RELIGIÃO – O caso Sodalício põe em perigo a soberania do Vaticano, a liberdade religiosa e os esforços antiabuso

Ano passado, o Papa enviou os seus dois principais investigadores em casos de abuso sexual, o arcebispo maltês Dom Charles Scicluna, e o monsenhor espanhol Jordi Bertomeu, ao Peru para abrir uma investigação sobre o Sodalitium Chistianae Vitae Admito que sugerir que Castillo, de 74 anos, pode enfrentar o desafio imediato mais difícil de qualquer um dos novos cardeais é uma afirmação ousada. Afinal de contas, os seus colegas empossados ​​incluem o cardeal Ladislav Nemet, o primeiro cardeal na história da Sérvia, país predominantemente ortodoxo onde os habitantes locais não têm sido tradicionalmente entusiasmados com “a Igreja de Roma”, e o cardeal Dominique Joseph Mathieu de Teerã, no Irã. Não é preciso dizer mais nada. No entanto, quando Castillo regressar ao Peru, encontrará um processo criminal contra um funcionário do Vaticano, com implicações para a imunidade e soberania diplomática do Vaticano, para a liberdade religiosa, para a capacidade do Vaticano de gerir escândalos e má conduta, e para a vontade do clero católico em todo o mundo de responder quando o Vaticano pedir ajuda. Em uma palavra: “Ufa!” Ano passado, o Papa enviou os seus dois principais investigadores em casos de abuso sexual, o arcebispo maltês Dom Charles Scicluna, e o monsenhor espanhol Jordi Bertomeu, ao Peru para abrir uma investigação sobre o Sodalitium Chistianae Vitae, movimento fundado pelos leigos peruanos Luis Fernando Figari em 1971, e que agora enfrenta múltiplas acusações de abuso. No início deste ano, duas pessoas que testemunharam nessa investigação apresentaram uma queixa criminal contra Bertomeu nos tribunais peruanos, alegando que ele tinha violado a sua privacidade ao divulgar as suas identidades e o conteúdo dos seus depoimentos à imprensa. Estas alegações foram contestadas por outras partes, incluindo jornalistas peruanos que afirmam que os seus colegas fotografaram as duas pessoas que saíam da embaixada papal em Lima, onde ocorreram as entrevistas, e foi assim que foram identificadas. Em outubro, a queixa foi transferida por um procurador local para o procurador-geral e não está claro o que acontecerá a seguir. Se tal processo for permitido, poderá estabelecer precedentes preocupantes em pelo menos cinco áreas, nenhuma das quais tem qualquer relação direta com a questão de saber se Bertomeu fez as coisas de que foi acusado. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

MEIO AMBIENTE – Lençóis Maranhenses desbancam Fernando de Noronha como destino de luxo

Os Lençóis Maranhenses se destacaram como o destino preferido dos turistas brasileiros de alta renda, ultrapassando Fernando de Noronha, segundo o Anuário de Tendências de Luxo 2025, produzido pela ILTM em parceria com o Panrotas e TRVL LAB. A pesquisa, realizada com 3.284 pessoas que recebem mais de 20 salários mínimos, revelou que 8,5% dos viajantes de luxo consideram os Lençóis Maranhenses como prioridade para sua próxima viagem, enquanto Fernando de Noronha ficou com 8,1%. O crescente interesse pelo destino maranhense tem atraído grandes investimentos. A rede portuguesa Vila Galé, por exemplo, anunciou a construção de dois resorts de luxo no estado, somando mais de R$ 100 milhões em aportes: o Vila Galé Collection São Luís e o Vila Galé Collection Maranhão. Para Simon Mayle, diretor da ILTM Latin America, os Lençóis Maranhenses atendem às expectativas dos viajantes de alta renda, que procuram destinos com belezas naturais, experiências autênticas e exclusivas. “O Maranhão é muito rico tanto em locais paradisíacos fora do comum, quanto em cultura e gastronomia, o que atrai quem busca história, conhecimento, descanso e calor”, destacou. O estudo apontou que o perfil médio do viajante de luxo brasileiro é composto por pessoas que ganham mais de R$ 30 mil mensais, com predominância feminina e residentes no Sudeste. Esse público realiza, em média, de 2 a 5 viagens nacionais e de 1 a 3 viagens internacionais por ano. A infraestrutura local nos Lençóis Maranhenses está sendo impulsionada pelo mercado hoteleiro, alinhando o destino às expectativas do público de alta renda e reforçando sua posição como novo epicentro do turismo de luxo no Brasil. Fonte: Site O Imparcial Matéria Completa: Acesse Aqui  

