ARTIGO – PAPA FRANCISCO E A QUESTÃO DAS MULHERES DIACONISAS: QUANDO A IGREJA ESTARÁ PRONTA?
Estamos perplexos e decepcionados. Mais uma vez, o avanço tão esperado para a inclusão plena das mulheres na hierarquia da Igreja Católica foi interrompido. O Papa Francisco, líder admirado por suas posturas progressistas em muitas áreas, pediu que o Sínodo dos Bispos no Vaticano suspenda as discussões sobre a ordenação de mulheres ao diaconato, afirmando que a questão “não está madura” o suficiente. Mas a pergunta que muitos de nós fazemos é: quando estará? A resposta soa vaga, e o problema maior é o quanto essa indefinição enfraquece a vitalidade da Igreja no mundo contemporâneo. Não estamos mais na Idade Média, e a Igreja precisa dialogar com o século XXI, com seus desafios e avanços em igualdade de gênero. A ausência de mulheres ordenadas e a persistência do celibato obrigatório para os padres são tabus que, em vez de preservar a tradição, contribuem para a estagnação de uma instituição que clama por renovação e relevância. A exclusão das mulheres do diaconato, e por extensão de outros ministérios, perpetua uma desigualdade que não reflete o espírito do Evangelho. Estamos falando de mulheres que, ao longo dos séculos, têm sido o coração pulsante da Igreja em suas comunidades, nas paróquias, em obras missionárias e nos serviços sociais. Elas são líderes espirituais, educadoras, assistentes sociais e vozes proféticas – mas permanecem à margem quando se trata de exercer plenamente seus dons no ministério ordenado. Se a ordenação de mulheres como diáconas “não está madura” agora, resta perguntar: quando estará? Estaremos condenados a esperar mais uma geração? E se assim for, quantos mais se afastarão da Igreja, desiludidos com sua incapacidade de evoluir? O risco de perda de vitalidade é real e já está em curso. O mesmo pode ser dito da questão do celibato dos padres. A realidade é que muitos homens que se sentem chamados ao sacerdócio são desencorajados por uma regra que, em muitos casos, torna-se um fardo desnecessário. Será que o celibato, como uma exigência absoluta, ainda serve aos propósitos da Igreja ou se tornou um empecilho à sua renovação? Papa Francisco, conhecido por sua humildade e seu desejo de uma Igreja “em saída”, uma Igreja que acolha os marginalizados, precisa ir além das palavras quando se trata de reformas estruturais. A Igreja deve refletir a realidade de seu povo e se abrir à possibilidade de que a liderança feminina ordenada possa revitalizar uma instituição que perde fiéis ano após ano. Portanto, ao barrar a discussão sobre mulheres diaconisas, a pergunta que surge é: o que mais precisa ser discutido? O que resta para amadurecer quando tantos já reconhecem o papel vital das mulheres na Igreja? Não se trata apenas de um debate teológico ou de preservar tradições que muitas vezes parecem mais ligadas ao controle do que à fé. Trata-se de justiça, equidade e reconhecimento do valor pleno de todos os membros da Igreja. A Igreja é composta de homens e mulheres, e ambos devem ser reconhecidos igualmente em todos os seus papéis. Chegará o dia em que essa verdade será inevitável. Mas, como muitos já estão se perguntando, quando isso acontecerá? A história já mostrou que esperar gerações para mudanças que já são óbvias aos olhos de muitos é um caminho perigoso. A questão não é se estamos prontos para discutir a ordenação de mulheres e a abolição do celibato obrigatório – mas se a Igreja está pronta para sobreviver às suas próprias resistências.
ARTIGO – GUSTAVO GUTIÉRREZ – 1928-2024
Gustavo Gutiérrez sacode o jugo da ‘leitura grega’, que até hoje pesa sobre o cristianismo ocidental, e vai resoluto a Jesus de Nazaré que, após deixar João Batista penitencial, volta à sua terra natal e se compromete a fundo com o povo pobre. O projeto de Jesus tem grande capacidade de congregar pessoas, pois atinge o povo que se encontra nos bairros populares das cidades, nos sítios onde vivem os camponeses, no cais do porto, no mercado, nas ruas e praças, mas principalmente no interior dos pátios habitacionais, onde diversas famílias moram juntas atrás de um mesmo portão de entrada. Na hora da comida em comum, as pessoas atualizam seus conhecimentos, ouvem falar de outros grupos, comentam os problemas, comem e bebem juntos, cantam hinos, ritualizam um encontro de fraternidade. É a comensalidade, a eucaristia: Damos graças a Deus, porque nossa casa dispõe de pão para todos e ainda sobra para uma eventual visita. Aqui não há famintos. Nossa solidariedade elimina a fome. Em geral, não se alcança essa comensalidade, essa eucaristia, tal qual aparece, de modo um tanto eufórico, nos Atos dos Apóstolos. O resultado permanece bem mais modesto. Mas existem, por exemplo, indícios de que as comunidades