O movimento denominado Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST) lançou como slogan: “Temos que plantar um novo país”. O mesmo vale em relação aos que lutam por um espaço mais livre dentro da sua Igreja: “Temos que plantar uma nova Igreja”!O verbo plantar pode soar estranho, mas vem a propósito, já que Igreja e país são entidades vivas. Planta-se uma árvore porque ela pode crescer e se desenvolver. Um edifício não se planta, mas se constrói. Um país pode deixar de ser um conjunto vivo e transformar-se num conceito abstrato, morto e sem vida. O que resta neste caso é um cadáver, um sonho que se apagou.
A ideologia da globalização está empurrando todos os países e todas as pátrias no rumo da extinção. Nosso planeta está sendo transformado em mercado. Um Grande Mercado, composto de alguns menores, ditos mercados comuns. Comum é, no entanto, a todos eles, a circulação de mercadorias, pois as pessoas não fazem parte deste sistema de trocas.
Deixo de lado os aspectos político-econômicos da crise atual, pois o assunto deste pequeno estudo é outro. Pretendo analisar o impacto que a citada crise estrutural irá ter no campo religioso e especificamente no campo religioso cristão.
1. A Igreja de Cristo
Cristo queria realmente fundar uma Igreja? Qual o perfil?
Queria uma instituição encarregada de zelar pelos interesses do Céu?
Ou queria uma Igreja que cuidasse da comunidade dos fiéis?
Cristo não veio fundar mais uma religião, mas abrir um novo espaço religioso.
Cristo nunca criou um espaço físico especial. Qualquer lugar era bom.
Cristo se inseriu perfeitamente no mundo cultural do seu tempo.
A Palestina ficava no centro do espaço cultural mais efervescente do seu tempo.
O tempo em que Jesus nasceu foi de intensa expectativa e esperança.
Cristo deu novo alento à esperança dos homens.
2. A virada constantiniana
Durante quase 300 anos a Igreja viveu no ostracismo e na clandestinidade. Sua doutrina era chocante demais para os grandes senhores do Império. A Igreja era considerada inimiga do Império.
Há duas maneiras de derrotar um inimigo. Uma é persegui-lo. A outra consiste em cooptá-lo e fazer dele um aliado.
Em 313 o Imperador Constantino escolheu o caminho da aliança e da cooperação entre a Espada e a Cruz. Este evento marcou o fim de um tipo de Igreja e o início de uma outra.
O cargo de Sumo Pontífice Romano passou a ser atribuição do Papa.
Todo este processo de transição não foi tão benéfico para o cristianismo quanto se costuma supor. Ficou difícil saber o que é de César e o que é de Deus. O que é atividade apostólica e o que é atividade política. Todo o poder ficou centralizado em torno da capital Roma. Um único soberano. O pessoal da Igreja tornou-se funcionário do Império. Os cristãos representavam a reserva moral do Império.
Como o problema crucial do Império era de natureza moral, a salvação só podia vir da parte do cristianismo, a única força moral disciplinada.
A Igreja como disciplinadora dos costumes e esteio moral da sociedade. Foi assim que o cristianismo se afirmou ao longo dos séculos subsequentes.
A Igreja mantenedora da ordem.
A abolição da escravatura não coincidiu com o triunfo do cristianismo. Foi no seio do mundo cristão que ela nasceu.
Os países mais ricos são cristãos (ao menos de nome). A existência de classes sociais com direitos desiguais foi incorporada à estrutura da Igreja.
A discriminação da mulher foi assumida pela Igreja.
A igualdade entre pessoas ainda hoje só existe no papel.
3. Superestrutura clerical
Em 70 d.C. os judeus perderam o Templo. Com o Templo deixaram de existir duas instituições religiosas fundamentais na aparência: o sacerdócio e o sacrifício.
Até hoje os judeus sobrevivem sem templos, sem sacerdotes e sem sacrifícios. O que prova que não eram essenciais.
Na época o cristianismo estava ensaiando seus primeiros passos. Alguém dentro da Igreja achou que chegara a hora de ocupar o espaço religioso que o judaísmo deixara vazio. Criou-se a figura do sacerdote em substituição à do presbítero. O bispo tomou o lugar do apóstolo. O profetismo foi esquecido.
A Celebração Eucarística tornou-se o Santo Sacrifício da Missa. O altar voltou ao centro do culto litúrgico. A mesa eucarística serve para separar o espaço reservado ao ministro do altar do espaço em que um leigo pode movimentar-se. Uma igreja-templo era dividida em duas partes: o coro e a nave.