SOCIEDADE – Tu vens, tu vens: breve reflexão para cristãos ou não

Aos militantes da teimosa esperança adventícia, cabe mais acender velas que amaldiçoar a escuridão Chegamos ao primeiro domingo do Advento. Esse tempo é mais que “litúrgico”(para quem tem alguma religiosidade): é uma exortação ao renascimento, para todas as pessoas de boa vontade. O evangelho de Lucas (21, 25-28, 34-36) pede ânimo: “levantem-se e ergam a cabeça, porque a Libertação está próxima!” (v. 28). Não se trata de uma fé cega, ingênua, alheia às realidades do mundo. Tanto que o chamado à renovação pessoal e social está emoldurado pela crise, pelas “nações caindo em desespero” (v. 25) e “os homens desmaiando de medo e ansiedade” (v. 26). Foi naquele tempo; é hoje: bombardeios matando população civil (notadamente na terra de Jesus!), planeta doente, exaurido pela ganância, xenofobia expulsando emigrantes, deserdados, exploração do trabalho, racismo, misoginia, homofobia. Entre nós, também a trama golpista contra a frágil democracia, terrorismo do “sr. Mercado Faria Lima” especulando com o dólar, poderosos reagindo à taxação de super-ricos, chantageando para manter a injustiça tributária e aprofundar desigualdades. Enquanto o individualismo cresce no país das apostas, das bets, da “prosperidade” por golpe de sorte, a solidariedade, a luta por direitos, a batalha pelo bem comum parece derrotada. “Tomem cuidado para que os seus corações não fiquem insensíveis, por causa da gula, da embriaguez, das preocupações da vida” (v. 34). O “espírito de Natal”, que o comércio propaga, é, para muitos, o do “compro, logo existo”, do curtir o imediato e dane-se o resto… Mas não! Advento é aposta profética, é acreditar, mais uma vez, no Natal da Eterna Criança, no renascimento, na superação dos males, no sentido redentor do inevitável sofrimento. É desapegar-se de tudo que é efêmero e, atento e forte, elevar-se, em prece e atitude. Nascemos para renascer! “Quanto mais escura a noite, mais carrega em si a madrugada”, profetizou D. Helder Câmara (1909-1999). Aos militantes da teimosa esperança adventícia, cabe mais acender velas que amaldiçoar a escuridão. Para melhor enxergar as possibilidades da História e acreditar que o obscurantismo não prevalecerá! Fonte: Site ICL Notícias Matéria Completa: Acesse Aqui

MUNDO – Assim as universidades se entorpecem

Produtivismo neoliberal levou a Academia à miséria criativa – e burocratizou a produção de saberes. Sofrimento, que poderia ser estímulo à reinvenção da vida, é sufocado por gestão química. Poderíamos construir outra ética do cuidado? O conceito de “saúde mental” é usado de modo amplo e abrangente, relacionado a uma ambição  idealizada de vida equilibrada, significando em nossa sociedade hedonista, vida alegre e sem sofrimentos.  Daí emergirem outros conceitos que lhe dão suporte e vida prática, tais como: “bem-estar emocional”;  “autoconhecimento”; “autocuidado”; “autoestima”; “resiliência”; “relacionamentos saudáveis”; “produtividade e motivação no trabalho” e a busca por “prevenção” que aumente a capacidade de lidar com  situações de estresse, frustração e tristeza, além de estar sempre disposto a enfrentar desafios. Ou seja, o  conceito vai se mantendo em uso, a partir de mudanças em seus arrimos estruturais. Devemos sempre relacionar os modelos de vida humana (ou modos de viver) com a chamada “saúde mental”. Se a “mente” é um conceito herdado da Grécia Clássica (500 a.c. – 300 a.c.), “doença mental” emerge no século XVIII, dando condições para o nascimento da Psiquiatria (Foucault 1961/1978), e é um  termo que permanece sendo usado com muita frequência até hoje. Não é possível que, depois de 260 anos de  criado, esse conceito fique, parafraseando Caetano Veloso, “impávido que nem Muhammad Ali”. Deve ser  questionado, porque se fez insinuando que, nós, humanos, temos uma essência, a qual nos diferencia de todas  as outras espécies vivas, e essa tal essência é nominada como “alma”, “mente”, “subjetividade” ou “psiquê”. O incrível é ainda se sustentar que os nossos sofrimentos humanos são divididos em físicos e  metafísicos, estes se referindo a uma “sofrença mental”. Assim, tanto a mente quanto seu suposto  adoecimento, constituem-se como um “dado evidente”. Isso é espantoso em uma sociedade moderna  sustentada na linguagem dita objetiva e que supõe decodificar a natureza por meio de aparatos tecnológicos. A busca de certos campos do saber por biomarcadores (ou marcadores físicos), para o que se julga não físico, parece infinda. Na disputa por hegemonia biopolítica, as ciências exatas e biomédicas dedicaram-se a  colonizar o território das chamadas ciências humanas e sociais. O projeto de colonização se iniciou na Renascença e teve seu auge a partir do século XIX. Como afirma Foucault, ao se reportar a Psicologia, é preciso acordar desse sono dogmático (Foucault, 1965/2002), se realmente quisermos enfrentar nossas dores, sem nos esquivarmos de suas fontes, recorrendo a drogas, sejam quais elas forem. O psiquiatra e psicanalista húngaro Thomas Szasz, começou a criticar o uso do termo “doença  mental” como um conceito em um artigo datado de 1958. O autor argumenta que se trata de uma construção  teórica não uma verdade factual. Portanto, não é mais nem menos “factual” do que crenças em feitiçarias e   afirmar que alguém está possuído pelo demônio (Szasz, 1979a; 1979b). O autor já apontava que alterações no cérebro ou um “defeito neurológico”, não podem ser automaticamente relacionados com um conceito  efêmero como mente. Fonte: Site Outras Palavras Matéria Completa: Acesse Aqui

