ARTIGO – BREVES TESES FILOSÓFICAS SOBRE CRENÇA E CIÊNCIA

Segundo Roger Bacon, teólogo e filósofo franciscano do Medievo, a ignorância “é um animal particularmente feroz, que devora e destrói todas as razões” 01. Mais do que do denominado pobre de direita é preciso falar do pobre de direitos, daquele (endinheirado ou não) cuja consciência é prisioneira das crenças. Quem só crê e de nada duvida tende a criminalizar a Filosofia. Segundo o filósofo Cassirer, o verdadeiro inimigo da fé é a superstição, não a dúvida. 02. As crenças, tão bem manipuladas pela extrema direita e disseminadas nos esgotos das redes ditas sociais, também funcionam como forma de prisão cognitiva. Nunca se deve menosprezar o poder da estupidez. As sombras da ignorância são mais velozes do que podem imaginar as luzes do iluminismo. Desistir de suas luzes? Jamais. 03. Estudante de Filosofia e Teologia, cedo compreendi a diferença entre o regime da crença (tendente a dispensar mediações) e o regime da Ciência (que implica o filtro filosófico da crítica). Para Anselmo de Aosta, mais teólogo que filósofo, e célebre pelo esforço de provar a existência de Deus pela razão, a teologia era uma forma de “inteligência da fé”. 04. Sob o regime da crença o sujeito torna-se possuído pelo objeto que domina sua cognição. É um ser possuído. Kant chamaria a isso de consciência heteronomizada. Uma consciência sem a posse de si, caracterizada por Adorno como um tipo de sujeito sujeitado, a dedicar-se “à conservação de si mesmo sem si mesmo”. 05. No evangelho mesmo há muitos casos de mentes possuídas que foram libertadas por Jesus de Nazaré, um filósofo sem cátedra (conforme Morin) e desvinculado da Atenas socrática. Na Ciência, dá-se o contrário da crença: é o sujeito que se apropria do objeto. É o que, na epistemologia, denominamos de (penoso) processo de objetivação da realidade. 06. A extrema direita é hábil em manipular o sentimento e as categorias do mundo religioso para fanatizar consciências incautas. Ainda por volta de 17 anos, numa carta dirigida a seu pai, o jovem Marx admitia ser impossível penetrar no mundo do conhecimento e da Ciência sem a contribuição da Filosofia, que é mais porto de saída do que de chegada. 07. O poder tirânico, ontem e hoje, odeia a crítica, afronta à cultura, destrói a memória, falsifica a história, despreza a arte e tende a se refugiar no patriotismo que, segundo Samuel Johnson “é o último refúgio do canalha”. No Brasil é o primeiro, completou Millôr Fernandes, um dos meus santos de profana devoção. Longa e fecunda vida à Filosofia!  

ARTIGO – OLHAI AS ESTRELAS…

Na véspera de ano novo me afastei um pouco do grupo e fui olhar as estrelas. Há muito tempo não fazia isto. Na cidade parece não existir mais estrelas. Quase nunca olhamos para o céu. Fiquei emocionado. Eram muitas, milhares, grandes, pequenas, perto, longe. Mas, todas brilhavam, piscavam. Cada uma do seu jeito. Todas em harmonia, formando um painel brilhante. (há mais de 10 sextilhões de estrelas). Olhei para as pessoas pensando: também somos estrelas na terra. Cada um tem sua dimensão, sua identidade, sua luz própria. O sonho é vivermos em harmonia e formarmos um painel brilhante, humano. Li o trabalho realizado por uma nave espacial europeia chamada Gaia. Ela está fazendo observações sobre a nossa galáxia Via Láctea. As últimas observações foram sobre 2 bilhões de estrelas, correspondendo a 1% da Via Láctea. Haja céu pra ser olhado. (Olha pro céu, meu amor). Olhar e desejar harmonia para 8 bilhões de pessoas é uma dura tarefa. Mas o mais difícil é o viver em paz destas estrelas. Cada uma ser ela mesma. Deixarem que sua luz brilhe e seja respeitada. Que ela participe desse universo humano estrelado. Incrível é que os cem bilhões de galáxias tenham origem no círculo amoroso trinitário criativo e que o círculo amoroso humano tenha dificuldade na conexão amorosa com o círculo divino. Mas alguém mostrou o caminho, abriu a porta…Jesus de Nazaré. Colunista: Ozanir Martins Silva (Festa do Santíssimo nome de Jesus).

