício de escuta ou um caminho real para a mudança. Para muitos, o caminho é claro: que a Igreja atenda ao chamado daqueles que, ainda que vivendo no anonimato, desejam servir ao Evangelho de forma íntegra e autêntica, sem abdicar de sua vocação matrimonial. O Encontro em Roma, portanto, é apenas mais um capítulo de uma história em busca de sentido, onde o verdadeiro poder está na coragem de fazer perguntas e não temer as respostas. Que a fé continue a ser um encontro vivo com a verdade, onde todos possam ter voz e, enfim, serem escutados.

ARTIGO – HISTÓRIA DA CULTURA – DIA DA CULTURA

a) A história da cultura se identifica com a história da raça humana. E esta é uma sequência de desdobramentos da relação do homem consigo mesmo, com o outro e com o mundo. “A raça humana é única entre todas as espécies animais, devido ao progresso realizado de então até hoje” (Ruth, 223). Isto pelo fato de o ser humano ter passado por um processo de evolução biológica que se desdobra no ser consciente e espiritual. Por isso ele foi capaz de enriquecer sempre mais seu modo de vida pela invenção e aprendizagem. A história da cultura nos revela o crescimento da capacidade humana de criar. Ela é como a base indicativa dos estágios passados pela humanidade. Ela decifra o ser humano. É a marca do humano. Revela suas características e identidade. “O elemento humano tem direito a uma só grande presunção: a ilimitada capacidade de inventar e aprender” (idem, 124). b) Assim, a cultura emerge com o aparecimento da primeira raça humana. Ela surge num ambiente natural, mas na hora que ela interfere e cria um ambiente diferente, humanizado, em que deixa a sua marca cultural. O homem é um ser de relações. Por estas relações ele vai construindo a história da cultura, ou seja, vai transformando a natureza para atender às suas necessidades. c) A relação do homem com a natureza se dá por um processo adaptativo mediante o trabalho. Para isto ele sempre está criando soluções para seus problemas. As soluções vão desde instrumentos manuais até tecnologias avançadas. O que caracteriza o trabalho material vai especificando a cultura material. Mesmo partindo de necessidades e soluções diferentes, emerge a nível de consciência global padrões unificadores e reguladores de significados consensuais da cultura. É o que caracteriza a configuração cultural. d) A relação do homem com os outros cria padrões éticos de reconhecimento e respeito. O domínio dos bens produzidos pelo trabalho em algumas situações cria relações igualitárias, noutros casos os níveis são desiguais. Com o avanço das revoluções tecnológicas, por causa do excesso de produção, começa o processo de dominação das relações sociais. Consequentemente a cultura começa a se diferenciar. e) A sustentação ideológica tende a filtrar os elementos básicos de comunicação, ou mesmo dogmatizar posições para justificar as relações do homem com os outros e com o mundo. Essa interpretação da atividade humana tende a identificar o característico de cada grupo humano. Ao mesmo tempo favorece o intercâmbio cultural a níveis de progresso. Deste modo, a dinâmica do processo cultural é entendida como positiva porque a torna exposta e acessível.

SOCIEDADE – Não existe a história da Igreja e história secular, o que existe é a história humana. Um depoimento autobiográfico da vida do teólogo Eduardo Hoornaert – Parte II

Nesta parte de seu texto, o teólogo belga fala sobre personagens marcantes em sua trajetória profissional, quando deixou a batina para se casar e como tudo isso impactou no seu modo de compreender o Evangelho Esta é a segunda parte do depoimento autobiográfico de Eduardo Hoornaert, cuja primeira pode ser lida aqui. Neste trecho o teólogo e historiador da Igreja, ou melhor dizendo, da humanidade, projeta um olhar lancinante sobre personagens marcantes de sua vida na América Latina, na segunda metade do século XX. Figuras como Enrique Dussel, José Comblin e Dom Helder Câmara, ganham passagens especiais neste texto. Muitas transformações e amadurecimentos marcaram o seu próprio fazer historiográfico e sua atuação como professor. Isso passa, por exemplo, por compreender que, no fundo, não há uma história da Igreja e outra história secular, mas, simplesmente, uma história da humanidade. Seu trabalho com artistas visuais e poetas também ganham capítulos importantes na narrativa. Para ele, os artistas populares são os verdadeiros intelectuais do povo. “Eles se mostraram capazes de traduzir em termos populares tudo o que nós [os teólogos] tínhamos de intuições, estudos e posicionamentos, de criar imagens e compor dramatizações. Guardo em casa um pequeno arquivo dessa experiência com poetas populares”, conta. Outro evento marcante na trajetória de Hoornaert é o seu casamento com Tereza Dias e abandono da vida paroquial, embora tenha continuado, por muitos anos, como professor em seminários. A grande lição aprendida com Dom Helder Câmara, uma figura internacionalmente relevante no contexto eclesial e com enorme influência no Vaticano e fundador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, está distante de qualquer institucionalidade. “O que vai ficar é a mudança de rumo, na vida de Helder, quando ele rompe com a lógica da unanimidade, e opta por trabalhar com minorias”, relata o entrevistado. Eduardo Hoornaert cursou dois anos de Línguas Clássicas e História Antiga e, posteriormente, Teologia, na Universidade de Lovaina. Chegou a João Pessoa, no Brasil, em 1958. Foi professor catedrático em História da Igreja, sucessivamente nos Institutos de Teologia de João Pessoa, Recife e Fortaleza. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), entidade autônoma fundada em 1973, em Quito, Equador. Desde 1962 escreve artigos de cunho histórico para a Revista Eclesiástica Brasileira (REB), da Editora Vozes, na área do catolicismo no Brasil e do cristianismo em geral. Fonte: Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

