Carta longa, mas que vale a pena …
Durante semanas, desde o início de 2013, temos sido inundados por extraordinárias novidades eclesiais:
– O conclave de fevereiro chamou alguém lá dos confins da terra. E a nossa Igreja se viu, empurrada pelo Espírito, a considerar-se a si mesma localizada, pela primeira vez, fora da Europa e do Mediterrâneo.
– Os “200 anos de atraso” denunciada pelo Cardeal Martini, pesaram na consciência do último conclave?
TER PRESENTE QUE:
-Os conservadores foram pegados de surpresa e ainda não tiveram suficiente para se articular e lutar de uma forma mais sistemática e eficaz. No entanto, não se deve subestimar que a maioria do episcopado foi cuidadosamente escolhida por João Paulo II e Bento XVI.
O MINI- MAGISTÉRIO DO PAPA FRANCISCO.
É verdade que se sente um ar muito semelhante ao tempo do Concílio. De repente, o mundo inteiro, como nunca tinha sido possível nas últimas décadas, sentiu irromper uma abundância de gestos e mensagens surpreendentes, provenientes da autoridade suprema da Igreja. Estamos diante de um mini-magistério papal que orienta o futuro próximo da Igreja. Resumimos em dez pontos:
1. VOLTAR ÀS FONTES : “EU FUI ESCOLHIDO BISPO DE ROMA”.
Desde o primeiríssimo momento em que o novo Papa se apresentou na Sacada de São Pedro, se auto-identificou como o bispo de Roma. Coerência teológica e pastoral. Ele é o “Primus inter pares” (primeiro entre iguais). É ele que também recebe o ministério de Pedro, de confirmar os seus irmãos e irmãs. A identidade papal se revela de corpo inteiro. O mito de um poder sobre todos, se apresenta como um servidor – o primeiro entre iguais – com a responsabilidade de a todos confirmar na fé e continuar a missão de Jesus. Ganha força a Igreja local. Surgem oportunidades privilegiadas para o ecumenismo entre “iguais”, com a ajuda do irmão, que é Bispo de Roma.
ENTÃO: O futuro pede uma leitura inteligente, comunitária e criativa do que estão dizendo os sinais dos tempos, e, ao mesmo tempo, uma constante retomada de nossas fontes bíblicas, místicas e missionárias, a partir de uma visão menos europeia e mais universal. A Igreja na América Latina, por exemplo, precisa de integrar em sua caminhada atual “o que os seus antepassados lhe legaram” desde Bartolomé de las Casas, Pablo de la Torre, Diego de Medellín, Nóbrega, Anchieta, Helder, Romero, Luciano Mendes, os índios e escravos …, as mulheres anônimas …
Nesse processo, as Igrejas locais não são secundárias, ou sucursais de Roma. Em cada uma delas acontece a totalidade da una, santa, católica e apostólica comunidade de Jesus. O que é alcançado em uma delas é patrimônio comum, em razão da comunhão radical que há entre todas elas. As diferenças não são ameaças, mas graças. Neste sentido, Ásia, Oceania, África, América Latina não são apêndices, mas o corpo da Igreja, juntamente com a Europa. Nem mais, nem menos.
3. A IGREJA LOCAL É A PROTAGONISTA
O ministro, mesmo quando Papa, continua a ser mais importante que o povo de Deus. Negando o que Lumen Gentium diz no capítulo II.
Os bispos do Brasil estão discutindo sobre a paróquia, comunidade de comunidades. Mas as comunidades têm ainda de ser criadas. Não se trata de reunir todas as experiências de grupos existentes e lhes dar o nome da comunidade, mantendo as estruturas paroquiais de sempre.
As igrejas locais devem decidir sobre suas teologias e liturgias com a liberdade de acolher o que as outras experiências ao longo dos séculos conseguiram interpretar e comunicar. Todo nominalismo é desastroso. Sem igrejas menores na base, a paróquia nunca vai ser uma instância de articulação, inspiração e pastoral de conjunto.
4. VISÃO UNIVERSAL E AÇÃO COLEGIADA LOCAL.
Jesus, neste momento, nos deu um novo pastor. Com ele, houve uma sintonia global com essa figura branca de uma pessoa humilde, acolhedora e simples. Não foi a majestade, a manifestação de seu poder, a inteligência, a pompa que conquistou a gente. Rapidamente ele se tornou um ícone de um modelo de igreja que oferece sintonia única com o Jesus que a gente amou, escutou, sentiu, às margens do Mar da Galileia, pelos caminhos da sua terra, trazendo esperança para os mais necessitados, orientando os que buscavam os caminhos de Deus.
