SOCIEDADE – Reimont: Papa Francisco deixa legado irreversível

Deputado petista acredita que futuro pontífice seguirá na linha progressista No próximo dia 26 de abril, o mundo assistirá ao funeral do papa Francisco, que morreu nesta semana aos 88 anos. Será uma cerimônia inédita, muito mais simples do que a dos seus antecessores, como deixou expresso o próprio pontífice. Assim era Francisco, o simples, o humanista, o generoso, o acolhedor, o misericordioso, o bem humorado, que sempre defendeu que a Igreja deixasse de lado todo o luxo e toda a ostentação para se aproximar cada vez mais dos pobres. Assim era Francisco, o papa dos Direitos Humanos. Francisco trocou o Palácio Apostólico pela casa de hóspedes do Vaticano, abriu as portas para os sem teto, escutou a sociedade em diversos encontros, sempre atento às periferias e buscando caminhos coletivos. Em Fratelli Tutti (2020), sua encíclica sobre fraternidade universal, defendeu um novo modelo econômico — baseado na solidariedade e no bem de todos. No texto, cobrou que governos e empresas colocassem as pessoas à frente do lucro, para construir um mundo mais justo. Organizou encontros sistemáticos com movimentos sociais de todo o mundo, como comunidades marginalizadas, trabalhadores informais, juventudes, trabalhadores sem terra, catadores de lixo e povos indígenas, entre outros. Em um desses encontros, lembrou: “Não há mudança sem luta, não há luta sem esperança, não há esperança sem fé.” Ao longo de 12 anos de papado, o argentino Jorge Mario Bergoglio defendeu a população LGBTQIA+ e das mulheres, acolheu os divorciados, posicionou-se frontalmente contra o racismo e a xenofobia e fez apelos pelo fim das guerras. Na prática, ampliou a inclusão das mulheres em funções de destaque dentro da Igreja Católica. Em 2013, quando foi eleito, elas eram 19,2% dos funcionários do Vaticano. Uma década depois, subiram para 23,4%, conquistando nomeações inéditas e o direito a voto em reuniões globais de bispos. Em fevereiro de 2021, nomeou a religiosa francesa Nathalie Becquart como subsecretária do Sínodo dos Bispos, se tornando a primeira mulher com direito a voto na assembleia sinodal. Ainda em janeiro deste ano, nomeou a freira Simona Brambilla para a chefia de um dos departamentos mais importantes do Vaticano, o Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, o departamento de todas as ordens religiosas. Mudou a igreja, talvez menos do que desejava, foi um líder religioso de enorme expressão, mas também um líder político, em defesa dos mais empobrecidos e de todos os excluídos e vulneráveis, do meio ambiente, da paz, da solidariedade entre os povos e as pessoas e, portanto, contra as guerras, as injustiças socioambientais e a prática do lawfare (uso da justiça para perseguição política). Fonte: Site PT NA CÂMARA Matéria Completa: Acesse Aqui

SOCIEDADE – MEC indica reforma profunda no EAD superior; confira as possíveis mudanças

O Ministério da Educação (MEC) pretende reformular profundamente as regras do ensino superior à distância no Brasil 247 – O Ministério da Educação (MEC) pretende reformular profundamente as regras do ensino superior à distância no Brasil. A proposta, que integra o novo marco regulatório da modalidade, deve estabelecer a obrigatoriedade de avaliações presenciais com questões discursivas, exigir estrutura mínima nos polos físicos e regulamentar as aulas ao vivo com controle de frequência. As informações são do jornal O Globo, que teve acesso às diretrizes em discussão no governo. Após três adiamentos desde o fim de 2024, a expectativa é de que o novo decreto seja publicado até o dia 9 de maio. Enquanto o MEC argumenta que as mudanças são fundamentais para elevar a qualidade da formação dos estudantes, especialmente em áreas como saúde e educação, o setor educacional privado critica as medidas, alegando risco de encarecimento das mensalidades e redução do acesso ao ensino superior. O crescimento acelerado da modalidade — com aumento de 179% no número de matrículas em oito anos, saltando de 1,7 milhão para 4,9 milhões de alunos — acendeu o alerta nas autoridades. O governo federal quer conter o avanço indiscriminado da EaD, principalmente em cursos que exigem carga prática significativa, como Enfermagem. “Nós precisamos sair da lógica da modalidade e pensar na metodologia de ensino. Se à distância proporcionar a aprendizagem, por que proibir o uso de tecnologia? Não precisamos fazer grandes rupturas”, defende Bruno Coimbra, diretor jurídico da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES). Entre as propostas mais polêmicas está a exigência de, ao menos, uma prova presencial a cada dez semanas, com um terço das questões obrigatoriamente discursivas. O resultado dessas avaliações teria peso majoritário na nota final, evitando que estudantes sejam aprovados apenas com tarefas feitas on-line. Outra inovação é a criação de uma nova categoria de cursos semipresenciais. Nessa modalidade, as aulas seriam transmitidas ao vivo, com limite de 50 estudantes por professor e presença obrigatória mínima de 75%. A proposta visa aumentar a interação entre docentes e alunos, reduzindo a passividade típica de muitos cursos EaD. O MEC também pretende endurecer as exigências para os polos de apoio presencial. Os espaços terão que contar com recepção, sala de informática, área para atendimento ao aluno e, dependendo do curso, laboratórios equipados com a mesma qualidade dos encontrados em cursos presenciais. A partilha de polos por diferentes instituições, prática comum em cidades menores, será proibida. Fonte: Site BRASIL 247 Matéria Completa: Acesse Aqui

