Na verdade essas preocupações estavam varridas da Igreja, sobretudo da liturgia. Ela foi sequestrada por grupos que passaram a cultiva o ego, numa verdadeira egolatria, mas onde palavras como “pobre, justiça, fraternidade, solidariedade, caminho, etc.,” não tinham mais lugar.
Se quiser, então, o Papa pode fazer algumas mudanças logo para que elas tenham efeito mais no futuro.
Sem obedecer a uma ordem de importância:
A primeira é nomear bispos próximos ao povo, pastores, não administradores de dioceses.
Segunda, rever a formação dos padres. As últimas safras – com todo respeito aos que continuaram com o pé no chão – estavam mais preocupados com a roupa de grife, o carro do ano, programas de auditório, assim por diante. Formar padres que estejam a fim de pisar na lama novamente não vais ser fácil.
Terceira, revalorizar a vida religiosa que foi para as periferias. Quem tem prática pastoral sabe que foram os religiosos, sobretudo as religiosas, quem assumia a animação da catequese, das CEBs, dos estudos e círculos bíblicos, da animação das paróquias, das pastorais sociais.
Quarta, revalorizar os leigos e leigas. Depois do retrocesso, muitos bispos chegaram às dioceses – e padres às paróquias – simplesmente desmantelando tudo que tivesse cheiro de povo, particularmente onde os leigos eram as lideranças. Assim, milhares de catequistas, agentes de pastoral, lideranças comunitárias, militantes de pastorais sociais, de um dia para o outro nem eram mais considerados como pessoas bem-vindas aos espaços eclesiais. Vai ser difícil recuperar a confiança, mas sempre é possível.
Por fim, que o Papa prossiga com seus gestos simbólicos. Nas Pastorais Sociais conversávamos que ele poderia mudar o jeito de visitar os países. Esses grandes eventos, como a jornada mundial da juventude são caros, difíceis e exigem cobertura do Estado. Logo os evangélicos vão protestar com esses custos.
Portanto, ele poderia simplificar, vir de avião comum, ficar uma semana em Itaici com seus irmãos bispos, ouvir, falar, celebrar em Aparecida, visitar uma favela. Quem sabe visitar um país da África que esteja com muita fome, um Haiti, um lugar de impactos ambientais destruidores, assim por diante. Para isso não precisa de se comportar como representante de Estado, mas como um pastor.
Poderia vir para o XIII Intereclesial de CEBs que vai acontecer no Juazeiro do Norte em janeiro de 2014. Iria se encontrar com a nata da devoção nordestina a um homem simples, cheio de contradições, que foi expulso da Igreja, mas a ela se manteve fiel até o fim. Pe. Cícero é mesmo o santo mais popular do Brasil. Embora nem sempre a voz do povo seja a voz de Deus –soltem-nos Barrabás!-, nesse caso não há erro. Seria a reconciliação do Vaticano com os pobres do Nordeste brasileiro.
Roberto Malvezzi, Gogó
Equipe CPP/CPT do São Francisco. Músico. Filósofo e Teólogo
02 de abril de 2013
Respostas de 2
Achei muito significatico o artigo, e igualmente significativo o comentário inicial de João Tavares. Estamos na marginalidade eclesiástica, sendo geralmente rejeitados pela hierarquia, porque somos também um sinal profético. Nossa presença, às vezes, é incômoda porque, no fundo, denuncia certa hipocrisia que se esconde em muitas pessoas que, sem coragem para tomarem uma decisão mais coerente com o que acreditam,vivem vida dupla, escondidos em aparências e aparatos.
Gostei da reflexão do Roberto Malvezzi postada no nosso site. Uma coisa me chamou a atenção. A introdução de Tavares foi de uma precisão cirúrgica e bateu na mosca.
O novo papa Francisco segundo tenho acompanhado desde o pre-conclave e agora nos seus primeiros pronunciamentos tem martelado nas tais “periferias” , na minha ótica, um sinônimo para o que sempre denominamos de marginalizados.
Sugeria que ele ampliasse um pouco mais esta sua introdução, quem sabe até incorporando algumas ideias do padre de Uganda ( muito bem escrito ) e fosse preparando um Documento para ser divulgado no período que o papa Francisco estivesse no Brasil.
Ninguém melhor do que o MODERADOR para coordenar, suscitar dos colegas e aglutinar as ideias. É preciso que fique bem claro que nós do MFPC fazemos parte destas “periferias existenciais” a que ele se refere. Não se trata de manifestação pública, com estardalhaço, mas algo subliminar que chegasse ao conhecimento dele.
Francisco tem demonstrado ser uma pessoa humana, sensível e acolhedora, mais próximo da nossa realidade. Deve ter amigos, padres casados, em Buenos Aires e se não me engano, segundo depoimento de Clélia esteve nas exéquias de Jerônimo Podestá.
Parece-me que ele é muito mais aberto ao diálogo que os antecessores. Pode parecer que é muito cedo para isto. Mas é preciso fazer as nossas análises e afinar as nossas reflexões tendo em vista o desengajamento e a crise de credibilidade da igreja no Brasil.