SOCIEDADE – “A alegada universalidade e neutralidade do canônico é um ponto de vista masculino”. Entrevista com Adriana Cavarero

A filósofa e feminista italiana Adriana Cavarero (Bra, 1947) comete um roubo de enredo: sequestra certas figuras femininas que aparecem nos textos de Platão (pelas quais o autor não sente uma simpatia especial), e as ressignifica, dando-lhes uma visão, um significado diferente, tornando-as soberanas de si mesmas, com profundidade (e altura) singulares. O resultado, A pesar de Platón (Galaxia Gutenberg). Eis o Artigo Quando é apropriado contrariar o mandamento divino e roubar, saquear, saquear, roubar, descontextualizar? É conveniente quando se deseja reinterpretar o texto filosófico a partir de uma perspectiva inesperada, como a do sujeito feminino que a tradição do texto patriarcal expulsou, confinando as mulheres à esfera doméstica e retirando-lhes a voz. Aristóteles diz, por exemplo, que as mulheres falam, mas as suas palavras não têm autoridade. Basicamente, elas conversam. Mais do que com Platão, não deveríamos confrontar todos aqueles que continuam a manter a desigualdade que encontramos desde o início na maioria dos textos filosóficos? Claro, Platão é apenas o pai da filosofia e todos os seus filhos, ao longo dos séculos, coletando seu legado, aderem à abordagem misógina de filosofar. Nos meus livros roubo todos os seus textos, é um prazer. O que acontece com todas aquelas mulheres que se identificam com Platão, na perspectiva que você combate, com Circe, com Penélope, vista do ponto de vista canônico? É natural que muitas mulheres eruditas continuem a seguir a tradição em que foram educadas. Nas últimas décadas, porém, os Estudos sobre a Mulher e os Estudos de Gênero desenvolveram-se numa grande parte do mundo acadêmico, o que torna mais fácil estar atento à alegada universalidade e neutralidade do ponto de vista canônico, que é na verdade um ponto de vista masculino. O lugar da mulher a que o homem relegou foi o oikos, a casa e os seus habitantes, o mundo da escuta, dos afetos. Será mais a impossibilidade de abandoná-la do que o próprio lugar atribuído que pesou na desigualdade? É difícil escapar a todos os papéis estereotipados que a tradição atribuiu às mulheres e que continuam a pesar na sua vida real. Porém, desde Mary Wollstonecraft e toda a história do feminismo até hoje, a crítica à desigualdade e a consciência da liberdade feminina deram passos gigantescos. Pelo menos no mundo ocidental, há uma grande diferença entre a prisão doméstica em que a minha avó viveu e o mundo das mulheres livres e emancipadas em que as mulheres vivem hoje. O feminismo em que me reconheço tem o objetivo preciso de ajudar as mulheres a pensarem-se fora dos papéis tradicionais, mesmo fora de um modelo de igualdade que corre o risco de assimilá-las aos homens e aos valores masculinos, em suma, ajudá-las a pensar livre na sua diferença. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – LUIZA ERUNDINA 90

