ARTIGO – SETE BREVES TESES SOBRE VERDADE E MENTIRA

O caminho da verdade é lento, mas sempre termina por prevalecer. Ainda que rápida, a mentira tem pernas curtas e pouco fôlego. É muito cedo para concluir que a extrema direita voltará ao poder em 2026. O brilho do fogo das aparências é enganador, efêmero, como a palha levada pelo vento. Os artifícios da extrema direita, de falsificação da história e de destruição da memória, não podem resistir à força ontológica da verdade. Como escreve Bonhoeffer numa de suas cartas: reclamar o futuro para si, jamais entregá-lo ao inimigo.   Enquanto houver a resistência dos justos, haverá esperança, porque o futuro pertence a quem não se demite do presente.   *José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento das águas dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Janeiro do ano de 2025.

SOCIEDADE – Capitalismo: quem são os novos titãs

No dia da posse de Trump, vale examinar os megafundos que agora controlam a riqueza do Ocidente. Quem são. Como manejam o equivalente a 8,5 vezes o PIB dos EUA. Peter Phillips escreveu um livro que mais parece um relatório de pesquisa, e que é de uma prodigiosa utilidade: em vez de ilustrar as suas opiniões, ele nos dá ferramentas para entender como todo o processo de acumulação do capital se deformou, gerando a convergência das catástrofes da desigualdade e da destruição ambiental. Ao detalhar como as coisas efetivamente funcionam no topo da pirâmide do poder econômico – e, portanto, do poder político, Phillips põe em nossas mãos uma excepcional ferramenta de trabalho. Quem lê os meus trabalhos sabe que eu não sou muito pródigo em flores, mas neste caso, os dois dias que gastei em ler este pequeno livro me deixaram entusiasmado. E como as traduções demoram a aparecer, recomendo a todo o nosso pequeno mundo que se interessa por entender a zona econômica que vivemos, que comprem o livro em inglês mesmo. Nada de complexo nesta escrita. Para já, pensando nas pessoas que têm dúvidas sobre a nossa dependência do poder econômico global, tema central deste livro, vou só apresentar este gráfico, que não está no livro, mas que ilustra este tema no Brasil. O nome BlackRock é pouco familiar para as pessoas no Brasil. Lembremos que em 2024 essa empresa gestora de ativos (fortunas) administra um pouco mais de 10 trilhões de dólares. O presidente americano Joe Biden administras 6 trilhões, orçamento federal dos Estados Unidos. Vejam no gráfico acima para onde essa corporação estende os seus drenos no Brasil, isso que ela se encontra em inúmeros países. Empresas chave da economia brasileira têm os seus interesses ligados à BlackRock, cujo objetivo não é produzir nada, é apenas drenar dividendos, e o máximo possível, como vimos no caso da Petrobrás, elevando os preços para aumentar os dividendos, um dreno amplo sobre toda a população, a chamada profit inflation, inflação gerada por elevação de lucros. O preço que você pagou a mais no botijão de gás ou no posto de gasolina foi para pagar dividendos. Bastam participações acionárias limitadas para colocar as empresas ao seu serviço, ou seja, maximizar dividendos para acionistas, os que hoje chamamos de “proprietários ausentes”, absentee owners. Isso é a realidade da indústria dita nacional. Não tenham dúvida de que quando os diretores da Samarco ou da Vale tiveram de optar entre consertar as barragens ou aumentar os dividendos, optaram pelos dividendos, e os bônus correspondentes para eles mesmos. Privatizar, ou seja, abrir as portas para acionistas internacionais, é também desnacionalizar. Isso para situar o mecanismo que permite aos gigantes financeiro no topo drenar recursos da base da sociedade em escala mundial. Fonte: Site Outras Palavras Matéria Completa: Acesse Aqui

