RELIGIÃO – Os cardeais já estão antecipando o confronto do conclave: seguir Francisco ou pisar no freio

Surgem duas grandes correntes: uma que é a favor da continuidade e busca fazer avançar as reformas empreendidas pelo falecido Papa, e outra, alarmada, que quer corrigir o rumo e restaurar a ordem. A reportagem é de Inigo Dominguez, publicada por El País, 25-04-2025. A tensão subterrânea na Igreja é evidente. Apenas quatro dias se passaram desde a morte de Francisco e as proclamações já começaram a se desenrolar em plena luz do dia. Antes mesmo do funeral do Papa, já estão se definindo as duas grandes correntes que se enfrentarão no conclave, na primeira semana de maio, em data ainda a ser definida. Para simplificar, por um lado, há cardeais que querem seguir o caminho da abertura e da reforma, de uma Igreja globalizada e não eurocêntrica, aberta por Francisco; e, por outro lado, aqueles que viveram mal este pontificado e querem pôr-lhe fim. Aqueles que acreditam, em suma, que este foi apenas o início de um caminho ainda muito longo, que é o único futuro para a Igreja, e aqueles que pensam o contrário, que já fomos longe demais e devemos desacelerar para corrigir os erros, de modo que este último mandato fique como um parêntesis a ser esquecido. Ao contrário da cautela que precedeu os conclaves de 2005 e 2013, desta vez alguns cardeais já estão fazendo declarações inequívocas no que de outra forma teria sido um debate muito acalorado nos últimos 12 anos. Por exemplo, o cardeal hondurenho Óscar Rodríguez Maradiaga, 82, se manifestou e, portanto, não participa mais do conclave, pois tem mais de 80 anos. Ele foi um dos arquitetos da eleição de Francisco em 2013 e continua sendo uma voz respeitada na Igreja latino-americana, que tem 21 cardeais no conclave, a maioria deles na linhagem do falecido pontífice. “Minha maior esperança é que possamos dar continuidade ao bom trabalho que o Papa Francisco tem feito. Li muitos comentários ultimamente, mas poucos abordam o cerne da reforma deste pontificado: a sinodalidade”, disse ele ao La Stampa. Justamente essa questão, um termo que pode soar obscuro para os não iniciados e que significa a busca por uma maior participação de todos os fiéis na governança da Igreja, incluindo mulheres e leigos, é vista como absurda pelo setor mais conservador. Eles veem isso como uma deriva em direção ao assembleismo, uma democratização perigosa da Igreja que só está desestabilizando a instituição e criando o caos. Eles também ficam horrorizados com coisas como o que o cardeal Jean-Claude Hollerich, de Luxemburgo, outro colaborador próximo de Jorge Mario Bergoglio, disse em outra entrevista: precisamos encontrar um Papa que assista Netflix para saber como se comunicar com os jovens. “Espero que os cardeais entendam que o mundo está se movendo a uma velocidade astronômica”, ele alerta a qualquer um que queira recuar. Por outro lado, uma das figuras mais conservadoras, o cardeal Gerard Ludwig Müller, ex-prefeito da Doutrina da Fé demitido por Francisco em 2017, foi muito direto em suas declarações ao La Repubblica: “Um capítulo na história da Igreja se fechou.” Sobre o tema específico da sinodalidade, ele já disse que para ele os encontros que Francisco organizou nos últimos anos são meros “simpósios”. “Não é um sínodo, não é uma expressão do magistério da Igreja (…). Os bispos têm uma autoridade que não se confunde com a capacidade de todos os batizados de falar.” Com um toque sutil, ele disse que o julgamento das pessoas é de Deus, mas que é possível ter opiniões sobre o pontificado, e deixou as suas claras: Francisco tem sido muito “ambíguo” sobre mulheres, homossexuais, relações com o islamismo, com a China, e negligente no rigor doutrinário. “Com Bento XVI, tivemos uma clareza teológica perfeita, mas cada pessoa tem seu próprio carisma e habilidades, e acho que o Papa Francisco tinha isso mais na dimensão social.” Traduzindo, o sério era Ratzinger e Bergoglio escorregava nas questões delicadas, uma crítica constante deste setor durante estes anos, com certo desdém acadêmico. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