SOCIEDADE – Dowbor: Pra nos tirar da solidão

As crianças perderam as ruas e foram aprisionadas em telas. O trabalho tornou-se obrigação sem sentido. O laço entre as gerações se perdeu no apartamento exíguo. Mas busca-se, em todo o mundo, caminhos de reconexão. São flores no asfalto? Trabalhei anos em países africanos com ambiente social rico: bairros com crianças, avós, tios e tias, muito barulho e correria, zero privacidade, mas também muitas risadas. Era vida pulsando. E as ruas eram um lugar para socializar. Na minha infância em São Paulo, lembro que minha mãe ficava rouca de tanto gritar para nos chamar do meio da rua na hora do almoço. O mundo nos permitia explorar, e aprender a identificar o que valia a pena correr atrás — e do quê era melhor fugir. Jonathan Haidt menciona, em The Anxious Generation: How the Great Rewiring of Childhood Is Causing an Epidemic of Mental Illness2, a fragilidade social de crianças superprotegidas, refugiando-se em seus smartphones, com pouca experiência de liberdade para explorar o mundo ou de interação social espontânea. Mas isso não é um problema apenas para as crianças. A vida social foi empobrecida — e profundamente transformada — para todos. Nos estádios de futebol, vemos milhares de pessoas gritando e cantando, empurrando-se numa explosão de convivência, a felicidade de xingar a mãe do juiz. Na TV, onde as crianças assistem ao jogo e ouvem, ao fundo, a torcida cantando refrões agressivos ou obscenos, o comentarista os “traduz”, para preservar as inocências. Bem,a explosão no estádio é libertadora, mas dura só algumas horas a cada semana. Quando criança, eu não assistia a jogos – nós os jogávamos. E xingávamos de forma saudável. Será só nostalgia do passado? Há, de fato, uma perda de convívio, e a convivência virtual não é a mesma coisa. Uma grande transformação está na estrutura familiar. Ela varia conforme o país ou a comunidade, mas, no geral, esse pilar da organização social mudou. Tomo o exemplo norte-americano, expresso na figura abaixo: entre 1960 e 2023, o que antes era o paradigma do American way of life — um casal com filhos (se possível, com TV, carro, quintal e churrasqueira) — passou de 44,2% dos lares para apenas 17,9%. Os políticos ainda insistem em tratar a família como “alicerce sagrado da sociedade”, e os pastores fazem o mesmo, mas seria bom eles olharem os dados com mais atenção. Na realidade, as pessoas que vivem sozinhas, que representavam 13,1% dos lares em 1960, agora somam 29%. É uma fratura profunda na estrutura social. Se adicionarmos casais sem filhos, chegamos a 58,4% dos lares estadunidenses compostos por adultos casados ou solteiros sem crianças, como destacado no gráfico. Há ainda parceiros não casados e pais/mães solo. O ponto crucial não é apenas a perda das ruas como espaço de convivência, a obsessão com smartphones, mas também o isolamento do lar. Fonte: Site OUTRAS PALAVRAS Matéria Completa: Acesse Aqui

SOCIEDADE – O professor de Yale que está saindo dos EUA por discordar do governo Trump: ‘Já somos um regime fascista’

