ARTIGO – AUTISMO: ALGUMAS COMPREENSÕES E CONTRIBUIÇÕES ATUAIS NO BRASIL

  Nos últimos anos, o avanço em pesquisas e trabalhos relativos ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) ampliou. O Brasil tem se destacado em pesquisas de excelência com inúmeros cientistas dedicados à investigação relativa ao transtorno. O TEA é caracterizado por uma série de condições que afetam o desenvolvimento neurológico, manifestando-se principalmente em dificuldades na comunicação social e padrões de comportamento repetitivos. Segundo a 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), o TEA é codificado como 6A02 e inclui um espectro de variações, desde dificuldades leves até casos que requerem suporte substancial. No Brasil, o entendimento sobre o autismo tem avançado significativamente graças à contribuição de pesquisadores dedicados. A Dra. Cristiane Silvestre de Paula, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), explica que “o reconhecimento precoce do autismo é essencial para intervenções eficazes, pois o cérebro das crianças é mais maleável nos primeiros anos de vida.” Ela reforça que estratégias de intervenção precoce podem fazer uma diferença notável na melhoria das habilidades sociais e comunicativas das crianças com TEA. O Dr. Guilherme Polanczyk, psiquiatra infantil e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), é outro nome de destaque na pesquisa sobre autismo no Brasil. Ele ressalta, igualmente, a importância do diagnóstico precoce e da intervenção contínua. Ele afirma que “precisamos capacitar mais profissionais de saúde para reconhecer os sinais precoces de TEA.” Neste sentido, de acordo com Dr. Guilherme, “quanto mais cedo o diagnóstico, melhor o prognóstico, pois as intervenções podem ser iniciadas mais rapidamente.” Suas pesquisas apontam para a necessidade de políticas públicas que facilitem o acesso ao diagnóstico e ao tratamento para todas as famílias. Também, destaca-se neste campo a professora Luciana Bosa, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por sua dedicação em investigar as práticas inclusivas na educação para crianças autistas. Segundo Bosa, “a inclusão escolar de crianças com TEA não deve ser apenas física, mas também social e educacional.” Ainda, na compreensão da autora, “é fundamental que as escolas se adaptem para atender às necessidades específicas dessas crianças, proporcionando um ambiente que promova seu desenvolvimento pleno.” No campo da genética, a Dra. Alicia Matijasevich, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), tem explorado as bases genéticas do TEA. Ela explica que “a genética desempenha um papel significativo na etiologia do autismo, mas é a interação entre genes e ambiente que determina como o transtorno se manifesta.” O trabalho de Matijasevich ajuda a entender melhor como diferentes fatores contribuem para o desenvolvimento do autismo, apontando para a complexidade do transtorno e a necessidade de abordagens multidisciplinares. No contexto das políticas públicas, a Dra. Maria Luiza Dias, da Universidade de Brasília (UnB), enfatiza a importância de um suporte contínuo para indivíduos com TEA. Ela argumenta que “o autismo não termina na infância; é crucial que as políticas públicas garantam apoio ao longo de toda a vida promovendo a inclusão e a qualidade de vida de pessoas com autismo e suas famílias.” Em síntese, o Brasil tem se destacado na pesquisa e na promoção de práticas inclusivas para pessoas com TEA. A integração entre pesquisa, educação e políticas públicas é essencial para melhorar o suporte e o entendimento do autismo no País. Também, o atendimento clínico é fundamental no processo de desenvolvimento das aprendizagens necessárias para a autonomia e independência da pessoa com TEA. Com os avanços contínuos em pesquisas, terapias e práticas inclusivas, espera-se que os autistas tenham uma vida plena e integrada onde estiverem inseridos.