RELIGIÃO – Francisco contra a idolatria do capital. Artigo de Michael Löwy

O artigo é de Michael Löwy, diretor de pesquisa em sociologia no Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS), publicado por A Terra é Redonda, 23-04-2025. Bergoglio não foi, é claro, um papa marxista. Mas a encíclica Laudato si’ é uma contribuição preciosa e inestimável diante da catástrofe socioambiental. Papa foi lúcido, ao questionar elites e a “ecologia de mercado”. Cabe à esquerda completar seus diagnósticos com propostas radicais. Eis o artigo. A morte de Jorge Bergoglio, o Papa Francisco, marca o fim de uma figura pouco comum, que se destacou, numa Itália governada por neofascistas e numa Europa cada vez mais reacionária, por um engajamento ético, social e ecológico surpreendente. Depois que Pio XII excomungou os comunistas, a esquerda só podia esperar anátemas do Vaticano. João Paulo II e Joseph Ratzinger não perseguiram os teólogos da libertação por utilizarem conceitos marxistas? Não tentaram impor um “silêncio obsequioso” a Leonardo Boff? É claro que, desde o século XIX, sempre existiram correntes de esquerda no catolicismo, mas elas encontraram somente hostilidade por parte das autoridades romanas. Por outro lado, as correntes clericais críticas do capitalismo eram geralmente bastante reacionárias. Criticando o socialismo feudal ou clerical no Manifesto Comunista, Marx e Engels notaram “sua absoluta incapacidade de compreender o curso da história”; mas reconheceram nesta mistura “de ecos do passado e ameaças ao futuro” uma “crítica mordaz e espirituosa” que podia por vezes “atingir a burguesia bem no coração”. Max Weber propôs uma análise mais geral da relação entre a Igreja e o capital: em sua obra sobre a sociologia das religiões, ele constata a “profunda aversão” (tiefe Abneigung) da ética católica ao espírito do capitalismo, apesar das adaptações e compromissos. Esta é uma hipótese que deve ser levada em consideração se quisermos compreender o que aconteceu em Roma com a eleição do papa argentino. Jorge Bergoglio, o Papa Francisco O que poderíamos esperar do cardeal Jorge Bergoglio, eleito Pontifex Maximum em março de 2013? Claro, ele era latino-americano, o que não deixava de ser um sinal de mudança. Mas ele tinha sido eleito pelo mesmo conclave que tinha entronizado o conservador Joseph Ratzinger, e vinha da Argentina, um país onde a Igreja não é conhecida por seu progressismo, com vários de seus dignitários tendo colaborado ativamente com a sangrenta ditadura militar. Não foi esse o caso de Jorge Bergoglio: segundo alguns relatos, chegou até mesmo a ajudar pessoas perseguidas pela junta a esconderem-se ou a abandonarem o país. Mas também não se opôs ao regime: um “pecado de omissão”, poderíamos dizer. Enquanto alguns cristãos de esquerda, como Adolfo Pérez Esquivel (Prêmio Nobel da Paz), sempre o apoiaram, outros viam-no como um opositor de direita ao governo dos “peronistas de esquerda” Néstor e Cristina Kirchner. Seja como for, uma vez eleito, Francisco – nome que escolheu em referência a São Francisco, o amigo dos pobres e dos pássaros – distinguiu-se imediatamente por sua atitude corajosa e engajada. De certa forma, ele lembra o Papa Roncalli, João XXIII: eleito “papa de transição” para garantir a continuidade e a tradição, iniciou a mais profunda mudança na Igreja depois de séculos: o Concílio Vaticano II (1962-65). Bergoglio tinha inicialmente pensado em adotar o nome de “João XXIV” para homenagear seu antecessor da década de 1960. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