Jason Stanley corre de um compromisso para outro: reuniões, um debate diante de centenas de pessoas, um telefone tocando sem parar com pedidos de entrevista e os filhos dizendo que ainda não tomaram café da manhã. Este professor de filosofia da Universidade Yale, nos Estados Unidos, tem levado uma vida mais agitada do que o normal desde que anunciou há alguns dias que vai deixar o país devido ao clima político e ao que ele considera a ameaça de uma ditadura incipiente. Autor do livro Como funciona o fascismo — que foi traduzido para mais de 20 idiomas desde sua publicação em 2018 —, Stanley está convencido de que esse rótulo se encaixa no governo de Donald Trump. “Acho que já somos um regime fascista”, disse Stanley em entrevista à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, na qual abordou desde sua decisão de se mudar para o Canadá até a repressão do governo às universidades nos EUA. Assim como ele, outros dois importantes acadêmicos de Yale e críticos de Trump, os professores de história Timothy Snyder e Marci Shore, também anunciaram que vão trabalhar para a Universidade de Toronto, no Canadá. A seguir, está um resumo da entrevista por telefone com Stanley, que nasceu há 55 anos, filho de imigrantes europeus (sua avó fugiu da Alemanha nazista com seu pai em 1939), e cujo último livro é intitulado Erasing History: How Fascists Rewrite the Past to Control the Future (“Apagando a História: Como os Fascistas Reescrevem o Passado para Controlar o Futuro”, em tradução livre). Fonte: Site BBC News Brasil Matéria Completa: Acesse Aqui

SYNÉSIO BARBOSA DE MELLO, aos 90 anos de idade

Com tristeza que comunicamos o falecimento ontem, dia 26.03.2025, em Santos-SP, do ibateano SYNÉSIO BARBOSA DE MELLO, aos 90 anos de idade. Synésio estudou no Ibaté de 1950 a 1955. Sua Ordenação Presbiteral ocorreu em 08.07.1962. Exerceu o sacerdócio na Paróquia Santo Afonso, no bairro do Ipiranga em São Paulo. Após alguns anos deixou o sacerdócio para se dedicar a trabalhos pastorais como leigo. Construiu uma bela família, com 4 filhos e 10 netos. Mais um pedaço de nós que foi para a Casa do Pai.  

SOCIEDADE – Caso Mahmoud Khalil: Trump quer seu Vietnã? Artigo de Bruno Huberman

Ameaça de deportação do ativista, que aderiu aos atos pró-Palestina, expõe nova onda repressora – que agora caça imigrantes e opositores ao genocídio de Israel. Assim como em 1968, a resistência cresce. Naquela guerra, EUA perderam no “front interno”. O artigo é de Bruno Huberman, publicado por blog da Boitempo, 20-03-2025. Bruno Huberman é professor de relações internacionais da PUC-SP, onde é vice-líder do Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais. Integrante do INCT/Ineu, atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado pelo Programa San Tiago Dantas e é autor de Colonização neoliberal de Jerusalém (Educ, 2023). Eis o artigo. Donald Trump assumiu a presidência dos EUA, há aproximadamente dois meses, com uma nova abordagem para a questão Palestina/Israel. Implementou um cessar-fogo antes mesmo da posse e prometeu uma limpeza étnica completa dos palestinos da Faixa de Gaza para a sua reconstrução como um resort de luxo. Na “Trump Gaza” dos seus sonhos, o dinheiro cai do céu na cabeça de Elon Musk e Trump partilha um drink com Benjamin Netanyahu à beira de uma piscina, como demonstra o seu vídeo promocional. O governo de Israel chegou a abrir um gabinete para planejar a expulsão dos palestinos. Contudo, o plano não deu certo. Jordânia e Egito, apresentados como os destinos dos palestinos, rejeitaram receber os refugiados mesmo sob pressão estadunidense e promessas de alívio da dívida externa e novos investimentos estrangeiros. Os líderes árabes sabem que até podem ignorar a Questão Palestina, mas colaborar com Israel para facilitar a limpeza étnica é uma linha vermelha que não ousaram cruzar. Diante da recusa, Trump e Netanyahu consultaram países africanos envolvidos em guerras civis — Sudão, além de Somália e Somalilândia. Também sem sucesso. Em paralelo, Trump abriu negociações diretas com representantes do Hamas, emulando o modelo que tem usado na Ucrânia, onde dialoga diretamente com o presidente russo Vladimir Putin. Essa foi a primeira vez que os EUA negociaram com representantes do povo palestino sem a participação de israelenses. As ações de Trump demonstram como Ucrânia e Israel não passam de joguetes estadunidenses no enfrentamento à Rússia, na Europa Oriental, e ao Eixo da Resistência, no Oriente Médio. Ambas as regiões possuem recursos naturais, rotas comerciais e infraestruturas energéticas que são estratégicas na disputa entre EUA e China. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – O ‘Caim’ de Saramago. Artigo de Eduardo Hoornaert

“O romance de Saramago pode criar desconforto em leitores(as) acostumados(as) à apresentação de um Deus Senhor Todo-poderoso. Pois a apresentação da história bíblica feita pelo autor é de caráter militante. Por trás do tom de leveza e humor, que perpassa o texto, existe a ânsia de alguém que percebe que a humanidade se deixa enganar”, escreve Eduardo Hoornaert, historiador, ex-professor e membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), em artigo publicado em seu blog, 15-03-2025. Eis o artigo. Esplendidamente escrito e demonstrando um domínio insuperável da língua portuguesa, o romance de José Saramago, Prêmio Nobel de literatura, intitulado Caim e editado pela Companhia das Letras (São Paulo, 2009), vem nos surpreender. Caim, irmão de Abel, é inimigo jurado de Senhor Deus. Condenado a viajar do futuro ao passado, das terras do amanhã às terras de ontem, sem nunca encontrar repouso, Caim vê por todo lado maus feitos desse Senhor Deus: por que rejeitar as ofertas de Caim e aceitar as de Abel, se ambos agem de boa vontade? Por que condenar com penas tão cruéis duas mulheres, Eva e a mulher de Lot, que agem por curiosidade, ou seja, por inteligência? Por que ordenar a Abraão matar seu próprio filho? Haverá ordem mais cruel e mais sem sentido? Por que lançar fogo e enxofre do céu sobre as crianças inocentes de Sodoma e Gomorra? Não são elas em maior número que as dez almas sem culpa que o Senhor Deus exigiu para não exterminar as cidades e toda a planície? O que as crianças têm a ver com a perversidade de seus pais? Por que contemplar com benevolência, do alto do Sinai, a matança de três mil pessoas, só porque alguns dançaram em torno de uma imagem, no acampamento do povo no deserto, já que toda criação é feita à imagem e semelhança de deus? Por que vingar de forma tão cruel a matança de 17 soldados israelitas pelas forças de Madiã, a ponto de ordenar o extermínio da cidade? E o que dizer das crueldades cometidas por Josué e seu exército na destruição total de Jericó, por ordem do Senhor? A lista é interminável. Caim conclui: as ordens do Senhor, além de incompreensíveis, são maldosas. O Senhor Deus só quer a derrota dos homens e Caim resolve combatê-lo de todas as forças. O romance termina dizendo que o Senhor Deus e sua criatura inconformada continuam discutindo pelos séculos afora. A única coisa que se sabe de ciência certa é que continuaram a discutir e que a discutir estão ainda (p. 172). Que discussão é essa? Eis o que constitui o segredo do romance. O que se pode dizer que Saramago não tem a intenção de escandalizar seus (suas) leitores(as) com disparates levianos e incongruentes contra os textos bíblicos, mas pretende lutar contra uma apresentação banalizada da Bíblia, que tira o sentido do texto, mas que infelizmente constitui a leitura comum nos dias em que vivemos. A estranheza que esse romance provoca em nós mostra que não conhecemos a Bíblia, mas estamos presos(as) a uma apresentação da literatura bíblica feita durante séculos pelas igrejas, por meio de sermões e do catecismo. O(a) leitor(a) atento(a) descobrirá logo que Saramago não comenta textos bíblicos. O romance todo só tem uma citação (da Carta aos Hebreus, 11, 4) no pórtico de entrada. Pelo resto, Saramago não comenta a Bíblia, ele se refere o tempo todo ao que se pode chamar de apresentação catequética da Bíblia, ou seja, à ‘História Sagrada’. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

SOCIEDADE – As molas mórbidas do capitalismo tardio

Nos EUA, 20% do PIB já se originam de doença ou vício: em opioides, tabaco, bets, ultraprocessados e dispositivos digitais. Mobilizar nas pessoas aquilo que elas não controlam é agora indispensável ao sistema. Há um pretexto: liberdade de escolha A rápida recuperação econômica dos Estados Unidos no pós-pandemia consagrou o lugar comum do “excepcionalismo norte-americano”, que Tej Parikh procura desmistificar, numa recente coluna no Financial Times. É verdade, escreve ele, que, a partir de 2022, o mercado de ações bombou e que as inovações tecnológicas ligadas ao avanço da inteligência artificial deram notável impulso ao setor privado. Mas isso não pode escamotear o fato de que 20% do PIB norte-americano vem de gastos com saúde, muito mais (mesmo em termos per capita) que em outros países da OCDE. 40% dos novos empregos privados criados desde 2023 estão em healthcare. Na verdade, é mais apropriado falar em gastos com doença e não com saúde: nos EUA, morrem mais jovens e as doenças evitáveis ou passíveis de tratamento matam mais do que em outros países ricos. Dos dez setores econômicos norte-americanos com maior faturamento, em 2020, os três primeiros estão ligados a tratamentos médicos, seguros médicos, remédios e hospitais.. A conclusão de Tej Parikh é peremptória: parcela significativa do boom econômico norte-americano é gerada pela doença. E o que propaga e pereniza a doença é o empenho meticuloso em difundir em larga escala o vício. Cuidadosamente formulado, planejado e propagado, o vício é um vetor decisivo, talvez o mais importante, das doenças que marcam parcela significativa do crescimento econômico contemporâneo e não só nos EUA. Que se trate dos opioides, do tabaco, dos alimentos ultraprocessados, das famigeradas bets ou dos dispositivos digitais em que nossa interação social está compulsivamente mergulhada, conquistar a adesão das pessoas por meio de fatores sobre os quais elas não exercem qualquer controle se tornou um componente decisivo do próprio crescimento econômico contemporâneo. O pior é que esta perda de autonomia, esta interferência corporativa organizada na decisão pessoal é apresentada e cada vez mais socialmente legitimada como seu contrário, ou seja, como expressão de liberdade de escolha. Tudo se passa como se a vontade de cada um de nós tivesse força suficiente para se contrapor ao trabalho de milhares de profissionais especializados em moldar e determinar as preferências humanas. Esta ingerência não seria tão grave se ela não tivesse consequências tão sérias sobre a saúde pública e, quando se trata dos dispositivos digitais, sobre a saúde da própria democracia. Hoje há uma farta documentação e um conjunto robusto de decisões jurídicas baseadas na evidência de que a indústria do tabaco, por exemplo, sempre soube que seu produto era não apenas tóxico, mas, sobretudo viciante e daí derivava, claro, seu benefício econômico. Mas tanto em sua publicidade, como nos tribunais, os dados vinculando o cigarro a graves enfermidades eram sistematicamente negados por cientistas contratados para chegar aos resultados convenientes à indústria. É verdade que campanhas (das quais o Brasil está entre os pioneiros) antitabagistas vêm provocando a diminuição da quantidade de fumantes em várias partes do mundo. Mas, como mostra um relatório recente da Organização Mundial da Saúde, a pressão da indústria sobre diferentes governos (na tentativa de atenuar as restrições pelo atrativo da arrecadação fiscal) segue firme. Um dos mais emblemáticos sinais da relevância do vício planejado como base do bom desempenho corporativo é apresentado nas fascinantes Royal Institutions Christmas Lectures pelo médico Chris van Tulleken. Para se ter uma ideia de sua importância, trata-se de um evento criado por ninguém menos que Michael Faraday, em 1825, e que recebe anualmente, desde então, cientistas de grande prestígio e reconhecimento internacionais. Chris van Tulleken montou um evento espetacular onde convidou profissionais que trabalharam na indústria de ultraprocessados e que revelam as técnicas pelas quais estes, que mal podem ser chamados de alimentos, tornam-se irresistíveis e, sobretudo viciantes. E tanto nestas conferências como em seu livro lançado há alguns meses pela Editora Elefante (Gente Ultraprocessada), ele mostra que alguns dos gigantes corporativos do tabaco se tornaram grandes acionistas e atores decisivos na indústria de ultraprocessados. No tabaco e nos ultraprocessados, quando confrontados com os prejuízos à saúde pública trazidos pelo consumo de seus produtos, as empresas respondem cultivando o mito de que quem decide é o indivíduo e que interferir em sua liberdade de escolha abre caminho ao autoritarismo. Fonte: Site OUTRAS PALAVRAS Matéria Completa: Acesse Aqui

SOCIEDADE – Lucro de planos de saúde aumentou 271% em 2024

Os planos de saúde registraram lucro líquido de R$ 11,1 bilhões em 2024, um aumento de 271% na comparação com 2023. Este resultado também é superior ao que foi obtido nos três anos anteriores somados. De acordo com os dados divulgados nesta quarta-feira pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a parcela equivale a aproximadamente 3,16% da receita total das operadoras, que foi de aproximadamente R$ 350 bilhões. Isso significa que para cada R$ 100 gerados, as empresas obtiveram cerca de R$ 3,16 de lucro. O Painel Econômico-Financeiro da Saúde Suplementar mostra ainda que a sinistralidade registrada no último trimestre do ano passado foi a menor para este período desde 2018: 82,2%. Esse calculo mede qual a proporção da receita recebida com as mensalidades dos planos de saúde são utilizada em despesas assistenciais. Isso significa que os planos utilizaram cerca de 82,2% do que receberam dos clientes para custear os serviços e insumos utilizados por eles. De acordo com a agência, isso é resultado da reorganização financeira promovida especialmente pelas operadoras de grande porte, que têm reajustado as mensalidades dos planos de saúde em patamar superior à variação dos custos com as despesas assistenciais. Outra parte importante do resultado financeiro positivo também é devido às aplicações financeiras. A maior parte do lucro total do setor ficou com as operadoras médico-hospitalares de grande porte: R$ 9,2 bilhões. Considerando apenas essas empresas, a diferença entre as receitas e as despesas diretamente relacionadas às operações de assistência foi positiva em R$ 4 bilhões. Fonte: Site ICL Notícias Matéria Completa: Acesse Aqui

ARTIGO – A nova estrutura do poder global. Artigo de Ladislau Dowbor

Após quatro décadas de retrocessos, 117 Titãs globais e seus fundos opacos manejam mais dinheiro que qualquer governo no Ocidente. E impõem lógicas que vão reduzir o planeta a um inferno social e ambiental – até que sejam detidos O artigo é de Ladislau Dowbor, publicado pela Revista Meer e reproduzido por Outras Palavras, 14-03-2025. A tradução é de Antonio Martins. Ladislau Dowbor é economista e professor titular de pós-graduação da PUC-SP. Foi consultor de diversas agências das Nações Unidas, governos e municípios, além de várias organizações do sistema“S”. Nossas atividades econômicas diárias geralmente são bem simples. A farmácia, as lojas, o supermercado, o ônibus, eventualmente um Uber, o posto de gasolina, levar as crianças para a escola e assim por diante. Parece bem local. Mas olhar para cima, em vez de obedecer ao filme Don’t Look Up, é o mais necessário, se quisermos entender por que os preços sobem, por que há tanto plástico e por que as prateleiras dos supermercados estão cheias de comida ultraprocessada. Sabemos que tudo isso é ruim, e as lojas também sabem. Tudo isso deveria ser regulado – mas se espalha, cada vez mais. Na verdade, quem está no comando? Finalmente, muitos pesquisadores ousaram olharam para cima e aos poucos trouxeram luz à bagunça que temos e às formas estamos começando a distinguir. Um bom ponto de partida é a crise financeira global de 2007, que levou o ETH, o principal instituto público de pesquisa suíço, a apresentar em 2011 o primeiro estudo abrangente sobre a rede de controle corporativo global [1]. Os resultados foram impressionantes: 737 corporações controlam 80% do mundo corporativo global. Destas, 147 controlam 40% — e 70% delas são instituições financeiras. Este é o topo da pirâmide: basicamente, gestão de dinheiro. O governador do Banco da Inglaterra comentou à época que o estudo mudava nossa visão sobre como a economia funciona. Os autores da pesquisa afirmavam no artigo: não havia como evitar a constatação de que estávamos diante do “clube dos ricos”. Igualmente impressionante é o fato, destacado por eles, de que este foi o primeiro estudo global sobre o poder corporativo, embora o processo de sua formação estivesse em andamento por décadas – basicamente desde que Margareth Thatcher e Ronald Reagan colocaram-se a serviço das corporações. Claramente, não havia interesse em jogar luz sobre o assunto. Mas agora temos uma imagem mais clara. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui