“A insatisfação atingiu o núcleo, incluso as camadas mais leais que vão à igreja todos os domingos”, diz, numa entrevista à EFE, Helmut Schüller, porta-voz do grupo de padres austríacos que, em 2011, se rebelou contra o Vaticano e começou uma movimento a que já se juntaram 3.500 párocos na Europa e nos EUA.
A chamada “Iniciativa de Párocos”, publicou em junho de 2011 um manifesto em que “perante a recusa de Roma a uma reforma há muito tempo necessária”, se declarava obrigada a seguir sua própria consciência e a agir de forma independente dos ditames do Vaticano.
Apoiar a ordenação de mulheres e casados, dar a comunhão a todos os “fiéis de boa vontade”, mesmo divorciados, e permitir que os leigos também preguem a palavra de Deus, são algumas das “desobediência” a que se comprometeu um grupo de padres que hoje já soma 430, 14 por cento do total da Áustria
O apoio de cerca de 1.000 padres na Irlanda e EUA, cerca de 700 na Alemanha, mais de 540, na Suíça, e os contatos com a América Latina, especialmente com o Brasil, e com a África, tem feito destes desobedientes a principal ameaça à hierarquia do Vaticano.
O pároco Schüller, cuja rebelião foi punida com a retirada do título de “monsenhor” está esperançoso de que a eleição de Francisco suponha o início da abertura da Igreja, mas advertindo que há forças, liderada pelo Opus Dei, que não vão fazer a vida fácil.
Apesar de reconhecer que ainda não está claro se o Papa quer iniciar estas reformas, Shüller, que foi, nos anos 90, diretor da Cáritas da Áustria, considera que Jorge Mario Bergoglio “se impôs uma grande pressão sobre as expectativas.”
“Estamos com interesse, não queremos ser rudemente impacientes, mas logo tem que haver sinais”, confidencia Schüller, pois, caso contrário, pode haver um efeito negativo.
“Se essa esperança for decepcionado, duas coisas vão acontecer: muitos se vão afastar da Igreja e aqueles que ainda querem mudanças com certeza vão endurecer”, assegura ele.
Em qualquer caso, se Francisco se a fazer mudanças, Schüller acredita que o papa terá de procurar ajuda e enfrentar as congregações mais conservadoras, como a Opus Dei, Comunhão e Libertação e os Legionários de Cristo.
“É claro que, para a Opus Dei a eleição de Francisco foi uma derrota. Mas o sistema ainda está lá, há um monte de poder e de dinheiro, há muitos interesses. Quase que é preciso ter um pouco de medo pelo papa, não deixa de ser perigoso”, adverte ele.
“Há décadas, a administração (do Vaticano) é fortemente controlado por esses movimentos”, explica ele.
“O maior poder desses grupos consiste em não fazer nada, como fizeram com o Concílio Vaticano II, quando eles simplesmente não se aplicou o que foi acordado”, lembra ele.
Segundo Schüller, seja quem for que tente reformar coisas no Banco do Vaticano e que “lá acontece por baixo dos panos” vai deparar com gente dura “que não faz barulho”.
Schüller encoraja o papa a buscar o apoio dos bispos e a transformar seu Sínodo em um órgão de co-governo da Igreja.
Nesta luta de poder e interesses, o ex-Vigário Geral insiste que o pilar essencial da Igreja são as comunidades.
“As paróquias ativas são o elemento mais importante da Igreja” e precisam de apoio e de sacerdotes disponíveis, destaca.
“Se essa é a prioridade, como se pode permitir que só os homens sejam sacerdotes, ou expulsar homens de talento, simplesmente porque eles não estão dispostos a não casar?” expõe ele, lembrando que estes são os motivos mais importantes do seu chamado à desobediência .
Schüller compara o afastamento da Igreja com os seus paroquianos com a proximidade e a facilidade de acesso que faz com que os cultos evangélicos ganham terreno na América Latina.
Quem foi defensor das vítimas de abusos sexuais na diocese de Viena rechaça que sua iniciativa seja cismática e garante que exatamente essa demonstração de que se pode ser crítico dentro da Igreja, fez com que muitos fiéis não a abandonassem.
Quanto ao fato de o movimento de “desobediência” não ter tido sucesso ainda na Itália, Espanha e Europa Oriental, Schüller adverte que essa onda ainda vai chegar lá e lembra que na Irlanda “a Igreja e o povo eram uma coisa só” e, apesar disso, a Irlanda agora é um dos eixos do movimento rebelde.
Algo relacionado com a perda de confiança na Igreja por causa das ocultações em casos de abuso de crianças, assegura ele.
“Nós vamos nos surpreender com o que vai vir da Polônia, Europa Oriental e, Europa do Sul“, onde, segundo ele, esses escândalos ainda permanecem ocultos.
(Reuters)
Respostas de 3
A idéia de Francisco de nomear um Conselho (G8) será muitíssimo eficaz para que suas tomadas de decisão não sejam bloqueada por grupos e forças internas. Vejam o que diz uma freira beneditina sobre a colegialidade no governo:
“No programa de estudo que estou atualmente realizando, estamos examinando as Provisões de Bento em detalhe. São Bento, no capítulo três, aborda a verdadeira realidade de chegar à tomada de decisão na comunidade através do diálogo. Ele exorta o Abade a apresentar os fatos, a coletar informações, a procurar o conselho de toda a comunidade, a remexer as idéias partilhadas uma e outra vez e ponderá-las na oração e com as Escrituras. Somente depois de tal encontro espiritual entre todos os envolvidos é que uma decisão pode ser tomada. Bento termina este capítulo com as palavras:- Faça tudo em Conselho e você jamais se arrependerá.”
Tanto clamor por pouca coisa, senão um ajustamento por parte do Vaticano.
Não é necessário destruir nada, nem que se perca qualquer coisa.
Já vejo nas comunidades paroquiais essas mudanças:
Leigos, como diáconos permanentes, já fazem pregações, na ausência do pároco.
Dar comunhão já faz parte, há anos, das incumbências dos ministros leigos da paróquia.
Ordenar casados e reaproveitar os padres casados, é uma apenas uma questão de inteligência do Vaticano.
É preciso deixar claro que não é preciso destruir o clero atual, mas abrir nele um espaço para esses novos membros.
Isso demanda, criar formas de se prepará-los e forma de viver, que com certeza será diferente de um padre que não se case.
Ordenar mulheres é um pouco mais complexo ainda, porque será um marco inédito na história.
Também, é preciso que os “rebeldes” não queiram impor seus desejos, pois com certeza, a maior parte dos católicos praticantes, só aceitarão isso de forma lenta e bem preparada.
Há muitos aspectos nessa história que não vejo serem abordados, o que dá a impressão de real rebeldia. Mas, porque rebeldia?
É preciso surgir e vir à tona, o que se faz, além de reclamar, junto ao Vaticano.
É preciso surgir um líder ou líderes que cheguem até lá e confabulem um entendimento, com propostas.
E parece que como Francisco, essa porta pode se abrir…..será?
Não acho “tanto clamor pouca coisa”, não. A mudança tem que vir debaixo para cima. De cima não vem nada (ninguém corta uma, duas ou três pernas da sua cadeira.) Lá no Vaticano eles têm medo de perder o seu poder. Os fieis na maioria estão preparadas. Muitos já nem ligam para aquilo que vem de Roma. Toma por exemplo os anticoncepcionais: Uma das piedosas da nossa paróquia me disse noutro dia: “Ah, eu ensino as minhas filhas a tomarem a pílula. Aqueles velhos lá de Roma vão depois criar um bando de netos meus?”
Muitos casados em segundas núpcias vão simplesmente para uma outra paróquia para receber a comunhão…. e assim por diante…..