MUNDO – Donald Trump e os Estados Unidos que virão

Neste quarto de século, um século que – para citar novamente o Pontífice – está marcando uma “mudança de época” ainda mais do que “uma época de mudanças”, as forças das grandes potências econômicas, políticas e militares do planeta também se remodelaram. Um editorial do jornal L’Osservatore Romano enfoca os desafios mais urgentes que aguardam o novo presidente dos EUA poucas horas antes da cerimônia de posse. Para o ocupante da Casa Branca, será crucial se esforçar para superar as polarizações que há anos marcaram a vida política estadunidense. Os Estados “desunidos” da América seriam de fato um sério perigo para um mundo já dividido e fragmentado. Não, a história “não terminou” com a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética. O que havia sido uma ilusão de alguns cientistas políticos e expoentes políticos no final do século passado acabou se revelando dramaticamente errado. Afinal, isso já havia sido entendido no início do século XXI com o evento “impensável” do ataque terrorista às Torres Gêmeas, que provocou um despertar sombrio para aqueles que imaginavam uma era de estabilidade mundial sob a bandeira da economia liberal. Nos mais de 30 anos que se passaram desde aquele dia histórico em que, junto com o Muro, desmoronou também um dos sistemas totalitários mais liberticidas da história, a humanidade vivenciou um número cada vez maior de conflitos que passaram de locais a regionais, até assumirem o perfil angustiante do que, com precisão profética, o Papa Francisco vem chamando há anos de “Terceira Guerra Mundial em pedaços”. Portanto, a história está longe de terminar. Neste quarto de século, um século que – para citar novamente o Pontífice – está marcando uma “mudança de época” ainda mais do que “uma época de mudanças”, as forças das grandes potências econômicas, políticas e militares do planeta também se remodelaram. Hoje vivemos em um mundo multipolar que torna a busca por acordos, especialmente em situações de crise, mais complexa e menos linear. No entanto, este é o mundo em que vivemos, e o princípio da realidade exige que todos os líderes (especialmente aqueles com maior poder) percebam que os grandes desafios de nosso tempo devem ser abordados com novos paradigmas, com a criatividade que rejeita a atitude do “sempre foi feito assim”. É nesse contexto histórico que, na próxima segunda-feira, Donald Trump jurará, pela segunda vez, defender a Constituição dos Estados Unidos e servir ao povo estadunidense. Um evento, como já foi amplamente dito e escrito, que tem características que são, em muitos aspectos, sem precedentes e que é visto com esperança e preocupação porque não escapa a ninguém – mesmo em um mundo onde não há mais uma única superpotência – o quanto os Estados Unidos ainda podem influenciar a dinâmica política e econômica internacional. O presidente eleito Trump declarou várias vezes que trabalhará para pôr fim à guerra na Ucrânia. Ele também afirmou que, sob sua presidência, os EUA não se envolverão em novos conflitos. Resta saber qual será sua atitude em relação aos órgãos internacionais. A imigração, o meio ambiente e o desenvolvimento econômico (cada vez mais impulsionado pela tecnologia) estão entre as principais questões sobre as quais o 47º inquilino da Casa Branca será observado de perto não apenas pelo povo estadunidense, mas por toda a comunidade internacional. Historicamente, os Estados Unidos da América tiveram seu melhor desempenho quando se abriram para o mundo (as Nações Unidas são, afinal, “uma invenção estadunidense”) e, juntamente com seus aliados, construíram um sistema que – com as limitações de todos os esforços humanos – garantiu a liberdade, o desenvolvimento econômico e o progresso dos direitos humanos. Isso ocorreu com presidentes republicanos e com presidentes democratas. Um país voltado para si mesma seria, portanto, algo sem sentido. O presidente Trump está sendo chamado a trabalhar para superar as divisões e polarizações que caracterizam a vida política estadunidense há anos e que tiveram na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 uma das datas mais tristes da história nacional. É uma tarefa difícil, sem dúvida. No entanto, é uma tarefa necessária para o novo governo. Pois os Estados “desunidos” da América seriam um grave perigo para um mundo já dividido e fragmentado. Fonte: Site VATICAN NEWS Matéria Completa: Acesse Aqui