ARTIGO – CAPITAL POLÍTICO, POLÍTICA DO CAPITAL E POBRE DE DIREITA

Quanto aos pobres – a permanecer o reino do capital (acréscimo nosso), vós sempre os tereis convosco (Jesus de Nazaré, Jo 12,8). 01. Consciência de classe, consciência política, consciência crítica ou capacidade de discernir por meio daquele estágio de autonomia cognitiva designado por Immanuel Kant como esclarecimento, jamais podem resultar de geração natural, menos ainda de miséria social. Se miséria social gerasse consciência de classe os por volta de 800 milhões de pessoas no mundo que vivem abaixo do que se define como Limiar Internacional da Pobreza já estariam em estado de insurreição social. 02. Quando reina a política do capital o capital político do pobre é expropriado pela burguesia e por não se reconhecer como classe explorada, o pobre (submetido à consciência de rebanho) passa a integrar o crescente exército social do (aparentemente) contraditório pobre de direita. Aparentemente contraditório para quem nunca leu uma linha do velho Marx: numa sociedade de classes a ideologia dominante é necessária e inevitavelmente a ideologia da classe dominante. Nem mais, nem menos. 03. O grande pensador da hermenêutica no século XX, Gadamer, ao refletir sobre o caráter oculto da saúde (título de um livro homônimo), assegura que o verdadeiro objetivante é a doença e não a saúde. Tivesse Gadamer por Marx o mesmo interesse que devotou a Heidegger, veria que a doença por si mesma não tem poder de gerar no doente nenhuma consciência ou objetivação sobre o mal que lhe compromete a saúde. Sem consciência de classe a natureza social da doença que acomete o doente tende a se naturalizar. 04. A miséria da doença termina por conferir normatividade social à patologia que subtrai vida ao doente. Somente em Marx é possível discernir o que diferencia a busca heideggeriana pelo ser do ente da objetivação social (marxiana) do ser doente numa sociedade apartada em classes. Não é possível superar a abstração metafísica heideggeriana do esquecimento do ser sem que o ser seja pensado, como o faz o materialismo histórico e dialético, a partir de suas determinações concretamente históricas e sociais. 05. A sociedade de classes gera a apartação social da miséria e da doença. A política do capital determina a consciência do pobre e do doente e sabe como produzir e manter tanto o pobre quanto o doente de direita. O doente não se revolta porque é doente e é doente porque não se revolta. O pobre (de consciência) não se revolta porque é pobre e é pobre de consciência porque não se revolta. Existirá sistema (?) de saúde mais doentio, perverso e excludente do que o mantido pela maior potência capitalista do mundo? 06. Essa aporia patológica (ou beco sem saída doentio) já havia, noutros termos, sido formulada por George Orwell ao afirmar que os pobres não têm consciência porque não se rebelam e não se rebelam porque não têm consciência. Adicionando Marx a Orwell, podemos dizer: consciência e rebeldia passam pelo método da luta de classes, sem o que não é possível nem organização nem consciência de classe. Vem da pátria do capital (idolatrada pela extrema direita) a lição de que o capital empobrece e adoece. 07. Nada mais doentio e distópico do que ver nos dias que correm, num mundo em decomposição, a bandeira da rebeldia nas mãos (sujas e cheias de sangue) da extrema direita. Em lugar de liberdade, vamos construir saídas. O que só é possível pela esquerda, classista, e que não teme chamar-se pelo nome de consciência de classe. Apostar no protagonismo e na luta da classe trabalhadora rumo ao desafio da construção de uma sociedade sem classes, verdadeiramente livre e radicalmente humana.