ARTIGO – PROFECIA E TEOLOGIA NO FEMININO PLURAL

Com estas reflexões desejo caminhar em busca das pegadas deixadas por algumas mulheres, ao longo da história do Povo de Deus. Uma história que conhecemos a partir de grandes homens do passado, patriarcas, profetas, reis, escravos, sacerdotes e seus servos…uma história que parece muito linear e cujos conflitos são facilmente resolvidos a partir dos homens, dos homens de poder e de seus interesses. Assim nos ensinaram, assim aprendemos e, muitas vezes, reproduzimos. Com o passar dos anos, aprendemos que na vida e na história nada é linear, nem fácil e que, muitas vezes, o que não se diz, o que não se quer lembrar, não se quer mostrar pode ser muito interessante, importante e necessário para compreender não só a história do mundo, dos povos, mas a nossa própria vida e história. Foi assim que nós, as mulheres, nos desafiamos a reler, pesquisar, refletir e produzir nossas reflexões, com nossos olhos, nossa cabeça, nosso coração e nosso corpo. Pessoalmente me senti desafiada a buscar justamente o que no Livro e também nas pesquisas parece nem ter existido, não aparece, não é escrito. As que mais faltam são mulheres, sobretudo mulheres empobrecidas: nos textos sagrados não tem nomes, nem ações, nem vida de mulheres, por séculos. Então senti que precisava trazê-las à luz, encontrar suas pegadas mesmo que enterradas sob séculos de opressão patriarcal e sagrada, mais pesada que camadas de areia, resgatar e revelar suas memórias que resistiram e fortaleceram a caminhada de mulheres e homens e chegaram até nós, que ainda sofremos exclusões e opressões, mas buscamos resistir, caminhar, iluminar nossas vidas e a vida de todo o povo que sempre busca uma terra boa e farta, terra de leite e mel, terra de paz. É este o caminho que proponho, acolhendo o convite de algumas mulheres do MFPC, para partilhar reflexões que nunca foram somente minhas, mas uma construção de quem me encorajou e fortaleceu no desafio que me propôs. Reflexão muitas vezes partilhada e verificada junto a mulheres camponesas, ribeirinhas, presas, estudiosas da bíblia, parceiras nos caminhos de pastoral e bíblia, por onde ando nos meus mais de 40 anos de vida missionária no Brasil, sobretudo na Amazônia. Vamos juntas, então, encontrar companheiras menos conhecidas do Povo da Bíblia, que nos enriquecem com sua reflexão que é teologia e profecia, por revelar um rosto de Deus que Jesus nos revelou e mostrou de forma definitiva, nascendo de mulher, de Maria de Nazaré, com quem conviveu até seus 30 anos, na vilazinha da periferia do império romano, longe do templo e dos palácios, onde ele só entrará, no final de sua vida, amarrado e arrastado!   Colunista: Ana Maria Galazzi

MUNDO – Em Gaza não há presentes, se as crianças pudessem escrever ao Papai Noel apenas pediriam para morrer