MUNDO – Internacional Antifeminista, uma radiografia

O universalismo defendido pela identificação coletiva cristã provou ser um recurso útil para a transnacionalização. A Igreja Católica, por exemplo, tem grande influência em várias áreas do globo As guerras de gênero tornaram-se globalizadas e são impulsionadas por um poderoso movimento social, político e religioso transnacional. Com “guerras de gênero” fazemos referência aqui a conflitos políticos e culturais que se centram em questões de gênero e sexualidade – questões como os direitos sexuais e reprodutivos, os direitos de dissidência sexual, a educação sexual ou a violência de gênero, entre outros. É claro que estas batalhas não são meras cortinas de fumaça, mas inerentes à luta pelo poder e aos interesses dos projetos políticos que as impulsionam, que, em última análise, são funcionais para uma relegitimação das hierarquias de classe, gênero e raça. Uma nova onda de ativismo ultraconservador global estabeleceu o “gênero” como uma frente de batalha definitiva. O movimento “antigênero” é suficientemente flexível para incorporar uma variedade de objetivos, mas suficientemente coerente para ser um movimento e não apenas uma série de campanhas não relacionadas. Embora em muitos ele lugares possa vestir-se com a roupagem da oposição ao neoliberalismo e outras, abraçá-lo plenamente. Os agentes internacionais que impulsionam estas guerras de gênero são muito diversos. Por um lado, as instituições religiosas têm um papel destacado. A direita cristã internacional é na verdade a mais produtiva no que diz respeito à mobilização de recursos, às suas redes organizacionais, à construção da identidade e à produção cultural do movimento. Neste sentido, os atores religiosos funcionam plenamente como qualquer outra organização política. Aqui podemos incluir igrejas e clérigos, comunidades seculares de ativistas, bem como centros de investigação, universidades e ONGs transnacionais que afirmam ser baseadas na fé. O universalismo defendido pela identificação coletiva cristã provou ser um recurso útil para a transnacionalização. A Igreja Católica, por exemplo, tem grande influência em várias áreas do globo graças à sua estrutura centralizada, embora também tenha organizações próprias que vão além do nível nacional e que são religiosas e seculares: Opus Dei, Kikos, Legionários de Cristo, organizações anti-aborto, redes universitárias próprias, etc. As igrejas ortodoxas do leste europeu, por sua vez, baseiam a sua influência política e social basicamente na sua estreita relação com os Estados onde governam a ultradireita –, algo muito evidente no patriarcado de Moscou. Nas últimas décadas, também temos assistido ao crescimento do poder do evangelical, especialmente do estadunidense – com fortes laços políticos com a direita republicana e importantes recursos econômicos – como ocorreu recentemente nas eleições dos EUA com o seu apoio a Trump. Na verdade, este candidato mostrou-se repetidamente um mestre sair pela tangente quando questionado sobre a sua posição sobre o aborto, temendo que isso pudesse tirar votos num país que, apesar de tudo, é majoritariamente favorável a este direito – sobretudo as mulheres. Porém, ele teve que deixar de engambelar e assumir seus compromissos com seus financiadores evangélicos, que também mobilizam muitos votos, por isso acabou esclarecendo que se opõe às leis mais permissivas sobre o aborto, com argumentos como o de que em alguns estados democratas até “o bebê pode ser executado após o nascimento”. Fonte: Site Outras Palavras Matéria Completa: Acesse Aqui
MUNDO – Em Gaza não há presentes, se as crianças pudessem escrever ao Papai Noel apenas pediriam para morrer

A milhares de quilômetros de distância dos movimentados mercados, adornados com luzes cintilantes e o toque dos sinos de Natal, existe outro mundo O testemunho: mais de 444 dias de vida suspensos, e enquanto o mundo festeja, na Faixa de Gaza os pequenos procuram restos de comida podre no meio do lixo. Suas mãos estão levantadas não em comemoração, mas para se protegerem de mísseis. O artigo é de Rita Baroud, estudante palestina, publicado por Repubblica, 24-12-2024. EIS O ARTIGO Mais de 444 dias de vida suspensos em Gaza. Aqui, o tempo parou de fluir. Sem escolas, sem trabalho, sem esperança. Apenas dias que na sua dor se espelham, como réplicas infinitas da mesma catástrofe. Dias suspensos no vazio, oprimidos pelo eco das explosões e pelo som incessante das balas, uma lembrança constante de que a vida aqui é diferente de qualquer outra vida, em qualquer outro lugar. A milhares de quilômetros de distância dos movimentados mercados, adornados com luzes cintilantes e o toque dos sinos de Natal, existe outro mundo – um mundo que não conhece nem o calor das férias nem as bênçãos da paz. Aqui em Gaza, onde o barulho dos aviões e das explosões nunca cessa, a alegria do Natal está ausente, substituída por uma realidade sombria que escapa a qualquer descrição humana. Hoje em dia, enquanto o mundo acende árvores de Natal e levanta orações pela paz, levantamos as mãos, não em celebração, mas numa tentativa desesperada de proteger as nossas crianças do terror dos mísseis. Nas ruas da minha cidade não há decorações nem risadas – apenas restos de casas destruídas e sonhos desfeitos. No meio deste inferno, o inverno chega como um hóspede indesejado, trazendo apenas mais sofrimento. Gaza conhece bem a dor, mas em dezembro esta torna-se ainda mais insuportável. Aqui, os presentes não são trocados debaixo das árvores; em vez disso, escassas rações alimentares são distribuídas em longas filas, acompanhadas pelo medo de que os suprimentos acabem antes de chegar a todos. Gaza existe à margem da vida, isolada de um mundo que parece perdido nas suas celebrações, submerso no brilho das suas festividades. No inverno, o sofrimento do povo de Gaza duplica. As famílias ficam presas entre o frio intenso do inverno e paredes em ruínas que não oferecem proteção. As crianças dormem no chão congelado, os seus rostos pálidos contando histórias de fome e frio. O inverno aqui não é apenas mais uma estação; é mais um teste de resistência contra o insuportável. As vielas estreitas, agora inundadas de lama depois das chuvas, obrigam as crianças descalças a caminhar por caminhos enquanto os seus pequenos corpos tremem. As famílias vivem em tendas esfarrapadas cercadas por poças de água após as tempestades, enquanto as crianças tentam fazer fogueiras usando lixo apenas para aquecer as mãos. Ontem à noite, enquanto caminhava pelos becos do bairro, tentando comprar alimentos exorbitantes e escassos a ponto do desespero, perguntei às crianças que conheci: “O que vocês querem?” Seus rostos estavam cansados, suas expressões contavam histórias de exaustão que não deveriam pertencer à infância. Mas havia uma menininha, de não mais de cinco anos, que me impressionou mais do que tudo. Ele carregava no ombro uma caixa de papelão na qual recolhia restos de comida podre que recuperava de pilhas de lixo. Sua imagem por si só teria sido suficiente para partir qualquer coração. Eu perguntei a ela: “O que você quer?” Ela parou por um momento e depois respondeu com uma voz suave que carregava o peso do mundo: “Gostaria de encontrar comida para alimentar meus irmãos mais novos. Meu pai perdeu membros e minha mãe foi martirizada. Eu sou responsável por eles.” Eu não pude responder. As palavras me falharam quando olhei para ela. Naquele momento, minha busca por comida não importava mais. Tudo parecia insignificante comparado à dor naqueles olhinhos. Em todo o mundo, crianças escrevem cartas ao Papai Noel pedindo brinquedos e presentes. Eles decoram árvores de Natal e enchem suas casas de risadas e alegria. Mas em Gaza não há cartas nem partidos. Aqui, se as crianças escrevessem alguma coisa, não seria para pedir brinquedos ou presentes. Pediriam apenas uma coisa: a morte, como fuga de uma vida que lhes roubou a infância e destruiu os seus sonhos. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui
Tempo de visitação: rever, acolher, carinhar! Breve reflexão para crentes ou não. Comentário de Chico Alencar

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, ensinou Vinicius de Moraes”, recorda Chico Alencar, deputado federal – PSOL-RJ, ao comentar o evangelho lido no 4º Domingo do Advento. “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, ensinou Vinicius de Moraes (1913-1980). A visitação de Maria em Ein Karim, povoado na região montanhosa da Judéia (próxima de Jerusalém), está carregada de belos significados: o protagonismo das mulheres numa sociedade patriarcal; a fecundidade em meio à esterilidade; a pulsação da vida em quem se dispõe a “subir a montanha” (39), elevar-se; a Eternidade penetrando nas artérias do Tempo. O louvor da jovem Maria e da idosa Isabel, gestando Jesus e João, benditos frutos, faz vibrar as crianças que há nelas e… em cada um(a) de nós. Há braços, a delicadeza é possível! (Emanuel é “Deus conosco”). Calem-se os mísseis da destruição, silenciem os gritos de ódio! Há um feminino chamado para que fiquemos, tod@s, grávidos de um Deus Menino. Ele nos conduz, brincante e amoroso, aos restaurados campos verdes da Justiça, do Cuidado e da Paz, onde o amor vence toda dor. A visita de Maria a Isabel revela a sacralidade do miúdo e a grandeza do divino na pequenez dos gestos: “eu não sei o que é, mas sei que existe um grão de salvação escondido nas coisas deste mundo” (Adélia Prado). PS: dedico essa reflexão menor a Maristela Zenun Brigagão Ferreira (1946-2024), professora e ativista do Serviço Social, mulher generosa, de fé e de luta, que está imersa no Todo Poderoso Amor, pelo tanto de amor que semeou – como Maria, como Isabel. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui
MUNDO – “Depois de duas guerras mundiais e da pandemia, continuamos sem conseguir valorizar a vida humana”. Entrevista com Imã Marwan Gill

A entrevista é de Clara Raimundo, publicada por 7Margens, 12-12-2024. Nasceu na Alemanha, estudou no Reino Unido e está em missão na Argentina. Tendo em conta estas coordenadas, talvez poucos adivinhassem que nos referimos a um imã. Mas para Marwan Gill, 34 anos, o fato de ter vivido sempre em países não-muçulmanos não foi motivo para se afastar do islã, pelo contrário. Na verdade, foram os seus pais que tiveram de fugir de um país de maioria muçulmana, o Paquistão, porque o grupo a que pertenciam – a comunidade muçulmana ahmadia – aí era (e continua a ser) considerada herética e, por esse motivo, perseguida. De passagem por Portugal para participar num encontro de bolseiros do Centro Internacional para o Diálogo (KAICIID), com sede em Lisboa, o atual presidente da Comunidade Muçulmana Ahmadia na Argentina falou ao 7MARGENS sobre a importância do diálogo inter-religioso, em particular entre muçulmanos e judeus, do qual tem sido protagonista. O programa de rádio que conduz semanalmente com o rabino Miguel Steuermann, intitulado Salam Shalom [as palavras árabe e hebraica para “paz”] despertou a atenção do Papa, que pediu para conhecê-los, e deu origem a um livro, que acabam de lançar (para já apenas em espanhol). Porque – como lhes disse Francisco – “agora é a altura de não desistir”. Eis a entrevista. Ser muçulmano em países de tradição cristã tem sido um desafio particularmente difícil? Como muçulmano que viveu sempre em sociedades ocidentais não-muçulmanas, devo confessar que não senti como um desafio construir a minha identidade como muçulmano. Viver nestas sociedades – que, no caso da Alemanha e da Inglaterra, não expressam tão fortemente a religiosidade… são sociedades mais laicas e que de alguma forma se orgulham do secularismo – permitiu-me alargar o meu horizonte, conhecer outras culturas e religiões, outras formas de interpretar a espiritualidade. Mas sinto que houve um “antes” e um “depois” do 11 de Setembro… Que idade tinha quando ocorreram os ataques? Tinha 11 anos. E esse acontecimento veio realmente alterar a vivência que eu tinha tido até então como muçulmano. Porque antes do 11 de Setembro, o islã era, para a maioria dos ocidentais, um mundo exótico… Um pouco como são hoje o hinduísmo e o budismo. As pessoas não sabiam muito sobre o islã, assumiam que era algo diferente, e quando queriam saber mais faziam algumas perguntas. Mas, depois do 11 de Setembro, deixaram de fazer perguntas: passaram a fazer afirmações com base em preconceitos, a dar opiniões com base em estereótipos e generalizações. E de repente eu, um adolescente, fui confrontado com a necessidade de explicar como nasceu a Al-Qaeda, o que é a Al-Qaeda, qual é a relação dos talibãs com o islã… Quando eu nunca tinha sequer ouvido falar deles na mesquita ou lido sobre eles no Alcorão! Para você também foi um choque… Completamente! Não conhecia a Al-Qaeda… E as expressões jihad [que em árabe significa “luta”, “esforço”] ou Allahu Akbar [que significa “Alá é grande”] já as conhecia, mas só eram usadas para orar, para santificar Deus e santificar toda a Sua criação. E afinal havia muçulmanos que, em nome de Allahu Akbar, matavam outras pessoas? Não conseguia encontrar ligação entre uma coisa e a outra. Não percebia porque é que me confrontavam com isso por eu ser muçulmano e muito menos sabia explicar como é que era possível usar Allahu Akbar para justificar qualquer tipo de violência. Foi a procura dessas respostas que o trouxe até aqui? Sim! Estava na Alemanha e senti que o islã passou a ser um bode expiatório para os mais variados problemas, porque a sociedade não queria aprofundar as verdadeiras causas desses problemas. Por exemplo, se havia homens muçulmanos que tratavam mal as mulheres, isso não era por causa do islã. Se havia famílias muçulmanas que não conseguiam integrar-se, não era por causa do islã. Mas via que o islã era muitas vezes debatido e alvo de acusações, e ainda por cima sempre sem a participação de um muçulmano à mesa… Isso para mim foi muito forte. Então, decidi que queria sentar-me à mesa, que queria dar voz ao islã onde ele fosse debatido. Queria que o Ocidente pudesse compreender a verdadeira essência e identidade do islã. E daí a minha decisão de entrar para o seminário islâmico para ser imã. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui
MUNDO – Os EUA e Israel destruíram a Síria e chamaram isso de paz. Artigo de Jeffrey D. Sachs

Jeffrey D. Sachs é professor da Universidade de Columbia, é diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia e presidente da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável da ONU. “A interferência dos Estados Unidos, a mando do regime de Netanyahu, deixou o Oriente Médio em ruínas, com mais de um milhão de mortos e guerras abertas desencadeadas na Líbia, no Sudão, na Somália, no Líbano, na Síria e na Palestina, e com o Irã à beira de um arsenal nuclear sendo empurrado contra as suas próprias inclinações para esta eventualidade”. A reflexão é de Jeffrey D. Sachs, em artigo publicado originalmente por Common Dreams, e reproduzido por La Haine, 17-12-2024. A tradução é do Cepat. Nas famosas palavras de Tácito, historiador romano: “Saquear, massacrar, usurpar, a estas coisas dão o falso nome de império; e onde criam um deserto, chamam isso de paz”. Em nossa época, são Israel e os EUA que criam um deserto e o chamam de paz. A história é simples. Em flagrante violação do direito internacional, o primeiro-ministro do regime israelense, Benjamin Netanyahu, e os seus ministros reivindicam o direito de governar mais de 7 milhões de árabes palestinos. Quando a ocupação israelense de terras palestinas gera uma resistência militante, Israel qualifica essa resistência de “terrorismo” e pede aos EUA que derrubem os governos do Oriente Médio que apoiam os “terroristas”. Os EUA, sob a influência do lobby israelense, vão à guerra em nome de Israel. A queda da Síria esta semana é a culminância da campanha israelense e estadunidense contra a Síria, que remonta a 1996, com a chegada de Netanyahu ao cargo de primeiro-ministro. A guerra israelo-estadunidense contra a Síria intensificou-se em 2011 e 2012, quando Obama encomendou secretamente à CIA a derrubada do governo sírio na Operação Timber Sycamore. Esse esforço finalmente deu frutos esta semana, depois de mais de 300 mil mortes na guerra síria desde 2011. A queda da Síria aconteceu rapidamente devido a mais de uma década de sanções econômicas esmagadoras, ao peso da guerra, ao roubo do petróleo da Síria por parte dos EUA, às prioridades da Rússia relativamente ao conflito na Ucrânia e, de forma mais imediata, aos ataques de Israel contra o Hezbollah, que foi o principal apoio militar do governo sírio. Sem dúvida, Assad nem sempre jogou bem as suas próprias cartas e enfrentou um certo descontentamento interno, mas o seu governo foi alvo de colapso ao longo de décadas por parte dos Estados Unidos e Israel. Antes da campanha EUA-Israel para derrubar Assad ter começado seriamente em 2011, a Síria era um país de renda média que funcionava e crescia, apoiado pelo seu povo devido à extensa rede de segurança social. Em janeiro de 2009, o Conselho Executivo do FMI afirmou o seguinte: “Os diretores executivos elogiaram o bom desempenho macroeconômico da Síria nos últimos anos, manifestado no rápido crescimento do PIB não petrolífero, no nível confortável das reservas cambiais e na dívida pública baixa e em declínio. Estes resultados refletem tanto a robusta demanda regional como os esforços de reforma das autoridades para mudar para uma economia mais voltada para o mercado”. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui
MUNDO – “A maior quantidade e o mais rápido possível”: colonos israelenses buscam terras na Síria e no Líbano

Poucas horas depois da queda do regime de Bashar al-Assad, as forças israelenses já entravam em território sírio para conquistar aquela encosta do Monte Hermon/Jabal A-Shaykh e a zona de contenção entre a Síria e as Colinas de Golã, ocupadas por Israel há mais de meio século. Mas o exército não foi o único que reagiu rapidamente; o mesmo aconteceu com o movimento de colonos israelenses. A reportagem é de Illy Pe’ery, publicada por revista +972, e reproduzida por Ctxt, 16-12-2024. “Temos que conquistar e destruir. Tanto quanto possível e o mais rápido possível”, escreveu um membro do Uri Tsafon – um grupo fundado no início deste ano para promover a colonização israelense do sul do Líbano – no grupo de WhatsApp da organização. “Precisamos verificar se, de acordo com as novas leis sírias, os israelenses estão autorizados a investir em imóveis e começar a comprar terras lá”, escreveu outro membro. Num outro grupo WhatsApp de colonos, os membros partilharam mapas da Síria e tentaram identificar potenciais áreas de colonização. O movimento Nachala, liderado por Daniella Weiss, que nos últimos meses liderou os esforços para reassentar Gaza, expressou opinião semelhante numa publicação no Facebook: “Quem continua a pensar que é possível deixar o nosso destino nas mãos de um agente estrangeiro, desista da segurança de Israel! “O assentamento judaico é a única coisa que trará estabilidade e segurança regionais ao Estado de Israel, juntamente com uma economia estável, resiliência nacional e dissuasão. Em Gaza, no Líbano, em todas as Colinas de Golã, incluindo o ‘Planalto Sírio’, e em todo o Monte Hermon”, acrescentou, e anexou um mapa bíblico intitulado “As Fronteiras de Abraão”, no qual o território de Israel inclui todo o Líbano, bem como a maior parte da Síria e do Iraque. Isto não é mera conversa; esses grupos são muito sérios. Nachala já mapeou os locais onde planeja construir novos assentamentos judaicos na Faixa de Gaza e afirma que mais de setecentas famílias se comprometeram a se mudar quando surgir a oportunidade (a própria Daniella Weiss já esteve em Gaza sob escolta militar para explorar possíveis locais). E na semana passada, Uri Tsafon, que aguardava há um ano, fez a sua primeira tentativa de apropriação de terras no sul do Líbano – onde soldados israelenses ainda estão presentes após o acordo de cessar-fogo. Em 5 de Dezembro, o fundador do grupo, Amos Azaria, professor de ciências da computação na Universidade Ariel, na Cisjordânia ocupada, atravessou a fronteira para o Líbano juntamente com seis famílias numa tentativa de estabelecer um posto avançado. Chegaram à zona de Maroun A-Ras, entrando cerca de dois quilômetros em território libanês, e plantaram alguns cedros em memória de um soldado israelense que morreu em combate no Líbano há dois meses. Várias horas se passaram antes que o exército israelense os expulsasse e os obrigasse a retornar a Israel. (Em resposta ao pedido da revista The Hottest Place in Hell para comentar este incidente, a polícia israelense disse que, de acordo com o exército, nenhum civil israelense tinha atravessado para o Líbano.) Mesmo em junho, na “Primeira Conferência sobre o Líbano” de Uri Tsafon, realizada através do Zoom, os membros já falavam sobre a colonização da Síria. O Dr. Hagi Ben Artzi, cunhado de Benjamin Netanyahu e membro do grupo, disse aos participantes que foi prometido ao povo judeu as fronteiras de Israel nos tempos bíblicos: “Não queremos nem um metro além do rio Eufrates. Somos humildes. [Mas] o que nos foi prometido, devemos conquistar.” Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui
MUNDO – Ainda faz sentido a COP30? Videconferência no IHU com Luiz Marques

Luiz Marques responde à questão em videoconferência nesta quinta-feira, 10-12-2024, em evento promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU A realização de 29 Conferências das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COPs) não tem surtido os efeitos esperados. Os países-membros têm dificuldades de reduzir a emissão de gases do efeito estufa e elaborar políticas públicas de mitigação e enfrentamento dos eventos climáticos extremos. A incapacidade de financiar o combate à crise climática e políticas de adaptação ficou visível na Conferência realizada em Baku, no Azerbaijão, mês passado. A COP29 “foi uma COP Zumbi”, “um cadáver insepulto”, lamenta Luiz Marques, professor da Ilum Escola de Ciência do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A morte, contudo, ocorreu cinco anos antes, segundo o anúncio do pesquisador em 2021: “A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, nascida em 1992, está morta. Morreu em Madri, em 2019, e o enterro foi em Glasgow [Escócia]. A Missa de Sétimo Dia será no Egito, em 2022 (COP27), e a missa de um ano será oficiada nos Emirados Árabes Unidos, em 2023 (COP28), uma das capitais do petróleo”. As consequências da falta de políticas públicas de enfrentamento ao novo regime climático foram sentidas neste ano em diversas partes do mundo, devastadas por eventos climáticos extremos. O aumento da temperatura, que tem sido anunciado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), é um deles. Segundo dados do observatório europeu Copernicus, a temperatura global em 2024 será a mais elevada da história: 1,6ºC acima da média pré-industrial. A continuação da emissão de gases do efeito estufa na atmosfera agravará ainda mais a situação, adverte Marques. “Isso resultará em um provável aumento na temperatura média global de cerca de 1°C acima do valor atual até 2025 e 3°C antes do final do próximo século”, salienta. Ano passado “a produção de petróleo e gás atingiu um recorde histórico: 55,5 bilhões de barris de petróleo equivalente (bboe)”, informa. Somente nos EUA, exemplifica, o presidente Joe Biden aprovou “quase 50% mais licenças de exploração de petróleo e gás em terras federais do que Trump em seus primeiros três anos de governo”. Com a eleição de Trump neste ano, acrescenta, “os Estados Unidos sairão novamente da convenção do clima”. Apesar do impacto político negativo, a presença dos EUA nas COPs “sempre atrapalhou mais do que ajudou as negociações”, assegura. Neste contexto, surge a pergunta: “Ainda faz sentido a COP30?” Refletir sobre os limites e possibilidades da próxima conferência climática é o tema da videoconferência de Luiz Marques na próxima quinta-feira, 19-12-2024, no Instituto Humanitas Unisinos – IHU. O evento será transmitido às 17h30min na página eletrônica do IHU, no YouTube e nas redes sociais. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui
MUNDO – Assim as universidades se entorpecem

Produtivismo neoliberal levou a Academia à miséria criativa – e burocratizou a produção de saberes. Sofrimento, que poderia ser estímulo à reinvenção da vida, é sufocado por gestão química. Poderíamos construir outra ética do cuidado? O conceito de “saúde mental” é usado de modo amplo e abrangente, relacionado a uma ambição idealizada de vida equilibrada, significando em nossa sociedade hedonista, vida alegre e sem sofrimentos. Daí emergirem outros conceitos que lhe dão suporte e vida prática, tais como: “bem-estar emocional”; “autoconhecimento”; “autocuidado”; “autoestima”; “resiliência”; “relacionamentos saudáveis”; “produtividade e motivação no trabalho” e a busca por “prevenção” que aumente a capacidade de lidar com situações de estresse, frustração e tristeza, além de estar sempre disposto a enfrentar desafios. Ou seja, o conceito vai se mantendo em uso, a partir de mudanças em seus arrimos estruturais. Devemos sempre relacionar os modelos de vida humana (ou modos de viver) com a chamada “saúde mental”. Se a “mente” é um conceito herdado da Grécia Clássica (500 a.c. – 300 a.c.), “doença mental” emerge no século XVIII, dando condições para o nascimento da Psiquiatria (Foucault 1961/1978), e é um termo que permanece sendo usado com muita frequência até hoje. Não é possível que, depois de 260 anos de criado, esse conceito fique, parafraseando Caetano Veloso, “impávido que nem Muhammad Ali”. Deve ser questionado, porque se fez insinuando que, nós, humanos, temos uma essência, a qual nos diferencia de todas as outras espécies vivas, e essa tal essência é nominada como “alma”, “mente”, “subjetividade” ou “psiquê”. O incrível é ainda se sustentar que os nossos sofrimentos humanos são divididos em físicos e metafísicos, estes se referindo a uma “sofrença mental”. Assim, tanto a mente quanto seu suposto adoecimento, constituem-se como um “dado evidente”. Isso é espantoso em uma sociedade moderna sustentada na linguagem dita objetiva e que supõe decodificar a natureza por meio de aparatos tecnológicos. A busca de certos campos do saber por biomarcadores (ou marcadores físicos), para o que se julga não físico, parece infinda. Na disputa por hegemonia biopolítica, as ciências exatas e biomédicas dedicaram-se a colonizar o território das chamadas ciências humanas e sociais. O projeto de colonização se iniciou na Renascença e teve seu auge a partir do século XIX. Como afirma Foucault, ao se reportar a Psicologia, é preciso acordar desse sono dogmático (Foucault, 1965/2002), se realmente quisermos enfrentar nossas dores, sem nos esquivarmos de suas fontes, recorrendo a drogas, sejam quais elas forem. O psiquiatra e psicanalista húngaro Thomas Szasz, começou a criticar o uso do termo “doença mental” como um conceito em um artigo datado de 1958. O autor argumenta que se trata de uma construção teórica não uma verdade factual. Portanto, não é mais nem menos “factual” do que crenças em feitiçarias e afirmar que alguém está possuído pelo demônio (Szasz, 1979a; 1979b). O autor já apontava que alterações no cérebro ou um “defeito neurológico”, não podem ser automaticamente relacionados com um conceito efêmero como mente. Fonte: Site Outras Palavras Matéria Completa: Acesse Aqui
MUNDO – “Absolutamente insano”: funcionários do Pentágono sobre o plano de Trump de usar militares na deportação de imigrantes

O artigo é de Silvio Falcón, cientista político, publicado por La Marea e reproduzido por Outra Palavras, 25-11-2024. A tradução é de Rôney Rodrigues. “Donald Trump fez campanha com a promessa de fazer deportações em massa e, na segunda-feira (18 de nov), disse que a sua administração usaria os militares dos EUA para realizar esta expulsão de milhões de pessoas, muitas das quais vivem nos Estados Unidos há anos ou mesmo décadas”. A reflexão é de Nick Turse, em artigo publicado orginalmente no The Intercept, e reproduzido por Voces del Mundo, 22-11-2024. A tradução é do Cepat. Nick Turse é editor-chefe do TomDispatch e membro do Type Media Center. Seu livro mais recente é Next Time They’ll Come to Count the Dead: War and Survival in South Sudan e é autor do best-seller Kill Anything That Moves. Donald Trump fez campanha com a promessa de fazer deportações em massa e, na segunda-feira (18 de nov.), disse que a sua administração usaria os militares dos EUA para realizar esta expulsão de milhões de pessoas, muitas das quais vivem nos Estados Unidos há anos ou mesmo décadas. Historicamente, os militares dos EUA não desempenham funções de controle da imigração e normalmente não desempenham funções policiais. Mas quando Tom Fitton, presidente do grupo conservador Judicial Watch, publicou nas redes sociais que a próxima administração “usará recursos militares para reverter a invasão de Biden através de um programa de deportação em massa”, Trump respondeu: “Verdade!!!”. O governador do Texas, Greg Abbott, já seguiu a estratégia legal de declarar que o fluxo de imigrantes é uma “invasão”, argumentando que o governo federal descumpriu seu dever constitucional de proteger os Estados de potências estrangeiras e que o Texas deveria ter o direito de usar a sua Guarda Nacional como força de deportação. Os deputados republicanos do Arizona fizeram a mesma afirmação. Trump também sugeriu anteriormente que recorreria a poderes de guerra para colocar o seu plano em prática. O Pentágono rejeitou publicamente a promessa de Trump de usar os militares para fazer deportações em massa. “O Departamento não comenta hipóteses nem especula sobre o que pode ocorrer”, disse um porta-voz do Departamento de Defesa ao The Intercept. Nos bastidores, os funcionários estavam exasperados. “É absolutamente insano”, disse um funcionário do Pentágono que pediu para não ser identificado porque não estava autorizado a falar com a imprensa sobre o assunto. “Nunca pensei que veria o dia em que esta seria uma política ‘séria’ – coloque entre aspas”. Ele disse que os obstáculos legais e logísticos seriam imensos e que a proposta era “pouco realista e pouco séria”. Outro funcionário do Departamento de Defesa de um escritório diferente, que também não estava autorizado a falar com a imprensa, teve quase exatamente a mesma reação. “É uma loucura”, disse sobre o anúncio de Trump. “No primeiro dia do meu mandato, lançarei o maior programa de deportação da história americana para expulsar os criminosos”, disse Trump durante um comício no Madison Square Garden, em Nova York, nos últimos dias da campanha presidencial. “Resgatarei cada uma das cidades que foram invadidas e conquistadas, e colocaremos esses criminosos cruéis e sedentos de sangue na prisão, e então os expulsaremos do nosso país o mais rápido possível”. Fonte: Site Instituto Humanitas Unisinos Matéria Completa: Acesse Aqui