Muitos se perguntavam se, através de Bergoglio, também a contribuição da Igreja na América Latina chegava a todo o mundo.
ENTÃO:
Estamos com o dom de um pastor, simples, amável, nobre e com personalidade forte. Ele nos vem presenteando com gestos acompanhado também por palavras, poucas, mas centrais: misericórdia, perdão, alegria, ir àté às pessoas, caminhar, edificar, confessar, cheiro de povo, discernir, criar, nada de “carreirismo” ou pompas, e mostrando que poder é serviço … Se repete o que já se costuma repetir: “Gente simples, em lugares pouco importantes, continuam a causar grandes mudanças” (Provérbio Africano). Mas o importante agora é que os colegas e pastores do baixo clero também sigam seus exemplos no seu espaço local, coerentes com a visão papal que está a ser compartilhada com eles.
5. O NOME QUE É UMA BANDEIRA
Se dar o nome de Francisco é fazer uma declaração de intenções e um programa de vida. É não só deixar os sapatos vermelhos, mas caminhar descalço. Fazer-se povo, “um de nós”, como dizia a gente praça de S. Pedro depois de se encontrar com o pontífice recém-eleito. “Ele vai reconstruir a Igreja”, como aconteceu com São Damião, em Assis.É urgente relançar o VATICANO II. O que se vislumbrou:
– uma Igreja samaritana, pobre e servidora dos mais necessitados, chegando aos últimos. Com a simplicidade, pobreza e coerência evangélica dos líderes e dos ministros. Comunidade que não se encerre em seus edifícios e estruturas (ou “fique doente”, segundo o Papa Francisco, no discurso de Quinta-feira Santa de 2013). Pastores da Igreja, que “têm o cheiro de povo”, por estarem com ele (idem)
– a pequena Igreja (LG 26), não ao lado dos movimentos, mas como primeira instância eclesial (Med 15,10). Na base da vida, onde os batizados são sujeitos e não meros membros passivos. Fermentos missionários da Boa Nova de Jesus.
– Comunidades presentes onde o Concílio não pôde chegar.
– A mulher com um protagonismo real e eficaz, presente nos ministérios.
– Uma igreja com um coração jovem acolhendo as multidões das novas gerações que já não se sentem saciadas com a mediocridade do consumismo, a vulgaridade sexo irresponsável e sem amor.
6. AS PESSOAS, NÃO O EDIFÍCIO
A paróquia atual tornou-se uma meta de chegada, quando deveria ser ponto de partida. Sofre da síndrome do gueto.
A itinerância da Igreja não pode acontecer se as estruturas eclesiásticas são tão complexas e pesadas que se torna impossível se mover. As superficiais reformas paroquiais estão traindo as esperanças de uma Igreja missionária. Ao mesmo tempo, se está perdendo a oportunidade histórica de apoiar a proposta das CEBs.
7. A GRAÇA SILENCIOSA
Esta fé do povo, que não se separa de gestos de gratuidade e de profunda caridade silenciosa, humilde, perseverante, não depende da presença dos ministros ordenados. Vem sendo passada de geração em geração.
8. MÉTODO: O POVO QUE FAZ TEOLOGIA.
O Concílio de Niceia I, nos apresenta o mistério de Deus e de Cristo, mas na língua grega. O que mais temos entendido do Deus Inesgotável, ao longo dos últimos 1.700 anos? Isso é o que diria o Concílio Niceia III.
O Vaticano III teria que pegar o que foi plantado pelo Concílio Vaticano II, e começou a se desenvolver ao longo dos últimos 50 anos (Reino de Deus, povo de Deus, Colegiado, Igreja no mundo, teologia das realidades terrenas, liberdade de consciência, ecumenismo, diálogo com as religiões, etc.) e os novos desafios da história da humanidade.
10. O QUE SE ESTÁ PEDINDO DE NÓS A PARTIR DO COMEÇO DO NOVO PONTIFICADO:
O método não tem por objetivo conquistar, dar mais poder ou o monopólio à Igreja Católica.
Estamos em Tempo de salvação.
Autor: Pe. José Marins
Tradução: João Tavares
Partilhada por : Pe. Arnaldo Zenteno, S.J.Sábado, 20 de abril de 2013
Fonte: http://grupobasesfys.blogspot.com/2013/04/arnaldo-zenteno-sj-comparte-una-carta.html


Respostas de 5
João, obrigada por ter traduzido este texto. Muito bom. Espero que todos os visitantes do nosso site vão ler.
Temos os temas, agora é fazer a lição de casa! Esperamos muito tempo para poder seguir com mais afinco os rumos que o Concílio Vat.II aponta. Mas chegou o momento! Agora é arregaçar as mangas, colocar o cérebro e o coração a funcionar para o povo poder participar! Igreja não pode ser feita PARA, mas COM. Em Assembleia e em Comunidade. Em PALAVRA e em COMUNHÃO!
Somente um comentário sobre comunidades e paróquias, tendo em conta o que aconteceu há alguns dias, em um encontro nosso aqui na Prelazia de são Félix do Araguaia, chamado Bolão.
Temos um bispo novo, que tem se mostrado muito simples e pastoralista.
Em nossos encontros sempre há certa “tensão” entre os velhos agentes e novos agentes.
Alguns novos (principalmente padres, não todos!) afirmam que estamos no “passado” ao defender uma igreja dos pobres e em comunidades.
Até pouco tempo, nem havia o termo paróquia por aqui, somente comunidade.
Agora, diz se que, por questão jurídica, a paróquia surge, mas a comunidade permanece.
No entanto, alguns no Bolão de certa forma afirmam a todo custo o “primado” da paróquia, de certa forma “subjugando” as comunidades.
Bispo Pedro, ouvindo as manifestações, velhinho, em seu Parkinson, me cutucou e me puxou para sentar a seu lado, em um intervalo, dizendo: centralização nas paróquias, é eliminar as experiências das CEBs. Aqui, grupos de rua, novenas, são manifestações das comunidades, paroquialização elimina o espírito das CEBs.
Eis o desafio do novo bispo, animar o espírito de comunidades, de rede, lidar com essas tensões, entre as diferenças nas visões de Igreja.
Vamos ver no que vai dar!
Luís Claudio – Agente Pastoral / CPT Araguaia
Luís Cláudio,
você pôs o dedo na ferida:
“Alguns novos (principalmente padres, não todos!) afirmam que estamos no “passado” ao defender uma igreja dos pobres e em comunidades”.
João Paulo II e Bento XVI quiseram acabar com a Teologia da Libertação e com seu melhor fruto prático, as Comunidades Eclesiais de Base.
Não convinha a Roma, no seu CENTRALISMO exasperado e exasperante, uma Teologia não europeia (melhor, italiana/romana) nem uma pastoral onde se desse importância ao POVO, estudando a bíblia e, com a bíblia na mão e os olhos na sua realidade sofrida e injustiçada, se interrogando: “o que Jesus faria nestas circunstâncias, aqui e agora?”.
Essa tomada de consciência do Povo de Deus explorado, apavorou o presidente Reagan nos USA e João Paulo II no Vaticano.
Então se uniram para acabar com a Teologia da Libertação e as CEBs, acusando-as de marxistas. Calaram ou perseguiram a maioria dos teólogos da Libertação, escolheram bispos, a dedo, para acabar com essa Primavera pastoral latino-americana e, extremamente obedientes a Roma, fecharam seminários abertos e avançados e deram ordens para voltar a uma formação antiga, longe da Eclesiologia do Vaticano II e das melhores intuições do Concílio.
Quiseram voltar para o Vaticano I e para Trento. E quase conseguiam.
Daí a afirmação forte do Pe. Marins, no artigo acima:
“Temos um Papa maravilhoso, que nos inspira e nos ama e um conjunto eclesial, muitas vezes medíocre em seu clero, em seus seminaristas..”
E:
“Os bispos do Brasil estão discutindo sobre a paróquia, comunidade de comunidades. Mas as comunidades têm ainda de ser criadas.” Nesse ponto, vossa Prelazia foi e é pioneira.
Em muitas dioceses nunca se fez nada de CEBs. Era e ainda é, palavra feia, coisa de comunista.
Parece que agora, com papa Francisco as coisa começam a mudar.
E daqui a pouco, muitos desses bispos e padres novos, carreiristas por opção, vão se apresentar como paladinos da renovação de Francisco. Espertos, captam rápido para onde o vento sopra…
A não ser que alguém bloquei Francisco em Roma…
Muito obrigado. Gostei desta leitura neste momento histórico com os dez pontos. Como podemos apoiar os primeiros passos do Bispo de Roma Francisco e ajudá-lo depois nos prossimos passos mais difíceis, polémicos , mas muito importamtes?