O Papa: uma mulher chefiará o Governatorato do Vaticano

Francisco foi entrevistado por Fabio Fazio no programa “Che tempo che fa” do canal Nove, anunciando uma nova nomeação feminina para o além Tibre: em março, a promoção da religiosa que hoje é a número dois. O Pontífice respondeu a uma pergunta sobre os rumores a respeito dos planos do novo governo Trump de deportar migrantes: se for assim, será uma vergonha, não se pode fazer com que os mais pobres paguem a conta dos desequilíbrios da sociedade. Em primeiro lugar, a novidade: uma mulher, a secretária Irmã Raffaella Petrini, a partir de março à frente do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano. Depois, o olhar para o mundo com a tristeza por uma possível deportação em massa de imigrantes nos EUA, a alegria pela trégua em Gaza, a esperança pela solução de dois Estados. E ainda, a acolhida aos migrantes, o Jubileu, a abertura de uma Porta Santa na prisão, a luta contra os abusos, a saúde pessoal. Temas relacionados aos eventos atuais e aos desafios do mundo, da Igreja e do pontificado, abordados pelo Papa Francisco na entrevista com o jornalista Fabio Fazio no programa italiano Che tempo che fa, transmitido na noite deste domingo, 19 de janeiro, no canal Nove. Francisco já havia concedido uma entrevista ao mesmo programa em 2022, depois uma segunda em 2024. Hoje, uma nova entrevista de cerca de uma hora, também uma oportunidade para apresentar a autobiografia intitulada Spera, realizada pelo jornalista Carlo Musso, publicada pela Mondadori e publicada em cem países: uma obra “muito delicada” composta de muitas histórias “que dão uma ideia de como eu sou”. A Irmã Petrini chefiará o Governatorato O Papa – depois de tranquilizar sobre a condição de seu braço após a contusão de quinta-feira: “Está se movendo melhor” – anuncia en passant que a partir de março, após a aposentadoria do cardeal Fernando Vergéz Alzaga, a secretária Irmã Raffaella Petrini será a presidente do Governatorato do Vaticano. Outra mulher, portanto, à frente de um importante cargo, após a nomeação da Irmã Simona Brambilla como prefeita do Dicastério para a Vida Consagrada. “O trabalho das mulheres nas Cúrias é algo que se desenvolveu lentamente e tem sido bem compreendido. Agora temos muitas delas”, comentou o Papa. E listando as tarefas confiadas a figuras femininas no Vaticano, acrescenta: “no Governatorato, a vice-governadora, que se tornará governadora em março, é uma freira…” “As mulheres sabem administrar melhor do que nós”, brinca. Planos para deportação em massa de imigrantes nos EUA Em seguida, o Papa Francisco responde a uma pergunta sobre os Estados Unidos, à luz dos rumores de um possível plano de deportação em massa de imigrantes após a posse do presidente Donald Trump. Uma eventualidade que o Papa chama de “uma desgraça”, porque “faz com que os pobres infelizes que não têm nada, paguem a conta do desequilíbrio”. Acolhida aos migrantes e desnatalidade Sobre o tema das migrações, o Papa Francisco repete os “quatro verbos” para enfrentar a emergência: “o migrante deve ser acolhido, acompanhado, promovido e integrado”. E retorna ao tema que lhe é caro o da desnatalidade, olhando para a Itália, onde a idade média é de “46 anos”. “Se não fazem filhos, deixem entrar os migrantes”, afirma. A solução de dois Estados e a importância da paz A entrevista não deixa de fora uma pergunta sobre a guerra no Oriente Médio, com o início hoje da trégua em Gaza e a libertação de três mulheres reféns do Hamas. Como no Angelus, o Papa expressa gratidão aos mediadores: “Eles são bons”, depois se detém na hipótese de dois Estados: “acredito que seja a única solução. Alguns estão dispostos, outros não”. “A paz”, acrescenta, ‘é superior à guerra’, mas é preciso ‘coragem’ para fazê-la porque ‘muitas vezes você perde algo, mas ganha mais’. A guerra, ao invés, sempre “é uma derrota”, insiste o Papa, reiterando o valor das negociações e denunciando o “grande” lucro das fábricas de armas que levam “à destruição”. Fonte: Site VATICAN NEWS Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – BREVES TESES FILOSÓFICAS SOBRE CRENÇA E CIÊNCIA

Segundo Roger Bacon, teólogo e filósofo franciscano do Medievo, a ignorância “é um animal particularmente feroz, que devora e destrói todas as razões” 01. Mais do que do denominado pobre de direita é preciso falar do pobre de direitos, daquele (endinheirado ou não) cuja consciência é prisioneira das crenças. Quem só crê e de nada duvida tende a criminalizar a Filosofia. Segundo o filósofo Cassirer, o verdadeiro inimigo da fé é a superstição, não a dúvida. 02. As crenças, tão bem manipuladas pela extrema direita e disseminadas nos esgotos das redes ditas sociais, também funcionam como forma de prisão cognitiva. Nunca se deve menosprezar o poder da estupidez. As sombras da ignorância são mais velozes do que podem imaginar as luzes do iluminismo. Desistir de suas luzes? Jamais. 03. Estudante de Filosofia e Teologia, cedo compreendi a diferença entre o regime da crença (tendente a dispensar mediações) e o regime da Ciência (que implica o filtro filosófico da crítica). Para Anselmo de Aosta, mais teólogo que filósofo, e célebre pelo esforço de provar a existência de Deus pela razão, a teologia era uma forma de “inteligência da fé”. 04. Sob o regime da crença o sujeito torna-se possuído pelo objeto que domina sua cognição. É um ser possuído. Kant chamaria a isso de consciência heteronomizada. Uma consciência sem a posse de si, caracterizada por Adorno como um tipo de sujeito sujeitado, a dedicar-se “à conservação de si mesmo sem si mesmo”. 05. No evangelho mesmo há muitos casos de mentes possuídas que foram libertadas por Jesus de Nazaré, um filósofo sem cátedra (conforme Morin) e desvinculado da Atenas socrática. Na Ciência, dá-se o contrário da crença: é o sujeito que se apropria do objeto. É o que, na epistemologia, denominamos de (penoso) processo de objetivação da realidade. 06. A extrema direita é hábil em manipular o sentimento e as categorias do mundo religioso para fanatizar consciências incautas. Ainda por volta de 17 anos, numa carta dirigida a seu pai, o jovem Marx admitia ser impossível penetrar no mundo do conhecimento e da Ciência sem a contribuição da Filosofia, que é mais porto de saída do que de chegada. 07. O poder tirânico, ontem e hoje, odeia a crítica, afronta à cultura, destrói a memória, falsifica a história, despreza a arte e tende a se refugiar no patriotismo que, segundo Samuel Johnson “é o último refúgio do canalha”. No Brasil é o primeiro, completou Millôr Fernandes, um dos meus santos de profana devoção. Longa e fecunda vida à Filosofia!   *José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento das águas dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Janeiro do ano de 2025.