RELIGIÃO – A teologia de Francisco. Artigo de Andrea Grillo

Parece convincente deduzir do fato de que Francisco não era formalmente um teólogo (como quase todos os papas antes dele) a consequência de que não fez teologia. “Não apenas uma paixão ou uma emoção por Deus, mas um modo de falar e de pensar Deus, reconhecemos com gratidão nas palavras mais elevadas do magistério de Francisco”, escreve Andrea Grillo, teólogo italiano, em artigo publicado por Settimana News, 22-04-2025. Eis o artigo. Não há dúvida de que também se pode estar desinteressado pela teologia expressa por um papa. E que se queira limitar à sua simpatia ou à sua abertura. Mas acredito que é justo não perder de vista o valor teológico do papado que acaba de se concluir. Em meio a tantos discursos, muitas vezes genéricos, imprecisos e vazios, uma análise que segue com clareza nessa direção me parece ser a publicada hoje, 22 de abril, no Messaggero, com o título (parcial) “A pirâmide invertida dos leigos na Igreja”, assinada por Luca Diotallevi, da qual gostaria de iniciar minha breve reflexão. A leitura parte de uma primeira observação: o pontificado de Francisco teve duas características fundamentais: seu vínculo com o Concílio Vaticano II e a exigência de “inaugurar processos”. Poderíamos dizer: retomar o grande processo conciliar, para continuar naquela direção. Essa premissa permite identificar, segundo Diotallevi, cinco pontos-chave do pontificado, nos quais surgem novos acentos: a liturgia não está à venda e não é uma escolha a caridade vem antes, a doutrina depois. Há caridade mesmo quando nem tudo está claro o Sul do mundo deve ter mais voz (e é preciso elaborar uma teoria adequada desses direitos) às mulheres deve ser reconhecida finalmente uma dignidade plena a pirâmide da Igreja deve ser invertida Diante desses objetivos, claramente identificados e abertos “como processos”, nem sempre houve uma elaboração adequada. Diotallevi diz, com razão: “Por mais estranho que pareça, houve tanto falta de decisão quanto excesso de centralização”. Isso indica, conclusivamente, que a tarefa indicada com autoridade por Francisco continua sendo a nossa tarefa. E que a recepção do Concílio Vaticano II impõe à Igreja “processos” que não se podem considerar nem concluídos nem esgotados, que não basta iniciar, mas é preciso elaborar e estruturar. Diante desse texto, que considero de grande valor e pelo qual sou grato pela clareza, perguntei-me: em que medida Francisco renovou a teologia católica? Em que consiste o valor “teológico”, em sentido estrito e técnico, de seu pontificado? Tento expressar isso acrescentando algumas palavras de método aos 5 pontos sagrados lembrados por Diotallevi. Francisco e a teologia como estilo Parece convincente deduzir do fato de que Francisco não era formalmente um teólogo (como quase todos os papas antes dele) a consequência de que não fez teologia. Na verdade, sua profecia de pastor e de crente, de jesuíta e de latino-americano, deu-lhe uma linguagem teológica original, que estruturou os melhores entre seus documentos. Neles, como é evidente, transparece um estilo teológico – é disso que se trata – que obriga a teologia a mudar de estilo, a entrar em um novo paradigma. Se aplicarmos o esquema do papa não teólogo, corremos o risco de cair na armadilha de isolar a teologia dos sentidos, dos sentimentos, das emoções, das formas civis, da estética, da política. Esse é o jogo no qual alguns modernistas e muitos antimodernistas sempre foram aliados. Não, Francisco não renunciou à teologia, mas exigiu que a teologia se imergisse nas linguagens da vida, como é sua vocação mais original. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

RELIGIÃO – Trump e Francisco: dois modelos de cristianismo em confronto. Artigo de Juan José Tamayo