A milhares de quilômetros de distância dos movimentados mercados, adornados com luzes cintilantes e o toque dos sinos de Natal, existe outro mundo O testemunho: mais de 444 dias de vida suspensos, e enquanto o mundo festeja, na Faixa de Gaza os pequenos procuram restos de comida podre no meio do lixo. Suas mãos estão levantadas não em comemoração, mas para se protegerem de mísseis. O artigo é de Rita Baroud, estudante palestina, publicado por Repubblica, 24-12-2024. EIS O ARTIGO Mais de 444 dias de vida suspensos em Gaza. Aqui, o tempo parou de fluir. Sem escolas, sem trabalho, sem esperança. Apenas dias que na sua dor se espelham, como réplicas infinitas da mesma catástrofe. Dias suspensos no vazio, oprimidos pelo eco das explosões e pelo som incessante das balas, uma lembrança constante de que a vida aqui é diferente de qualquer outra vida, em qualquer outro lugar. A milhares de quilômetros de distância dos movimentados mercados, adornados com luzes cintilantes e o toque dos sinos de Natal, existe outro mundo – um mundo que não conhece nem o calor das férias nem as bênçãos da paz. Aqui em Gaza, onde o barulho dos aviões e das explosões nunca cessa, a alegria do Natal está ausente, substituída por uma realidade sombria que escapa a qualquer descrição humana. Hoje em dia, enquanto o mundo acende árvores de Natal e levanta orações pela paz, levantamos as mãos, não em celebração, mas numa tentativa desesperada de proteger as nossas crianças do terror dos mísseis. Nas ruas da minha cidade não há decorações nem risadas – apenas restos de casas destruídas e sonhos desfeitos. No meio deste inferno, o inverno chega como um hóspede indesejado, trazendo apenas mais sofrimento. Gaza conhece bem a dor, mas em dezembro esta torna-se ainda mais insuportável. Aqui, os presentes não são trocados debaixo das árvores; em vez disso, escassas rações alimentares são distribuídas em longas filas, acompanhadas pelo medo de que os suprimentos acabem antes de chegar a todos. Gaza existe à margem da vida, isolada de um mundo que parece perdido nas suas celebrações, submerso no brilho das suas festividades. No inverno, o sofrimento do povo de Gaza duplica. As famílias ficam presas entre o frio intenso do inverno e paredes em ruínas que não oferecem proteção. As crianças dormem no chão congelado, os seus rostos pálidos contando histórias de fome e frio. O inverno aqui não é apenas mais uma estação; é mais um teste de resistência contra o insuportável. As vielas estreitas, agora inundadas de lama depois das chuvas, obrigam as crianças descalças a caminhar por caminhos enquanto os seus pequenos corpos tremem. As famílias vivem em tendas esfarrapadas cercadas por poças de água após as tempestades, enquanto as crianças tentam fazer fogueiras usando lixo apenas para aquecer as mãos. Ontem à noite, enquanto caminhava pelos becos do bairro, tentando comprar alimentos exorbitantes e escassos a ponto do desespero, perguntei às crianças que conheci: “O que vocês querem?” Seus rostos estavam cansados, suas expressões contavam histórias de exaustão que não deveriam pertencer à infância. Mas havia uma menininha, de não mais de cinco anos, que me impressionou mais do que tudo. Ele carregava no ombro uma caixa de papelão na qual recolhia restos de comida podre que recuperava de pilhas de lixo. Sua imagem por si só teria sido suficiente para partir qualquer coração. Eu perguntei a ela: “O que você quer?” Ela parou por um momento e depois respondeu com uma voz suave que carregava o peso do mundo: “Gostaria de encontrar comida para alimentar meus irmãos mais novos. Meu pai perdeu membros e minha mãe foi martirizada. Eu sou responsável por eles.” Eu não pude responder. As palavras me falharam quando olhei para ela. Naquele momento, minha busca por comida não importava mais. Tudo parecia insignificante comparado à dor naqueles olhinhos. Em todo o mundo, crianças escrevem cartas ao Papai Noel pedindo brinquedos e presentes. Eles decoram árvores de Natal e enchem suas casas de risadas e alegria. Mas em Gaza não há cartas nem partidos. Aqui, se as crianças escrevessem alguma coisa, não seria para pedir brinquedos ou presentes. Pediriam apenas uma coisa: a morte, como fuga de uma vida que lhes roubou a infância e destruiu os seus sonhos. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

