
Anselmo Borges – 27 Março 2021 – Foto: Reprodução
Tudo indica que o número de católicos e dos que se confessam cristãos vá diminuindo na Europa em geral e é, de facto, notória a exculturação do cristianismo…
- Pergunta-se: o que se passou para que o jesuíta Victor Codina tenha podido escrever, num estudo sobre Ser Cristiano en Europa?, que estamos a assistir a um colapso do cristianismo na Europa?
Realmente, os dados são preocupantes. Exemplos:
- na Espanha, o número de agnósticos e ateus supera o dos católicos praticantes.
- Na França, a maior parte da população já não é católica.
- Na República Checa, mais de 60% declaram-se ateus.
- Nos Países Baixos, na Noruega, na Suécia…, o número dos que se declaram sem religião ronda os 50% da população.
E tudo indica que o número de católicos e dos que se confessam cristãos vá diminuindo na Europa em geral e é, de facto, notória a exculturação do cristianismo…
Quanto à juventude, os números são alarmantes:
“uma grande parte vive à margem da Igreja, que, para ela, se converteu numa pequena e estranha seita”.
A situação reflecte-se
- na queda vertiginosa das vocações, com seminários vazios, muitas paróquias — o seu número aumentará sempre — não têm padre.
- E não é só “um inverno eclesial europeu”, assistimos também a um exílio de Deus…
Procurando causas.
Quanto à Igreja-instituição,
- temos o impacto brutal dos escândalos clamorosos da pedofilia,
- bem como dos escândalos económico-financeiros e da corrupção no Vaticano.
E, quando olhamos para as estruturas eclesiásticas, é inevitável a pergunta: onde está a simplicidade e a fraternidade exigidas pelo estilo do Evangelho?
Acrescente-se
- o patriarcalismo,
- a exclusão das mulheres,
- o clericalismo, que é uma verdadeira “peste da Igreja”,
como repete o Papa Francisco, implicando uma “estrutura perversa”, segundo G. Schickendanz.
- Há “um desfasamento teológico e cultural da doutrina e dos dogmas”,
- cujas formulações se devem à cultura helénica, longe da mentalidade moderna e pós-moderna.
Acrescente-se
- “uma moral legalista e casuística, proveniente de
- uma antropologia dualista, pré-moderna,
- pouco personalista,
- muito centrada no sexo, que utiliza a pastoral do pecado e do medo do castigo para manter o povo cativo da Igreja.”
Uma liturgia
- hierática,
- ritualista,
- ininteligível para a maioria dos fiéis,
- pouco ou nada participada.
Para muitos
- o cristianismo e a Igreja constituem “um déjà vu”, algo ultrapassado e em desuso;
- pior: para alguns, a Igreja é a personificação do pior da nossa cultura:
- “repressão, ânsia de poder, inquisição, censura, machismo, moralismo, ódio à vida, sentido de culpa e de pecado”.
Mais preocupante é que Deus se tornou longínquo, um estranho, “um Deus no exílio”, na expressão de L. Duch.
- No mundo da tecnociência, do consumo, do conforto, do hedonismo, do ter, do parecer e do aparecer, à volta de um “eu” desvinculado de toda a norma,
- entrou-se num imanentismo fechado, mais a-religioso do que anti-religioso, mas sem horizontes de transcendência:
- não interessa “o que vai para lá da vida quotidiana, do trabalho, do dinheiro, da comida, da saúde, do consumo, do sexo, do bem-estar e da segurança de uma velhice tranquila”.
A vida é para gozar no sentido mais imediato do termo, na busca de uma juventude perene…
A pergunta é: E quando toda esta lógica é barrada, posta em causa? Isso constata-se agora, no meio desta catástrofe trágica da pandemia. De repente, um vírus invisível que invadiu o mundo todo, apoderando-se da Humanidade, veio travar e pôr em causa estes ideais.
O mal-estar é deprimente, e a esperança está em que,
- depois de um interregno, a que uma vacina ponha termo, se volte à “normalidade”,
- isto é, ao ponto onde fomos apanhados,
- para podermos avançar outra vez na lógica na qual se vivia.
Ainda se não pensou profundamente sobre a impossibilidade deste raciocínio e seus pressupostos.
De facto, já não se pode ignorar que o modelo anterior está posto radicalmente em causa.
Porque é preciso entender
- que não é possível continuar o modelo tecnocrático de desenvolvimento ilimitado,
- que somos globalmente interdependentes,
- que o progresso tem de ter em conta as alterações climáticas, a biodiversidade,
- e avançar, portanto, segundo um modelo coerente com a urgência de “uma ecologia integral”,
- para utilizar a expressão feliz do Papa Francisco: o grito da Terra e o grito dos pobres, clamando por uma humanidade justa.
- Mas também pode acontecer que as pessoas,
- confrontadas com o abismo da existência, com a morte,
- parem e reflictam, indo ao encontro do essencial, das perguntas últimas, do Mistério vivo e acolhedor.
Vêm-me à memória palavras luminosas do grande Václav Havel, que constatou:
“Estamos a viver na primeira civilização global”. Acrescentou: “Mas também vivemos na primeira civilização ateia, isto é, numa civilização que perdeu a ligação com o infinito e a eternidade.”
As consequências disso:
- “uma civilização obstinada em perseguir objectivos a curto prazo”,
- “o que é importante é que um investimento seja rentável em 10 ou 15 anos”
- e não os efeitos dentro de 100 anos.
- Depois, “o orgulho”, a hybris dos gregos.
Por isso, suspeitava que “a nossa civilização caminha para a catástrofe”, a não ser que cure
“a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho”.
Achava que
“o desenvolvimento desenfreado de uma civilização deliberadamente ateia deve alarmar-nos”.
Considerava-se apenas meio crente, mas com “a certeza de que no mundo não é tudo apenas efeito do acaso”
e convencido de que
- “há um ser, uma força velada por um manto de mistério.
- E é o mistério que me fascina”.
- “A transcendência é a única alternativa à extinção.”
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/fim-do-cristianismo-na-europa-2-13396200.html

Uma resposta
A grande inversão missionária entre europa e novo mundo continua a acontecer. O “fidei donum” agora é daqui para lá. Porém, os desafios do novos missionários é maior dada a complexa situação atual de um mundo em estado de “civilização global”, de busca do imediato em confronto com a ideia da busca “do infinito e da eternidade” da proposta religiosa. Esses novos missionários necessitam ter uma base espiritual mais profunda para convencer pelo testemunho a uma messe cada vez mais indiferente à religião.