1934 – 30 de novembro – 2024: a Deputada Federal Luíza Erundina (PSoL) completa hoje 90 anos. Nas veias e artérias do coração amoroso e  militante dessa mulher irredenta, nascida na pequena cidade de Uiraúna, na Paraíba, corre sangue vermelho em forma de utopia, corre luta, corre tenacidade, correm projetos de emancipação social e de  educação libertadora, construídos coletivamente com a parceria de mãos e mentes solidárias como as de Paulo Freire, o Patrono da Educação Brasileira, por ela convocado para assumir a Secretaria de Educação da cidade-estado de São Paulo durante o seu mandato de Prefeita no período de 1989-1993.   Nordestina como Paulo Freire (este de Pernambuco), Luíza Erundina, formada em Serviço Social, governou para todos a partir da periferia de São Paulo e nunca se dobrou ao preconceito (inclusive de setores da esquerda), à misoginia, ao machismo, ao racismo, à intolerância, à discriminação e à criminalização da política, sobretudo de parte da arrogância financeira da parte mais abjeta e majoritariamente branca da burguesia paulistana. Luíza Erundina, viva, plena de lucidez, generosa, sábia, é sobrevivente de um Brasil que em pleno século XXI continua atravessado e assolado pela mais degradada desigualdade social.   Luíza Erundina, aos 90 anos, mulher de mil lutas, é o que há de mais saudável e ético nesse Brasil em que o Estado (por meio das instâncias governantes) trama contra o Estado Democrático de Direito. Luíza Erundina não se dobra, é cipó de aroeira em meio a uma casa parlamentar ocupada pelo que existe de mais reacionário e regressivo na política brasileira. Luíza Erundina merece lugar de honra no Panteão das Mulheres Irredentas, ao lado de tantas outras, indígenas, pretas, brancas, de todas as cores, mulheres da estatura de Elizabeth Teixeira (viva e a caminho de completar 100 anos em 13 de fevereiro de 2025) e Carolina Maria de Jesus, para aqui me ater a uma Trindade Paradigmática.   LUÍZA ERUNDINA, guerreira do povo brasileiro!