ARTIGO – DOM HELDER: CONTRADITÓRIA SANTIDADE EM PESSOA QUE SE FEZ CÂMARA LIBERTÁRIA DOS POBRES

  (Helder Pessoa Camara) …desordeiro dentro da ordem, revolucionário pacífico, entusiasta desconfiado, líder humilde, brincalhão sério, amigo astuto. Um homem que exerce a função episcopal de um modo que mal se enquadra em esquemas tradicionais (Eduardo Hoornaert). 01. Helder Camara: Quando a vida se faz Dom é o título de uma bela, rica e heterodoxa biografia do mais vermelho e execrado bispo da história da Igreja no Brasil: Dom Helder Pessoa Camara. Foi escrita pelas mãos do bem, pela mente lúcida e pela visão da história longa de Eduardo Hoornaert, jovem historiador e teólogo nascido belga, à beira de completar 94 anos neste 2024 e que há 66 anos se fez brasileiro e cidadão do mundo a partir do Nordeste irredento, mais agredido pelas cercas do capital do que pela seca. 02. Hoornaert é um pensador referencial para a história da Igreja na Amazônia e para a história das origens do cristianismo. Do belo encontro tecido de bons afetos nazarenos e spinozistas entre o historiador (Hoornaert) e o bispo (Helder) nasceu o relato-testemunho em forma de biografia dessa figura a um só tempo santa para o povo dos pobres e satanizada pela ditadura empresarial-militar brasileira, instalada com o Golpe de 1964. O mais subversivo dos bispos mal cabia numa surrada batina branca, destituída de poder e ostentação. 03. A maior luta de Dom Helder não foi contra o poder do autoritarismo (eclesial e militar), mas contra o próprio Dom Helder. Nele, em sua figura exteriormente frágil e interiormente vulcânica, a contradição se fez fértil em vida, pensamento e ação, o que se manifesta na travessia incomum de sua adesão inicial ao integralismo de filiação nazifascista para a resistência abraâmica ao poder reacionário. Fez da direita para a esquerda a rota que leva à justiça como fundamento da paz. 04. São poucas no mundo as existências, como a de Dom Helder, que fizeram de cada situação limitante um desafio para crescer e humanizar-se como pessoa por meio da construção de um projeto comum do bem conviver. No sofrimento de uma vida sofre a humanidade inteira. Vem dele o belo projeto de formação das Minorias Abraâmicas, cujo roteiro encontra-se no pequeno e ousado livro O deserto é fértil. A gênese da missão de Dom Helder está mais na Palestina do Movimento de Jesus do que no Vaticano. Silenciado no Brasil, falou ao mundo a partir de sua base itinerante em Olinda e Recife. 05. Neste 27 de agosto de 2024 completam-se 25 anos da partida de Dom Helder Camara do tempo e espaço da imanência histórica, que ele soube viver com o mais elevado espírito de transcendência, para o lugar da eternidade como coroação de uma vida que nunca se deixou limitar pelas forças reacionárias do mal, que envenenam o espirito dos pobres com a crença de que a justiça do além pode compensar as misérias do aquém. A defesa da vida se inicia onde se vive ou, por força das desigualdades sociais do mundo capitalista, onde se é impedido de viver. Para Dom Helder é falso, ideológico e anticristão o discurso que tenta justificar para os pobres a negação da vida antes da morte com a promessa de vida após a morte. 06. Dom Helder foi antes de tudo um místico, não um místico que se aparta do mundo como ele é e se refugia numa espiritualidade imune às contradições da imanência histórica. Sua mística se alimentava da fé e da política. O cristianismo para ele, como no tempo dos primeiros cristãos, era Caminho, Movimento, Missão, Passos, o que é muito diferente de religião, sempre mais afeita ao imobilismo dos Paços e ao bem-estar dos ritos vazios de uma vivência aburguesada da fé. Helder não morava em palácio episcopal e fez de sua residência uma casa de portas abertas, com a sala ligada à rua, receptiva ao mundo dos pobres e em luta contra a pobreza. 07. Hoornaert, em sua biografia de Dom Helder, encontra no filósofo Baruch Spinoza uma possível e instigante resposta aos questionamentos sobre a força interior, intuitiva, mística, que movia pensamento e vida desse profeta na periferia do capitalismo: trata-se do “amor intellectualis Dei”, “não de uma intuição despojada de razão, mas de um amor a Deus que passa pelo crivo da inteligência e se baseia na razão. O religioso autêntico cultiva a inteligência, não renuncia a ela”. É razoável dizer que o místico Helder complementa Spinoza ao incluir Mundus (dos pobres) na célebre equação Deus sive Natura.

ARTIGO – TEOLOGIA FUNDAMENTAL

  Outro dia, visitando uma livraria, deparei-me com um livro com o título Introdução à teologia fundamental. Esta é uma área da teologia que se preocupa com os fundamentos da revelação e da fé cristã. Este contato com a teologia fundamental não foi surpresa para mim. O mestrado que fiz na Gregoriana (Roma) foi exatamente nesta área. A surpresa veio quando olhei o autor Rino Fisichella. Este foi meu professor no curso e orientador do seminário I. Juntando outra surpresa foi o livro A misericórdia, de Jon Sobrino. Este jesuíta foi o autor que pesquisei na dissertação de mestrado. Lá foi sobre o Jesus Histórico, aqui aprofunda a opção de Jesus como o Deus da misericórdia. Quando na época escolhi estudar teologia fundamental foi porque olhando as áreas da teologia percebi que esta era uma dimensão mais aberta, enfrentando problemas relacionados à revelação, Deus e homem. O direcionamento para a cristologia deu-se em razão do orientador, o jesuíta Ignacio Gonzalez. Eu escolhera o eclesiológico pelo meu trabalho pastoral ligado às Cebs, mas ele só orientava a cristologia. Tive de mudar e foi bom. Segundo o professor Rino, a Teologia Fundamental torna-se adulta com objeto, método e função como ciência teológica. Ele analisa também a evolução desta disciplina no contexto teológico, eclesial e histórico. A centralidade dela está no seu objeto de estudo: “o evento da revelação e a fé que nela depositam os cristãos” (p. 56). De fato, o fundamento do cristianismo está na revelação de Deus a um povo ao longo da história, conforme narra a Bíblia. A preocupação da Teologia Fundamental inicialmente foi apologética, defesa da fé. Depois do concílio Vaticano II, se volta para a redescoberta da pessoa de Jesus Cristo, da igreja como ministra da palavra, a escritura e o destinatário da revelação. A Teologia Fundamental vai se preocupar, então, com a evolução do conceito de revelação e sua relação com o mundo também em evolução. Passa a ser uma teologia do diálogo, de fronteiras, de sentinela no que acontece na teologia e na história. A meu ver, tem tudo para dialogar com a pós-modernidade e o mundo dos humilhados.

