Desde 1975, o arquipélago do Pacífico disseca sem tabus o seu passado colonial e tenta reparar os danos culturais e econômicos causados à população Maori.

Por Ulysse Bellier – 02 de agosto 20
Cento e cinquenta anos atrás, era estritamente proibido ensinar a língua Maori nas escolas da Nova Zelândia; hoje, o reo Maori é a segunda língua oficial do país, está estampado nas fachadas dos órgãos administrativos e tornou-se um motivo de orgulho nacional .
Na Nova Zelândia, a cultura Maori já percorreu um longo caminho; sufocada por mais de um século de hegemonia britânica estabelecida pelo Tratado de Waitangi em 1840, foi só no final do século XX, que ela conseguiu retomar o seu lugar no país, sem violência nem luta.
O processo em curso na Nova Zelândia permitiu uma saída de um passado conturbado
Esta importante decisão é o resultado do trabalho de uma comissão permanente de inquérito aberta em 1975, o tribunal de Waitangi.
- Graças a essa revisão da narrativa nacional,
- o país tem se afirmado como verdadeiramente bi-cultural;
- numa época em que o passado colonial ou a escravidão questiona e abala muitos países ocidentais,
- o processo em curso há quarenta e cinco anos na Nova Zelândia permitiu uma saída de um passado conturbado.
Isto começou em 1840, quando, apenas instalados neste arquipélago do Pacífico,
- colonos britânicos enviados por Londres
- assinaram com quinhentos chefes maoris o texto fundador do país: o Tratado de Waitangi.
Embora a sua interpretação seja objeto de muita controvérsia,
- o acordo estabelece, em termos gerais, uma autoridade britânica,
- obrigada a proteger os poderes e tradições indígenas.
- Um texto simbólico, que impedirá os maoris do quase genocídio de outros povos indígenas (como os aborígenes da Austrália),
- mas não impedirá a dominação colonial.

Inspeção das tropas Maori, Inglaterra, 12 de dezembro de 1940 / AP
Uma história “que faz parte do cenário”
A partir da década de 1960, após duas guerras mundiais das quais participaram, os Maoris
“começaram a reivindicar a sua cultura, a sua língua e a sua terra, e isso teve o efeito de uma bola de neve num contexto mundial do despertar das identidades indígenas”,
diz Francine Tolron, uma das poucas especialistas francesas da Nova Zelândia, professora universitária aposentada.
Graças a essas reivindicações cada vez mais fortes e a uma marcha histórica sobre a capital, Wellington, o governo trabalhista decidiu criar o Tribunal Waitangi.
O seu objetivo:
- apurar as violações, por parte do Estado,
- das promessas do Tratado de Waitangi, desde sua assinatura em 1840.
- Uma forma de imprescritibilidade dos fatos, como os crimes contra a humanidade no direito francês.
«O sistema poolíticoneo-zelandês sustententou fortemente esta mudanças, segundo Michael Belgrave
Começa então um longo processo:
- queixas apresentadas – somente pelos Maoris –
- investigações históricas documentadas, precisas,
- que conduzem, após anos, a recomendações de ações concretas a serem tomadas pelo governo.
Este então assume e negocia com as tribos
- devoluções de terras,
- compensações,
- mudanças legislativas.
“O sistema político neo-zelandês apoiou amplamente essa mudança”, conservadores e trabalhistas, observa Michael Belgrave, historiador da Universidade Massey na Nova Zelândia e ex-perito do tribunal.
No entanto, o trabalho de uma nação sobre si mesma não foi coisa fácil. Durante esses anos, “os neozelandeses reconheceram a sua culpa, lembra Francine Tolron.
- Vivenciei esse período, nos anos 1990, em que havia uma culpabilidade geral parte dos Pakeha [os não-maoris],
- que tomaram consciência, graças a vários grandes historiadores, dos horrores cometidos durante a colonização” .

A Rainha da Inglaterra, Elizabeth II, e o Duque de Edimburgo chegam a Waitangi em 6 de fevereiro de 1990 para celebrar o 150º aniversário do Tratado de Waitangi. Atrás deles, os Maoris manifestam. STEPHEN HOLLAND / AP
Agora, “para a maioria dos neozelandeses, [essa história] faz parte do cenário”, diz Michael Belgrave.
O trabalho do tribunal
- oi o motor de um renascimento da cultura Maori, agora omnipresente no país,
- mas o modelo nunca foi realmente exportado para além das fronteiras, como lamenta Francine Tolron:
“Os neozelandeses são muito narcisistas, muito insulares. Este país é ponta de lança nessas questões, mas não divulga suas ações, é uma pena”.
Dois bilhões de dólares transferidos
Em outras colônias britânicas, alguns grupos realizaram um trabalho semelhante.
A Comissão da verdade e da reconciliação, criada por Nelson Mandela em 1995 na África do Sul, “tinha raiz nesta iniciativa”, observa Francine Tolron, autora de L’Idée de réconciliation dans les sociétés multiculturelles du Commonwealth [A Ideia de reconciliação nas sociedades multiculturais da Comunidade das Nações] ( Armand Colin, 2002).
Para ela, é evidente:
- seria benéfico inspirar-se na Nova Zelândia
- “onde quer que haja necessidade de pôr a nu as chagas do passado”,
- inclusive na França.
O processo não terminou com desculpas ou atos simbólicos
- “Houve coisas semelhantes nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, mas em competências restritas.
- Nenhuma teve a importância do tribunal, sublinha por sua vez Michael Belgrave.
- Ele foi portanto também muito mais eficaz”
Ainda mais porque o processo não ficou só em desculpas ou em atos simbólicos.
“Em cerca de trinta anos, algo em torno de 2 bilhões de dólares [1,1 bilhão de euros hoje] foram transferidos”, continua o historiador.
Ao sul de Auckland, a maior cidade do país,
- as grandes planícies do Waikato foram devolvidas às tribos locais, mais de cem anos depois de terem sido espoliadas,
- e a universidade implantada no local tornou-se locatária.
- Como resultado de outro relatório, os Maori conseguiram tomar o controle de cerca de um terço da indústria pesqueira.
Apesar de todas estas ações,
- os Maoris da Nova Zelândia, que hoje constituem uma parcela crescente da população (16,5% em 2018), continuam à margem da sociedade:
- eles são mais pobres, têm saúde pior, são menos graduados.
“A mudança [introduzida pelo tribunal] foi positiva, elogia Michael Belgrave. Mas enquanto não virmos uma mudança significativa na situação econômica e social dos Maoris, não temos motivo para nos felicitarmos. Ainda há muito a fazer”.

.