O artigo é de Juan José Tamayo, publicado por INFOLIBRE, e reproduzido por Religión Digital, 23-04-2024. “A mensagem pascal de Francisco no domingo da ressurreição e as políticas adotadas por Trump durante os três primeiros meses de seu segundo mandato tornam evidentes dois modelos de cristianismo em confronto: o de Francisco, identificado com as raízes evangélicas do movimento de Jesus de Nazaré, e o de Trump, a serviço de seus próprios interesses, dos interesses do Império e dos oligarcas tecnológicos, cujo principal expoente é Elon Musk. Vance não encontrou em sua visita ao Vaticano a legitimidade religiosa que esperava, pois seus projetos cristãos, morais, políticos, econômicos e sociais estão nas antípodas dos de Francisco.” Juan José Tamayo é teólogo e professor emérito honorário da Universidade Carlos III de Madri. Seu m ais recente livro é Cristianismo radical (Trotta, 2025), que constitui a melhor expressão da radicalidade evangélica do papa. Eis o artigo. A prática do cristianismo de Trump e Vance tem se caracterizado pelas deportações em massa de imigrantes em suas diferentes modalidades: expulsões com as pessoas algemadas como se fossem criminosas, suspensão do direito de asilo e autorização para que agentes de imigração realizem batidas em escolas, hospitais e templos. Outra ação é o apagamento das pessoas LGTBI e, consequentemente, a eliminação da proteção a essas pessoas. Uma nova prática de falta de solidariedade é a retirada de bilhões de dólares em ajuda a populações que vivem em situação de marginalização em países empobrecidos — retirada que está causando muitas mortes e o aumento de doenças graves. Contrária ao direito internacional e ao direito das cidadãs e cidadãos de viverem em seu próprio território é a vinculação do cristianismo de Trump ao anúncio da expulsão de mais de dois milhões de habitantes de Gaza e à criação da “Riviera do Oriente Próximo” em Gaza, o que implica limpeza étnica, apoio incondicional à política genocida de Netanyahu e aos partidos políticos sionistas, e o reconhecimento de Israel como o guardião da região. A essas práticas, cabe ainda acrescentar outras duas: a imposição do rearmamento a todos os países sob sua influência, com o consequente aumento dos gastos militares, e a aporofobia, que é o ódio à vida dos pobres. O cristianismo praticado por Francisco durante os doze anos de pontificado encontra-se em posição diametralmente oposta. Ele foi defensor do desarmamento, da paz fundada na justiça, da liberdade para as presas e os presos políticos e prisioneiros de guerra. Esse foi seu último pedido no domingo da Ressurreição. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

RELIGIÃO – A sucessão do Papa mergulha a Igreja na incerteza diante da onda ultraconservadora. Artigo de Jesús Bastante

O Papa falece pouco depois de enviar uma carta aos bispos dos EUA, pedindo que liderassem a resistência contra as deportações em massa de migrantes Depois do primeiro papa latino-americano, é difícil, mas não impossível, que venha outro pontífice hispanofalante ou do Sul global. Entre os espanhóis, algumas vozes apontam para o cardeal Omella, que, curiosamente, completou 79 anos justamente nesta segunda-feira. Ele próprio se descartou como candidato em declarações à imprensa. Para outros nomes, como o cardeal Cobo (58 anos) ou o ex-reitor dos salesianos, Ángel Fernández Artime (64), parece que ainda não chegou o momento. Mas também é verdade que poucos imaginavam, há exatos 12 anos, que os cardeais escolheriam um papa vindo do fim do mundo. O artigo é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 21-04-2025. Eis o artigo. A morte de Bergoglio acontece no momento em que ele tentava destacar sua figura política internacional e enquanto ganha espaço a ofensiva conservadora dentro e fora da Igreja Católica. A morte do Papa Francisco deixou uma instituição como a Igreja Católica sem liderança em meio a uma onda reacionária global (que também avança no Vaticano) e no momento em que Bergoglio havia decidido destacar seu papel como figura política internacional. O Papa falece pouco depois de enviar uma carta aos bispos dos EUA, pedindo que liderassem a resistência contra as deportações em massa de migrantes, iniciadas naquele país por ordem da Casa Branca de Donald Trump. E agora? Essa é a pergunta que muitos se fazem no Vaticano e nas sedes cardinalícias de todo o mundo. A morte teve um elemento de surpresa, pois, apesar de seu delicado estado de saúde, ninguém poderia prever que Bergoglio faleceria nesta Segunda-feira de Páscoa, justamente depois de ter presidido a bênção Urbi et Orbi e de ter desfilado, pela última vez, no papamóvel para saudar uma Praça São Pedro lotada de fiéis. Francisco deixa muitas incógnitas. Não houve tempo para negociar um sucessor, ao contrário do que aconteceu com a morte de João Paulo II – cuja agonia foi acompanhada durante semanas e que foi sucedido por seu substituto natural, Joseph Ratzinger – e do próprio Bento XVI, que renunciou ao cargo numa decisão histórica, mas que proporcionou algum tempo. Entre as posições de Francisco que entram em choque com a contraofensiva conservadora (a autodenominada antiwoke) estão desde a luta contra a mudança climática – os EUA voltaram a abandonar o Acordo de Paris –, os gestos em direção às mulheres e à comunidade LGTBI, até a crítica ao rearmamento internacional. Ele também criticou a onda anti-imigrante que está ganhando espaço não apenas nos EUA, mas também na União Europeia. A política em geral, e a ascensão de Javier Milei à presidência da Argentina em particular, estão entre os motivos pelos quais um papa argentino jamais visitou seu país natal. A oposição política que se formou na Espanha também manteve Francisco distante do país. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