ARTIGO – O POBRE DE DEUS (AO PAI FRANCISCO – 04.10.2024)

A primeira vez que visitei Canindé tive uma experiência forte. Neste período eu era assistente espiritual da Juventude Franciscana (Jufra). Tínhamos um jornalzinho chamado o Franciscano e nesta visita aproveitei para entrevistar alguns romeiros. Eles falavam com simplicidade fazendo referência a uma ação divina na vida por intermédio de São Francisco. O título que coloquei no artigo foi Meu São Francisco. Isto porque também eu considerava o santo como parte minha. Assim, naquele dia, no santuário de Assis, conversei com o meu santo. Estou aqui diante de ti. Estou só. Olho para mim e sinto ao meu redor o odor da grandeza daquele pobre. Pobre de si para ser instrumento de Deus. Lendo o livro “O pobre de Deus” de Nikos me deparei com as mais belas reflexões sobre o santo de Assis. Nunca imaginara tanta humanidade, simplicidade, pobreza. Ele mostra um santo extremamente humano até ao ponto que não se julga merecedor da ação divina. Ele se sente pobre de Deus. Assim como se não fosse digno daquela ação divina extraordinária que o marcava. www Para Leonardo Boff ser santo é ser humano. Não fomos criados para ser divino ou demoníaco, mas simplesmente humanos. Não escolhemos ser humanos, mas escolhemos a forma de ser humanos. Além daquilo que é possibilidade (poder) temos também o que é limite. Aqui nos situamos entre o humano e o divino. Nós percebemos como um referencial e ao mesmo tampo estamos diante de outro referencial, o divino. www Penso que Francisco de Assis aprendeu e viveu esta dimensão existencial. Apesar de se sentir pobre de Deus, o poder deste transfigurou o humano de Francisco. Aí foi questão de poder divino que envolve a condição humana. “Fazei-me instrumento de vossa bondade.” www Talvez eu me coloque no ponto de desafio e apelo para o que sonhei um dia: ser um franciscano. O referencial deste ser franciscano foi Francisco de Assis, com aquele odor humano e divino ao mesmo tempo. Penso que este desafio e apelo continuam diante de cada um como possibilidade (poder) possível. A lição foi dada pelo Pobre de Deus. Senhor fazei de mim um pobre de Deus.

POLÍTICA – É preciso colocar o bolsonarismo na ilegalidade como é o nazismo”. Entrevista especial com Miguel Rossetto, João Pedro Schmidt e Rudá Ricci

Para os entrevistados, o plano de assassinato de figuras políticas eleitas pelo povo é um atentado à democracia e deve ser combatido duramente pelas forças constitucionais brasileiras Quem pensou que o bloqueio de rodovias, os acampamentos nos quartéis, a invasão aos três poderes em 8 de janeiro e o ataque do homem-bomba ao Supremo Tribunal Federal (STF) na última semana poderiam ser o auge da violência bolsonarista contra a democracia, foi surpreendido com as novas revelações da Polícia Federal (PF) na terça-feira, 19 de novembro. Desta vez, chegou à tona um plano detalhado, chamado de Punhal Verde e Amarelo, elaborado por militares de alta patente vinculados ao governo federal da época para executar o presidente Lula e o vice Geraldo Alckmin, assim como o ministro do STF Alexandre de Moraes. Dos cinco presos, quatro são militares e um é agente da PF. As investigações apontam que a organização criminosa se utilizou de elevado nível de conhecimento técnico-militar para planejar, coordenar e executar ações ilícitas nos meses de novembro e dezembro de 2022. Segundo a PF, no dia 9 de novembro, o general Mario Fernandes, um dos militares presos e que chegou a exercer o cargo de ministro interino do governo Bolsonaro, imprimiu o documento que detalhava o plano para assassinar as autoridades no Palácio do Planalto. Depois levou o material até o Palácio da Alvorada, onde Bolsonaro morava. Já no dia 6 de dezembro, o Punhal Verde Amarelo é novamente impresso pelo general Fernandes. Desta vez, Bolsonaro estava no Palácio do Planalto. No dia seguinte, o ex-presidente recebeu no Palácio do Alvorada os comandantes do Exército e da Marinha, além do ministro da Defesa, para apresentação de uma minuta golpista. Dia 15 de dezembro era a data prevista para a execução do plano, ou seja, matar as três autoridades. As consequências deste plano de assassinato e golpe de Estado foram divulgadas nesta quinta-feira (21), quando a Polícia Federal indiciou 37 pessoas, entre elas o ex-presidente Jair Bolsonaro, o candidato a vice na chapa que perdeu a eleição de 2022, Braga Netto, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, ex-diretor da Agência Brasileira de Informações Alexandre Ramagem e o presidente do Partido Liberal (PL) Valdemar da Costa Neto. Eles estão sendo indiciados por abolição violenta do Estado democrático de Direito, golpe de Estado e organização criminosa em um relatório com mais de 800 páginas feito pela PF. Para o professor de pós-graduação em Direito e cientista político João Pedro Schmidt, em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por WhatsApp, o auge das evidências são as revelações desta semana sobre o plano de assassinato, com envolvimento direto de integrantes da alta cúpula das Forças Armadas, inclusive do general Braga Netto, candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro. “Fica claro, assim, que os herdeiros da Ditadura Militar de 1964 mantêm a eliminação física dos adversários políticos no seu repertório de ação”, avalia. Schmidt é um dos entrevistados do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em uma série que visa compreender a gravidade dos novos fatos revelados desta trama golpista. Ao projetar os impactos das últimas revelações, o analista afirma que o novo quadro político vem em favor da apresentação da denúncia ao STF. Para ele, uma alta relevância deste cenário “é que os dois fatos (a bomba e as prisões por tentativa de assassinato) tornam inviável o projeto de anistia aos golpistas que estava sendo articulada pela bancada bolsonarista no Congresso Nacional. Não há mais ambiente para defesa da anistia. Há que frisar que são tendências, que podem não se confirmar, mas isso seria terrível para nossa combalida democracia”, projeta. Comparando os atos recentes com o golpe de 64, o cientista político Rudá Ricci, também em entrevista concedida por WhatsApp ao IHU, ressalta que desta vez não houve uma penetração tão profunda no território nacional e no primeiro e segundo escalão das Forças Armadas, assim como nos comandos regionais, como do exército que são 16 generais. Este contexto pode ter contribuído para a não efetivação do plano. “Desde a reforma do Castelo Branco não se tem mais um comando unificado, o que existe é um comando plural, um colegiado de generais que tomam as decisões no exército e ficam pouco tempo em um comando específico, justamente para evitar esse tipo de liderança carismática com as armas ao alcance das mãos”, salienta. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

MUNDO – A eleição de Trump e o sistema mundial

Washington já não afirmará sua “excepcionalidade moral” e buscará fazer prevalecer seus interesses exercendo a força. Mas a China preparou-se, o Oriente Médio mudou e a Rússia está mais forte. Vem aí uma nova corrida às armas A maioria dos analistas está de acordo que o fracasso internacional do governo de Joe Biden teve um papel importante na vitória de Donald Trump, nas eleições do dia 5 de novembro de 2024. Com destaque para a humilhante retirada americana do Afeganistão; para o fracasso da OTAN na Guerra da Ucrânia; ou finalmente, para a ambiguidade dos EUA frente ao genocídio israelense da Faixa de Gaza, divididos entre seus apelos humanitárias e o fornecimento direto das armas, do dinheiro e das informações utilizadas pelo governo de Israel no bombardeio da população palestina. Neste momento ainda não se pode saber se a reeleição de Donald Trump será apenas uma rodada a mais da “gangorra” política americana. Desta vez, entretanto, Trump não pode reeleger-se e terá um mandato de apenas quatro anos; mas ao mesmo tempo contará com uma maioria conservadora no Congresso, no Senado e na Corte Suprema, e disporá de uma equipe de auxiliares homogênea. O que lhe permitirá, em princípio, levar à frente, de forma rápida e imediata, a sua ”agenda nacional”. Na área internacional, entretanto, o horizonte é menos claro. Neste campo a consigna básica de Donald Trump foi sempre a mesma: “a paz através da força”, e não pela guerra. Mas além disso o projeto internacional de Trump abre mão da “excepcionalidade moral” dos EUA, e adota o “interesse nacional americano” como única referência de todas as suas escolhas, decisões e alianças que poderão variar através do tempo. Seguindo-se daí o ataque de Donal Trump contra todas as instituições multilaterais, e contra todos os acordos e regimes comerciais, ou associados com a “questão climática” e a “transição energética”. As “políticas internas” de Trump envolvem decisões soberanas e autônomas, e poderão ser tomadas sem maiores consultas a outros países e governos. Mas no caso da agenda internacional do novo governo, o problema é muito mais complexo, porque envolve acordos passados dos EUA, e se enfrenta com a vontade soberana de outros países, e de outras grandes potencias, como no caso da China, do Irã, da Rússia, ou mesmo dos seus aliados da OTAN. Com relação à China, é muito provável que Donald Trump consiga negociar acordos comerciais e tecnológicos pontuais. Mas a competição e o atrito entre os dois países deve se manter e aumentar de intensidade nos próximos anos. Até porque a China já foi definida pelos estrategas americanos, faz algum tempo, como principal competidor e a principal ameaça aos Estados Unidos, no Século XXI. Nesse campo se pode falar inclusive de um consenso bipartidário, entre democratas e republicanos, com diferenças apenas de gradação e intensidade. De fato, o governo Biden manteve a mesma política protecionista contra China do primeiro governo de Trump. Com a diferença que agora a China se encontra melhor preparada e não será surpreendida como aconteceu no primeiro governo Trump. Além disto, nestes anos recentes a China aprofundou sua relação econômica com seus vizinhos asiáticos, e com os países africanos e latino-americanos. E desde o início da Guerra da Ucrania, em 2021, os chineses estreitaram seus laços econômicos e sua aliança estratégica com a Rússia, fechando a porta para qualquer tentativa de repetir a estratégia de Henry Kissinger, do século passado, só que agora invertendo os papéis da China e da Rússia. Fonte: Site Outras Palavras Matéria Completa: Acesse Aqui

RELIGIÃO – “O Sínodo demonstrou que a Igreja Católica mantém uma confusão que impede qualquer reflexão séria sobre o exercício do poder”. Artigo de Paule Zellitch e Guy Legrand

  Paule Zellitch, presidente da Conférence catholique des baptisés francophones, e Guy Legrand, membro da CCBF, deploram a persistência de uma modalidade de governo arcaica e antidemocrática na Igreja, que “não é estranha à imensa dificuldade do sistema eclesial em combater os abusos”. Em sua forma atual, um sínodo dos bispos é uma assembleia consultiva e deliberativa, com o papa tendo a palavra final. O objetivo inicial do último sínodo, cuja assembleia geral, também aberta a alguns leigos, terminou no final de outubro, era pensar quais mudanças fossem desejáveis na Igreja, no contexto das revelações sobre a disseminação dos abusos de todos os tipos cometidos por padres. No decorrer do processo sinodal, o objetivo primário foi perdido de vista em favor dos meios a serem utilizados para alcançá-lo. O “método sinodal”, o “método de sínodo”, foi usado para avaliar a eficácia do sínodo. O “método sinodal”, concebido como um fim em si mesmo, tornou-se o principal objetivo desse sínodo. Como resultado, a assembleia não conseguiu enfrentar uma série de questões importantes, especialmente os fundamentos da governança. Recusa do debate Em primeiro lugar, quando aos católicos é dada a palavra, eles a usam. O sínodo deu a palavra aos fiéis que, em sua maioria, a usaram, no quadro da ampla consulta organizada na fase de preparação. Assim, apesar da inevitável diluição e reformulação das sínteses produzidas pelos bispos de cada país e depois de cada continente, a reivindicação por uma maior igualdade entre homens e mulheres nas funções eclesiásticas emergiu amplamente da consulta em todo o mundo. No entanto, durante as assembleias gerais do sínodo, assistimos a uma recusa de princípio do debate [o tema do diaconato feminino, entre outros, foi excluído das discussões] como método de construção de consenso pela instituição eclesial. Uma recusa implementada com a escolha da noção de “conversação no Espírito Santo”: o objetivo era reduzir o espaço para o debate e o confronto construtivo, percebido pelo magistério da Igreja como um ataque ao seu conceito de unidade, herdado nas suas modalidades do Império Romano, a partir da época de Constantino. Esses elementos são característicos do paradoxo que esse sínodo deveria ter resolvido: a Igreja Católica Romana, sociedade organizada em ordens hierárquicas, pode coexistir hoje em uma sociedade civil cujo princípio fundamental, agora secular, é a igualdade dos indivíduos, com a organização social que disso resulta? A Igreja e a sociedade civil operam de acordo com dois modelos antinômicos. Uma sociedade de ordens, organizada em duas castas separadas e hierarquizadas (clérigos e leigos), diante de uma sociedade baseada na igualdade dos direitos, sem distinção entre os sexos, com características diferentes: Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

ECONOMIA – Os super-ricos pagam uma taxa média de imposto entre zero e 0,5%”. Entrevista com Jayati Ghosh

Nesta entrevista, realizada no mês passado em Washington, a economista Jayati Ghosh, uma das promotoras da ideia do imposto para os super-ricos, explica porque é necessário e como seria concebido. A cúpula do G20, que se realiza nos dias 18 e 19 de novembro sob a presidência brasileira no Rio de Janeiro, está prestes a chegar a um consenso sobre uma proposta ousada de aplicação de um imposto sobre a riqueza ou o rendimento dos chamados “super ricos” do planeta, uma das prioridades do Governo Lula. Se isto acontecer, os Estados poderão ter entre 200.000 e 250.000 milhões de dólares em rendimentos adicionais em todo o mundo. Neste momento, como destacou Lulano seu discurso no início da cúpula, 3.000 pessoas têm uma riqueza superior a 13 biliões de dólares – mais do que o PIB agregado da América e da América Latina – enquanto 733 milhões de pessoas passam fome. Apenas um dos 19 países reunidos esta semana se opõe à proposta: a Argentina, cujo presidente, Javier Milei, chegou ao Rio após participar do banquete oferecido porDonald Trump em sua residência em Mar-a-Lago, em Palm Beach, para comemorar sua vitória e em que foi fotografado com o apresentador e com o homem mais rico do mundo, Elon Musk. Nesta entrevista, realizada no mês passado em Washington, a economista Jayati Ghosh, uma das promotoras da ideia do imposto para os super-ricos, explica porque é necessário e como seria concebido. Nascida na Índia em 1955, Ghosh é uma especialista em desenvolvimento da escola heterodoxa, que após 35 anos na Universidade Jawaharlal Nehru, em Deli, ingressou no departamento iconoclasta de Ciências Econômicas da Universidade de Amherst, em Massachusetts, juntamente com Bob Pollin e Isabella Weber. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

COP29 – Brasil denunciado por colocar lobistas do agronegócio na delegação oficial

  De Baku, Azerbaijão — Depois de fazer um detalhado levantamento sobre os 66 mil inscritos na COP29, o site ambientalista De Smog concluiu: “Lobistas da carne, laticínios e pesticidas retornam em grande número à Cúpula do Clima”. De acordo com a pesquisa, o Brasil foi o campeão dos lobistas, com 35, inclusive representantes da JBS, BRF, Marfrig e da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes. De fato, o estande do Brasil na COP29 deu grande protagonismo ao agronegócio, com o argumento de que o país pode alimentar o mundo sem contribuir com a emergência climática. A Bayer, uma das maiores fabricantes de pesticidas do mundo, trouxe dez representantes a Baku. A brasileira JBS, três. Com acesso às negociações – Este ano, segundo a De Smog, quase 40% dos 204 lobistas vieram a Baku com credenciamento das delegações oficiais, dando a eles acesso inusitado às negociações foram apenas 5% na COP27. Fonte: Site Revista Fórum Matéria Completa: Acesse Aqui