Opinião: A nova roupagem da agroecologia

Há cinco anos morria Ana Primavesi, agrônoma que ensinou o respeito pela terra e semeou a revolução agroecológica Naquela visita ao campo, o agricultor colhia as batatas graúdas e bonitas que havia plantado. Com seu olhar de raios X, Ana Primavesi sabia que as batatinhas estavam daquela forma pelo uso de agrotóxicos e adubação com nitrogênio, o que resultaria em uma falta de cálcio. Batatinhas assim eram ricas em uma substância, a solanina, que arde na garganta. Ana perguntou: “Estas batatinhas estão boas?” O homem se virou e respondeu, espantado: “Credo! Essas batatinhas não são para comer!” “Mas para que o senhor plantou então?” – Ana reagiu. “Para vender!” O relato de Ana Primavesi mostra exatamente como o solo tem sido tratado: mero suporte de adubos, algo a ser explorado e trabalhado, sem que se considere sua natureza geológica, sua gênese e importância. “A agricultura tem sido a arte de explorar solos mortos”, ela dizia. E a cada palestra, aula ou curso que participava, Ana mostrava o passo a passo da dinâmica que mantinha o solo vivo, com poros para entrada de ar, água, penetração da raiz e boa circulação dos nutrientes. Solo é rocha decomposta, e são necessários cerca de 400 anos para 1 cm de terra ser formado. Ana escreveu: “O solo não é um suporte para adubos, água de irrigação e culturas, mas um organismo vivo, cujo esqueleto é a parte mineral, os órgãos são os micróbios que ali vivem e o sangue é a solução aquosa que circula por ele. Respira como qualquer outro organismo vivo e possui temperatura própria. Necessita tanto das plantas como as plantas necessitam dele.” A defesa da vida do solo foi o grande baluarte da vida dessa cientista. Recuperação de solo Na década de 1950, Ana e seu marido Artur Primavesi são convidados por um grupo de agrônomos para “tornar as terras de Sorocaba (interior de São Paulo) novamente férteis”. A fazenda para a qual destinavam o plantio, terra devoluta, contava com um solo extremamente degradado. O desafio era não só recuperar o solo: eles deveriam plantar trigo, pois se comia o pão, mas não se plantava o cereal no Brasil, tendo que importá-lo. Foi uma revolução. O trigo colhido era da melhor qualidade, e o solo estava plenamente recuperado. A proeza colocava em xeque um aspecto muito importante da agricultura: o de que ela é um processo extrativo. O de que, para se plantar, devemos explorar o solo. Fonte: Site Globo Rural Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – NATAL É AFIRMAÇÃO DA VIDA CONTRA AS FORÇAS DA MORTE

Como escreve São Leão Magno, não pode haver tristeza quando nasce a vida inocente. Que a celebração memorial do nascimento de Jesus de Nazaré, que possivelmente nasceu no pequeno e mal afamado povoado de Nazaré, e não em Belém, fortaleça em cada um de nós os laços de solidariedade, de bons afetos, de cuidado e de compaixão diante do sofrimento humano. Ele veio para que todas e todos, sem nenhum preconceito e discriminação, tenham direito a viver com dignidade. De Jesus de Nazaré temos no Evangelho o registro de suas palavras: “Em verdade vos digo: todo o bem que fizestes a um desses meus irmãos pequeninos e em sofrimento, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25,40). Foi na periferia do mundo e a partir da vida negada e agredida que o Verbo de Deus se fez gente e história na frágil criança de Nazaré: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). Um bom e alegre Natal neste 2024 que se encerra. Nira e Alcimar