ajudaram a pagar os impostos, na época um peso enorme sobre os ombros das pessoas. Desse modo, a ‘comensalidade’ pode ter uma dimensão financeira: colaboração no pagamento de dívidas. Para muitos, a comensalidade (e eventualmente a ‘comunhão de bens’) é exigente demais. Abordado por um jovem rico que quer segui-lo na missão, Jesus diz: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens e os distribui entre os pobres: terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me (Mt 19, 21; Mc 10, 21). Ao ouvir essas palavras, o jovem rico vai embora. E Jesus pondera: o projeto é quase impossível a ser posto em prática. Falta quem queira colaborar. Mesmo assim, para Deus tudo é possível (Mt 19, 26; Mc 10, 27). É dentro desse contexto que aparece o famoso Dito de Jesus: É mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. Gustavo não vai direto à comensalidade, pois o mundo atual tem uma complexidade própria e ela precisa ser destrinchada. Mas ele pode ser chamado de comunista, no sentido próprio do termo. Sei que, hoje, o termo costuma remeter ao ‘Manifesto Comunista’, publicado por Marx e Engels em 1848. Mas vale recordar uma lição básica dos linguistas: palavras atuam em diversos contextos e, nisso, assumem diversos significados. ‘Comunismo’, ‘comum’, ‘comunhão’, ‘comunidade’, ‘comungar’, ‘comunicação’, ‘comunicar’, ‘comunicativo’, etc., são termos impregnados de espírito cristão. O comunismo ‘bem entendido’ pertence, decerto, ao âmago do cristianismo, embora tenhamos de reconhecer que, ao longo da história, a experiência de uma convivência ‘comensal’ ou ‘comunista’ apenas vingou em ambientes restritos e de modo limitado. Na primeira frase deste breve texto, falei em ‘leitura grega’ do evangelho. O que se entende por essa expressão? Trata-se de uma reinterpretação do cristianismo a partir de parâmetros neo-platônicos. Ela passa a influenciar o pensar e o agir cristão a partir do século III e resulta numa espiritualização da vida cristã e num esquecimento do teor social da mensagem de Jesus. O tema é importante, pois a ‘leitura grega’ incide diretamente na fé até hoje praticada pelo povo cristão, mais que as questões organizatórias, devedoras de situações concretas e, portanto, de caráter passageiro, que costumam ganhar tanto espaço nas costumeiras apresentações do cristianismo. As questões organizatórias não devem ser dramatizadas. Nem a ruptura entre a igreja ocidental, centralizada em Roma, e a ortodoxia grega, centrada em Constantinopla, no decorrer do século XI, nem a quebra de braços entre catolicismo e luteranismo, no século XVI, nem a subida do pentecostalismo em nossos dias. Pois essas movimentações são todas decorrentes de situações e geografias particulares. Muita coisa pode mudar sem que isso afete, de modo decisivo, a vivência do evangelho por parte dos cristãos ‘anônimos’, que professam uma religião secularmente vivida sem registro nem fronteira nem nome, uma religião universal que as instituições teimam em não reconhecer. Milhões e milhões de pessoas vivem sua religião dentro de quadros familiares, em todos os quadrantes do mundo, dentro ou fora das mais variadas institucionalizações. Essas populações costumam ser influenciadas pela ‘leitura grega’, embora, em geral, desconheçam a expressão. Interessante observar que, indiretamente, a questão da ‘leitura grega’ foi abordada, no Concílio Vaticano II, por ocasião de discussões em torno do documento conciliar Gaudium et Spes. Nessas discussões, é possível detectar nitidamente uma diferença de posicionamentos entre ‘neo-agostinianos (espiritualistas), como Daniélou, de Lubac, Ratzinger e von Balthasar, que basicamente (e sem o mencionar) se apoiam na ‘leitura grega’, e, do outro lado, ‘neo-tomistas’ (‘realistas’), como Chenu, Congar, Rahner, Lohergan e Schilllebeeckx, que se distanciam da ‘leitura grega’ (Massimo Faggioli, Leituras e Releituras do Vaticano II em: Dicionário do Concílio Vaticano II, Décio e Sanchez, Paulus, São Paulo, pp. 536-539). Mas essa diferenciação não impediu que uma ‘sombra grega’ continuasse pairando sobre a teologia praticada na Europa, até hoje. É dentro desse quadro que se perfila a figura de Gustavo Gutiérrez que, sem participar do Concílio Vaticano II, respira um ar totalmente diferente em sua Teología de la Liberación (Editora CEP, Lima, Peru, 1972). Só encontrei, no referido livro, uma nota de pé de página em que Gutiérrez cita Agostinho, paraninfo do cristianismo espiritualizado, para discretamente tomar distância diante de seus posicionamentos (nota na p. 59) e, com isso, da ‘leitura grega’ em geral. Podemos dizer que, com Gustavo Gutiérrez, a teologia dos países emergentes diz ‘adeus’ à teologia baseada em pressupostos longamente cultivados na Europa e na América do Norte.