RELIGIÃO – O Papa Francisco não é um nome mas um projeto de Igreja. Artigo de Leonardo Boff

O próprio Papa Francisco se apresentou como “aquele que vem do fim do mundo” isto é, da Argentina, do extremo Sul do mundo. “Com sua conclamação em favor do empobrecidos, com sua crítica corajosa ao sistema vigente que produz morte e ameaça as bases ecológicas que sustentam a vida, por seu apaixonado amor e cuidado da natureza e da Casa Comum, pelos incansáveis esforços para mediar guerras em função da paz, emergiu com um grande profeta que anunciou e denunciou, mas sempre suscitando a esperança de que podemos construir um mundo diferente e melhor. Com isso compareceu como um líder religioso e político respeitado e admirado por todos”, escreve Leonardo Boff, filósofo e ecólogo, autor de A Terra na palma da mão (Vozes, 2016) e Cuidar da Casa Comum (Vozes, 2024). Eis o artigo. Todo ponto de vista é a vista de um ponto, afirmei certa vez. O meu ponto de vista acerca do Papa Francisco é aquele latino-americano. O próprio Papa Francisco se apresentou como “aquele que vem do fim do mundo” isto é, da Argentina, do extremo Sul do mundo. Este fato não é sem relevância, pois nos oferece uma leitura diversa de outras, de outros pontos de vista. A escolha do nome Francisco, sem antecedentes, não é fortuita. Francisco de Assis representa um outro projeto de Igreja cuja centralidade residia no Jesus histórico, pobre, amigo dos desprezados e humilhados como os hansenianos com os quais foi morar. Pois esta é a perspectiva assumida por Bergoglio ao ser eleito Papa. Quer uma Igreja pobre para os pobres. Consequentemente despoja-se das vestes honoríficas, da tradição dos imperadores romanos, bem representadas pela mozzeta, aquela capinha branca ornada de joias, símbolo do poder absoluto dos imperadores e incorporada às vestimentas papais. Recusou-a e a deu ao secretário com recordação. Veste um simples manto branco com a cruz de ferro que sempre usou. Viveu na maior simplicidade (o Papa não veste prada) e, sem cerimônia, quebrou ritos para poder estar perto dos fiéis. Isso seguramente escandalizou a muitos da velha cristandade europeia, acostumada à pompa e à glória das vestimentas papais e em geral dos prelados da Igreja. Cabe recordar que tais tradições remontam aos imperadores romanos, mas que não têm nada a ver com o pobre artesão e camponês mediterrâneo de Nazaré. Surpreendentemente apresenta-se, primeiro, com bispo local, de Roma. Escolheu o nome Francisco porque São Francisco de Assis é o “exemplo por excelência do cuidado e por uma ecologia integral vivida com alegria e autenticidade (Laudato Si’, n. 10) e que chamava a todos os seres com o doce nome de irmão e de irmã. Não quis morar num palácio pontifício, mas numa casa de hóspedes, Santa Marta. Comia na fila como todos os demais e, com humor, comentava: assim é mais difícil que me envenenem. A centralidade de sua missão foi colocada na preferência e no cuidado dos pobres especialmente dos migrantes. Disse com honradez: “vocês europeus estiveram primeiro lá, ocuparam suas terras e riquezas e foram bem recebidos. Agora eles estão aqui e não estão dispostos a recebê-los”. Com tristeza constata globalização da indiferença. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

RELIGIÃO – Papa Francisco pede única palavra em lápide simples; confira testamento na íntegra

