
Por VALERIO ARCARY* – 17 Abril 2021 –Foto: Daqui
A história ensina que há limites para os sacrifícios sociais impostos às massas populares em qualquer nação., escreve Valério Arcary, professor aposentado do IFSP, em artigo publicado por A Terra é Redonda, 15-04-2021. Autor, entre outros livros, de O encontro da revolução com a história (Xamã).
“Ensina uma sabedoria antiga que Zeus enviou Pandora para castigar Prometeu, que tinha roubado o fogo para oferecer a vida aos seres humanos. Tendo por isso contrariado os desígnios dos Deuses e desafiado as teias do destino, fora condenado, a sofrer todas as maldições mais atrozes, até que Zeus, tomado de piedade, decidiu fechar a caixa de Pandora, quando no seu interior só restava a última, porém a mais terrível das maldições.
A Humanidade foi assim poupada do pior dos males, o mais invisível e o mais pertubador, a perda da esperança. Há coisas que não se podem perder”
Eis o artigo.
O Brasil se transformou em março de 2021 no epicentro mundial da pandemia, quando consideramos indicadores como
- a variação média de contágios e óbitos diários por milhão,
- as taxas de ocupação de leitos e UTI’s,
- ou a ocorrência de novas cepas do vírus.
Caminhamos para 400.000 mil mortos até o final de abril: um cataclismo sem precedentes na história social do país. A catástrofe sanitária e a tragédia social de empobrecimento vertiginoso desde janeiro constitui um trauma histórico?
Um trauma histórico é uma fratura no tempo político que estabelece um antes e um depois.
- Na Rússia de 1917, na Alemanha e Hungria de 1918 o trauma foi a derrota dos Impérios na I Guerra Mundial.
- Na Espanha, França e na Europa Central foi o impacto da depressão depois da crise de 1929.
- Na França e na Itália em 1944/45 foram as sequelas da ocupação nazista.
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Não haveria um maio de 1968 sem a derrota na guerra da Argélia, nem a revolução dos cravos em Portugal em 1974 sem a derrota militar nas colônias africanas.
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A história ensina que há limites para os sacrifícios sociais impostos às massas populares em qualquer nação.
- Assim como as pessoas têm limites na experiência da dor,
- há momentos na história das sociedades contemporâneas em que os músculos e nervos da classe trabalhadora e da juventude
- atingem um ponto máximo de frustração, esgotamento, exasperação com a ordem política.
Os terríveis sofrimentos materiais e psíquicos são suportados, silenciosamente, por um período que pode ser maior ou menor, em um terrível processo de embrutecimento.
Esses limites são variáveis em diferentes sociedades. Mas, embora a dinâmica da evolução da consciência das massas populares no Brasil tenha sido, dramaticamente, lenta, há limites.
- Quando são atingidos pela colisão de uma tragédia que opera na mente de milhões como trovões e relâmpagos,
- despertam uma onda, no início molecular, quase invisível, e depois torrencial de fúria e ira.
Devemos nos perguntar
- até quando é possível a sociedade brasileira suportar uma hecatombe desta proporção
- sem uma comoção política avassaladora.
Assim foi em 1983/84:
- sem a experiência da superinflação, desemprego, e a arrogância e estupidez de Figueiredo
- não teria sido possível a irrupção das Diretas Já com milhões nas ruas querendo derrubar a ditadura.
Assim foi em 1991/92:
- sem a experiência da hiperinflação, desemprego e a soberba e obtusidade de Collor,
- a centelha da juventude nas ruas não teria contagiado as massas populares e conquistado o impeachment.
É possível que estes limites estejam próximos, ou até já tenham sido atingidos. Já chegamos ao momento do trauma histórico?
- Se o que aconteceu entre 2015/21 não foi uma derrota histórica da classe trabalhadora e seus aliados,
- se não sofremos a desmoralização de uma geração,
- o impacto desta hecatombe irá despertar, em algum momento, uma resposta colossal, gigantesca, imensa, maior do que tudo que vimos nos últimos vinte anos
- contra o governo de extrema-direita e o neofascista Bolsonaro.
Há limites.
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Não será simples derrotar Bolsonaro e o perigo que representa um governo de extrema direita liderado por um neofascista que tem apoio de massas na pequena-burguesia.
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- Os capitalistas brasileiros são a classe burguesa mais rica, poderosa, experiente e ardilosa do continente.
- Nossa classe trabalhadora é um gigante social,
- mas está longe de ser quem acumulou maior tradição de luta sindical
- e enfrenta, pela primeira vez desde o fim da ditadura militar, os desafios de uma situação reacionária.
Mas o contexto internacional não é simples para Bolsonaro depois da derrota de Trump, na sequência de uma explosão de fúria popular com o Black Lives Matter. Ela sinaliza a possibilidade de uma derrocada. Uma das características chaves do Brasil são os contrastes.
Insere-se no mundo como um híbrido de semicolônia privilegiada e submetrópole regional.
- À luz da lei do desenvolvimento desigual e combinado
- é possível elucidar o amálgama, a fusão, a mescla
- que associa grandeza e pequeneza, riqueza e pobreza, uma união do obsoleto e do moderno, de formas arcaicas, ou até retrógadas
- com as mais contemporâneas, em uma totalidade complexa.
Mas ainda que atrasada a sociedade brasileira não foi bestializada.
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Não é verdade que as massas trabalhadoras e a juventude estejam indiferentes à calamidade sanitária. Ante de agir é necessário que o choque das desgraças acelere a experiência prática, e transforme a consciência.
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O capitalismo brasileiro entrou em decadência histórica.
Mas, considerada, por exemplo, a paridade do poder de compra, um indicador que corrige as oscilações cambiais e, parcialmente, as distorções que resultam das condições de troca desfavoráveis,
- o Brasil ainda era, em 2020, a oitava maior economia do planeta (com PIB estimado em US$ 3,15 trilhões).
- Durante os últimos quarenta anos foi uma das dez maiores economias do mercado mundial,
- segundo projeções do FMI (Fundo Monetário Internacional).[1]
Paradoxalmente, se consideramos o PIB per capita, o valor do PIB dividido pela população, encontramos uma queda contínua.
- Em 2020, a renda média regrediu ao nível de 2009.
- No ano passado, o PIB per capita diminuiu 4,8%.
Baixas piores do que essa
- havia ocorrido apenas em 1983 (recessão final da ditadura militar)
- e 1990 (recessão do Plano Collor).
O consumo das famílias teve queda recorde de 5,5% em 2020.
- O capitalismo periférico brasileiro teve durante meio século, entre 1930/80, uma forte dinâmica de crescimento,
- mas mergulhou em uma tendência histórica de estagnação com viés regressivo.
- Esta inflexão coincide com a etapa mais longa de vigência de liberdades democráticas e estabilidade do regime democrático-eleitoral.
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A chave para o entendimento da especificidade do capitalismo no Brasil é a extrema desigualdade social.
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- É o maior parque industrial do hemisfério sul do planeta,
- e uma das dez maiores economias do mundo, com vinte cidades com um milhão ou mais de habitantes,
- e 85% da população economicamente ativa em centros urbanos.
Mas é atrasado, dramaticamente, em termos educacionais:
- aqueles alfabetizados, plenamente, na língua e na matemática são somente 8%, menos de um em cada dez pessoas,
- e os iletrados funcionais correspondem a 27% da população com 15 anos ou mais, ou seja, quase um em cada três.[2]
O Brasil foi e permanece, sobretudo, uma sociedade muito injusta.
- A chave de uma interpretação marxista do Brasil é a resposta ao tema da principal peculiaridade nacional: a desigualdade social extrema.
- Todas as nações capitalistas, no centro ou na periferia do sistema, são desiguais, e a desigualdade está aumentando desde a década de 1980.[3]
- Mas o capitalismo brasileiro tem um tipo de desigualdade anacrônica.
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Se a chave de interpretação do Brasil deve ser a desigualdade social, a chave da compreensão da desigualdade é a escravidão. Sem compreender o significado histórico da escravidão é impossível decifrar a especificidade do Brasil.[4]
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O país será outro, quando as atuais condições extremas impostas pela pandemia sejam superadas.
O fracasso de conjunto da classe dominante em reduzir as sequelas impostas às classes populares terá consequências político-sociais.
Mais machucadas e amarguradas, mas, também, mais maduras e endurecidas as classes populares estão retirando conclusões. Enquanto não forem derrotadas irão lutar.
Notas:
[2] No Brasil, o ensino médio completo corresponde a 12 anos de escolaridade. Esta escolarização deveria corresponder ao nível “proficiente”, o mais avançado de alfabetismo funcional, que corresponde a uma plena alfabetização na língua e na matemática. Mas apenas 8% das pessoas em idade de trabalhar, em 2015, foram consideradas plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. Há cinco níveis de alfabetismo funcional, segundo o relatório “Alfabetismo e o Mundo do Trabalho”: analfabeto (4%), rudimentar (23%), elementar (42%), intermediário (23%) e proficiente (8%). O grupo de analfabeto mais o de rudimentar, ou 27%, são considerados analfabetos funcionais. Este estudo foi conduzido pela ONG Ação Educativa.
[3] PIKKETY, Thomas. O Capital no século XXI. Intrínseca. Rio de Janeiro. 2014. O livro de Piketty, de inspiração econômica neokeynesiana, e política socialdemocrata, apresenta um extraordinário volume de dados sobre o papel da herança na perpetuação da riqueza ao longo dos últimos cem anos à escala mundial. As séries decenais confirmam, de maneira irrefutável que, a partir dos anos oitenta do século passado, a tendência de aumento da desigualdade social se aproxima do padrão anterior à I Guerra Mundial.
[4] O primeiro censo nacional foi realizado entre 1870/72. O questionário era de difícil transcrição e apuração. Embora tenha sido feito em condições, especialmente, precárias, sua importância como fonte não merece ser diminuída. Sobre uma população próxima a dez milhões ou, mais exatamente 9.930.478, a população escrava era ainda um pouco maior que um milhão e meio, ou, mais precisamente, de 1.510.806, sendo 805.170 homens e 705.636 mulheres. Estudos demográficos históricos são somente aproximações de grandeza. PUBLICAÇÃO CRÍTICA DO RECENSEAMENTO GERAL DO IMPÉRIO DO BRASIL DE 1872 do Núcleo de Pesquisa em História Econômica e Demográfica – NPHED da UFMG. Disponível em: www.nphed.cedeplar.ufmg.br/…/Relatorio_preliminar_1872_site_nphed
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Uma resposta
Valério Arcary nos aponta com lucidez analítica e fundamento crítico que a tragédia social brasileira caminha para um inevitável desfecho, que esperamos não se converta em mais sofrimento para a classe trabalhadora.