ARTIGO – A JOVEM ESPOSA DE NAZARÉ

Maria é uma figura essencial no tempo do Advento e do Natal: 8 de dezembro, o anúncio de sua maternidade; a natividade; a fuga para o Egito… Tudo parece tão simples quando lemos as diferentes histórias, como um enredo que se desenrola de acordo com um plano bem estabelecido. E, ainda assim, será que os dias que se seguiram ao anúncio do anjo foram tão maravilhosos e encantadores? Essa jovem estaria tão sozinha, carregando dentro de si o Bebê anunciado, o próprio Filho de Deus! Levaria algum tempo para que José permitisse que o amor superasse a razão imposta por uma lei intransigente. A jovem Maria, por sua vez, enfrentaria olhares desconfiados, censuras e zombarias dos habitantes de Nazaré, que a julgariam com severidade. Maria: a angústia de uma mulher-mãe ou de uma mãe solteira… Assim como milhares de mulheres hoje em dia, que precisam lutar diariamente porque o companheiro ou marido as deixou, sozinhas, com um ou mais filhos. Divorciadas ou mães solteiras, levantam-se todas as manhãs, sustentadas pela ternura, pela tenacidade e pela coragem de enfrentar, sozinhas, as múltiplas tarefas e preocupações da vida. São elas que tomam decisões urgentes, fazem escolhas difíceis, lidam com as contas, os contatos com a escola, a frieza das burocracias, a ida ao médico. Ainda precisam correr para o trabalho, mesmo quando descobrem que o carro ou o aquecimento estão quebrados! Enfrentam tudo isso – e o desânimo, a ansiedade – sabendo que não há alternativa. Precisam resistir e seguir em frente, ainda que o fardo pareça insuportável. Carregam todas essas dificuldades porque amam seus filhos, os quais, mesmo sendo vestígios de um amor que um dia as uniu a alguém, agora representam sua força e razão de viver. Essas mães são mulheres! Seus corações estão em exílio, sofrendo por estarem sozinhos. Corações que lamentam um amor partido. Às vezes, à noite, choram em silêncio, com a cabeça enterrada no único travesseiro da cama. Permitem que as lágrimas escorram, desfazendo o brilho de seus olhos. Mas, ainda assim, levantam-se de manhã, dia após dia. Elas se olham no espelho e se embelezam novamente, porque sabem que não podem se render. Nunca devem esquecer que são mulheres, que a fonte de seu amor é inesgotável. Sabe, acredito que Maria tem um carinho especial por essas mulheres, essas “esposas-mães”. Aquelas que não têm um “José” para compartilhar o caminho materno. Porque Maria também conheceu – talvez? Certamente! – essa angústia, ainda que por um tempo breve. E é por isso que ela sorri, com ternura, ao ver uma criança se aproximar de sua mãe solitária e sussurrar com um grande abraço: “Mãe, eu te amo!” Álvaro Silva  