O papa Francisco, que morreu nesta segunda-feira (21), manifestou em testamento o desejo de ser sepultado na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma. O documento foi divulgado oficialmente pelo Vaticano. O pontífice sempre teve um vínculo especial com o local, onde costumava orar após internações e antes e depois de suas viagens apostólicas. “O sepulcro deve estar na terra; simples, sem ornamentos especiais, e com a única inscrição: Franciscus”, escreveu o papa. A basílica já abriga os restos mortais de outros papas, como Clemente VIII, Clemente IX, Paulo V, Sixto V, Pio V, Nicolau IV e Honório III. Leia a íntegra do testamento: Em Nome da Santíssima Trindade. Amém. Sentindo que se aproxima o entardecer da minha vida terrena e com viva esperança na Vida Eterna, desejo expressar minha vontade testamentária apenas quanto ao local da minha sepultura. Confiei sempre minha vida e o ministério sacerdotal e episcopal à Mãe de Nosso Senhor, Maria Santíssima. Por isso, peço que meus restos mortais repousem, à espera do dia da ressurreição, na Basílica Papal de Santa Maria Maior. Desejo que minha última viagem terrena se conclua justamente neste antiquíssimo santuário Mariano, onde costumava rezar no início e no fim de cada Viagem Apostólica, confiando com fé minhas intenções à Mãe Imaculada e agradecendo-Lhe pelo cuidado dócil e materno. Peço que minha tumba seja preparada no lóculo da nave lateral, entre a Capela Paulina (Capela da Salus Populi Romani) e a Capela Sforza da referida Basílica Papal, como indicado no anexo em anexo. Fonte: Site DIÁRIO CENTRO DO MUNDO Matéria Completa: Acesse Aqui

DOM ANGÉLICO SÂNDALO BERNADINO – Deus é amor = testemunho pessoal e homenagem ao dom Angélico Sandalo Bernardino, escrita pelo Prof. Dr. Fernando Altemeyer Junior, PUC-SP. 15 de abril de 2025.