ARTIGO – OS SURPREENDENTES “ESCRITORES” DO NOVO TESTAMENTO

  A biblista inglesa Cândida Moss publicou recentemente um livro instigante e intrigante, intitulado: God’s Ghostwriters: enslaved chistians and the making of the Bible (New York, Little Brown, 2024. Em tradução livre: “Os Ghostwriters de Deus: cristãos escravizados e a construção da Bíblia”), em que levanta uma questão nova: será que os autores reconhecidos dos textos do Novo Testamento, como Paulo, Pedro, Mateus, Lucas ou João (Marcos é um caso à parte, como se verá em seguida), efetivamente ‘escreveram’ seus textos, ou há quem escrevia por eles? Ou, de modo mais direto: interferiram, na escrita (e talvez até na redação) de textos fundantes do Novo Testamento, cristãos escravizados, contratados para escrever textos a serem posteriormente creditados aos que comumente consideramos autores do Novo Testamento? …………………………………………………………………….. Eis uma questão instigante, que nos leva a considerar a relação existente, em tempos de Jesus, entre alfabetização e escravidão. Na época do surgimento do cristianismo, apenas 5 a 10 % da população era alfabetizado. Os apóstolos, em geral, eram analfabetos, sendo Paulo de Tarso uma exceção. As sociedades, que viviam sob o comando do Império Romano, eram escravocratas. Com toda naturalidade, pessoas livres (como Paulo, por exemplo) dispunham de escravos, como comprovam os próprios textos. Isso era tão natural que nem se falava do assunto. Era natural também que se relegava a escravos, devidamente preparados, a tarefa de escrever textos. Nisso, a escravidão antiga se diferenciava da moderna, atlântica, que mantinha os escravos no analfabetismo. Mas como, nos tempos do Império Romano, o ato de escrever era uma tarefa penosa, árdua e cansativa, havia casos de escravos alfabetizados que se punham a serviço de escritores analfabetos. A expressão ‘escritores analfabetos’ parece contraditória, mas ela expressa uma realidade. Estamos falando de uma época em que não existiam óculos (hoje, 40 % da população mundial dispõem [ou pode dispor] de óculos), em que a prolongação no ato de escrever provocava artrite, ou seja, desgaste das cartilagens dos dedos, uma época sem eletricidade, sem imprensa, sem meios de copiar textos mecânica ou digitalmente. A tese de Cândida Moss implica em admitir que, ao longo dos primeiros duzentos anos da tradição cristã, os textos, salvo raras exceções, tenham sido escritos por cristãos escravizados ou ‘libertos’. Só a partir do século IV, tarefas como escrever, copiar e recopiar textos do Novo Testamento, foram assumidas por monges, nos mosteiros. …………………………………………………………………….. O caso de escravos ‘escritores’ fica patente nas Cartas de Paulo. Mesmo alfabetizado e muito culto, Paulo não costumava escrever suas cartas. No final de diversas delas se encontra uma frase escrita por ele do próprio punho (em grego: ‘tè emè cheiri’, ‘com minha mão’) (2 Tess. 3, 17-18; Col. 3, 13; Gal. 6, 11; 1Cor. 16, 21; Filêmon, 19), como se fosse uma ‘assinatura’ a garantir a autoria intelectual de Paulo. No final da Carta aos Gálatas (6, 11), Paulo insiste: essas palavras, escritas em GRANDES LETRAS, são a prova que a carta é minha. E, no final da Segunda Carta aos Tessalonicenses (3, 18), ele lembra: eu deixo um sinal (em grego: ‘sèmeion) em cada carta. Isso permite afirmar que Paulo tinha, então, à sua disposição, ‘discípulos de Jesus’, provavelmente escravos ou libertos, que executavam a tarefa de escrever suas cartas. Mas será que esses ajudantes eram apenas ‘copistas’ a anotar textos ditados pelo apóstolo? Há uma frase, no final da Carta aos Romanos, que nos faz duvidar. Em Romanos 16, 22, o ‘secretário’ Tértio envia uma saudação pessoal aos/às leitores/as da Carta, em que declara: eu, Tértio, que escrevi esta Carta, os saúdo no Senhor. Tértio, reconhecidamente, é nome de escravo. Então, surge a dúvida: Tértio só taquigrafou palavras ditadas por Paulo, ou teve um papel mais criativo na redação da carta? Não o sabemos. A mesma dúvida paira sobre o Evangelho de João. No final (21, 24), se lê a seguinte frase: Este é o discípulo (em grego ‘mathètès’) que dá testemunho destas coisas e as pós por escrito (em grego: ‘ho grapsas tauta’). Quem é esse discípulo? A frase ganha peso quando lemos os versículos seguintes: Ora, Jesus fez ainda muitas coisas. Se todas elas fossem escritas, creio que nem o mundo inteiro poderia conter os livros. Um texto como esse faz crer que houve, ao longo dos setenta anos entre a morte de Jesus e a redação do Evangelho de João, um intenso intercâmbio, entre comunidades do discipulado de Jesus, de histórias oralmente contadas e recontadas. Que rol cabia a cristãos escravizados nesse intercâmbio? …………………………………………………………………….. A hipótese de Cândida Moss nos ajuda a refletir sobre a transmissão da mensagem cristã nos primeiros anos do movimento de Jesus. Em culturas orais costuma vigorar o ditado: quem conta um conto, aumenta um ponto. É de se supor que, ao longo das transmissões, de boca em boca, histórias (como a da transformação de água em vinho, nas Bodas de Caná, por exemplo, ou de Jesus andando sobre as águas) tenham assumido feições sempre mais impressionantes. Os patentes exageros, recorrentes em relatos evangélicos, nos levam a fazer algumas perguntas: que relação existe entre essas histórias, oralmente transmitidas durante um período de pelo menos quarenta anos (entre a morte de Jesus e a redação do primeiro evangelho, o de Marcos, por volta do ano 70), e os escritos evangélicos que hoje lemos? Que papel coube a discípulos escravizados no ato de transmitir essas histórias? Qual a relação entre o texto que hoje lemos e a tradição oral anterior? …………………………………………………………………….. Enfim, a tese de Cândida Moss nos instiga a estudar com maior profundidade a relação entre cristianismo emergente e escravidão. O caso de Marcos evangelista nos faz refletir nesse sentido. Se acreditarmos numa informação do escritor cristão Papias de Hierápolis, por volta dos anos 120 dC, então é provável que Marcos tenha sido um escravo. Papias escreve: Marcos tornou-se intérprete de Pedro. Ele escreveu com precisão tudo o que Pedro se lembrava. Imaginamos Pedro, apóstolo analfabeto, sendo acompanhado por Marcos, escravo ou ‘liberto’, que sabia escrever e se tornou o primeiro evangelista. Marcos gozava de certa liberdade, ao escrever,

