Dizia-me há dias um colega historiador que a lei do celibato obrigatório para os padres fez mais mal à Igreja e aos homens e mulheres do que bem.E eu estou com ele.
Jesus foi celibatário como também São Paulo. Mas foram-no por opção livre, para entregar-se inteiramente a uma causa, a causa de Deus, que é a causa dos seres humanos na dignidade livre e na liberdade com dignidade. Mas nem Jesus nem Paulo exigiram o celibato a ninguém. Jesus disse expressamente que alguns eram celibatários livremente por causa do Reino de Deus. E São Paulo escreveu na Primeira Carta aos Coríntios que permanecer celibatário é um carisma, e, por isso, “para evitar o perigo da imoralidade, cada homem tenha a sua mulher e cada mulher, o seu marido”. Há a certeza de que pelo menos alguns apóstolos eram casados, incluindo São Pedro. Na Primeira Carta a Timóteo, lê-se: “O bispo deve ser um homem de uma só mulher”.
Foi lentamente que a lei do celibato se foi impondo na Igreja Católica, embora com exceções: pense-se, por exemplo, nas Igrejas orientais ou nos anglicanos unidos a Roma.
Na base do celibato como lei, há razões de vária ordem: imitar os monges e o seu voto de castidade, manter os padres e os bispos livres para o ministério, não dispersar os bens eclesiásticos, evitar o nepotismo… A concepção sacrificial da Eucaristia foi determinante, pois o sacrifício implica o sacerdote e a pureza ritual. Assim, o bispo de Roma Sirício (384-399) escreveu: “Todos nós, padres e levitas, estamos obrigados por uma lei irrevogável a viver a castidade do corpo e da alma para agradarmos a Deus diariamente no sacrifício litúrgico”.
Neste movimento, a Igreja foi-se tornando cada vez mais rigorosa, tendo papel decisivo o Papa Gregório VII (1073-1085), com o seu modelo centralista: da reforma com o seu nome – reforma gregoriana – fez parte a obrigação de padres e bispos se separarem das respectivas mulheres e a admissão à ordenação sacerdotal apenas de candidatos celibatários. Foi o II Concílio de Latrão (1139) que decretou a lei do celibato, proibindo os fiéis de frequentarem missas celebradas por padres com mulher.
A distância entre a lei e o seu cumprimento obrigou a constantes admoestações e penas para os prevaricadores, como se pode constatar no decreto do Concílio de Basileia (1431-1437) sobre o concubinato dos padres. Lutero ergueu-se contra a lei, respondendo-lhe o Concílio de Trento. “É anátema quem afirmar que os membros do clero, investidos em ordens sacras, poderão contrair matimônio”. Os escândalos sucederam-se, mesmo entre Papas: Pio IV, por exemplo, que reforçou a lei, teve três filhos. O famoso exegeta Herbert Haag fez notar que a contradição entre teoria e prática ficou eloquentemente demonstrada durante o Concílio de Constança: os seus participantes tiveram à disposição centenas de prostitutas registradas.
Os escândalos de pedofilia por parte do clero fizeram com que o debate, proibido durante o Concílio Vaticano II e ainda, em parte, tabu, regressasse. Se não é correto apresentar o celibato como a causa da pedofilia – pense-se em tantos casados pedófilos, concretamente no seio das famílias – também é verdade que a lei do celibato enquanto tal não é a melhor ajuda para uma sexualidade sã. Muitos perguntam, com razão, se uma relação tensa com a sexualidade por parte da Igreja não terá aqui uma das suas principais explicações.
Seja como for, o celibato obrigatório não vem de Jesus, é uma lei dos homens, e, como disseram os apóstolos: “Importa mais obedecer a Deus do que aos homens”. E os bispos e o Papa são homens.
É contraditório afirmar o celibato como um carisma e, depois, impô-lo como lei. Por isso, muitas vozes autorizadas na Igreja pedem uma reflexão séria sobre o tema. Há muito que o cardeal Carlo Martini faz apelos nesse sentido. Agora, junta-se-lhe o cardeal Ch. Schönborn, de Viena. O bispo auxiliar de Hamburgo, J.-J. Jaschke, sem pôr em causa o celibato livre, afirmou que “a Igreja Católica se enriqueceria com a experiência de padres casados”.
Anselmo Borges, padre e professor de Filosofia
FONTE: Revista MÍRIAM, maio, 2010.
Respostas de 5
excelente artigo, pena que os “grandes” da igreja que detêm o poder ecleseastico não querem entender.
Achei muito interessante este artigo… Uma vez perguntado ao Padre da Paróquia que frequento, sobre o celibato, ele me disse que era imposto, pois por exemplo como que um padre poderia se dedicar por completo para a Igreja se ele tivesse família…. Ele me mostrou um exemplo: que durante uma missa ou um dia de confissão por exemplo recebesse a notícia que seu filho ou esposa ficou doente e precisa ser levada/o para um hospital como ele procederia? E se pior ficasse por um período enferma/o ele se dedicaria por completo durante uma celebração? Ele me disse que não saberia lidar com isso….
Parabéns pela explicação do celibato.
Sempre achei que essa imposição do celibato não é justa. Sabemos que Deus quer muito mais de seus filhos. Quem já assistiu à pregação de um padre casado quando fala dos conceitos familiares percebe a diferença da pregação de um padre que não é casado. O casado fala com a alma, ele conhece a causa. O não casado é superficial, e o que é pior, demonstra frustração. É perceptível o desejo de família.
Deus há de colocar na cabeça de um Papa que o casamento para o padre, como homem, religioso e preservador dos conceitos de paz familiar, é fundamental que o padre se case. Até para dar exemplo de família harmoniosa, religiosa, que vive nos conceitos de Deus.
Parabéns à essa comunidade de padres casados.
Deus os abençoem!!!
Graça Martins
Ilustres irmãos, Saudações no Senhor !
Congratulo-me com vossa coragem e determinação em fazerem-se ouvir, temos mesmo que continuar “tocando a trombeta”.
Mas afirmo e reafirmo: a continuar neste nível de envio de cartas, e-mails ou de escrita de livros, penso que não lograremos êxito.
Todos nós sabemos a profundidade,a extensão e a força dos préconceitos da Cúria, cimentados em formas de leis, disciplinas e até, dogmas. É como que uma “cortina de ferro”, onde a palavra de Deus nao conseguiu ainda penetrar.
Todos nós sabemos que os ministros da Cúria e demais cardeais, nunca jamais, irão tornar o celibato voluntário e admitir padres casados, por uma iniciativa própria e voluntária. Para eles isto seria destruir a tradição (e muito mais). Estão a viver uma religiosidade cristã que disto não passa: mera religiosidade, tal como viviam os santos que escolheram Barrabás e pediram que fosse crussificado o Cristo.
A Mudança só acontecerá, quando todos nós que advogamos a causa do celibato voluntário/opcional, conseguirmos fazer nosso movimento público e notório, nas praças, nas ruas, na mídia em geral. Quando alguns de nós tivermos a coragem de por exemplo, formamos um grupo de 2000 padres casados, com suas esposas e filhos, fizermos vigílias e até jejuns na praça de S. Pedro em Roma, e só sairmos de lá quando a cúria decidir, pelo menos debater o tema num concílio mundial.
Vamos à luta !
Campos de Sousa
Estimados em Cristo, Saudações em nosso Senhor!
Sou favorável ao fim do celibato, não por ouvir esse ou aquele, mas por experimentar um casamento e me entender melhor com a Vontade Providencial de Deus.
Penso, e todos podem ver claramente em outros seguimento religioso a veemência desse fato; o casamento é por natureza da criação, graça do Criador, uma Benção: – Crescei, multiplicai e dominai.
_ Crescer no sentido de unir mente e corpo, aperfeiçoamento da virilidade. O impedimento com “espada de fogo” de Adão/Eva pós Queda.
_ Multiplicar em termos de estabelecer uma ação interativa com Deus centrado na força do Amor Verdadeiro, transformando-se em Sua imagem e semelhança. Adão/Eva pós Queda, realizaram centralizados em satanás (…raça de víbora, filhos do inferno…)
_ Dominai com Amor Verdadeiro, toda a criação. Ação que não procede com os homens dito modernos. o planeta transformado em campo de batalha, reage com fúria e violentamente.
Sendo assim, creio na legitimidade do MPC e seus associados, contudo é saudável um procedimento em que se observe as partes e seus posicionamento e a legislação e legitimidade dessas normas. Lembrar, que Jesus argüido, responde: – a Cesar o que é de Cesar, a Deus o que é de Deus. A Instituição Igreja é estabelecimento humano. Dai que vale laborar razões mais consistentes pra sair do âmbito das acusações.
Atenciosamente
Jorge