ARTIGO – A REVELAÇÃO COMO FUNDAMENTO DA TEOLOGIA

A teologia fundamental “qualifica-se como fundamental por estar em condições de elaborar uma teologia da revelação a partir da própria revelação. Nisto consiste sua peculiaridade central que faz com que ela seja “teologia” e “fundamental” (p. 69, Rino Fisichella, Introdução à Teologia Fundamental, Loyola, SP, 2015). Ou seja, a revelação é o fundamento da teologia. O autor analisa a evolução do conceito de revelação. Do AT destaca o ouvir a palavra de Deus. No NT é ouvir e conviver com o próprio Deus, no Filho. Na escolástica chega ao clássico “inteligência da fé” (Santo Anselmo). Finalmente, a Dei Verbum, apresenta o Cristo como centro, a historicidade e o caráter sacramental da revelação. Em seguida aborda a teologia da revelação a partir da revelação. Destacando três princípios: 1) A revelação é o fundamento do pensar teológico; 2) A novidade é uma característica constante da revelação; 3) A historicidade de Jesus de Nazaré é princípio essencial e constitutivo para o saber da fé. (pp. 83-92, Rino). “Jesus, portanto, explica o processo da comunicação da revelação valendose da comparação do pai e filho” (JJ.97 na cit. MT 11,27; LC 10,22). “Seu Pai lhe transmitiu como um dom a revelação de si mesmo, tão plenamente, como só um pai se abre para com seu filho. Por isso, só ele, sus, é que pode abrir para os outros o verdadeiro conhecimento de Deus” (Idem,99 – Teologia do Novo Testamento, Paulus, SP, 1980). A teologia não deve se limitar a ser uma fria e objetivista “Inteligência da fé”, que se distancia dos sofrimentos humanos, como fizeram o sacerdote e o levita na parábola do Bom Samaritano, mas ser a inteligência do amor e da misericórdia preocupada com a dor das vítimas, denunciar quem provoca essa dor e tomar partido pelos empobrecidos. (Sobrino). Assim, é quase impossível realizar o seguimento de Cristo. Mas é fundamental teologicamente, porque só Ele colocou o sentido de sua vida como entrega amorosa e obediente ao Pai para salvar os filhos e irmãos pela morte na cruz. Fortaleza, 26.12. 2024. Ozanir Martins Silva (festa de Santo Estêvão – protomártir).

Tempo de visitação: rever, acolher, carinhar! Breve reflexão para crentes ou não. Comentário de Chico Alencar

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, ensinou Vinicius de Moraes”, recorda Chico Alencar, deputado federal – PSOL-RJ, ao comentar o evangelho lido no 4º Domingo do Advento. “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, ensinou Vinicius de Moraes (1913-1980). A visitação de Maria em Ein Karim, povoado na região montanhosa da Judéia (próxima de Jerusalém), está carregada de belos significados: o protagonismo das mulheres numa sociedade patriarcal; a fecundidade em meio à esterilidade; a pulsação da vida em quem se dispõe a “subir a montanha” (39), elevar-se; a Eternidade penetrando nas artérias do Tempo. O louvor da jovem Maria e da idosa Isabel, gestando Jesus e João, benditos frutos, faz vibrar as crianças que há nelas e… em cada um(a) de nós. Há braços, a delicadeza é possível! (Emanuel é “Deus conosco”). Calem-se os mísseis da destruição, silenciem os gritos de ódio! Há um feminino chamado para que fiquemos, tod@s, grávidos de um Deus Menino. Ele nos conduz, brincante e amoroso, aos restaurados campos verdes da Justiça, do Cuidado e da Paz, onde o amor vence toda dor. A visita de Maria a Isabel revela a sacralidade do miúdo e a grandeza do divino na pequenez dos gestos: “eu não sei o que é, mas sei que existe um grão de salvação escondido nas coisas deste mundo” (Adélia Prado). PS: dedico essa reflexão menor a Maristela Zenun Brigagão Ferreira (1946-2024), professora e ativista do Serviço Social, mulher generosa, de fé e de luta, que está imersa no Todo Poderoso Amor, pelo tanto de amor que semeou – como Maria, como Isabel. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

MUNDO – “Depois de duas guerras mundiais e da pandemia, continuamos sem conseguir valorizar a vida humana”. Entrevista com Imã Marwan Gill