RELIGIÃO – Papa aos médicos: “Cuidar sempre, nenhuma vida deve ser descartada”

O Papa elogiou o legado da Universidade e a tradição de excelência que remonta ao imperador Frederico II, seu fundador, que deu origem a uma das mais antigas universidades do mundo. Nesta sexta-feira, 29 de novembro, Francisco dirigiu uma saudação aos profissionais da Universidade de Nápoles Federico II, a mais antiga universidade laica do Ocidente, por ocasião do 800º aniversário de sua fundação. O Santo Padre destacou a importância histórica da instituição e sublinhou os valores que devem guiar aqueles que trabalham na área da saúde, inspirados por uma rica tradição ética e cristã. O Papa Francisco recebeu em audiência, nesta sexta-feira, 29 de novembro, a comunidade acadêmica da Universidade de Nápoles Federico II, composta por reitores, professores e estudantes do setor de medicina odontológica, e proferiu sua saudação relembrando a fundação da universidade, que, há oito séculos, continua sendo um marco histórico na educação e na ciência. Ao iniciar seu discurso, o Papa elogiou o legado da Universidade e a tradição de excelência que remonta ao imperador Frederico II, seu fundador, que deu origem a uma das mais antigas universidades do mundo. O Santo Padre destacou a importância do lema hipocrático que une a lição do grego Hipócrates à autoridade do latino Scribônio: “primum non nocere, secundum cavere, tertium sanare” -“primeiro, não prejudicar; segundo, cuidar; terceiro, curar”. Segundo Francisco, estas máximas continuam a ser um guia indispensável para a prática médica: “Não prejudicar. Isso pode parecer algo óbvio, mas, na verdade, responde a um saudável realismo: antes de tudo, trata-se de não acrescentar mais danos e sofrimentos àqueles que o paciente já está vivendo.” Francisco durante a audiência Sobre o cuidado, Francisco ressaltou que esta é a ação evangélica por excelência, como a do bom samaritano, e que deve ser realizada com o “estilo de Deus”: “E qual é o estilo de Deus? Proximidade, compaixão e ternura. Não esqueçam: Deus é próximo, compassivo e terno. O estilo de Deus é sempre este: proximidade, compaixão e ternura.” Em seguida, o Papa compartilhou uma experiência pessoal: “Eu me recordo de quando, aos vinte anos, tiveram que retirar parte do meu pulmão, que estava doente. Sim, me davam os medicamentos, mas o que mais me dava força era a mão dos enfermeiros que, após aplicar as injeções, seguravam minha mão… Esta ternura humana faz tanto bem!”   Fonte: Site VaticanNews Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – IMIGRAÇÃO E REFÚGIO NO BRASIL

  Em 1887 a região da Bresser-Mooca, bairro de São Paulo, sediava a Hospedaria dos imigrantes, uma casa que recebia grande leva de estrangeiros que chegavam à cidade em busca de trabalho, sobretudo nas lavouras e indústrias paulistas. A hospedaria funcionou por 91 anos e hoje, no mesmo espaço, funciona o Museu da Imigração e o Arsenal da Esperança, uma casa que acolhe homens em situação de vulnerabilidade social. Um trabalho que é realizado há 28 anos. Em 2012, quando eu estava dirigindo o Caminho Novo, projeto educacional que sonhei e concretizei no Arsenal da Esperança, começaram a chegar a São Paulo centenas de haitianos. Eram sobreviventes do terremoto de 2010, que arrasou o Haiti. Um grande número deles foi acolhido no Arsenal da Esperança. Como só falavam francês, vi a impossibilidade de frequentarem as aulas com os demais alunos brasileiros. Propus então à coordenação do Arsenal a criação de uma sala especial de português para estrangeiros e assumi as aulas como professora voluntária. Logo em seguida, começaram a chegar ao Arsenal imigrantes provenientes de diversos países da África. Começava assim a minha história com aqueles homens que chegavam a um país estranho em busca de uma vida digna. Passei então a ouvir as histórias tristes de perdas, perseguições e separações, do sofrimento de quem está longe da pátria e sente-se “o hóspede indesejável, o não cidadão, o sem teto, o sem documento, aquele que veio tirar vagas de trabalho dos brasileiros. O meu contato com eles foi se intensificando, inicialmente na sala de aula. Empatia e sensibilidade foram primordiais. Entendi, através das narrativas deles, que muitos haviam passado por experiências traumáticas e desafiadoras em seus países de origem ou durante a jornada migratória. Logo percebi também que o acompanhamento dos alunos ia além da sala de aula. Saía com eles para entregar currículos, acompanhava-os nas consultas médicas e quando conseguiam um emprego, procurava visitá-los para verificar se não se tratava de trabalho escravo. Deixavam o Arsenal da Esperança assim que conseguiam um salário que lhes permitisse pagar um aluguel. Ia então visitá-los em suas casas e os recebia em nossa casa. Tornaram-se grandes amigos. Esses imigrantes estão em nosso país devido a circunstâncias dramáticas, alheias à sua vontade. Fogem da guerra, da fome, da violência, de perseguições políticas, religiosas ou étnicas. Chegam sozinhos, utilizando seus próprios recursos. No Brasil falta uma política de acolhida e integração. Organizações governamentais e não-governamentais, como a ACNUR ( Agência da ONU para Refugiados) e a Cáritas oferecem assistência inicial, incluindo abrigo, alimentação e apoio legal. Em São Paulo, centenas de imigrantes e refugiados encontraram acolhida na Missão Paz, de padres scalabrinianos e no Arsenal da Esperança, duas instituições católicas, dirigidas por italianos. A barreira linguística é uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos imigrantes. A maioria deles chega sem qualquer conhecimento da língua local, o que dificulta a integração, o acesso a serviços básicos, como saúde e educação assim como a inserção no mercado de trabalho. O desconhecimento do idioma muitas vezes limita suas oportunidades e aumenta a sensação de solidão. O futuro dos imigrantes em nosso país depende de muitos fatores, incluindo políticas de imigração, acesso à educação e emprego e o nível de aceitação da sociedade local. Aqueles que conseguem superar as barreiras iniciais podem construir uma vida estável e contribuir positivamente para a sociedade. Orientei um ex-aluno com formação acadêmica em seu país a frequentar uma escola supletiva desde o Ensino Fundamental até o Ensino Médio. Fez em seguida o exame do Enem e conseguiu uma bolsa de estudos no curso de automação industrial. Hoje está casado com uma brasileira, tem um filho de seis meses e trabalha numa das empresas mais conceituadas no ramo da automação. Entretanto, sem apoio adequado, muitos podem ficar presos num ciclo de pobreza e marginalização. Enfrentam a xenofobia, preconceito e desconfiança, lutando para encontrar estabilidade em um ambiente desconhecido. Trabalham em empregos informais, muitas vezes subvalorizados e mal remunerados. Apesar das dificuldades, a resiliência é a marca registrada desses imigrantes, na luta para construir uma nova vida. A distância da família é uma dor constante para muitos imigrantes. A saudade dos entes queridos e a preocupação com o bem-estar daqueles que ficaram, assim como a dificuldade de manter contato frequente, devido a limitações tecnológicas ou financeiras são desafios diários. Quando conseguem trabalho, enviam remessas financeiras para ajudar suas famílias. O meu relacionamento com essas pessoas que vieram de longe, deixando para trás suas raízes e tradições, trazendo sonhos, esperanças e culturas variadas fez-me constatar, ao vivo e a cores, não somente as dores do Haiti e da África, mas também a coragem desses imigrantes que aqui vieram para trabalhar e simplesmente viver.

ARTIGO – AS MUDANÇAS DE RUMO NA VIDA DE HELDER CÂMARA

Ao longo de sua vida, Helder Camara passa por três importantes mudanças de rumo, que descrevo aqui em breves palavras. Todas têm a ver com o tema Liberdade. 1. Quando, em 1931, aos 22 anos, Helder sai do Seminário de Fortaleza, ordenado sacerdote, ele mergulha imediatamente na vida política da cidade. Segue basicamente o catolicismo autoritário da época e se inquieta com o despontar de um pensamento ‘comunista’ em determinados grupos. Não hesita em escrever, em jornais da época, que os regimes de Hitler (na Alemanha) e Mussolini (na Itália) são modelos seguros a serem seguidos, ele veste a camisa dos integralistas de Plínio Salgado e anda com dois jovens militares pelos bairros da cidade para premunir o povo contra o ‘perigo vermelho’. Mas ele não é bem sucedido em sua cidade natal e, em 1936, Helder se transfere para o Rio de Janeiro, onde inicia um lento e doloroso processo de revisão de suas posturas políticas, marcado por leituras individuais, principalmente de autores cristãos franceses, como Jacques Maritain, que lhe abrem a compreensão dos valores da democracia. Ele sente-se ‘libertado’, graças a uma incomum tenacidade intelectual e por sua humildade em se dispor a rever posicionamentos. E, com o falecimento do Cardeal Leme em 1942 e o final da segunda guerra mundial em 1945, abre-se um novo caminho em sua vida, um caminho de libertação. Eis a primeira mudança de rumo na vida de Helder. 2. Anos depois, em 1955, já como bispo auxiliar de Rio de Janeiro, o doravante chamado ‘Dom’ Helder recebe a incumbência de ajudar a organizar o 36º Congresso Eucarístico Internacional, a ser sediado na Capital do Brasil. Esse congresso vira um sucesso enorme e põe o Brasil, pela primeira vez, em cenário mundial. Dom Helder se revela excelente organizador, empolgante orador, grande comunicador. Querido e admirado, ele passa por bons momentos. Mas acontece, no final daquele enorme sucesso, que o evangelho irrompe em sua vida. Dom Helder ‘descobre’ a pobreza reinante na cidade. No conto aqui os detalhes (que são interessantes e que você encontra em meu livro Helder Câmara, quando a vida se faz Dom, capítulo 4). Helder opta pelos pobres e isso muda tudo. Estava a caminho de se tornar um eclesiástico de grande sucesso e, de repente, muda o rumo de sua vida. Ele não é mais o mesmo. Ganha em termos de liberdade, mas, de outro lado, seu superior, o Cardeal Jaime, começa a desconfiar de seu auxiliar e o governador Carlos Lacerda entra numa relação tensa com ele. Enfim, seus relacionamentos mudam sensivelmente. Aí se inicia o período mais conhecido da vida de Helder, marcado por uma desejável liberdade em tempos difíceis. Em 1946, ele tinha unificado a Ação Católica em nível nacional, em 1952 consegue o mesmo com o episcopado, com a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e em 1955 está na origem do ‘Consejo Episcopal Latino-Americano’ (CELAM). Grandes realizações em cima do princípio democrático. Entre 1962 e 1965, ele participa do Concílio Vaticano II, no final do qual articula o Pacto das Catacumbas. Seu renome internacional cresce exponencialmente a partir da década de 1960, com suas bem-sucedidas viagens internacionais, que fazem com que seu nome seja conhecido pelo mundo católico inteiro (o que suscita sentimentos de inveja no Vaticano). Em 1964, é nomeado arcebispo de Recife, lida com sucesso com o governo militar, sofre o assassinato de um de seus padres em 1969 e em 1970 pronuncia em Paris, diante um público de dez mil pessoas, um discurso em que acusa o governo brasileiro de cumplicidade em assassinatos e torturas de oponentes. 3. Com essas realizações, Helder adquire a imagem de ‘profeta’. Mas ele não para. A maior de suas contribuições está por vir. Nos primeiros dias do ano 1971 aparecem, nos cabeçalhos das Cartas Circulares que ele costuma mandar cada dia a grupos de mulheres que, no Rio e em Recife, acompanham suas ações e reflexões, e que representam frequentemente meditações feitas ao longo de suas vigílias noturnas, os dizeres Minorias Abraâmicas (Conto detalhes no capítulo 11 do livro acima assinalado). O que significam essas palavras? Significam que Helder, doravante, navega para novos horizontes, para além do temário democrático. Ele toma tal atitude por ter experimentado dolorosamente que a democracia só funciona por meio de politicagens e arranjos, que acabam tiram muito de seus intentos originais. Pois a democracia, concretamente, é feita de arranjos e só funciona quando larga propostas capazes de desafiar efetiva e diretamente o ‘sistema’. Como dizia Churchill: a democracia é um sistema ruim, mas não existe melhor. A experiência de longos anos ensinou a Helder que pequenos grupos, livremente reunidos, são capazes de realizar o que a ‘democracia’ não consegue. Ele conhece grupos que agem em favor de despossuídos, mulheres e crianças desamparadas, indígenas e quilombolas, gente sem terra ou sem casa, etc. Aliás, essa é a ideia de Jesus, quando compara o Reino de Deus a uma semente no chão, um fermento na massa, um sal na comida, uma luz na escuridão. . Para caracterizar sua intuição, Helder cava fundo na tradição bíblica e desenterra a figura de Abraão, o homem que se desinstala para ir livremente para onde Deus o chama. Considero a proposta de formar ‘minorias abraâmicas’ a principal contribuição de Helder Câmara em debates e reflexões cristãs, hoje, vinte e cinco anos após sua morte. Helder continua presente. Termino com uma sugestão: a de ler e reler suas Cartas Circulares, pois elas inspiraram suas ações e contêm a chave de compreensão de suas iniciativas.