Angélico fez sua páscoa hoje no coração da Semana Santa, aos 92,23 anos. Nosso querido dom tinha como mote episcopal a frase: Deus é amor. Dom Angélico Sândalo Bernardino completara 92 anos em 19 de janeiro. Nascera em Saltinho de Piracicaba, em 1933, em um lar de muito amor, gerado por Duilio e Catarina. Conversar com dom Angélico me transportava aos tempos de Santo Agostinho, e me via ouvindo o teólogo da graça em suas Confissões, livro X, 6: “Mas, que amo eu quando te amo? Não uma beleza corporal ou uma graça transitória, nem o esplendor da luz, tão cara a meus olhos, nem as doces melodias de variadas cantilenas, nem o suave odor das flores, dos unguentos, dos aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão suscetíveis às carícias carnais. Nada disso eu amo, quando amo o meu Deus. E contudo, amo a luz, a voz, o perfume, o alimento e o abraço, quando amo o meu Deus: a luz, a voz, o odor, o alimento, o abraço do homem interior que habita em mim, onde para a minha alma brilha uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não destrói, de onde exala um perfume que o vento não dissipa, onde se saboreia uma comida que o apetite não diminui, onde se estabelece um contato que a sociedade não desfaz. Eis o que amo quando amo o meu Deus.” Cinco lições angelicais: Primeira: Dom Angélico sempre falava com audácia carregada de amor. O amor que recebeu dos pais e das irmãs. Conhecia o amor pessoalmente. E amava e era amado. Amamos Angélico por nos ensinar a falar de pais e mães, de família, de irmãos e sobretudo de Jesus, o Nazareno. Sempre soube que além do nome angelical tinha um sobrenome de perfume: Sândalo. Ah! Vale lembrar que morou depois de aposentado no Jardim Primavera! São muitos sinais de Deus em sua vida. Segunda: dom Bernardino amou as lutas e os compromissos do povo e da Igreja Povo de Deus no caminho ao lado dos empobrecidos. Sempre havia um abraço forte, um beijo no rosto ou na testa dos anciãos e jovens e até um carinho personalisado para as pessoas mais simples e os/as trabalhadores/as. Terceira: Aprendemos dele a colocar no centro das missas e das pastorais os últimos da cidade e da sociedade. Ninguém se sentia excluído, pois na missa e as orações de Angélico, como um outro Cristo, sempre cabiam todos e todas. Esse amor sem fronteiras nem paredes. Amor sinodal. Amor radical. Amor rizomático. Amor que construiu pontes e não se fixava insensível diante das normas e leis (mesmo aquelas dos funcionários religiosos de tantas cúrias e burocracias) que sufocavam e enrijeciam os corações. Angélico era homem livre, diante de uma criança e diante do papa de Roma. Amor em gestos e palavras com coragem, sem perder a ternura jamais. Fora do amor, ele nos dizia que não há salvação. Amamos a esperança rebelde e teimosa. Dom Angélico sempre traz marcado a fogo a memória de profetas como dom Paulo Arns, dom Luciano Mendes, dom Helder, Frei Gorgulho, padre Toninho orionita, Santo Dias da Silva, Madre Cristina do SEDES SAPIENTIAE, Alexandre Vannuchi Leme, Madre Maurina, Manoel Fiel Filho, padre Ticão, Carlos Strabelli e tantas gentes que marcaram a sua vida já em Ribeirão Preto, depois em São Miguel Paulista, na amada Brasilândia (que ele as vezes chama de Brasalândia – o fogo de Deus), e de forma esponsal na sua Blumenau, que ele chamava sempre de sua Bela e Santa Catarina. Dom Angélico pouco falava de si. Teria feito terapia para evitar o narcisismo clerical ou era dom pessoal? Seria uma reza forte mergulhando em seu interior para saber-se conhecedor de suas belezuras bem como de seus pecados e fragilidades? Creio que sempre buscou Deus nas estradas e meandros da vida, sem imposição ou arrogancia. Ao buscar Deus, Angélico não se perdia. Deus se deixa encontrar e lhe confidenciava segredos de amor. Ao falar de companheiras/os de viagem, fez a travessia nas águas do mar da vida conduzido pelo Espírito do Ressuscitado. Com ele cantei a melodia do Roberto Carlos, emocionado: Meu querido, meu velho, meu amigo! E chorei quando padre Pedro Ricardo gravou um salmo que ele declamava como poeta vigoroso. E quem não ficava pasmo ao ouvir as bem aventuranças de Mateus? Quarta: Amamos ver em Angélico seu modo despojado de ser bispo. Papa Francisco tem um jeito de Angélico ou seria Angélico que tinha jeito de Francisco? Nenhuma atenção às pompas e títulos. Havia sempre o cuidado reverente e a emoção profunda na celebração da Eucaristia, mas sem brilhos nem lantejoulas e, sobretudo sem clericalismo narcisista de tantos clérigos emplumados. Seu cajado foi sempre o braço amigo de um padre que veio de Ribeirão Preto para cuidar das ovelhas perdidas e não permitir a sanha voraz dos lobos, do capital e dos opressores. Sua mitra foi sempre o carinho e o afago de algum operário ou mesmo trabalhadora. Seu anel foi sempre a aliança com os pobres. Dom Angélico foi ordenado bispo para viver “anzolado” com os pequeninos. A singeleza de sua presença deixava o Cristo resplandecer. Sem magia nem feitiçaria. Só a pura graça divina agindo na comunidade. Gratuitamente. Angélico sempre se entusiasmava quando falava do seu amor por Jesus. Amor apaixonado. Todo de Deus. Tocava nossos corações e mentes com a sua palavra jornalística bem burilada e direta. Não havia firulas nem meias-palavras. Não havia diversionismo nem cumplicidade com os ricos e opressores. Dom Angélico sempre foi direto ao ponto: proclamar o Evangelho a tempo e contratempo. Basta dizer que o padre Júlio Renato Lancellotti o tem como um pai espiritual, assim como dezenas de padres e leigos e religiosas pelo Brasil todinho. Angélico falava de Deus falando de corpos, de desejos, de pães, de trabalho, de caminhadas, de projetos sociais e das utopias humano-divinas. O Cristo de Angélico foi sempre o Jesus Ressuscitado que caminhava animando-nos, encorajando-nos, alegrando-nos, desejando

RELIGIÃO – “O padre não deve pedir nada”: Francisco limita ofertas nas missas

A informação é publicada por Religión Digital, 13-04-2025. O Dicastério para o Clero emitiu um decreto, assinado pelo Papa Francisco, limitando as ofertas que os fiéis fazem para as missas que incluem suas intenções, a fim de evitar “certas práticas que têm sido abusivas em vários lugares”, informou o Vaticano no domingo. O documento atualiza o regulamento “sobre a disciplina das intenções da Santa Missa”, que descreve como os padres devem agir quando os fiéis solicitam Missas com intenções especiais e, para isso, lhes dão uma oferta, geralmente uma doação financeira. As novas normas reiteram que “de acordo com o uso aprovado pela Igreja, é lícito a qualquer sacerdote que celebra a Missa aceitar a oferta dada para aplicar a Missa de acordo com uma dada intenção”. Ficar com apenas uma oferta Mas eles pedem que se tome cuidado para não acumular muitos em uma única missa e, em todo caso, o padre pode ficar com apenas um e dar o restante para “paróquias necessitadas”. “A aplicação coletiva de várias oferendas para uma única Missa é lícita somente se os ofertantes, prévia e explicitamente informados, tiverem consentido livremente”, afirma o texto, acrescentando que “a vontade dos ofertantes nunca pode ser presumida ou inferida do silêncio”. Além disso, recomenda-se “oferecer a possibilidade de celebrar missas diárias com uma única intenção” e reitera que “a aceitação de ofertas durante uma simples celebração da palavra ou uma simples lembrança durante a missa é gravemente ilícita”. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui

RELIGIÃO – Missas e intenções: Papa aprova novo decreto para maior transparência

Com um decreto aprovado neste domingo, 13 de abril, o Dicastério para o Clero atualizou os regulamentos sobre intenções das Santas Missas e ofertas relacionadas, introduzindo regras mais claras para garantir transparência, exatidão e respeito pela vontade dos fiéis. Vatican News – O Dicastério para o Clero atualiza a disciplina relativa às intenções das Santas Missas e às ofertas relacionadas, introduzindo regras mais claras para garantir transparência, exatidão e respeito pela vontade dos fiéis. O decreto aprovado pelo Papa Francisco em forma específica neste domiingo, 13 de abril, entrará em vigor no próximo dia 20 de abril, domingo de Páscoa. Um costume a ser tutelado – A questão diz respeito a uma das formas mais concretas pelas quais os fiéis participam da vida da Igreja: solicitar que uma missa seja celebrada para os vivos ou para os falecidos. Um costume muito antigo, fundado em profundas motivações pastorais e espirituais, e até agora regido por condições que consentiam, de um lado, manter a palavra dada aos ofertantes e, do outro, evitar o perigo de “comércio” de coisas sagradas. Em virtude dessa prática, os fiéis, por meio da oferta, diz o texto, “desejam se unir mais estreitamente ao Sacrifício Eucarístico, acrescentando um sacrifício próprio e colaborando com as necessidades da Igreja e, em particular, contribuindo para a manutenção dos seus ministros sagrados”. Assim, os fiéis “se unem mais intimamente a Cristo que se oferece e são, em certo sentido, ainda mais profundamente inseridos na comunhão com Ele”, de acordo com um costume que “não só é aprovado pela Igreja, mas também é promovido por ela”. O documento – que integra e especifica as normas já contidas no decreto Mos iugiter de 1991 – nasce para tratar de algumas questões críticas que surgiram na prática e especialmente com relação às missas com intenções “coletivas”, ou seja, celebrações com várias intenções no mesmo rito. O consentimento dos ofertantes deve ser explícito – Em particular, o Dicastério liderado pelo cardeal Lazarus You Heung-sik estabelece que, se ordenado pelo conselho provincial ou pela reunião dos bispos da província, “os sacerdotes podem aceitar várias ofertas de ofertantes distintos, acumulando-as com outras e se satisfazendo com uma única missa, celebrada de acordo com uma única intenção ‘coletiva’, se – e somente se – todos os ofertantes tiverem sido informados e tiverem consentido livremente”. A esse respeito, fica explícito que, na ausência de “consentimento explícito”, a vontade dos ofertantes “nunca pode ser presumida”, ao contrário, “na ausência, sempre se presume que não foi dada”. Se antes de tudo vier recomendado que “toda comunidade cristã tenha o cuidado de oferecer a possibilidade de celebrar missas diárias com uma única intenção”, o Decreto afirma que o sacerdote “pode celebrar missas diferentes também segundo intenções ‘coletivas’, entendendo-se que lhe é permitido reter, diariamente, apenas uma oferta para uma única intenção entre aquelas aceitas”. Fonte: Site VATICAN NEWS Matéria Completa: Acesse Aqui