SOCIEDADE – O Brasil é um país inacabado. Um depoimento autobiográfico de Eduardo Hoornaert – Parte I

Testemunha viva dos eventos mais marcantes do século XX, o teólogo e professor nascido na Bélgica viveu momentos marcantes no Brasil, sendo um dos maiores nomes da teologia brasileira Diferentemente do que você está acostumado a ler nesta seção do site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, esta não é uma entrevista nem uma reportagem. O dever ético de um jornalista diante de um texto desta magnitude é abrir mão da assinatura e entregar ao autor dos parágrafos que se seguem os méritos de uma vida inspiradora e uma escrita elegante. O que ora foram perguntas agora se converte em um texto fluido e fascinante. Eduardo Hoornaert nasceu em Bugres, na Bélgica, em 1930, tendo completado 94 anos no último 7 de outubro. Quando criança, testemunhou pela fresta de uma cortina, durante dois dias e duas noites, as tropas nazistas passaram em frente à sua casa. A imagem da frase Gott mit uns (Deus conosco) o marcou para sempre. Mais tarde no seminário se dedicaria a temas históricos, mas também à obra do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein. No fim da década de 1950, Hoornaert veio para o Nordeste brasileiro, onde daria aulas nos seminários de João Pessoa e Recife – este último a partir de 1963, onde conheceu e se tornou amigo de Dom Hélder Câmara. Em 1969 e 1970, ele lecionou no Seminário do Cristo Rei em São Leopoldo/RS. Conheceu Frei Betto, então perseguido pela ditadura militar e que estava, como ele conta, escondido no Sul do Brasil. Morando em Recife, uma de suas experiências mais marcantes nesse período foi como pároco da comunidade de Alto do Pascoal, onde viveu por nove anos. Compreendeu ali que “o Brasil é um país ‘inacabado’. (…) Eis a memória que eu guardo dos nove anos vividos no Alto do Pascoal. A fragilidade da vida, a luta nunca acabada, o apelo para um futuro melhor. O Brasil é um país em construção permanente, um país de tenacidade e paciência”, classifica. Fonte: Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

MEIO AMBIENTE – Crise climática, saúde e o futuro das cidades

Populações urbanas são as que mais sofrerão com os impactos do clima As cidades que não adotarem ações significativas voltadas a enfrentar as mudanças climáticas vão encarar um futuro de grave degradação, com o colapso da infraestrutura e a deterioração ambiental. Esse foi o alerta dado por especialistas em clima e saúde na palestra anual da Academy of Medical Sciences & The Lancet International Health Lecture, em Londres. “Em 2050, o clima de Madri se assemelhará ao de Marrakech hoje. Não é uma boa perspectiva”, disse o Professor Mark Nieuwenhuijsen, o palestrante principal do evento. Para evitar esse cenário, as cidades devem se adaptar e manter a saúde como prioridade nos projetos. “Para nossas cidades, precisamos buscar soluções que reduzam as emissões de CO2 e também melhorem o ambiente, a igualdade e, claro, a qualidade de vida e a saúde.” Até 2050, espera-se que dois terços da população mundial vivam em cidades. Nesse contexto, as mudanças climáticas ameaçam cada vez mais a saúde humana nas áreas urbanas. As centenas de milhares de quilômetros de asfalto e concreto exacerbam o aumento das temperaturas. As mudanças climáticas são responsáveis por 37% das mortes relacionadas às altas temperaturas, o que deixa as cidades especialmente vulneráveis às ondas de calor e ao calor extremo. Mark Nieuwenhuijsen argumenta que os planejadores urbanos devem passar a considerar a saúde ao projetar o futuro das cidades. Prevenir mortes relacionadas ao clima nas cidades requer planejamento urbano com foco intencional na saúde, comentou o pesquisador. Ele argumenta que o planejamento urbano inteligente é capaz de reduzir as emissões de gases de efeito estufa e promover a saúde, mas isso só será possível se conseguirmos romper com o “vício” nos combustíveis fósseis. “Sabemos que combustíveis fósseis são responsáveis por mais de 5 milhões de mortes por ano devido à poluição do ar”, alerta ele. Apesar do crescente conhecimento sobre os males causados por eles à saúde, as cidades continuam a se expandir, “e a Europa lidera esse movimento”. O uso de combustíveis fósseis levou a um “planejamento urbano centrado no carro, dominado pelo asfalto e com expansão urbana extensa, o que tem efeitos prejudiciais à saúde”, disse Nieuwenhuijsen. A expansão das áreas urbanas aumenta a dependência de carros. Mas já se sabe que os sistemas de transporte público e o transporte ativo – como caminhar e andar de bicicleta – têm um melhor custo-benefício. Fonte: Outras Palavras Matéria Completa: Acesse Aqui

ENTREVISTA – “O Papa é um ‘kairós’ que ninguém esperava, um grande dom”. Entrevista com Gustavo Gutiérrez

Um dos últimos ‘gurus’ vivos aposta em Francisco, “um kairós, um grande dom”, após participar do I Encontro Ibero-Americano de Teologia, realizado na Boston College. Aos 88 anos, Gustavo Gutiérrez, o pai da Teologia da Libertação, é um vovô afetuoso que, apesar de sua fama, não se dá importância, e a quem todos veneram. Pequeno, com sua bengala sempre na mão, continua a ditar o rumo da corrente teológica que fundou e pela qual foi perseguido por 20 anos. Agora, recebe os reconhecimentos do próprio Papa Francisco e de toda a comunidade teológica mundial. Um dos últimos ‘gurus’ vivos aposta em Francisco, “um kairós, um grande dom”, após participar do I Encontro Ibero-Americano de Teologia, realizado na Boston College. A entrevista é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 01-03-2017 Veja a entrevista completa no link abaixo. Fonte: Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui  

Gustavo Gutiérrez: cidadão do calvário. Artigo de Ademir Guedes Azevedo

Gutiérrez situa a reflexão teológica no nível de um “ato segundo” ele está tentando dizer que não existe uma teologia que sirva de explicação para todos os contextos “A teologia nasce onde pisam os pés. E os pés de Gutiérrez pisavam no chão do calvário das inúmeras vítimas que viviam sempre às margens. Elas, contudo, tiveram um irmão mais velho que as defendia e as pôs no centro do discurso sobre Deus; estas vítimas, de certa forma, acompanharam a caminhada deste servo de Jesus que hoje fez a sua Páscoa, pois o calvário que Gutiérrez optou não tinha a última palavra, foi apenas a ponte para a sua Páscoa”, escreve Ademir Guedes Azevedo, padre, missionário passionista e mestre em teologia fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma. Fez a sua Páscoa o patriarca da chamada teologia da libertação: refiro-me ao ilustre discípulo de Jesus, Gustavo Gutiérrez Merino (1928-2024). Peruano, de traços indígenas, dotado de cultura refinada e marcado pelo bom-humor cultivado na sabedoria de quem aprendeu a viver enraizado no contexto e sem as fantasias que tendem a negar aquele real e dramático aspecto, inerente a condição da vida humana: o sofrimento. Neste sentido, gostaria de ler a sua vida a partir do calvário. Que lugar é este? Consiste naquilo que Gutiérrez chama de a descoberta do “mundo do outro”. Neste mundo se encontram os pobres, aqueles que não podem viver. Nascem e morrem, mas não vivem realmente, porque alguns mais fortes não deixam. Morrem antes da hora, pois são prematuramente abandonados, tornados invisíveis, nem sequer podem dormir serenos, uma vez que são atormentados pelo eterno pesadelo da desigualdade. É este pobre, portanto, que representa esta categoria de alteridade: o outro sofrido. Em outras palavras: se trata do homem crucificado de hoje. Ele vive eternamente num calvário. Pois bem, para descobrir este “mundo do outro”, Gutiérrez se fez também um pobre, falou a partir deste outro crucificado, rezou, lamentou, profetizou…enfim escreveu a sua teologia só depois de ter frequentado esta escola do calvário. Talvez um dado da sua biografia possa iluminar esta espontaneidade evangélica de viver de olhos abertos para o sofrimento alheio: na sua infância e adolescência ele experimentou na carne a doença da osteomielite, a qual lhe fez permanecer numa cadeira de rodas dos 12 aos 18 anos. Gutiérrez tornou-se cidadão do calvário desde os primórdios de sua existência. Ele foi um teólogo provocador. Desde este calvário do pobre crucificado, ele inverteu o modo de escrever a teologia. Para entender a sua originalidade, deve-se partir daquilo que ele chamava de “ato primeiro”, o qual consiste numa experiência mística vivendo inserido neste  “mundo do outro”. Aqui se adora e contempla a Deus na sua carne sofredora. Antes de escrever a teologia, é necessário primeiro experimentar o primado divino (a espiritualidade). Gutiérrez foi um daqueles bons samaritanos: ele via e se inclinava para sentir o clamor de Jesus Crucificado nos corpos crucificados suspensos nos calvários das favelas, no desemprego, na fome, na falta de terra. Então só depois, num segundo momento, ele elaborava o discurso teológico. A teologia passa a ser “ato segundo”, pois nasce da chamada práxis contemplativa e da mística do sofrimento humano. É uma teologia da kénosis: precisa descer, inclinar-se, tocar as feridas, chorar primeiro com os que choram e isso faz toda a diferença. A teologia deixa de ser um discurso dedutivo, perde a sua arrogância de querer sempre corrigir a realidade e adota a indução: sente, observa, escuta, questiona sobre as causas do sofrimento e busca as respostas a partir da própria experiência de vida do mundo do pobre. Fonte: Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

LUTO – Faleceu o pai da Teologia da Libertação, Gustavo Gutiérrez

A informação foi divulgada oficialmente pela Província Dominicana de San Juan Bautista do Peru e seus restos mortais serão sepultados na Sala Capitular do Convento de Santo Domingo, em Lima. A América Latina e sua Igreja perderam uma de suas figuras mais influentes na teologia e no compromisso evangélico: Gustavo Gutiérrez Merino, teólogo, sacerdote, dominicano e fervoroso defensor dos pobres e da Igreja dos pobres. Faleceu em Lima (Peru) nesta última terça-feira, 22-10-2024, aos 96 anos. Seu legado está marcado pela profunda marca que deixou na Igreja Católica e na vida de milhões de fiéis, especialmente daqueles que sofrem exclusão e pobreza no continente latino-americano. A informação foi divulgada oficialmente pela Província Dominicana de San Juan Bautista do Peru e seus restos mortais serão sepultados na Sala Capitular do Convento de Santo Domingo, em Lima. Embora chamado por muitos de “pai da Teologia da Libertação”, Gutiérrez foi mais do que um teólogo. Foi um pensador e um homem de ação, um profeta que compreendeu que a fé não pode ser separada da vida real das pessoas, especialmente da vida dos pobres. Nasceu em Lima, em 08-06-1928, em uma família que viveu em primeira mão as limitações de um sistema econômico e social que marginalizou muitos. Sua infância foi marcada por doenças, pois sofria de osteomielite, o que o obrigou a usar dispositivos ortopédicos para se locomover e, por fim, uma cadeira de rodas. Essa experiência o levou a uma profunda reflexão bíblica sobre o sofrimento e a desenvolver uma sensibilidade única em relação aos mais vulneráveis. Desde muito jovem, o Pe. Gutiérrez encontrou na educação uma forma de servir outras pessoas. Foi conselheiro e inspiração de estudantes e jovens, da União Nacional dos Estudantes Católicos (UNEC), e colaborador próximo de movimentos que tiveram origem na Ação Católica, como o JOC, o MOAC, JEC, MIEC, MIIC, MIJARC e outros. Neles ajudou muitas gerações a refletir sobre a presença de Deus e, a partir daí, incentivar uma práxis que transforme a realidade. Neste espaço, forjou comunidades críticas que refletiram sobre a injustiça na América Latina e a necessidade de mudanças estruturais baseadas na fé. O seu papel na UNEC foi crucial para que muitos jovens assumissem um compromisso cristão com os oprimidos no Peru. A relação de Gutiérrez com a hierarquia eclesiástica no Peru e na América Latina foi muito boa. Sempre ouvidos e apoiados por figuras latino-americanas como o cardeal Juan Carlos Landázuri (Peru), Enrique Alvear (Chile), Leonidas Proaño (Equador), Paulo Evaristo Arns e Pedro Casaldáliga (Brasil), e Óscar Arnulfo Romero, santo mártir latino-americano. Estes e muitos outros bispos endossaram as suas contribuições às Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida. No entanto, alguns bispos, como o ex-arcebispo de Lima e membro do Opus Dei, amigo do Sodalício (sociedade que produziu centenas de vítimas de abusos sexuais, de consciência e de poder), não só o criticaram, mas procuraram condená-lo, sem sucesso. Ao entrar no novo milênio, Gutiérrez ingressou na Ordem dos Pregadores e como frade dominicano fortaleceu a sua vocação, encontrando nesta comunidade um espaço de proteção e apoio que lhe permitiu continuar a sua missão com maior apoio hierárquico. Fonte: Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui