Fazendo História: as Mulheres e o Sacerdócio

Por Luís Guerreiro

Discretamente, elas transgridem as leis canônicas, que as excluem da igualdade de direitos na Igreja, e, sentindo-se, mais do que nunca, responsáveis por ela, vão avançando e multiplicando-se por vários continentes.

Um repto ousado

1998: A “Plataforma Austríaca”, originada da “Petição do Povo de Deus”, tal como o movimento “Nós somos Igreja”, decide criar 3 grupos para a formação de mulheres que aspirem ao sacerdócio na Igreja Católica: um em Innsbruck, sob a direção da Dra. Martha Heizer; outro em Viena, sob a direção de Ingrid Thurner; e um terceiro em Linz, sob a direção de Christine Mayr-Lumetzberger. Contemporaneamente, nascia na Alemanha o Grupo Maria de Magdala, dirigido por Angelika From, para formar mulheres para o diaconato.

1998-2001: O grupo de Linz, agora denominado “Grupo Ministérios Ordenados para Mulheres”, tenta encontrar um bispo católico, de sucessão apostólica, que possa ministrar a ordenação sacerdotal validamente.

2001: Entretanto, a comunidade Spiritus Christi de Rochester, Estados Unidos, encontra o bispo Hickmann, da Califórnia, que, em janeiro, confere o sacerdócio a Mary Ramermann.

2002: Em março, a Dra. Gisela Forster, da Baviera, descobre outro bispo, Rómulo Braschi, argentino, que pode comprovar a sua sagração e sucessão apostólica. Sagrado pelo bispo Roberto Padin da Igreja Católica Apostólica Brasileira, foi depois, em 30.1.1999, novamente sagrado, sub conditione, pelo bispo católico Gerónimo Podestà.

2002: Em maio, Rómulo Braschi sagra bispo o padre católico Rafael Ferdinand Regelsberger, da Áustria. E, em 29 de junho, navegando pelo Danúbio, entre Passau e Linz, no barco MS Passau, ambos conferem o sacerdócio a 3 mulheres do grupo de Linz e a 4 da Alemanha e dos Estados Unidos. O ato foi registrado em Cartório.
Em julho, o cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, publica um “Monitum” (advertência), ameaçando com a excomunhão as recém-ordenadas, caso, até 22 de julho, “não se confessem arrependidas” e “peçam perdão”.

Em 11 de julho, a Dra. Gisela Forster e Christine Mayr-Lumetzberger, duas das ordenadas, enviam esta carta ao Papa:

“Amado Papa João Paulo II,

O Sr. é um conhecedor do mundo e um conciliador aberto e moderno. Todavia, agora, o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé entendeu que nos devia punir, fazendo-o em termos medievais, intolerantes, míopes, a nós, mulheres, que nos sentíamos sumamente felizes por, no dia 29 de junho, termos sido ordenadas presbíteras por um bispo católico de sucessão apostólica… Achávamos, segundo a nossa consciência – a mais elevada instância de decisão para um cristão e uma cristã -, ter procedido corretamente. Não queríamos ver por mais tempo que o Evangelho deixe de ser anunciado na Igreja Católica, dado que os homens já não se mostram dispostos a abraçar o ministério sacerdotal.

Por isso, acreditamos que a punição, neste caso, é má para um diálogo futuro. E nós não queremos destruir a base do nosso entendimento. Ameaçando-nos agora com a espada de Dâmocles da excomunhão, os Srs. magoam-nos profundamente e negam-nos a possibilidade de iniciar um diálogo adequado. Melhor do que punir-nos seria conversarmos abertamente sobre a questão. Em todo o caso, dessa conversa, não deveriam participar mais homens do que mulheres. A igualdade dos sexos faz hoje parte de quase todas as constituições estatais e dos direitos humanos…

E por que é que subestimam o bispo Rómulo Braschi, nosso ordenante? Ele está em clara sucessão apostólica. A mágoa contra o Vaticano vem-lhe do tempo em que, tomando o partido dos operários de Buenos Aires, se opôs à ditadura militar argentina. A perseguição e a prisão romperam-lhe esse engajamento, isolando-o de tudo mais, inclusive da proteção do episcopado argentino. A Igreja Católica havia de penitenciar-se, amarga e publicamente, em 2000, por ter defendido a ditadura militar…

Do “Monitum” do Prefeito Josef Ratzinger deduzimos que ele nada tem de fundamental contra a ordenação de sete mulheres. Aparentemente, o que reprova é que ela tenha sido conferida por Rómulo Braschi, que ele tem por “cismático”. Nós não encontramos nenhuma prova decisiva de tal cisma.

No entanto, já que Ratzinger, como parece claro, nada tem, em si, contra a ordenação de mulheres, iremos ao encontro de seus desejos, deixando-nos reordenar, sub conditione, por um bispo que ele considere bom e digno. Isso não seria inusitado na Igreja.

Como vê, esforçamo-nos por uma reconciliação. Não gostamos de contendas e, sobretudo, de guerras na Igreja. A Igreja romano-católica foi taxada no passado, com frequência, de violenta. Isso nós não o queremos. Mulheres, somos conhecidas pelo nosso esforço em prol da harmonia, por sermos calorosas, pela capacidade de escutar e por sermos ativamente comunicativas. A Igreja carece dos nossos talentos e aptidões…

Pedimos-lhe, por isso, que chame o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e o exorte a não ser tão duro com as mulheres. Seguramente, ele não sabe como tratá-las. Mas até os homens mais idosos estão ainda em tempo de aprender. Em todo o caso, nós esperamos um tom mais afável, amáveis propostas de reconciliação e, sobretudo, uma Igreja bem aceita pelas pessoas.

Na realidade, o que está em causa é tão-só um breve cânon do Direito Canônico, o 1024. Trata-se então apenas de trocar nele uma palavra: de, em vez de ‘varão’, colocar ‘pessoa’: ‘Só (um varão batizado) uma pessoa batizada recebe validamente a ordenação sagrada’. No passado, o Direito Canônico já foi por vezes mudado e adaptado às necessidades do tempo. É nesse sentido que aguardamos uma resposta.

Cordiais saudações…”.

No dia 22 de julho, as recém-ordenadas enviam também uma carta ao cardeal Ratzinger, negando-se a “confessar arrependimento” e a “pedir perdão”. Argumentação: o bispo Rómulo Braschi não é “fundador de uma comunidade cismática”, como diz o cardeal, nem jamais foi excluído da Igreja Católica por processo de excomunhão, suspensão ou interdito; não “tentou administrar a ordenação sacerdotal”, pois tem a sucessão apostólica; a ordenação de mulheres não foi nenhum simulacro de sacramento, mas administração regular de um sacramento.

A excomunhão

2002: Apesar de tudo, em 5 de agosto, é publicado o decreto de excomunhão.

2003: As recém-ordenadas apresentam recurso. Em vão. Em 27 de janeiro, o Vaticano emitia novo decreto a ratificá-la.
Nesse mesmo dia, o grupo dá a público a sua posição:

“Ficamos profundamente abaladas com o procedimento do Vaticano e fortemente sentidas com a dureza das palavras”…

“Não guardamos rancor contra Roma. Em geral, podemos assegurar que, em todo o nosso comportamento, jamais ferimos a necessária ‘unidade da fé’, agindo sempre em ‘comunhão com a Igreja’”.

“O Vaticano crê que nós procedemos contra ele, que o queremos prejudicar ou aumentar-lhe o sofrimento, mas o que pretendemos é tornar a Igreja Católica saudável… acessível aos homens e mulheres do nosso tempo”…

“Nós sabemos que recebemos validamente o sacramento”…

“Lançar-nos em cara a cumplicidade de um cisma é uma grave acusação. Nestes meses passados, temos dado provas de que nunca pensamos sequer em suscitar um cisma”…

“Na carta papal ‘Ordinatio Sacerdotalis’, não se trata de nenhum dogma. Por isso, não é obrigatório segui-la”…

“Baseadas nesta argumentação, continuaremos a insistir na validade da nossa ordenação… Mas não provocaremos… Se as pessoas nos pedirem os sacramentos, não lhos negaremos; seria contra a nossa consciência”…

A transgressão

2002-2003: Entretanto, houve bispos que se dispuseram a sagrar secretamente como bispas algumas das já ordenadas. Sagraram, em segredo, a Dra. Gisela Forster, da Alemanha, e Christine Mayr-Lumetzberger, da Áustria. Para evitar punições e não complicar ainda mais a situação, os nomes dos bispos não foram revelados. O ato da sagração, porém, ficou registrado e testemunhado em Cartório.

2003: No dia 7 de agosto, durante o II Sínodo Europeu das Mulheres, Gisela Forster e Christine Mayr-Lumetzberger ordenam, em Barcelona, a Dra. Patricia Fresen, da África do Sul, depois também sagrada bispa em 2005.

2004: Em 26 de junho, recebem o diaconato novas mulheres da América, do Canadá, da França, da Suíça e da Letônia.

2005: Como o movimento já contava com 3 bispas e se multiplicavam as adesões, acordou-se dividi-lo em três grupos: o da Áustria, “Ältestenrat”, sob a direção da bispa Christine Mayr-Lumetzberger; o da Alemanha, “Priesterinnen Europa-West”, sob a direção da bispa Gisela Forster; e o da América do Norte, “Romancatholic Womenpriests Northamerica”, sob a direção da bispa Patricia Fresen.

No dia 2 de julho, foi ordenada pelas três bispas, em Lyon, a primeira francesa, Geneviève Beney.

E, no dia 25, navegando no rio St Lawrence, Canadá, são ordenadas 4 presbíteras e 5 diaconisas.

2006: No dia 5 de junho, é sagrada bispa a Dra. Ida Raming, uma das primeiras ordenadas pelo bispo Rómulo Braschi.
No dia 24, foi ordenada de presbítera a primeira mulher suíça.

No dia 31 de julho, ordenação de 12 mulheres americanas em Pittsburg.

2007: Na festa de Pentecostes, foi conferido o sacerdócio a 3 mulheres e o diaconato a outras 3.

2008: Em 9 de abril, realizou-se a sagração de Dana Reynolds como bispa.

E receberam o sacerdócio, em diversas datas: Katy Redig, Monica Kilburn-Smith, Gloria Carpeneto, Gabriella Velardi-Ward e Janice Sevre-Duszyuska…

Ao serviço da Igreja

Devido a uma política errada, a Igreja ministerial não está hoje em condições de realizar uma cura de almas eficaz. O clero em exercício está envelhecido e excessivamente sobrecarregado. Além disso, a Igreja oficial impede cada vez mais o acesso aos sacramentos (divorciados recasados, adeptos de outras confissões cristãs, excomungados, homens e mulheres que não aceitam o atual rumo da chefia da Igreja, padres com problemas sexuais). Ela mostra-se assim, perante as pessoas que a criticam, não como “religião do amor”, com uma “mensagem jubilosa”, mas como uma instituição inflexível, rigorosa e punitiva. Muitos encontram nela, não a paz, mas a rejeição, a agressão e a exclusão.

É por isso que a “diocese virtual”, constituída por este novo ministério feminino, oferece serviços usuais, mas talvez com outro espírito: o Batismo é concedido mesmo a pais sem nenhuma confissão religiosa ou que queiram batizar os filhos ecumenicamente, a fim de acabar com a separação das Igrejas; a Confissão é feita em forma de conversa, levando quem se confessa a ver suas decisões passadas ou presentes como importantes ou não para a sua vida (nenhuma atribuição de culpa nem ameaças); a Eucaristia é celebrada em comunidades de mesa eucarística, a exemplo da Ceia de Jesus, muitas vezes em festas de família; o Casamento consiste na bênção do convívio de duas pessoas; a Unção dos Enfermos envolve, não só a unção de doentes e de pessoas debilitadas, mas também conversas sobre a vida eterna; os Funerais incluem uma liturgia junto ao leito do finado ou junto à sepultura; Conferências teológicas e filosóficas.

Uma resposta

  1. Após ter lido em Associação Rumos o artigo Fazendo História: as Mulheres e o acerdócio, observei umas coisas que me levaram a escrever isto por amor da verdade:
    1. Achei anormal registrar em Cartório uma ordenação, qualquer seja, porque o Cartório é instrumento para fato civis, não religioso, portanto no religioso não tem valor. A menos que seja para usá-lo como instrumento de encrenca!
    2. Apresentam como motivação ao sacerdócio das mulheres o fato da diminuição de vocações sacerdotais, à parte que esta não é uma motivação suficiente, basta ver quanto também as vocações religiosas feminina estão em declínio.
    3. Encontramos também: “Ameaçando-nos agora com a espada de Dâmocles da excomunhão, os Srs. magoam-nos profundamente e negam-nos a possibilidade de iniciar um diálogo adequado.” Claramente se vê a característica polêmica deste artigo. A ameaça era já feita anteriormente à ordenação no Código de Direito Canônico, portanto somente lembrava, não ameaçava. Em lugar de agradecer, se revoltaram! No fim do artigo elas mesmas sugerem de mudar “varão” com “pessoa”, coisa que demonstra que eram cientes da proibição.
    4. Dizem que não querem contendas, quando o escrito é feito tudo em tonalidade provocatória, que aparece no tom às vezes sarcástico do escrito. Se exige que seja aceita a proposta como se fosse o único certo.
    5. Outro ponto que revela a posição errônea do grupo: “ Além disso, a Igreja oficial impede cada vez mais o acesso aos sacramentos (divorciados recasados, adeptos de outras confissões cristãs, excomungados, homens e mulheres que não aceitam o atual rumo da chefia da Igreja, padres com problemas sexuais). “ o Batismo é concedido mesmo a pais sem nenhuma confissão religiosa ou que queiram batizar os filhos ecumenicamente, a fim de acabar com a separação das Igrejas;”.
    6. De tudo isso se vê claramente a mentalidade Cismática existente, agir antes e depois exigir a aceitação do que foi feito, Certo ou errado. Convencidos de possuirem a verdade, quando a verdade é Jesus.

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