ARTIGO – A COMPLEXIDADE DO CRISTIANISMO
Passando um olhar panorâmico sobre a história do cristianismo, descobrimos que dois fatores, vindos de fora, o complexificam e dificultam descobrir nele a herança de Jesus de modo claro e inequívoco: a chamada ‘leitura grega’, que desde o século III dC influencia o movimento de Jesus, e o ‘fator iraniano’ (ou ‘zoroastra’), que, desde o século VI aC influencia o judaísmo e, indiretamente, o cristianismo, por meio da própria cosmovisão de Jesus. Vale a pena se aprofundar, mesmo superficialmente (como aqui) no tema da complexidade do cristianismo, pois ela dificulta e, em certos casos, impede uma visão clara das proposições de Jesus. A leitura grega. As sensacionais conquistas militares de Alexandre o Grande, da Macedônia, no Médio Oriente, no século III aC, fazem com que a cultura helênica se espalhe por grandes extensões de terras e culturas muito diversas e atinge cidades importantes da época, como Antioquia na Síria, Alexandria no Egito e mesmo a longínqua Roma, que desponta como centro virtual de um grande Império. Um sinal muito conhecido dessa avassaladora influência está no fato que os evangelhos, embora descrevam um movimento surgido numa cultura semita, estão redigidos em grego. É nesse contexto que o neo-platonismo, uma das mais significantes ‘ondas’ desse tsunami cultural, inunda o jovem movimento cristão, como descrevo em rápidas pinceladas. Quando, no ano 244 dC, o filósofo alexandrino Plotino de Licópolis (203-269) aparece em Roma, na época centro de um Império em rápido crescimento, e inaugura ali uma escola de filosofia neo-platônica para jovens da elite intelectual romana, ele alcança em poucos anos um renome extraordinário. Com ele penetra, no âmbito da intelligentia do Império Romano, de modo convincente, um modo grego de se entender o homem e a história, especificamente uma interpretação platônica do ser humano e do sentido de sua existência. Essa filosofia, na realidade uma arte de viver, não deixa de penetrar no cristianismo letrado e intelectualizado da época, notadamente por meio dos chamados ‘Padres da Igreja’, que são os intelectuais cristãos do primeiro milênio do cristianismo. Através de seus numerosos escritos, os Padres da Igreja tentam fazer uma síntese entre o pensamento platônico e a visão evangélica do mundo. Com eles, o platonismo se ‘cristianiza’, ao mesmo tempo em que o cristianismo se ‘platoniza’. As ideias-mestres do platonismo são conhecidas: abaixo do mundo divino, não atingido pelo mal, existe a matéria, onde a luz divina só penetra em forma de sombra (veja o ‘mito da caverna’, de Platão). A matéria é o último reduto das trevas. O corpo humano, morada da alma na matéria, é um espaço ambíguo: pode deixar-se seduzir pelas formas vãs da matéria, ou deixar-se fascinar pela luz imaterial. O corpo é prisão e sepulcro, mas é capaz de tornar-se trampolim para a luz. Precisa a alma tomar distância diante dos impulsos do corpo, por meio do amor pelas realidades espirituais, ou melhor, da purificação do amor. O homem precisa partir do mundo material e se encaminhar para o que é espiritual. Precisa a alma arrancar tudo de si para amar o que é invisível, fechar os olhos diante da materialidade e esperar o Deus que vem, assim como, antes da aurora, nossos olhos esperam a chegada da luz do sol. Quando o sol chega, ele logo toma conta de tudo. A luz espiritual dissipa as trevas da matéria. A maioria dos Padres da Igreja julga que o encontro entre neo-platonismo e cristianismo leva a um enriquecimento da mensagem de Jesus. Só alguns deles, como Basílio de Cesareia (330-379), percebem que, no processo da espiritualização, a perspectiva social, tão presente nos evangelhos, corre o perigo de desvanecer e que, por conseguinte, não se pode falar em ‘síntese’ entre cristianismo e neo-platonismo, já que os elementos da ‘fusão’ são heterogêneos. Seria antes um ‘amálgama’, um hibridismo, uma junção de elementos heterogêneos. Mas essa crítica não prevalece. Vence a ideia que o drama da vida cristã se processa entre a alma e Deus. Os impulsos do corpo têm de ser controlados e possivelmente eliminados,enquanto o ápice da experiência cristã passa a ser a êxtase, a contemplação de Deus. Pois, impregnado de um senso religioso agudo e místico, o neoplatonismo faz com que muitos confundam as coisas e não consigam mais distinguir com clareza a diferença entre ensinamentos de Jesus e ensinamentos de Platão. Há de se ressaltar aqui que a interpenetração entre cristianismo e neoplatonismo se processa de forma lenta, quase imperceptível, e nem sempre aparece com clareza no nível dos textos. Nem sempre é fácil saber se tal Padre da Igreja é um pensador cristão ou um neoplatônico que trabalha com imagens e símbolos cristãos. Esse é o caso de Agostinho de Hipona (354-430). Ele faz parte de um grupo de amigos não cristãos, da África do Norte, que viajam de Cartago a Roma e depois a Milão, na companhia de Mônica, mãe de Agostinho, que é cristã. O grupo procura emprego na Itália, aos poucos renuncia a uma vida de prazeres e passa a procurar a sabedoria. É um grupo seleto, que cultiva altos ideais de vida, tem grandes intuições, formula excelentes orientações morais e segue um elevado modo de viver. Depois de tentar diversas filosofias de vida, o grupo entra em contato com a espiritualidade neoplatônica e, quase ao mesmo tempo, ao chegar a Milão, se impressiona com Ambrósio, bispo cristão, grande orador e figura de elevada estima moral. O grupo de amigos, então, se estabelece em uma propriedade rural num vilarejo nos arredores da cidade de Milão, chamado Cassiciacum. Ali, todos leem e trocam opiniões. São idealistas em busca de uma alma espiritual, que já deixaram para trás os prazeres da carne pecaminosa. A situação dos escravos, em seu redor, não retém a atenção do grupo. Num trecho das Confissões (7, 8) de Agostinho, se evidencia que, para ele, a escravidão é algo normal, faz parte da vida. Enfim, o modo de vida do grupo em Cassiciacum facilita a aproximação entre cristianismo e neoplatonismo, mas dificulta o senso evangélico. Em suas Confissões, Agostinho afirma
ARTIGO – O ESPELHO COMO ELEMENTO PARA EXPLICAR A RELAÇÃO BEBÊ E MÃE
O primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe: o seu olhar, sorriso, expressões faciais, tom de voz… Mais adiante, ele completa com outra frase que traduz o possível, protopensamento da criança: ‘olho e sou visto, logo, existo’. Sem esse olhar reconhecedor da mãe, a criança cai num estado de desamparo, sendo que pior do que o espelho de uma mãe que distorce a imagem do filho quando ela responde e reflete mal as necessidades dele, é quando essa mãe comporta-se como um espelho embaçado, opaco, que nada reflete (Zimerman, p. 112). A convivência entre mãe e filho expressa no amor e cuidado, baseia-se em uma unidade inconsciente de intima e mútua relação. Os primeiros momentos de existência são marcantes na formação da personalidade. Por outro lado, o que acontece de ruim pode ser traumático, vejamos o que acontece com um bebê quando ainda nos primeiros meses de existência sofre com o abandono materno. Como diz Melanie Klein: Ao mesmo tempo, a frustração, o mal-estar e a dor, percebidos, segundo sugeri, como perseguição, entram também em seus sentimentos a respeito da mãe, por que os primeiros meses ela representa para a criança o todo do mundo externo; desse modo, tanto o que é bom como o que é mau chegam-lhe à mente provindo da mãe, e isto leva a uma atitude dúplice em relação a ela mesmo sob as melhores condições possíveis (KLEIN, Malainie. O sentimento de solidão, p. 4). Uma criança possui, embora de maneira inconsciente a capacidade de amar e odiar. Os impulsos destrutivos e seus concomitantes – tais como o ressentimento por frustração, o ódio que ela desperta, a incapacidade para se reconciliar, e a inveja do objeto todo poderoso, a mãe, de quem dependem sua vida e seu bem-estar – essas várias emoções despertam ansiedade persecutória na criancinha (KLEIN, p.4). Para a concepção freudiana existem dois tipos principais de angustia, a mais primitiva, conhecida como automática e a de sinal. Ambos os tipos de angustia, a automática e o sinal, são tidos como derivados do ‘desamparo mental da criança pequena, que equivale ao desamparo biológico’. A angústia automática ou primitiva denota uma espécie de ração espontânea ligada a um medo de destruição completa resultante da sensação de opressão total; não implica a capacidade de julgar ou perceber a origem dos estímulos irresistíveis e diferencia-se, assim, do sinal de angústia. A função do sinal de ‘angústia que a ansiedade primaria (automática) nunca seja sentida, ao permitir que o ego tome precauções de defesa’ (grifo meu). Portanto, estamos falando de uma situação em que aprendemos a distinguir os indícios ou sinais de aviso assimilados em experiências anteriores ruins, desagradáveis ou traumáticas, a fim de evita-los (EMANUEL, Ricky. Conceito de psicanálise – angustia, p. 16). Emanuel fundamenta a angustia como uma dor psíquica. Essa dor, embora cause profundo sentimento, é necessária para o desenvolvimento da criança. Tanto a demasia ou falta da dor impedem o desenvolvimento. O fundamental é que não falte a figura da mãe que o compreenda e esteja sintonizada com suas emoções. Os gritos do bebê atraindo e sendo acalentado pela mãe não são expressões consciente, mas são ações de conflito. Eles se traduzem em pedido por conforto levando a assimilar que a mãe representa segurança e que está sendo compreendida. Isso contribui para descoberta dos sentimentos e de seus significados. Quando a criança não encontra a mãe compreensiva em que projeta suas emoções, ocorre que esforçará ainda mais para livrar-se dos sentimentos ruim, piorados por não ser compreendida e atendida. Esta criança terá dificuldade em internalizar sobre seu eu. Dessa forma terá dificuldade para desenvolver um método de lidar com as emoções. Isso significa que procurará adicionar os mecanismos de defesas com mais intensidade. Lidar com o ser humano é um dos desafios mais incrível e também uma das experiências mais fantástica. Cada pessoa carrega uma capacidade de conhecimento e transformação inesgotável. Assim, enquanto mais conhecemos uma pessoa, mais descobrimos que precisamos conhece-la.