O coro para os cônegos, a nave para o povo. Não demorou e apareceu outra novidade: o trono episcopal. Com ele vieram a mitra, o báculo e o anel.
Roupas especiais foram inventadas para marcar a distinção entre clero e povo.
A cultura religiosa tornou-se privilégio do clero. O conhecimento mais profundo das verdades divinas ficou reservado a clérigos. Ao povo dizia-se o que tinha a fazer. A salvação da alma de um fiel era assegurada pelo cumprimento da lei moral.
A oração vocal e o cumprimento das obrigações, entre as quais a frequência aos sacramentos, compunham o cardápio religioso do povo. Voltou à tona a crença no poder mágico de certas práticas rituais.
Entre o fiel e Deus foram sendo introduzidos sempre mais instrumentos de mediação. O mais destacado foi a figura do sacerdote. Com o correr do tempo o clero tornou-se uma instituição, uma corporação à parte, sem vinculação jurídica com as comunidades de base. Rege-se por conta própria e só deve explicações a Deus e a seus superiores hierárquicos.
O princípio hierárquico passou a vigorar não só na relação entre clero e povo, mas dentro do próprio mundo clerical.
Surgiu a categoria do superior em oposição a dos inferiores, ou súditos. Traçou-se uma linha divisória bem clara entre os que têm poder e os que a ele não têm acesso. A interpretação das verdades da fé e a sua aplicação prática tornou-se monopólio do clero.
O magistério eclesiástico, representado exclusivamente por membros do clero, assumiu a função de árbitro supremo da verdade e do bem.
À consciência individual ficou reservada a tarefa de orientar-se de acordo com o ensinamento do magistério da Igreja.
A experiência pessoal, este campo tão fértil em conhecimentos novos, passou a ser menosprezada e posta sob suspeita de parcialidade. Criou-se uma nova divisão dentro da Igreja: a Igreja oficial e a Igreja particular. A Igreja docente e a discente.
Uma boa árvore é aquela que possui raízes fortes e bem fincadas no solo. Mas isto por si só não basta. Ela será boa se tiver um tronco robusto e sólido. Por último requer-se que possua uma ramagem adequada. O que lhe dá vida e saúde é a seiva que por ela sobe e desce.
Cada parte tem a sua função específica e a desempenha de forma bastante autônoma. Mas nenhuma das partes basta a si mesma. Todas interdependem entre si. Uma árvore, como qualquer planta viva, forma um todo holístico. Tudo o que cada parte faz é direcionado para o bem deste todo. Cada folha, cada célula pensa no Todo e dele tira o sentido último de sua atividade.
O mesmo vale do animal. O bem do corpo todo determina a atividade da cabeça. O fato de abrigar o cérebro não confere à cabeça um status independente ou de ordem superior. Não fossem o pulmão e o coração, o cérebro morreria em poucos minutos. O coração fornece o sangue. O pulmão o oxigênio.
Um organismo social necessita de sangue e oxigênio como qualquer corpo físico mais evoluído. Um organismo vivo não se constrói como se faz um edifício. Planta-se. Depois de plantado, cresce por si. Traz em si as potencialidades todas de crescimento, juntamente com os padrões que lhe são inerentes. Não precisa copiar modelos, pois já os traz em si.
Apliquemos tudo isso à Igreja de Cristo. Ela é uma planta, um organismo vivo e não um edifício ou instituição. É uma entidade viva e como tal sujeita à lei do crescimento. Sujeita ao mesmo tempo à lei da entropia, à lei da degradação. Como todo corpo vivo está sujeito à lei da morte.
Uma árvore sadia desfaz-se continuamente das folhas mais antigas para que novas possam tomar o seu lugar. Um dos maiores problemas da Igreja católica reside na incapacidade de seus dirigentes de desfazer-se de ramos e folhas que a evolução espiritual da humanidade tornou supérfluos e improdutivos. Rebentos novos não conseguem brotar por falta de espaço. A seiva é desviada para setores que na prática só servem para impedir que o passado ceda lugar ao futuro.
4. As Comunidades Eclesiais
Numa planta são as raízes que elaboram a seiva. O tronco a transmite aos ramos. É na copa que crescem os frutos. É o sol que os faz amadurecer.
Aplicando estes princípios de correlação à Igreja, teríamos o seguinte quadro: no alto, expostas à ação direta do Espírito Santo, encontram-se as Comunidades Eclesiais. É em seu seio que floresce a fé cristã. É lá que ela produz frutos. São os frutos que servem de medida de avaliação da fé cristã.
Que frutos são estes? Certamente não é a quantidade de leis e de verdades definidas a que Jesus se refere, quando diz: “É pelos frutos que se conhece a árvore”.
A razão de ser da Igreja-Instituição são as Comunidades Eclesiais, aqueles pequenos núcleos periféricos, quando não esquecidos por seus pastores, aparentemente incapazes de compreender o alcance da sua vocação.
Os pobres e os humildes estão em condições de compreender a sabedoria do Evangelho de Jesus muito melhor do que os ricos e letrados. É a eles que Jesus falou, aos pequeninos, que as elites sociais costumam tratar com mal disfarçado desdém.
Qual é a verdadeira natureza da cúpula hierárquica da Igreja?
É uma superestrutura que se sobrepôs ao corpo eclesial, absorvendo funções que de direito cabem às comunidades. As comunidades locais foram sendo despojadas de grande parte de sua autonomia e deslocadas para um plano inferior.
Agora já não é mais a Igreja que deve servir às comunidades. São estas que devem servir à Igreja. A reta ordem social-eclesial foi invertida.
Dois terços do espaço nobre de um navio de passageiros são reservados a passageiros de primeira classe. Também na Nau de Pedro existem passageiros de primeira classe. A maioria é obrigada a se acomodar no porão do navio.
O Concílio Vaticano I (1869-70) ainda definiu a Igreja (católica, naturalmente) como sociedade perfeita. O Concílio Vaticano II (1962-1965) não teve a coragem de fazer o mesmo.
Nada existe nos Evangelhos que nos autorize a supor que Cristo deixou à Humanidade uma Igreja pronta e acabada. Nem sequer um projeto ou esboço de projeto. Legou à posteridade um espírito, uma intenção e um propósito, juntamente com os meios essenciais de po-los em prática.
Esta função Ele a confiou a seus seguidores. Estes, a exemplo do apóstolo Paulo, foram organizando por toda a extensão do império romano Comunidades de Fé em Cristo.
Estas comunidades ou Igrejas locais não obedeciam sempre a um único modelo sociocultural. Neste terreno a diversidade merecia o mesmo respeito que a preocupação pela unidade. Sem esta diversificação a catolicidade perderia o seu sentido e em seu lugar surgiria o império da uniformidade.
Que haja espaço para Igrejas locais dentro do corpo da Igreja universal, é o que de mais normal se pode esperar de um corpo social sadio e bem organizado.
Temos hoje tantas Igrejas particulares que não é mais possível saber qual delas é verdadeiramente universal. São mais de duzentas e cada uma delas representa um ambiente social e cultural fechado em grau maior ou menor. Em todas elas predominam tanto o individualismo quanto o gregarismo e o espírito de rebanho.
Motivo de escândalo não é a diversidade, mas a divisão que as separa entre si. Diferenças que poderiam ter contribuído para enriquecer a todos, foram transformadas em muros que separam. A comunhão solidária de todos em Cristo Jesus desapareceu e com ela também o ecumenismo perdeu seu poder de aglutinação.
Enquanto o ecumenismo não for mais que um movimento político externo destinado a desativar barreiras de natureza jurídica e teológica, suas chances de sucesso serão sempre precárias.
Enquanto a preocupação pelo retorno à unidade perdida não vier a constituir elemento básico da consciência coletiva de cada comunidade em particular, o esforço dos dirigentes eclesiásticos dificilmente terá alguma chance real de êxito.
No século XV (Concílio de Florença) já se tentou restabelecer a unidade do mundo cristão por decreto. Não deu certo. Como restabelecer por decreto o que foi perdido não por decreto, mas por falta de espírito ecumênico? Toda estreiteza de espírito sempre termina em cisma.
Os culpados não são tanto os que propõem mudanças, quanto os que se opõem sistematicamente a qualquer proposta inovadora. O maior responsável pelo cisma protestante não foi Lutero, mas o papado romano que não soube lidar com o desafio que representavam as teses de Lutero. O que poderia ter sido uma bela oportunidade de renovação, terminou melancolicamente em ruptura e até mesmo em hostilidade entre Igrejas irmãs.
Quando será que vai surgir nova oportunidade de restaurar a unidade da Igreja não mais por meio de arranjos em nível de cúpula? Será que a consciência cristã já atingiu um nível de maturidade coletiva capaz de impulsionar as Igrejas todas em direção a esta unidade?
Esta nova unidade eclesial não pode ser vista como o fruto de uma política de aplastamento. O que se deve ter em vista não é o resultado de um processo de aplainamento ou de eliminação das diferenças próprias de cada Igreja singular. As diferenças estão aí para serem valorizadas. E isto se consegue integrando-as num Todo maior. O ser humano responsável pelas diferenças no campo cultural é o mesmo. O Cristo de todas as Igrejas é o mesmo. Por que separar o que Deus criou unido? Por que negar-se a unir o que no pensamento e nas intenções de Cristo nunca esteve separado?
O cristianismo, e com ele cada Igreja cristã em particular, só terá futuro se encontrar o caminho de retorno à unidade primigênia. Se continuarem separadas como agora, nenhuma delas terá futuro. Isto tem que ser dito não só aos que as dirigem, mas a cada cristão, em particular.
Que tenham um chefe comum aqui na terra, não é importante, já que todas elas têm a Cristo como Cabeça e chefe supremo. Se agirem segundo a lei do amor solidário, cada uma delas pode dispor-se a ceder muito mais e com mais coragem do que de momento se dispõem a fazer.
Pode-se afirmar sem medo de exagero que a unidade das Igrejas é a pedra de toque a partir da qual é lícito medir o grau de catolicidade da Igreja de Cristo.
Todas são imperfeitas, incompletas e falta-lhes muito para merecerem o título honroso de membros vivos do Corpo Místico de Cristo.
Na celebração litúrgica o sacerdote católico reza “pela Igreja santa e pecadora”.
Onde está o pecado e quem o comete? Será que na mente dos pastores há lugar para a convicção de que também um papa pode cometer pecados? Separar as figuras eclesiásticas em duas personalidades, uma humana e outra santa, uma fraca e pecadora e a outra acima de qualquer suspeita moral, é atitude que lembra os fariseus do tempo de Jesus.
Quem sabe, os piores pecados e de consequências mais funestas, quem os comete com maior frequência não são as “ovelhas”, os pobres pecadores de rua, mas altas figuras do clero?
O próprio exercício do poder tende com facilidade a transformar-se em pecado.
O que constitui a essência da Unidade Eclesial é a fé em Cristo e esta se mede tomando como critério os frutos que produz. Os ensinamentos que uma Igreja propõe e seu nível disciplinar, pouco significam. O que vale mesmo é a vontade de união afetiva com Cristo e com seus irmãos na fé.
Por isso se pode afirmar que a essência da Igreja de Cristo é invisível e não cabe em números ou em estatísticas. O aparato exterior pode dar uma forte, porém enganosa impressão de unidade, sem que lhe corresponda no terreno subjetivo, isto é, no interior das consciências, um movimento significativo de aproximação de todos com todos.
Igreja de Cristo é qualquer ambiente ou lugar onde pessoas se reúnem e se encontram como irmãos e filhos do mesmo Deus. Não interessa o rótulo que vier a ser dado a estes encontros. Pouco importa saber qual a Igreja.
O Espírito Santo não depende de nenhuma instituição. Sopra onde quer. E com a força que quer. A renovação da Unidade Eclesial será obra do Espírito Santo. Terá características de restauração. Isto é, de retorno a um modelo original. Pode acontecer com a impetuosidade de um vendaval violento, como no dia de Pentecostes, dia em que a Igreja nasceu para o mundo.
Às mais das vezes a transformação se dará de forma sutil, semelhante ao sopro de uma brisa amena, quase imperceptível.
Mas estes são aspectos que envolvem a ação do Espírito Santo. Nenhuma necessidade há que Lhe lembremos a parte de responsabilidade que Lhe cabe.
Quem precisa ser acordado somos nós, carismáticos ou progressistas, e não o Espírito Santo. Não é batendo palmas e cantando horas a fio que se irá acordar a enorme legião de adormecidos e sonâmbulos, que representam a maioria estatística das Igrejas cristãs, ao que parece.
Por onde iniciar o movimento de renovação da Igreja?
O primeiro passo cada qual que tiver o propósito de dar a sua contribuição a este movimento, terá que dá-lo no interior da sua própria consciência.
O segundo passo é mais problemático e consiste em criar um espaço social adequado à tarefa. Este espaço não existe pronto, deve ser criado.
Boa parte do espaço social já se encontra ocupado e tomado pelas formas tradicionais de prática religiosa. Mas resta ainda muito espaço vago que as religiões oficiais não ocupam.
Onde? No campo político, artístico e científico, por exemplo. Atualmente a melhor filosofia e teologia é feita em laboratórios.
Ecologia e medicina oferecem imensos espaços vazios onde a presença de Deus mal começa a ser sentida.
E as viagens espaciais, campo em que até hoje religião alguma se fez presente, pode constituir o ponto de ruptura entre um tipo de religiosidade provinciana e outro de amplitude cósmica.
Na China comunista o capitalismo começa a ocupar espaços que o sistema socialista em vigor não consegue ocupar com a mesma eficiência. Surgem, dessta forma, “bolhas” e ilhotas capitalistas no seio de um país regido por princípios socialistas. Isso tudo acontece de forma intencional com a aprovação dos senhores do regime vigente.
Algo parecido se pode fazer no campo religioso.
No terreno ocupado por cada Igreja existem interstícios e espaços vazios, terrenos baldios onde a iniciativa particular tem muito mais chances de sair-se bem do que as pesadas máquinas da pastoral oficial.
A fé cristã é essencialmente eclesial e comunitária. É constituída de dois momentos básicos: a adesão a Cristo e a integração voluntária no seio de uma Comunidade Eclesial.
Esta última pode assumir as mais variadas formas de expressão social, desde o econômico, até o místico.
É neste terreno que as oportunidades de desenvolver a criatividade da fé cristã são ilimitadas. E é este o campo em que a iniciativa particular costuma colher resultados muito mais compensadores do que os órgãos das Igrejas oficiais.
Comunidade é um espaço social específico, onde um máximo de liberdade criativa coexiste com um mínimo de restrições. É o espaço social mais fluido e plástico que se possa imaginar. É espaço não padronizado, com o mínimo necessário de regras preestabelecidas. É espaço aberto a mudanças. É espaço dinâmico e ofensivo.
Comunidade é no campo social o que no campo de batalha é uma “cabeça de ponte”.
É espaço dinâmico porque nele tudo se move. Lá a regra não é o respeito pela tradição, pela hierarquia. É democrático.
Lá não se pergunta pelo que deve ser feito, mas pelo que pode ser feito.
Uma comunidade não é minimalista. Seus membros se colocam muito à frente do seu tempo e longe das massas que se contentam com milagres e curas.
Cristo ia à frente dos seus. “Irei adiante”, disse.
Nosso Chefe Divino em nada se parece com o tipo de general que fica na retaguarda do campo de batalha, em seu bem protegido posto de comando.
Quantas comunidades cristãs não são mais que supermercados em que os fiéis consomem o que o pastor produz e oferece!
Uma comunidade é um organismo vivo. Sujeito a ataques de fora. Sujeito à lei da entropia. Passível de ser parasitado. De ser transformado em trampolim político por carreiristas ambiciosos.
São João da Cruz tinha a ambição e o desejo de fazer carreira na conta de inimigos dos mais perigosos da vida monástica.
Não é fácil realizar uma comunidade. A comunidade é instrumento de perfeição. Não é lugar de refúgio próprio para pessoas que têm medo de viver no meio do mundo, lado a lado com pecadores.
Manter viva, atuante e vigilante uma comunidade é tarefa para gênios. Que o digam os pastores de nossas Igrejas!
Até hoje nenhuma tentativa de renovar a Igreja, partindo da cúpula em direção à base, deu certo. Há nas Igrejas excesso de projetos e falta de vontade política e de ação concreta.
A responsabilidade pelo futuro da Igreja de Cristo é igual para todos, já que todos receberam o mesmo batismo. É responsabilidade que um leigo não pode transferir ao representante do clero.
O modo como cada qual a desempenha, é diferente. O campo não é necessariamente o mesmo para todos.
Também nesta área a iniciativa particular oferece melhores chances de êxito do que ruidosos projetos oficiais.
Pe. J. Marcos Bach, SJ – Pentecostes – 2002.
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Fiquei muito contente e agradecida pela publicação deste artigo! Acredito que nos pode ajudar a cultivar uma Igreja mais de acordo com as intenções de Jesus Cristo! Quem está mais com os pés no chão da realidade, certamente são os que convivem de perto com as experiências das pessoas. Os padres casados e suas famílias são privilegiados, pois têm uma formação sólida e grande capacidade de interagir no meio onde vivem e atuam. Podem ser um ótimo fermento na massa e luz para muitos que andam sem rumo nesta época de incertezas. SER CRISTÃO É TER UMA FÉ PROFUNDA EM JESUS CRISTO E SER PARTICIPANTE DINÂMICO E ATIVO NUMA COMUNIDADE ECLESIAL! PARABÉNS, PADRES CASADOS, QUE TORNAM A IGREJA MAIS PRESENTE E CONCRETA! COM O PAPA FRANCISCO CERTAMENTE HAVERÁ MAIS VALORIZAÇÃO DAS PESSOAS QUE ATUAM NA GRANDE FAMÍLIA CRISTÃ, SEJAM HOMENS OU MULHERES, CELIBATÁRIOS OU CASADOS…