MEIO AMBIENTE – Para uma ecoteologia da Mãe Terra. Artigo de Leonardo Boff

“Face à urgência ecológica, a alternativa que se impõe é esta: ou cuidamos de nossa Mãe-Terra ou não haverá uma arca de Noé que nos salve. Bem disse o Papa Francisco em 2025 na encíclica Fratelli tutti (Todos irmãos e irmãs): ‘estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva’”, escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor. Eis o artigo. Não apenas os pobres gritam. Grita também a Terra, feita o Grande Pobre, espoliada em seus bens e serviços naturais limitados. O Papa Francisco falou há dias sobre o grito da Terra e dos pobres. A maior agressão que se lhe faz é não considerá-la como Grande Mãe, Casa Comum e Gaia, um superorganismo vivo que se autorregula e combina todos os elementos necessários para sempre se autorreproduzir e gerar vidas, especialmente, a vida humana, a maior floração do processo de evolução. Ela mal consegue dissolver os desequilíbrios e ainda manter a capacidade de nos alimentar e toda a comunidade de vida. Hoje, no entanto, ela está se mostrando debilitada. É a sobrecarga da Terra (Earth overshoot). Foi demasiadamente explorada devido à voracidade de alguns cujo projeto é acumular para si bens materiais de forma ilimitada sem sentido de justa partilha com o resto da humanidade. O pior está ocorrendo recentemente. Há um recuo na diminuição de emissão de gases de efeito estufa, o que agrava o aquecimento global com as consequências conhecidas. Não se reconhecem os direitos da natureza e da Terra, reduzida a um baú de recursos para embasar o projeto ilusório de um crescimento ilimitado, sabendo-se dos limites insuperáveis do planeta. Cresce a consciência, a partir do Overview Effect dos astronautas que viram a Terra de suas naves espaciais e testemunham que a Terra e a humanidade formam uma única e complexa entidade. Os humanos expressariam aquele ponto de complexidade em que a Terra começou a andar, a pensar, a cantar, a se comover e principalmente a amar. Face à urgência ecológica, a alternativa que se impõe é esta: ou cuidamos de nossa Mãe-Terra ou não haverá uma arca de Noé que nos salve. Bem disse o Papa Francisco em 2025 na encíclica Fratelli tutti (Todos irmãos e irmãs): “estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. Por isso, na opção pelos pobres contra a pobreza, deve-se incluir a Terra, como o Grande pobre. É nossa missão baixá-la da cruz e ressuscitá-la para que mantenha sua vitalidade. Uma teologia da libertação integral deve ser uma ecoteologia de libertação como tenho defendido desde os anos 80 do século passado e finalmente oficializada pelo Papa Francisco em sua encíclica Laudato si’: sobre como cuidar da Casa Comum. A ética ecológica fundamental, suporte de qualquer outro imperativo, exige: que faço para salvaguardar a vida da Terra e na Terra e permitir que todos os seres possam continuar a existir e a viver? O segundo imperativo ético é este: que faço para conservar as condições do ser humano poder subsistir e continuar a evoluir como tem evoluído por milênios. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

MUNDO – Internacional Antifeminista, uma radiografia

O universalismo defendido pela identificação coletiva cristã provou ser um recurso útil para a transnacionalização. A Igreja Católica, por exemplo, tem grande influência em várias áreas do globo As guerras de gênero tornaram-se globalizadas e são impulsionadas por um poderoso movimento social, político e religioso transnacional. Com “guerras de gênero” fazemos referência aqui a conflitos políticos e culturais que se centram em questões de gênero e sexualidade – questões como os direitos sexuais e reprodutivos, os direitos de dissidência sexual, a educação sexual ou a violência de gênero, entre outros. É claro que estas batalhas não são meras cortinas de fumaça, mas inerentes à luta pelo poder e aos interesses dos projetos políticos que as impulsionam, que, em última análise, são funcionais para uma relegitimação das hierarquias de classe, gênero e raça. Uma nova onda de ativismo ultraconservador global estabeleceu o “gênero” como uma frente de batalha definitiva. O movimento “antigênero” é suficientemente flexível para incorporar uma variedade de objetivos, mas suficientemente coerente para ser um movimento e não apenas uma série de campanhas não relacionadas. Embora em muitos ele lugares possa vestir-se com a roupagem da oposição ao neoliberalismo e outras, abraçá-lo plenamente. Os agentes internacionais que impulsionam estas guerras de gênero são muito diversos. Por um lado, as instituições religiosas têm um papel destacado. A direita cristã internacional é na verdade a mais produtiva no que diz respeito à mobilização de recursos, às suas redes organizacionais, à construção da identidade e à produção cultural do movimento. Neste sentido, os atores religiosos funcionam plenamente como qualquer outra organização política. Aqui podemos incluir igrejas e clérigos, comunidades seculares de ativistas, bem como centros de investigação, universidades e ONGs transnacionais que afirmam ser baseadas na fé. O universalismo defendido pela identificação coletiva cristã provou ser um recurso útil para a transnacionalização. A Igreja Católica, por exemplo, tem grande influência em várias áreas do globo graças à sua estrutura centralizada, embora também tenha organizações próprias que vão além do nível nacional  e que são religiosas e seculares: Opus Dei, Kikos, Legionários de Cristo, organizações anti-aborto, redes universitárias próprias, etc. As igrejas ortodoxas do leste europeu, por sua vez, baseiam a sua influência política e social basicamente na sua estreita relação com os Estados  onde governam a ultradireita –, algo muito evidente no patriarcado de Moscou. Nas últimas décadas, também temos assistido ao crescimento do poder do evangelical, especialmente do estadunidense – com fortes laços políticos com a direita republicana e importantes recursos econômicos – como ocorreu recentemente nas eleições dos EUA com o seu apoio a Trump. Na verdade, este candidato mostrou-se repetidamente um mestre sair pela tangente quando questionado sobre a sua posição sobre o aborto, temendo que isso pudesse tirar votos num país que, apesar de tudo, é majoritariamente favorável a este direito – sobretudo as mulheres. Porém, ele teve que deixar de engambelar e assumir seus compromissos com seus financiadores evangélicos, que também mobilizam muitos votos, por isso acabou esclarecendo que se opõe às leis mais permissivas sobre o aborto, com argumentos como o de que em alguns estados democratas até “o bebê pode ser executado após o nascimento”. Fonte: Site Outras Palavras Matéria Completa: Acesse Aqui

MEIO AMBIENTE – Há 20 anos era assassinada Ir. Dorothy Stang

Há 20 anos era assassinada Ir. Dorothy Stang Na noite de sexta-feira, 10, foi realizada uma vigília na Basílica de São Bartolomeu na Ilha Tiberina, em Roma, em homenagem à religiosa estadunidense assassinada por sua luta pelos direitos dos povos indígenas e contra o desmatamento no país sul-americano. Teóloga Laurie Johnston: “nela, a missão cristã ia além da espiritualidade pessoal, incluindo o compromisso com os esquecidos, com as vítimas da degradação ambiental e das desigualdades sociais” Religioda, missionária, mártir, mas sobretudo uma mulher comprometida contra o desmatamento e pelos direitos das populações indígenas brasileiras, Irmã Dorothy Stang “foi um exemplo de como colocar em prática a Encíclica Laudato si’ do Papa Francisco, o que fazia dela uma pessoa incômoda e porque, há vinte anos, foi morta a tiros por uma série de criminosos”. Assim começou, falando à mídia vaticana, a professora Laurie Jonhston, docente de Teologia no Emmanuel College de Boston, que na noite de sexta-feira, 10 de janeiro, participou da vigília em memória da Irmã Dorothy, presidida pelo secretário do Dicastério para as Causas dos Santos, dom Fabio Fabene, no Santuário dos Novos Mártires na Igreja San Bartolomeo all’Isola, em Roma, organizado pela Comunidade de Sant’Egidio.   As Memórias da Irmã Dorothy Durante o evento, foram entregues duas preciosas lembranças da Irmã Dorothy Stang, religiosa da Congregação de Nossa Senhora de Namur, nascida em Dayton, Ohio, em 1931 e assassinada em 2005 em Anapu, no Pará brasileiro: um punhado de terra proveniente do local do assassinato e uma camisa usada pela freira estadunidense, cuja figura foi lembrada no recente Sínodo para a Amazônia. Terra e camisa, elementos símbolo da dedicação e sacrifício, de quem suja as mãos permanecendo apegado à vida cotidiana, necessários para uma pessoa que – como recorda a professora Johnston – “para difundir a sua mensagem partiu das bases: ensinou aos povos indígenas o respeito e a importância da floresta, que não deve ser agredida e pisoteada, mas sim protegida e amada, pois é patrimônio de todos, especialmente daqueles que nela vivem. Irmã Dorothy ministrou cursos e encontros para capacitar mulheres camponesas, fez estudar os direitos sociais, as políticas públicas para a saúde, a maternidade e a sexualidade. Sem nunca esquecer a importância da Bíblia, voltada a descobrir e aprofundar o papel da mulher como instrumento necessário para alcançar a libertação de um povo”.   O dia do assassinato Gerar consciência, abrir espaços, lutar por justiça. “Talvez precisamente pela sua dedicação a certos compromissos tornou-se uma pessoa incômoda, a ser removida”, comenta Johnston. O assassinato ocorreu em 12 de fevereiro de 2005. Como de costume, a Irmã Dorothy estava a caminho para visitar algumas famílias indígenas na floresta. Ele já havia recebido ameaças de morte, mas até então sempre respondia: “Não vou fugir, nem abandonar a luta desses agricultores, que vivem sem proteção, no meio da floresta”. Com um sorriso, a Irmã Dorothy dizia que “ninguém mata uma senhora com mais de 70 anos”. No entanto, naquela manhã, a gangue de homens armados recusou até mesmo o dinheiro oferecido em troca de sua vida. O conflito com a população local havia atingido níveis insuportáveis ​​e as habilidades da Irmã Dorothy haviam gerado resultados tão chocantes quanto irritantes. Assim, seis tiros disparados pelos inimigos da natureza, da população local, da criação, mataram Irmã Dorothy.   Fonte: Site Vatican News Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – DESAFIOS ÀS FORÇAS PROGRESSISTAS EM 2025

Meu primeiro impulso foi intitular este texto de “desafios à esquerda”. Logo me dei conta de que, hoje em dia, resta pouco do que considero esquerda que se empenha na superação do sistema capitalista. Adoto “forças progressistas” porque a expressão inclui antibolsonaristas, apoiadores do atual governo Lula, os que se empenham para manter e ampliar a democracia formal, malgrado seu paradoxo de socializar a esfera política (sufrágio universal) e privatizar a econômica, excluindo a maioria da população brasileira de condições dignas de existência (moradia, saúde, educação, cultura, oportunidades de trabalho, que resulta em redução significativa do desemprego etc.). Abordo em seguida desafios que considero prioritários. A comunicação do governo Embora haja grandes feitos em apenas dois anos de governo Lula, após quatro de desmontes promovidos pelo governo Bolsonaro, poucos sabem que, em 2023, a economia brasileira cresceu 2,9% (alcançou R$ 10,9 trilhões), e em 2024, 3,5%; a renda dos trabalhadores aumentou 12% e consequentemente também o consumo das famílias; o programa Bolsa Família passou a atender 21,1 milhões de famílias (1 milhão a mais que em 2022); recuperação do salário mínimo acima da inflação (embora o ajuste fiscal tenha limitado o crescimento real a 2,5%. Em 2025 deveria ser de R$ 1.528 e passa a R$ 1.518); reestruturação do IBAMA e da FUNAI; o novo programa Pé de Meia (que beneficia 3,9 milhões de estudantes do ensino médio); a instalação de mais de 100 unidades dos Institutos Federais; o programa Mais Médicos, que atende populações mais vulneráveis, conta, atualmente, com quase 25 mil médicos contratados pelo governo federal; e o protagonismo do Brasil no cenário internacional (Brics, G20, COP30 etc.). Haveria muito mais a destacar. Apesar de tantos avanços, o governo falha na comunicação. Até agora não soube montar uma trincheira digital capaz de superar a influência da extrema-direita nas redes. Pesquisas indicam que 76% dos brasileiros se informam por redes digitais e sites de notícias. A guerra digital exige um número expressivo de profissionais dedicados à comunicação digital, com a possibilidade de formar grandes influenciadores. O fenômeno eleitoral Pablo Marçal, que não dispunha sequer de um minuto de propaganda na TV, deveria servir para alertar sobre a importância dessa ofensiva. A batalha ideológica Outro fator que julgo importante para que as forças progressistas não venham a ser derrotadas pelos neofascistas na eleição presidencial de 2026 é a batalha ideológica. Convém lembrar que o fim da ditadura militar, em 1985, não resultou de suas inerentes contradições. Pesaram sobretudo o desgaste ideológico com as frequentes denúncias de violações de direitos humanos, o testemunho de ex-presos políticos e de familiares de mortos e desaparecidos, a pressão internacional pela redemocratização do Brasil, e as grandes mobilizações populares como a Passeata dos Cem Mil, as greves operárias do ABC paulista e as concentrações pelas Diretas Já! Hoje, a esquerda se encontra órfã de referências ideológicas. Elas se multiplicavam antes da queda do Muro de Berlim (1989). Países socialistas serviam de parâmetros às utopias libertárias. O estudo do marxismo e a sua aplicação nas análises da realidade vigoravam. Havia uma militância aguerrida que atuava voluntariamente nas campanhas eleitorais. A extrema-direita se sentia acuada e a polarização da esquerda se dava com a social-democracia. Isso acabou. Os tempos são outros. E sombrios. A direita se encontra em ascensão eleitoral no mundo. Sua máxima expressão, Donald Trump, ocupa o cargo mais poderoso do planeta. A direita passou a fazer intensa (des)educação política do povo, enquanto as forças progressistas deixaram Paulo Freire dormitar nas prateleiras. As forças progressistas perderam a capacidade de promover grandes mobilizações populares diante da falta de educação política do povo, da excessiva burocratização dos partidos progressistas, da perda de referências históricas e do esgarçamento do movimento sindical. Empreendedorismo O fenômeno do empreendedorismo não é novo. A novidade é ter se tornado um modismo para as classes populares. Vários fatores concorrem para isso: retrocessos e perda dos direitos trabalhistas, precarização das relações de trabalho, desarticulação das estruturas sindicais, supremacia da financeirização sobre a produção, esgarçamento das relações sociais provocado pelas redes digitais etc. O neoliberalismo, em sua era digital, mina as relações corporativas. A uberização das condições de trabalho e a síndrome dos influenciadores internáuticos, bem como a monetização das redes, criam a ilusão de que todos podem ascender socialmente sem muito esforço. Basta ousar ser patrão de si mesmo. É a nova versão do self-made man. * (“Este é um termo inglês que se refere a uma pessoa que alcançou o sucesso por meio de seus próprios esforços, habilidades e determinação, sem depender de ajuda externa). *nota do canal Outrora a elite era constituída pela nobreza. Na medida em que os títulos nobiliárquicos foram sendo substituídos pelos títulos da Bolsa de Valores, o sangue azul cedeu lugar aos milionários que alcançaram o topo da pirâmide social graças ao empreendedorismo. Há que acrescer a isso a despolitização da sociedade, agravada desde a queda do Muro de Berlim. Como falar de sociedade pós-capitalista se o socialismo real fracassou? Como incutir nas novas gerações a consciência crítica se o marxismo já não está em voga? Como ampliar o espectro social e eleitoral das forças progressistas se elas abandonaram o trabalho de base? São desafios que ainda não encontram respostas. E a falta de respostas acelera a ascensão da direita. Faz com que se repitam fatos surpreendentes, como a vitória de Lula sobre Bolsonaro, nas eleições de 2022, por apenas pouco mais de 2 milhões votos, em um universo de 156 milhões de eleitores. Ou a reeleição de Trump em 2024, vitorioso no colégio eleitoral e no voto popular. Hoje, o eleitor, desprovido de consciência de classe, de relações corporativas (como as sindicais) e imunizado pelos impactos da grande mídia graças às suas bolhas digitais, busca eleger quem lhe possa garantir um lugar ao sol na praia das oportunidades. Na falta de referências revolucionárias (Vietnã, Sierra Maestra, figuras como Mao Tsé-Tung e Fidel) ele vota pensando, primeiro, na prosperidade individual, e não coletiva. Os eleitores pobres manifestam seu inconformismo ao dar apoio aos que ostentam a bandeira

ARTIGO – A POLÍTICA DE JESUS COMO PROVOCAÇÃO

Para clarear o tema, convido vocês a imaginar comigo uma cena dos anos 70 dC, apenas 40 anos após a morte de Jesus, no tempo da redação do primeiro Evangelho, o de Marcos. Alguns grupos de imigrantes judeus, que vieram a Roma em busca de emprego, optaram por seguir os ensinamentos de Jesus, o nazareno. Eles falam grego, a língua ‘franca’ do Império Romano, mas conservam usos e costumes de origem aramaica. Eles constituem uma sinagoga dissidente, não aceita pela oficialidade judaica, mas autêntica, baseada num profundo sentimento de fraternidade. Esses primeiros discípulos de Jesus seguem, pois, a tradição judaica de reunir-se uma vez por semana, nos sábados, para momentos de comensalidade, audição de algum texto bíblico e reza. É normal supor que, nesses momentos, o assassinato extremamente cruel do líder galileu tenha vindo à tona, num clima de muita emoção. Seus grandes feitos também. A memória de Jesus vai acompanhada de manifestações de exaltação, gritos, exclamações, gestos e pulos, como Paulo assinala na Primeira Carta aos Coríntios. O clima de entusiasmo e o gosto pelo ‘maravilhoso’, por milagres e feitos sensacionais, faz com que emerja, com o tempo, um Jesus hierático, que só pronuncia verdades eternas, é sempre sério e ocupa sempre o centro da cena. Esses primeiros discípulos são, em sua quase totalidade, analfabetos. Os raros alfabetizados, entre eles, costumam ser escravos ou libertos da escravidão, como a historiadora inglesa Cândida Moss vem nos revelar recentemente num estudo inovador. Ela comenta a relação existente, nos tempos em que surge o cristianismo, entre alfabetização e escravidão. Na época, apenas 5 a 10 por cento da população era alfabetizado. Os apóstolos, em geral, eram analfabetos, sendo Paulo de Tarso uma exceção. As sociedades, que viviam sob o comando do Império Romano, eram escravocratas. Com toda naturalidade, pessoas livres (como Paulo, por exemplo) dispunham de escravos, como comprovam seus próprios textos. Isso era tão natural que nem se falava do assunto. Era natural também que se relegava a escravos, devidamente preparados, a tarefa de escrever textos. Nisso, a escravidão antiga se diferenciava da moderna, atlântica, que mantinha os escravos no analfabetismo. Mas como, nos tempos do Império Romano, o ato de escrever era uma tarefa penosa, árdua, cansativa e desgastante, acontecia que escravos se alfabetizaram para depois poder estar a serviço de comunidades analfabetas. É de se supor, pois, que foram escravos ou libertos cristãos, que liam relatos acerca da vida de Jesus diante de ouvintes analfabetos. É de se compreender que, nessas circunstâncias, não haja muito interesse em investigar historicamente a vida concreta de Jesus de Nazaré. Do processo emerge um Jesus narrativo. A impressão que temos é que os primeiros, que se metem a escrever, estão interessados em apresentar uma imagem de Jesus que possa animar a fé dos/das colegas. Impulsionados por ondas crescentes de uma tradição oral que se cria a partir da horrível morte do líder de Nazaré, e que já se consolida ao longo de 40 a 70 anos (40 anos no caso de Marcos, pelo menos 50 anos no caso de Mateus e Lucas e 70 anos no caso de João), o interesse desses evangelistas parece consistir em apresentar um Jesus que anime e sustente a fé dos discípulos e das discípulas em meio à hostilidade, incompreensão, desprezo e mesmo perseguição aberta (com perigo de vida), por parte da sociedade e das autoridades. Uma luminosa auréola passa a envolver a figura de Jesus, que cresce com o tempo. Jesus não só expulsa sopros maus, cura leprosos, socorre necessitados, mas passa a andar sobre as águas, acalmar tempestades, multiplicar pães. Ele torna-se um novo Elias, o grande profeta da memória popular judaica, que multiplicava pão para a viúva de Sarepta, lançava seu manto sobre as águas e as separava, ressuscitava mortos. Torna-se um novo Moisés, libertador do povo hebreu escravizado no Egito. Esse Jesus, fazedor de milagres e feitos impressionantes, sustenta a fé dos primeiros seguidores. Combatidas, desprezadas e mal interpretadas, as comunidades de discípulos e discípulas visam, antes de tudo, manter e avivar a imagem de um Jesus que, ressuscitado e divino, demonstra a mais tenaz resiliência, a mais viva resistência, a mais forte persuasão. E eles têm sucesso. Pois, enquanto diversos movimentos proféticos e messiânicos da época sucumbem aos golpes da perseguição por parte da oficialidade, o movimento de Jesus resiste. Os/as discípulos/as seguidores/as sabem descobrir algo diferente em seu líder, algo que o destaque. Para tanto, eles/elas abandonam a memória histórica em benefício de uma imaginação mitológica, em grande parte fundamentada em textos das Escrituras Sagradas. Na realidade, misturam história e mito. Só por ocaso, em flashes esporádicos, tomamos conhecimento de fatos históricos acerca de Jesus. Dou uns exemplos: o evangelista Marcos, no sexto capítulo de seu Evangelho, nos informa ‘de passagem’ que Jesus tem quatro irmãos e pelo menos duas irmãs. E, no quarto capítulo de seu Evangelho, Lucas conta que os nazarenos estranham o comportamento do conterrâneo Jesus e o rejeitam. Mas esses raros dados históricos não são sistematicamente trabalhados, não se enquadram num esquema historiográfico. As raras cenas historiográficas flutuam como destroços de um naufrágio em meio a discursos de cunho narrativo e metafórico. Temos de recordar também um dado de ordem política: no ano 70, os romanos destroem o Templo de Jerusalém. Nessas circunstâncias, as lideranças do movimento de Jesus, já ameaçadas por hostilidades de todo tipo, não devem ter achado prudente abordar o tema de Jesus provocativo. Conclusão: para alcançar a política provocativa de Jesus, temos de ‘desvendar’ Jesus de Nazaré, ou seja, retirar a venda que nos impede enxergar claramente sua pessoa, tal qual andou pela Galileia, vinte séculos atrás. Paradoxalmente, foram os evangelhos que colocaram essa venda em nossos olhos. No fundo, temos de voltar ao questionamento dos escolásticos medievais: fides quaerens intellectum: ‘a fé em busca de inteligência’. Pois, em muitos casos, a fé concreta, praticada pelo povo, até nossos dias, é cega, enxerga mal os reais intentos de ações e palavras de Jesus. Três episódios em que Jesus se revela provocativo: as bodas

ARTIGO – AS CRYPTOTULIPAS

Entre os episódios de loucura coletiva das nações destacam-se a Tulipomania, os bitcoins e o mantra do risco fiscal Era uma vez, em 1630, um país chamado Holanda. Nas terras dos assim chamados Países Baixos ocorre um frenesi que se apodera da grande maioria da população, do mais rico ao mais pobre. A Tulipomania mobiliza corações e mentes na busca obsessiva por riqueza fácil. Em 1636, um bulbo dessa exótica planta ornamental poderia ser trocado por uma nova carruagem, dois cavalos cinzentos e um conjunto completo de arreios. A febre do cultivo e comercialização de vários tipos de bulbos alastrou-se na economia holandesa mais rápido que a velocidade da luz. Não havia Internet! A demanda por espécies raras de tulipas cresceu tanto que foram criados mercados regulares para a sua comercialização em Bolsas de Valores em Amsterdã, Roterdã e outras cidades holandesas. No livro Manias, Panics and Crashes, o economista Charles Kindleberger faz uma autópsia dos processos maníacos que, inevitavelmente, terminam no colapso de preços e nas crises de crédito. Assim foi em Amsterdã, no episódio da Tulipomania, um antepassado modesto dos grandes crashes dos séculos XX e XXI. Entre 1634 e 1637, os investidores holandeses, muitos de classe média, especularam furiosamente com a possibilidade de negociar a preços cada vez mais elevados os bulbos de tulipas, que, ademais, tinham a vantagem de exigir muito pouco ou nada para a sua reprodução. Na base das expectativas exacerbadas a respeito da evolução do preço das tulipas estava o Banco de Amsterdã e sua capacidade de estender o crédito e suportar o avanço da especulação. Na história das finanças é comum a imagem de investidores inconformados com os resultados da própria cupidez. Desde a Tulipomania de 1634, passando pelas crises cada vez mais frequentes do século XVIII (como a Bolha dos Mares do Sul, em 1720), e chegando aos desastres financeiros do século XX, o que mais impressiona o observador é a semelhança entre episódios tão diferentes. Em 1852, Charles Mackay publicou o livro Memoirs of Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds. Nas páginas de sua obra, Mackay ocupa-se das crises financeiras desencadeadas nos séculos anteriores. Entre tantas, despontam a de John Law e seu Esquema Mississippi, a Bolha dos Mares do Sul e a Tulipomania. Nesse episódio de loucura coletiva, as operações com tulipas tornaram-se tão amplas e intricadas que foi necessário criar um arcabouço legal para orientar os negociantes. Em 1637, veio o fim, o estouro, da bolha das tulipas. Subitamente, os mais prudentes e nervosos desencadearam a venda dos bulbos. Indícios indicam questionamentos que incomodaram esse grupo de tulipomaníacos. Teriam assomado às suas almas ambiciosas algumas indagações: o que é uma tulipa, além de uma planta ornamental? O que faz uma tulipa, além de ser uma planta exótica, uma flor? Charles Mackay acentua a Loucura das Massas embaladas nas esperanças da grana fácil: “Nobres, cidadãos, fazendeiros, mecânicos, marinheiros, lacaios, domésticas e até limpadores de chaminés e lavadeiras idosas enfiaram seus narizes nas tulipas. Pessoas de todas as categorias convertiam suas propriedades em dinheiro e investiam em flores. Casas e terras foram postas à venda a preços ruinosamente baixos, ou dadas em pagamento de negócios efetuados no mercado de tulipas”. A Holanda entrou em depressão econômica por vários anos. “O episódio especulativo sempre termina não com um suspiro, mas com uma explosão.” (John Kenneth Galbraith) Hoje, vivemos a euforia das criptomoedas, a cada dia da semana, dia sim, outro também, um minerador cria sua própria moeda digital, com a esperança de que alcance os pináculos do Bitcoin. Assim como em relação aos bulbos de tulipas, há que indagar: o que é um Bit? O que eu compro com um Bit? Quanto vale um Bit? Nada, além de capacidade de memória! E um algoritmo? Vale o quê? “A regra é a seguinte: as operações financeiras não se prestam à inovação… O mundo financeiro não cessa de saudar a reinvenção da roda, muitas vezes em versões progressivamente mais instáveis.” (John Kenneth Galbraith) Plataformas de negociações de ­crypto, ETF de crypto, contratos futuros de crypto, mineração de crypto. Formas como stablecoins apresentam-se como a ressurreição digital do velho padrão-ouro, pretendendo transformar as plataformas privadas em garantidores da estabilidade das pseudomoedas. Delenda Bancos Centrais! Os crentes proclamam: o blockchain garante a autenticidade monetária das crypto. Esquemas Ponzi, pirâmides e alavancagens proliferam nesse mundo “monetário”. Cadê a aceitação geral? Para eu comprar alguma coisa tenho de trocar minha crypto por moeda local, dólares, euros, reais. Mas os crédulos carregam em suas carteiras 1 trilhão de dólares desses bits misteriosos e milagrosos! Interessante: o patrimônio crypto é medido em dólares, uma moeda criada em 1776! As novas tulipas digitais estão aí nos corações e mentes da modernidade. “De maneira uniforme em todos os eventos especulativos está a ideia de que há algo novo no mundo.” (John ­Kenneth Galbraith) “Toda pessoa, enquanto indivíduo, é toleravelmente sensata e razoável, mas, como membro de uma multidão, torna-se imediatamente um idiota.” (­Friedrich von Schiller) Voltamos a Charles Mackay: “Ao ler a história das nações, descobrimos que, como os indivíduos, elas têm seus caprichos e suas peculiaridades; suas temporadas de excitação e imprudência, quando não se importam com o que fazem. Descobrimos que comunidades inteiras de repente fixam suas mentes em um objeto e enlouquecem em sua busca; que milhões de pessoas ficam simultaneamente impressionados com uma ilusão e correm atrás dela, até que sua atenção seja atraída por alguma nova loucura mais cativante do que a primeira… O dinheiro, novamente, tem sido frequentemente uma causa da ilusão de multidões. Nações sóbrias de repente tornaram-se jogadoras desesperadas e arriscaram quase suas existências ao virar um pedaço de papel”. No Brasil de hoje, a Loucura Coletiva assedia os Senhores da Grana que repetem obsessivamente o mantra do Risco Fiscal. Corta, corta, corta e danem-se os prejudicados. Manda quem Pode, Obedece quem tem Prejuízo. Em CARTA CAPITAL – 13 de janeiro de 2025. As cryptotulipas – por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back