RELIGIÃO – As mulheres livres são um perigo. No Irã e não só. Artigo de Shady M. Alizadeh

O silêncio que acompanha a resistência de mulheres e homens no Irã tornou-se insuportável e encontra eco no resto do mundo. É nossa tarefa fazer ecoar o canto de liberdade e democracia no Irã. O artigo é de Shady M. Alizadeh, advogada e ativista Mulher, Vida, Liberdade, publicada por Domani, 25-11-2024. A tradução é de Luisa Rabolini. Em realidades como a da República Islâmica, mas também em muitas outras partes do mundo, as mulheres livres são consideradas um perigo. É por isso que somos chamadas de “loucas”. As mulheres iranianas, na realidade, são heroínas para todas nós, porque conseguem erguer a cabeça contra um regime belicista. Mulher, Vida, Liberdade não é apenas um lema, mas representa uma visão clara da sociedade e do mundo que assusta porque redesenha os limites do poder e dos poderosos e se contrapõe ao poder patriarcal e violento que só quer abusar e possuir nós, mulheres. Nós, mulheres, relegadas às margens, encarnamos a hipótese obstinada e não mais clandestina de que uma sociedade alternativa sem violências, ódio, abusos e guerras é possível. O que o movimento representa uma clara convicção de que um mundo diferente é possível, um mundo que não nos odeie, e que acabe com essa guerra secular contra nós. Há 45 anos, o povo iraniano está empenhado em uma resistência, também feminista, para a obtenção da liberdade, por um Estado iraniano democrático contra um regime que odeia suas próprias cidadãs e seus próprios cidadãos. Dois anos após o assassinato de Mahsa Jina Amini, testemunhamos violências contínuas, detenções, estupros, torturas, assassinatos e prisões contra aqueles que se manifestam em solidariedade às mulheres. No mês de julho, o regime islâmico condenou à morte Sharifeh Mohammadi, sindicalista, e Pakhshan Azizi, ativista curda iraniana. A culpa deles é a de violar a segurança do Estado. Desde 30 de julho, e todas as terças-feiras da semana, as mulheres no Irã fazem greve de fome promovida por Narghes Mohammadi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2023, e outras ativistas presas na prisão de Evin para exigir o fim das execuções. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui
MUNDO – Uma COP que caiu no poço (por José Sarney)

Os países ricos pensam que irão salvar-se, com esses 300 bilhões de dólares Uma longa e prolongada salva de palmas explodiu quando o Presidente da COP29 anunciou que tinham chegado a um acordo: 300 bilhões de dólares dos países ricos para financiar medidas destinadas a combater e limitar o aumento do clima no mundo. Mas logo em seguida levantou-se um dos delegados — eram três horas da manhã — e disse: “Estes aplausos não são para este vergonhoso acordo, mas sim porque o Sr. Presidente anunciou que está encerrada esta fracassada Conferência.” Nesse momento repetiram-se os aplausos. Os delegados, exaustos, dormiam por todos os lados, uns em sofás amassados, outros no chão em grossos tapetes. Uma coisa muito difícil é o êxito dessas conferências. Esta, a COP29, dias antes do fracasso, transferiu a solução dos financiamentos dos países em desenvolvimento para a próxima Conferência, já convocada para Belém, que tem a sedução chamativa de ser localizada na cidade que fica na foz do Rio Amazonas, com toda a sua grandeza, suas lendas e seus mistérios. A primeira reunião promovida pelas Nações Unidas em busca de um pacto global para enfrentar o problema do Meio Ambiente e o despertar do mundo para a destruição da natureza e a liberação de gases tóxicos ocorreu em Estocolmo, em 1972, quando pela primeira vez se discutiu um novo modelo de desenvolvimento. Eu era Senador nesse tempo e fiz o primeiro discurso no Congresso Nacional sobre Meio Ambiente, analisando o que fora discutido em Estocolmo. Já em 1989 eu era Presidente do Brasil e apresentamos o Brasil para sediar a Segunda Conferência do Meio Ambiente, fizemos um acordo para que se realizasse no Rio de Janeiro, o que foi aprovado: em 1992, quando eu já tinha deixado o Governo, ocorreu a Rio-92, também conhecida como Eco-92. A Conferência foi um sucesso, com grande repercussão social, e despertou o mundo. Mas o problema do clima ainda não era a bola da vez. Assim, estamos agora, com evidência científica, sabendo que, se não enfrentarmos seriamente o aquecimento global até o fim do século, os oceanos crescerão, as cidades das orlas estão ameaçadas de inundação, as chuvas aumentarão, assim como o número de tsunami, de secas e desastres climáticos, e assim começará a destruição da Terra. Fonte: Site Metrópoles Matéria Completa: Acesse Aqui
POLÍTICA – Apontamentos sobre a “crise” na caserna. Artigo de Manuel Domingos Neto

O indiciamento de militares golpistas suscita muitas reflexões. Pode haver reações violentas dos comandantes? O STF se intimidará? Como afastar as corporações da política? Debate deve ser sóbrio e passar por uma nova concepção de Defesa Nacional. O artigo é de Manuel Domingos Neto, historiador, professor, pesquisador, escritor e político brasileiro que foi deputado federal pelo Piauí, publicado por Outras Palavras, 25-11-2024. Eis o artigo. Estivemos à beira de mais uma ditadura? Estaremos sempre, enquanto persistir a síndrome pós-Guerra do Paraguai. Homens armados se veem superiores aos desarmados. Se bem treinados, maior a sensação de superioridade. Se enfileirados, uniformizados e afastados da convivência social, imaginam-se capazes de tudo. Pretendem-se dignos de glória e subjugam os que lhes sustentam. Para o poder político, comandá-los é tarefa obrigatória. Não há meios termos: ou comanda ou é submetido. Os ânimos nos quais quartéis estão acirrados? O clima é de apreensão sobre os desdobramentos das investigações. Há profundo mal-estar com a saraivada de denúncias e críticas desabonadoras. Corporações têm instinto de defesa: percebendo-se atacadas, tendem a se unir, não a se fragmentar. Ocorrerão tentativas de intimidar a Justiça e o Comandante Supremo das Forças Armadas. É preciso enquadrar os oficiais da ativa e da reserva que extrapolem. Caso os comandantes das corporações não enquadrem os ativistas explícitos, estarão prevaricando. Pode haver reações violentas dos comandantes? Não creio. Sabem que perderão. Os militares aprenderam a planejar, a agir por “aproximações sucessivas”. Certamente, há pressões internas, mas nada que arranhe a cadeia de comando. As corporações respeitarão a Justiça? Vejamos como será o processo judicial. A Justiça vai contemporizar? Essa é a tendência. O “diálogo” desmoraliza a Justiça, assim como o poder político. Militar é preparado para obedecer, não para dialogar. Se o militar não sentir firmeza na autoridade, buscará submetê-la. O inquérito da PF atinge de fato todos os responsáveis? De forma alguma. Até agora, atingiu criminosos notórios, o que representa um grande feito. Mas, Villas Bôas, incentivador de baderneiros, ficou fora da lista. Todos os comandantes de unidades que agasalharam golpistas em suas calçadas têm contas a prestar. Os que discursaram nos quartéis, nem se fale. Aguardemos o andamento do processo. O STF não pode se intimidar. Se mostrar medo, a porta do inferno continuará aberta. O prosseguimento das investigações mostrará os comandantes de unidades militares que prevaricaram ao permitir acampamentos de baderneiros. Esses ajuntamentos sediciosos foram financiados por políticos e empresários, que também devem contas à Justiça. Não estou propondo o aprisionamento de milhares de oficiais. Mas a análise das responsabilidades corporativas é imprescindível. Essa não é apenas tarefa da Justiça, mas do Parlamento e do Executivo, que só agirão pressionados pelo movimento democrático. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui
MUNDO – “Absolutamente insano”: funcionários do Pentágono sobre o plano de Trump de usar militares na deportação de imigrantes

O artigo é de Silvio Falcón, cientista político, publicado por La Marea e reproduzido por Outra Palavras, 25-11-2024. A tradução é de Rôney Rodrigues. “Donald Trump fez campanha com a promessa de fazer deportações em massa e, na segunda-feira (18 de nov), disse que a sua administração usaria os militares dos EUA para realizar esta expulsão de milhões de pessoas, muitas das quais vivem nos Estados Unidos há anos ou mesmo décadas”. A reflexão é de Nick Turse, em artigo publicado orginalmente no The Intercept, e reproduzido por Voces del Mundo, 22-11-2024. A tradução é do Cepat. Nick Turse é editor-chefe do TomDispatch e membro do Type Media Center. Seu livro mais recente é Next Time They’ll Come to Count the Dead: War and Survival in South Sudan e é autor do best-seller Kill Anything That Moves. Donald Trump fez campanha com a promessa de fazer deportações em massa e, na segunda-feira (18 de nov.), disse que a sua administração usaria os militares dos EUA para realizar esta expulsão de milhões de pessoas, muitas das quais vivem nos Estados Unidos há anos ou mesmo décadas. Historicamente, os militares dos EUA não desempenham funções de controle da imigração e normalmente não desempenham funções policiais. Mas quando Tom Fitton, presidente do grupo conservador Judicial Watch, publicou nas redes sociais que a próxima administração “usará recursos militares para reverter a invasão de Biden através de um programa de deportação em massa”, Trump respondeu: “Verdade!!!”. O governador do Texas, Greg Abbott, já seguiu a estratégia legal de declarar que o fluxo de imigrantes é uma “invasão”, argumentando que o governo federal descumpriu seu dever constitucional de proteger os Estados de potências estrangeiras e que o Texas deveria ter o direito de usar a sua Guarda Nacional como força de deportação. Os deputados republicanos do Arizona fizeram a mesma afirmação. Trump também sugeriu anteriormente que recorreria a poderes de guerra para colocar o seu plano em prática. O Pentágono rejeitou publicamente a promessa de Trump de usar os militares para fazer deportações em massa. “O Departamento não comenta hipóteses nem especula sobre o que pode ocorrer”, disse um porta-voz do Departamento de Defesa ao The Intercept. Nos bastidores, os funcionários estavam exasperados. “É absolutamente insano”, disse um funcionário do Pentágono que pediu para não ser identificado porque não estava autorizado a falar com a imprensa sobre o assunto. “Nunca pensei que veria o dia em que esta seria uma política ‘séria’ – coloque entre aspas”. Ele disse que os obstáculos legais e logísticos seriam imensos e que a proposta era “pouco realista e pouco séria”. Outro funcionário do Departamento de Defesa de um escritório diferente, que também não estava autorizado a falar com a imprensa, teve quase exatamente a mesma reação. “É uma loucura”, disse sobre o anúncio de Trump. “No primeiro dia do meu mandato, lançarei o maior programa de deportação da história americana para expulsar os criminosos”, disse Trump durante um comício no Madison Square Garden, em Nova York, nos últimos dias da campanha presidencial. “Resgatarei cada uma das cidades que foram invadidas e conquistadas, e colocaremos esses criminosos cruéis e sedentos de sangue na prisão, e então os expulsaremos do nosso país o mais rápido possível”. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui
Uruguai: a esquerda volta de cara nova. Artigo de Silvio Falcón

Quem é o novo presidente, discípulo de Mujica. Como a renovação de quadros e o convite ao diálogo nacional foram chaves. O grande desafio do novo governo: aumento da violência, num dos “países mais seguros da América do Sul”. O artigo é de Silvio Falcón, cientista político, publicado por La Marea e reproduzido por Outra Palavras, 25-11-2024. A tradução é de Rôney Rodrigues. Eis o artigo A Frente Ampla é, há vinte anos, a principal força política no Uruguai. Ao contrário do que se poderia entender numa perspectiva europeia, este é um fenômeno sem precedentes na política latino-americana, em tempos de polarização e num contexto de ascensão de populismos. O sistema partidário deste pequeno país só mudou para garantir um lugar privilegiado a esta coligação de partidos de esquerda, que consolidou a sua presença institucional através das duas presidências de Tabaré Vázquez e do mandato de Jose Mujica. Os adversários da Frente Ampla têm sido os blancos e colorados: o Partido Nacional e o Partido Colorado, que durante o último mandato liderou a chamada coligação multicolor que levou Lacalle Pou à presidência. Em 2019, o candidato da Frente Ampla, Daniel Martínez, venceu no primeiro turno (40,49% dos votos), mas foi derrotado pelo atual presidente por uma margem muito estreita (50,79% contra 49,21%). Essa experiência serviu à Frente Ampla para renovar a sua cara e aproveitar a força do seu poder territorial para construir a candidatura presidencial deste ano. Nas eleições internas da Frente Ampla, uma espécie de primárias abertas a todos os cidadãos, os dois pré-candidatos que aspiravam a liderar a candidatura de esquerda vieram de cargos relevantes na estrutura departamental do país: a prefeita de Montevidéu, Carolina Cosse, e o prefeito de Canelones, Yamandú Orsi. Este último contou com o apoio do Movimento de Participação Popular (MPP), força política dos antigos guerrilheiros tupamaros liderada pelo casal Mujica-Topolanski. A clara vitória de Orsi (59,1%) contra Cosse (37,6%) permitiu-lhe afirmar-se como candidato da Frente e, ao mesmo tempo, como sucessor de Mujica. A candidatura resultante aproveitou todo o capital político de formação, já que Orsi incorporou Cosse como candidato à vice-presidência, formando um poderoso contingente eleitoral com várias matizes. Desde o retorno da democracia em 1985, a política uruguaia tem sido marcada por homens de uma geração similar – nascidos entre as décadas de 1930 e 1940 – como os ex-presidentes Sanguinetti, Batlle, Luis Alberto Lacalle ou os próprios Tabaré e Mujica. Nas fileiras da Frente Ampla, uma terceira figura completa este mapa geracional: o ex-ministro da Economia e ex-vice-presidente Danilo Astori. Estes antigos líderes morreram ou retiraram-se da linha de frente política devido à idades avançadas. O último a fazê-lo foi o incombustível ex-tupamaro Mujica, com um discurso contundente sobre as mudanças na política: “Os melhores líderes são aqueles que saem de um grupo que os supera com vantagem”. O legado de Mujica hoje leva o nome do novo presidente do Uruguai, Yamandú Orsi. A direita uruguaia, porém, soube interpretar esta mudança geracional antes da esquerda, lançando Luis Lacalle Pou em 2019, e usando uma campanha presidencial que usou o poder da comunicação política. Qualquer uruguaio que votou em 2019 se lembra do jingle eleitoral dos blancos, que promovia mudanças positivas; uma modernização que contrastava com as antigas lideranças. “É agora”, dizia a comunicação da campanha. E então ele se fez presidente. A impossibilidade de reeleição imediata no sistema presidencial uruguaio obrigou o partido de centro-direita que estava no poder a mudar de candidato. Álvaro Delgado, ex-secretário da Presidência do governo Lacalle Pou, foi o escolhido pelos blancos. No primeiro turno, Delgado (26,82%) ficou longe dos resultados obtidos por Orsi (43,92%), mas chegou ao segundo turno com a possibilidade de reeditar uma coligação de direita com o Partido Colorado (16,07%), os ultradireitistas de Cabildo Abierto (2,48%) e do Partido Independente (1,70%). A única saída para a direita se manter no poder exigia reavivar a coligação multicolor, mas nesta disputa eleitoral surgiu uma nova força populista (Identidade Soberana, 2,8% dos votos) que solicitou o voto nulo no segundo turno. Uma decisão que, face aos resultados, foi decisiva na eleição de Orsi. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui
ARTIGO – MOVIMENTO DAS FAMÍLIA DOS PADRES CASADOS
Gentilmente fui convidada a enviar periodicamente uma contribuição para um boletim do Movimento das famílias dos padres casados. Confesso minha dificuldade em estabelecer temas quando não me pedem em especial um e quando não conheço pessoalmente ao menos algumas pessoas que serão meus leitores e leitoras. Nessa estranha situação acolhi o convite e começo a escrever o primeiro texto com prazer. Fiquei me perguntando sobre o que significa hoje a expressão ‘Padres casados’ e mais, o que significa ‘Famílias dos padres casados’ e ‘Movimento das mesmas famílias’. O que de fato estão buscando? A primeira palavra que me veio à mente foi “transgressão”. Por que essa incômoda palavra surgiu como primeira? Creio que a razão está no fato de que na Igreja Católica Romana juntar a palavra ‘padres’ com ‘casamento’ é uma inadequação canônica, isto é, uma transgressão ao direito canônico estabelecido. Em seguida me perguntei por que os homens ordenados sob um direito canônico em muitos aspectos anacrônico querem guardar a identidade de padres, querem expandi-la para suas famílias, querem torna-la um movimento de luta? Senti-me impotente em responder as perguntas que eu me fazia visto não estar vivendo nessa situação. Porém, teoricamente imaginei que talvez alguns membros desse movimento ainda acreditem no ‘sacerdócio eterno segundo a ordem de Melquisedec’. Em outras palavras acreditam que o sacramento da ordem é marcado pela noção de eternidade e sobretudo gostariam de conservá-la e serem reconhecidos pelos fiéis. Por quê? Não seria essa ainda uma teologia anacrônica que mereceria uma séria revisão crítica? Outros talvez queiram forçar a Igreja institucional a abrir-se para o pluralismo de escolhas sacerdotais e não estabelecer o celibato como norma para a ordenação de padres. Mesmo assim , fiquei me perguntando se esse seria um bom caminho para fazer reformas na Igreja Católica Romana, se era isso que as comunidades cristãs de fato estão precisando. Ordenar homens casados, solteiros, viúvos, mulheres, homossexuais, transsexuais etc., no mesmo modelo de Igreja hierárquica e com conteúdo que pouco fala aos corações. Seria talvez para alguns um desejo de abertura para o pluralismo do mundo atual e suas múltiplas reivindicações, porém sem a apresentação de mudanças teológicas nos conteúdos que sustentam essas rubricas não vejo reais possibilidades para isso. A segunda palavra que me surgiu para esse primeiro texto foi ‘ministério’. Me perguntei se no fundo alguns padres casados não gostariam ainda de dirigir uma paróquia, fazer parte das reuniões presbiterais nas diferentes dioceses, reunir-se com os bispos e viver num estilo semelhante ao dos pastores protestantes. Talvez ainda guardem a nostalgia de muitos aspectos de seu antigo sacerdócio. Mais uma vez, teoricamente me perguntei se isto traria de fato alguma mudança nas estruturas da Igreja Católica, na sua teologia idealista e cheia de categorias filosóficas abstratas. Fiquei me perguntando se apesar do matrimônio e da família haveria algo do ponto de vista da qualidade da vida cristã que se acrescentaria ao ministério dos homens casados, não mais celibatários canonicamente e que incluísse até uma proposta de vivências para suas famílias. Então surgiu a terceira palavra e essa foi ‘conversão’. Esta será a última da tríade que lhes apresento nesse breve artigo. A palavra conversão surge no contexto atual de nosso mundo eivado de violências, de destruição, de guerras, de usurpação de países e de poderes. O que é mesmo conversão? Conversão a que? Conversão a quem? Do ponto de vista ético a palavra conversão indica a necessidade de uma mudança de vida pessoal e coletiva, uma mudança que mostrasse o avesso no direito e o direito presente no avesso. Isto quer dizer uma mudança não apenas de palavras ou de algumas práticas litúrgicas, mas de algo que significasse uma mutação na própria pessoa e de tal forma que essa mudança repercutisse positivamente no seu entorno. Creio que a grande mudança é a percepção e a vivência de que de fato Jesus de Nazaré não era da classe sacerdotal do judaísmo de seu tempo, não tinha acesso livre ao Templo e às sinagogas e não se sabe com clareza se era celibatário ou não. A Igreja que se estabeleceu depois de sua morte copiou e justificou modelos imperiais colonialistas. Constituiu sua teologia de forma hierárquica e masculina. Excluiu estrangeiros, pobres, impuros, mulheres de uma comunhão igualitária e em seguida afirmou que tudo isso era segundo Jesus e segundo seu Pai, o Deus todo poderoso. Essa Igreja se expandiu com os impérios desse mundo. Julgou outras crenças, condenou-as para que se impusesse a limitada verdade dos colonizadores. Hoje estamos vivendo aspectos diferenciados desse colonialismo que perdura de outras formas. Talvez estejamos convencidos de que isso aconteceu apenas no passado e não mais no presente. Cuidado !Há que observar com atenção os acontecimentos da história dos diferentes países e o lugar das religiões. Tudo isso talvez já seja conhecido pelos leitores e leitoras, mas vale lembrar que a conversão é um convite sempre dirigido primeiro a cada pessoa em vista da acolhida dos caídos nas estradas da vida. É em primeiro lugar um processo pessoal interior ético, uma caída dos ‘cavalos’ que nos sustentam, uma acolhida da vida como ela se apresenta sem as máscaras e as rubricas eternas que queremos impor-lhe para torna-la sagrada. Todas as vidas são sagradas e não são as leis canônicas e os títulos distintivos que assim as tornam. Mas sua própria existência como vida plural, sua evolução contínua, sua beleza semeada nas pequenas e grandes coisas é que manifesta sua dimensão sagrada, isto é, sua dimensão de gratuidade e grandiosidade. Será que ainda valem as rubricas passadas para que nossa autoridade ética seja reconhecida? Não podemos esquecer que Jesus afirmava que ‘não podia ser assim entre seus discípulos e discípulas’ e que quem tivesse ouvidos para ouvir que ouvisse, e olhos para ver que visse, e corpos para sentir que sinta o palpitar da vida.