A entrevista é de Clara Raimundo, publicada por 7Margens, 12-12-2024. Nasceu na Alemanha, estudou no Reino Unido e está em missão na Argentina. Tendo em conta estas coordenadas, talvez poucos adivinhassem que nos referimos a um imã. Mas para Marwan Gill, 34 anos, o fato de ter vivido sempre em países não-muçulmanos não foi motivo para se afastar do islã, pelo contrário. Na verdade, foram os seus pais que tiveram de fugir de um país de maioria muçulmana, o Paquistão, porque o grupo a que pertenciam – a comunidade muçulmana ahmadia – aí era (e continua a ser) considerada herética e, por esse motivo, perseguida. De passagem por Portugal para participar num encontro de bolseiros do Centro Internacional para o Diálogo (KAICIID), com sede em Lisboa, o atual presidente da Comunidade Muçulmana Ahmadia na Argentina falou ao 7MARGENS sobre a importância do diálogo inter-religioso, em particular entre muçulmanos e judeus, do qual tem sido protagonista. O programa de rádio que conduz semanalmente com o rabino Miguel Steuermann, intitulado Salam Shalom [as palavras árabe e hebraica para “paz”] despertou a atenção do Papa, que pediu para conhecê-los, e deu origem a um livro, que acabam de lançar (para já apenas em espanhol). Porque – como lhes disse Francisco – “agora é a altura de não desistir”. Eis a entrevista. Ser muçulmano em países de tradição cristã tem sido um desafio particularmente difícil? Como muçulmano que viveu sempre em sociedades ocidentais não-muçulmanas, devo confessar que não senti como um desafio construir a minha identidade como muçulmano. Viver nestas sociedades – que, no caso da Alemanha e da Inglaterra, não expressam tão fortemente a religiosidade… são sociedades mais laicas e que de alguma forma se orgulham do secularismo – permitiu-me alargar o meu horizonte, conhecer outras culturas e religiões, outras formas de interpretar a espiritualidade. Mas sinto que houve um “antes” e um “depois” do 11 de Setembro… Que idade tinha quando ocorreram os ataques? Tinha 11 anos. E esse acontecimento veio realmente alterar a vivência que eu tinha tido até então como muçulmano. Porque antes do 11 de Setembro, o islã era, para a maioria dos ocidentais, um mundo exótico… Um pouco como são hoje o hinduísmo e o budismo. As pessoas não sabiam muito sobre o islã, assumiam que era algo diferente, e quando queriam saber mais faziam algumas perguntas. Mas, depois do 11 de Setembro, deixaram de fazer perguntas: passaram a fazer afirmações com base em preconceitos, a dar opiniões com base em estereótipos e generalizações. E de repente eu, um adolescente, fui confrontado com a necessidade de explicar como nasceu a Al-Qaeda, o que é a Al-Qaeda, qual é a relação dos talibãs com o islã… Quando eu nunca tinha sequer ouvido falar deles na mesquita ou lido sobre eles no Alcorão! Para você também foi um choque… Completamente! Não conhecia a Al-Qaeda… E as expressões jihad [que em árabe significa “luta”, “esforço”] ou Allahu Akbar [que significa “Alá é grande”] já as conhecia, mas só eram usadas para orar, para santificar Deus e santificar toda a Sua criação. E afinal havia muçulmanos que, em nome de Allahu Akbar, matavam outras pessoas? Não conseguia encontrar ligação entre uma coisa e a outra. Não percebia porque é que me confrontavam com isso por eu ser muçulmano e muito menos sabia explicar como é que era possível usar Allahu Akbar para justificar qualquer tipo de violência. Foi a procura dessas respostas que o trouxe até aqui? Sim! Estava na Alemanha e senti que o islã passou a ser um bode expiatório para os mais variados problemas, porque a sociedade não queria aprofundar as verdadeiras causas desses problemas. Por exemplo, se havia homens muçulmanos que tratavam mal as mulheres, isso não era por causa do islã. Se havia famílias muçulmanas que não conseguiam integrar-se, não era por causa do islã. Mas via que o islã era muitas vezes debatido e alvo de acusações, e ainda por cima sempre sem a participação de um muçulmano à mesa… Isso para mim foi muito forte. Então, decidi que queria sentar-me à mesa, que queria dar voz ao islã onde ele fosse debatido. Queria que o Ocidente pudesse compreender a verdadeira essência e identidade do islã. E daí a minha decisão de entrar para o seminário islâmico para ser imã. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui