Luís Guerreiro: “Tivemos a sensação de que o Vaticano II era o sopro do Espírito”

Nascido ao norte de Portugal, Luís Guerreiro Pinto Cacais, 80 anos, casado há 34 com Irene Ortlieb, ex-freira e teóloga alemã, foi ordenado padre católico em 1956. Exerceu o ministério durante 18 anos, em Portugal, como professor e diretor de seminários, e em Angola, como superior das missões redentoristas. Ambos deixaram o campo missionário em 1974. Cada um voltou para seu país e, em outubro do ano seguinte, casaram-se no Brasil. O casal mora em Brasília e tem um filho de 31 anos. Guerreiro é tradutor e escritor (“Caminhos de Liberdade e Solidão”, “Impossível Regresso”, “Entardecer e Oitavo Dia da Criação”). Na edição de novembro/dezembro de 2003, publicamos a reportagem “Padre redentorista sai da trincheira e se casa com freira teóloga”. Numa entrevista realizada no final de maio, Ultimato colheu as seguintes opiniões de Luís Guerreiro:

Os padres casados têm razão

O frade dominicano Frei Betto escreveu uma história dramática. Depois de celebrar a Missa do Galo e de abraçar seus paroquianos, o padre Afonso se viu miseravelmente só em plena noite de Natal. Nessa situação emocional, outros sentimentos desagradáveis vieram à memória. Perturbava-o a consciência do pai que nunca fora, as saudades dos filhos que nunca tivera, o estar sozinho à mesa de refeições. Naquela noite nenhum irmão tivera a generosidade de convidá-lo à ceia. Então, o padre encontrou na cozinha um panetone e uma garrafa de vinho, colocou-os na pasta usada para levar sacramentos aos enfermos e rumou para a zona boêmia.

A coragem de dizer aos que querem mudança na igreja que eles, eventualmente, têm razão

À entrada da terra de Canaã, Moisés foi procurado duas vezes por causa de um mesmo problema. Em ambas as ocasiões, o líder máximo do povo de Israel, depois de examinar as questões, concluiu que a causa dos queixosos era justa (Nm 27.7; 36.5). Mais de um milênio e meio depois, outro grupo de queixosos — os crentes que só falavam grego — mostrou-se descontente porque as suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de cestas básicas, enquanto as viúvas dos crentes de fala hebraica, não. Sem perda de tempo, “os doze reuniram todos os discípulos” e deram razão aos queixosos e promoveram a eleição de um corpo de oficiais para estarem a serviço das necessidades da comunidade inteira, a bem de todos e da unidade cristã (At 6.1-7).

Decisões da Assembleia Geral Ordinária do Encontro Nacional de São Luís, MA, 2002

DECISÕES, SUGESTÕES E COMENTÁRIOS APRESENTADOS NA ASSEMBLÉIA GERAL ORDINÁRIA DA ASSOCIAÇÃO RUMOS (AR) São Luís, MA, 13 e 14 de Julho de 2002 OBS: O QUE ESTÁ EM NEGRITO FOI APROVADO PELA ASSEMBLÉIA POR MEIO DE VOTAÇÃO, TORNANDO-SE NORMA A SER INSERIDA NA PRÓXIMA REVISÃO DO ESTATUTO. Sobre o MPC/AR: 1- Necessidade de reforçar o MPC/AR buscando uma maior participação dos padres casados, principalmente buscar trabalhar com os mais novos. 2- Organizar um “site” do MPC/AR na Internet. 3- Inserir o MPC em outros “sites” da Internet, como o Partenia e o Forum de SP. 4- Fortalecer a AR, promovendo o cadastramento de seus sócios e uma contribuição -Taxa Anual – para a manutenção da mesma e de seus objetivos. 5- Taxa Anual mínima proposta é de R$ 120,00, podendo ser paga parceladamente, com possibilidades de redução ou isenção para aqueles que realmente estejam impossibilitados e que solicitarem este benefício à Diretoria. 6- Os sócios em dia receberão automaticamente o Jornal Rumos. 7- Os grupos, em particular com a colaboração das mulheres, poderão contribuir com os Encontros Nacionais, vendendo artesanato ou outros artigos durante os Encontros. 8- Necessidade de um Fundo Financeiro para os Encontros, pois as inscrições e os patrocínios nunca são suficientes para cobrir as despesas, que não deve recair sobre os organizadores. 9- Organizar um novo catálogo dos padres casados, incluindo disponibilidade para hospedagem de colegas de outras cidades. 10- Formar uma Comissão para representar o MPC/AR junto à CNBB e outras organizações. 11- Fazer nova pesquisa entre os padres casados e suas famílias. 12- Encaminhar solicitação oficial da AR para a CNBB solicitando dados sobre os padres que se afastaram do ministério. 13- Pesquisar o que os padres casados e suas famílias estão fazendo, em nome do MPC ou não, nos vários movimentos sociais e organizações. 14- Formar uma comissão para revisar os Estatutos da AR e propor mudanças, se necessário, na próxima Assembléia Ordinária. 15- Promover a aproximação do MPC com outros movimentos afins, que buscam uma renovação da Igreja. 16- Participar do Fórum Social em Porto Alegre. 17- Criar um ‘folder’ para divulgação do MPC/AR. 18- Próximo Encontro Nacional (XV) e Assembléia Ordinária da AR no Estado de Goiás, se possível na cidade de Caldas Novas, em 2004/2005. 19- Aprovados o casal Jorge e Ziulma Ponciano Ribeiro (DF) para Presidente e os casais Gill Barreto Ribeiro-Alda Divina e Sérgio-Maria da Conceição Bernardoni (GO) para Vice-presidentes. Outros membros a definir em 60 dias, conforme os Estatutos. 20- O representante do Brasil no Encontro da Federação Internacional, Madrid, setembro de 2002, será Jorge Ponciano Ribeiro, que é também Secretário da Federação Latino Americana dos Padres Casados ficando aberta a possibilidade de outros interessados participarem também, até ao número de três. Francisco Muniz de Medeiros, de João Pessoa, mostrou-se interessado em participar e sua proposta foi aceita. 21- Apresentação da conclusão da reunião das mulheres presentes ao Encontro. 22- Aprovada a Carta de São Luís, do XIV Encontro Nacional do MPC. 23- Agradecimentos ao colega Frans Gistelinck que, a pedido do Presidente cessante João Tavares, conseguiu da Abadia Trapista de Westmall uma ajuda financeira importante para o XIV Encontro. Sobre o Jornal Rumos: 1- Apresentada a “Proposta de Renovação do JR (da equipe de SP – Conselho Editorial), pelo Francisco Resende, que serviu de base inicial para as discussões sobre o JR. 2- O JR deve manter-se como órgão representativo do MPC/AR, buscando divulgar a opinião dos seus membros sobre temas atuais e de interesse geral, sob a perspectiva da ética, da teologia, que possam contribuir para o crescimento do Reino de Deus. 3- O Jornal deve ser representativo do MPC para ‘dentro’ e para ‘fora’, mantendo a linha editorial, ampliando espaço para temas sócio-político-pastoral e para notícias e testemunhos dos vários grupos de Padres Casados nacionais e internacionais. 4- O JR é o carisma do MPC, e os padres casados devem assumi-lo como seu ministério, visando o leigo engajado e sua formação evangélica. 5- Reconhecimento de que no seu ‘todo’ a proposta de renovação do JR é riquíssima, principalmente a implementação do JR como porta-voz do MPC para o Povo de Deus. 6- O Jornal pode adotar uma linguagem mais acessível a outros leitores, facilitando um maior interesse por outros grupos e consequentemente uma maior divulgação. 7- O Jornal deve trazer questões políticas, não só, mas principalmente por ocasião de eleições e abrir espaço para discurso da geração de padres casados emergentes e para discurso feminino. 8- Vender ou distribuir o JR, nas Igrejas, para o Povo de Deus. 9- O J.R. continuará a ser editado e distribuído pelo grupo de São Paulo. 10- Formação de um Conselho Editorial Nacional, com participação de um membro do grupo de São Paulo, com participação preferencial de Teólogos e Jornalistas. Alguns nomes sugeridos: Eduardo Hoornaert (BA), Lauro Mota (CE), Felix Galvão(PE), Gil Barreto (GO), Luis Guerreiro (DF), dentre outros. 11- O JR deve ter um ‘ombudsman’. 12- Manter o expediente de assinaturas, exceto para os sócios do MPC/AR com o pagamento da taxa anual/mensal em dia. 13- Quanto às finanças, mais uma vez colocado que as assinaturas não sustentam o JR, sendo que o balancete deste período de 2 anos e meio, apresenta um saldo negativo de R$ 1.843,16 (até a edição 176), arcado majoritariamente pelo Mauro e a Regina e mais as despesas da Edição 175 (comemorativo dos 20 anos do Jornal) assumido pelo Francisco e Rosa Resende a alguns membros do Conselho Editorial. 14- Reforçada a necessidade dos sócios assumirem o financeiro do JR, como um órgão representante do MPC/AR, além de se buscar patrocínios e contribuições de Sócio Benfeitor. 15- O JR deve ter um diretor de ‘marketing’. 16- Muitos agradecimentos e reconhecimento pelo trabalho da equipe de São Paulo – Conselho Editorial do JR. Comunicações: 1- Frei Marcelino (CE) – existe jurisprudência que possibilita os padres que se afastam do ministério a pedirem indenização à Igreja, por tempo de serviço prestado no ministério. 2- Guerino (SP) – a CNBB tem um projeto denominado SIM

Ata da Reunião das Esposas dos Padres Casados no Encontro de São Luís, MA, em 2002

Um grupo de mulheres participantes do XIV Encontro Nacional do Movimento dos Padres Casados, realizado em São Luís, Maranhão, no dia 13 de julho se reuniram e discutiram e fizeram as seguintes considerações sobre o encontro, quanto os itens que se segue: 1- Sentimentos e observações das “mulheres” dos padres em relação a este encontro. # Um grupo de mulheres se sente marginalizada nas discussões do encontro, apontando como razões: – Temáticas e a dinâmica do encontro não proporcionaram uma vinculação do assunto tratado com o cotidiano/ síntese/ necessidades da família: relacionamento humano, droga, educação dos filhos, etc – Vergonha/ timidez – Sentimento de desigualdade em relação aos maridos, em decorrência de sua educação e até de suas prepotências. # Um outro grupo de mulheres não se percebe excluído das discussões e afirmam que se não manifestam não o fazem porque não querem ou porque estão satisfeitas como a temática vem sendo trabalhado eu ainda por elas mesmas não criaram espaços para tal. Registram ainda que: * Percebem haver uma grande ansiedade na maioria dos padres, em relação à Igreja e ao exercício ministerial. Os homens demonstram ainda com muito conflito em relação à questão: divórcio com o Vaticano. * Confirmaram a consciência de que nós mulheres de padres casados, somos junto com nossos maridos profetas de uma nova Igreja. * Reconheceram a importância da mulher no MPC, nas diferentes formas de participação: * Incentivando, acompanhando e criando condições de participação “somos sustentáculos desta causa”. 2- O que sugerem: a) Em relação aos próximos encontros maior envolvimento das mulheres nos encontros: preparação prévia, estudo, sugestões de temas. Encontros cuja dinâmica propicie espaços para discussões/ trocas de experiências entre os casais, conforme interesse das famílias. Fortalecer o “fogo”’ dos grupos regionais. b) Em relação ao Jornal Rumos: Rumos continua sendo o órgão representativo da Associação, deve aperfeiçoar-se, trazendo temas sobre MPC e outros assuntos de interesses da atualidade: ética, saúde, educação, ecologia, etc. c) Em relação à Associação: Criar uma taxa para manutenção da entidade, mínimo de R$ 120,00, mas que poderão ser parceladas. Quem não puder pagar, pedirá à Diretoria isenção ou redução de taxa. O associado inscrito e quite tem direito ao Jornal Rumos. São Luís, 13 /07/2002.

Carta de São Luís

Reunidos em São Luís do Maranhão, no XIV Encontro Nacional do Movimento de Padres Casados, de 11 a 14 de julho de 2002, sob o tema “Espiritualidade e Globalização’’, queremos tornar públicas nossas considerações e conclusões. Acreditamos que a experiência da Espiritualidade é o grande antídoto para sanar a angústia, a impotência e até mesmo o desespero de milhões de nossos irmãos que anseiam por uma vida digna e significativa. Entendemos Espiritualidade como a vivência e realização da própria individualidade, através do contato, do amor a si mesmo, do respeito pelas próprias possibilidades, através da expansão da consciência de si mesmo, à procura do mais íntimo e global significado da pessoa humana. Temos consciência, entretanto, de que a Globalização é uma realidade sem retorno no mundo atual e, ao mesmo tempo, sentimos a necessidade de contrapor a ela um processo que permita ao indivíduo não perder a dignidade, vivendo sua cidadania, como condição essencial de sobrevivência. Somos o Povo de Deus em marcha, num mundo em permanentes e rápidas mudança. Como Padres Casados, sentimos o imperioso dever de apontar possíveis caminhos, dado que somos, no mundo e na Igreja, uma espécie de ponte por onde passam, de um lado, a desesperança de muitos de nossos irmãos e, de outro, os desejos de um mundo melhor, centrado no respeito pela pessoa humana, pela sua integridade física, mental e religiosa, pilares de uma nova visão de Espiritualidade. Diante disto, apresentamos algumas de nossa conclusões: 1- Reiteramos nosso compromisso na defesa dos direitos humanos, pela superação dos problemas sócio-econômicos, que afligem a maior parte da humanidade, provocados pelo modelo neo-liberal de uma globalização desumana. 2- Unimos nossos esforços a grupos religiosos, ONGS, a correntes que pleiteiam um gerenciamento mais humano das coisas dos Homens, sendo sinal de uma nova caminhada que se delineia, corajosa e decidida, neste início de milênio. 3- Defendemos uma Igreja, Povo de Deus, empenhada na transformação de estruturas arcaicas e legalistas, em um movimento respeitoso pelas opções religiosas que estão surgindo no mundo., 4- Defendemos a abolição do celibato obrigatório, para que possa surgir na Igreja um Ministério Sacerdotal, desvinculado de gênero ou estado civil e que seja sinal do amor de Cristo a todos os homens que desejam servi-lo na liberdade de Filhos de Deus. 5- Defendemos que cada cristão, em particular os Padres Casados, movidos pelo Espírito, sirvam o Povo de Deus, em íntima coerência com os dons que receberam do Pai, fiéis à sua consciência, dando visibilidade à Igreja, Povo de Deus, como nos primeiros tempos do Cristianismo. 6- Acreditamos que nossas vidas ganham sentido e se tornam visíveis quando, chamados pelo Espírito de Deus, respondemos, humilde e corajosamente, aos problemas do mundo, colocando todo nosso ser a serviço de nossos irmãos, na Fé, na Esperança e no Amor. São Luís do Maranhão, 14/07/2002

Bíblia e Fundamentalismos

  “Todo o fundamentalista está seguro e certo do seu seguimento literal da revelação divina. Acredita que um texto, por mais difícil e misterioso que seja, sendo revelação de Deus, é acessível a todos e só pode ter um sentido.”

Seminário comemora 40 anos da Teologia da Enxada

Por Natasha Pitts * Adital De 9 a 12 de outubro, acontecerá no Centro de Formação Missionária (CFM), localizado em Serra Redonda, interior do estado da Paraíba (Nordeste do Brasil), o seminário “Teologia da Enxada – 40 anos”. O evento é uma realização da Fundação Dom José Maria Pires e tem como objetivo rememorar essa experiência teológica popular e pensar nas perspectivas do movimento. “Comemorar os 40 anos da Teologia da Enxada significa dar um aceno para a Igreja e para a sociedade no sentido de alertar para a importância do protagonismo dos pobres e dos excluídos na caminhada da Igreja”, comenta o teólogo José Batista, um dos fundadores da Teologia da Enxada.

Padre Cícero Romão Batista: um intelectual orgânico?

Por Joarez Virgolino Aires Em tese de doutorado, o Prof. Luitgade Olveira, em seu livro A Terra da Mãe de Deus, pela Editora Francisco Alves, identifica o movimento dos beatos e conselheiros do Brasil, a partir da matriz ideológica do padre Mestre Ibiapina. Aplicando a teoria de Antônio Gramsci, entende que estes líderes religiosos plasmaram e influenciaram um grupo social e, por isto, mesmo que analfabetos, entram na categoria de intelectuais orgânicos. Depois de São Francisco de Sales, Padre Mestre Ibiapina foi o grande modelo na vida do padre Cícero como de todos os conselheiros e beatos da época.