O Grito de Áureo

Por ocasião dos XVIII encontro dos padres casados em Ribeirão Preto, janeiro passado, Áureo Kaniski me presenteou três livros de sua autoria: ‘Obstinação eclesiástica e celibato sacerdotal’ (Ser, Brasília, 2002), ‘Novos tempos e anacronismo eclesial’ (Ser, Brasília, 2007) e ‘Identidade clerical: a constante vida de renúncia’ (Ser, Brasília, 2008). Não são livros acadêmicos, mas, ao mesmo tempo em que são teoricamente bem fundamentados, são fundamentalmente gritos contra uma situação que Áureo julga ser insuportável.  Por mais desencontrados e incômodos que possam parecer os gritos de Áureo, eles atingem o nó da questão dos padres casados, pois expressam a revolta que toma conta do autor diante da insensibilidade de quem pretende ser dono de uma verdade eterna e imutável, que se manifesta numa crueldade institucionalizada, mal disfarçada por acenos amigáveis no plano interpessoal (‘apesar de tudo permanecemos amigos’). O colega de tantos anos e de tantas árduas empreitadas pastorais, o confidente de tantas horas e tantos encontros é bruscamente retirado do convívio e jogado na vale comum dos condenados e esquecidos. Seu único pecado é a discordância, pois os padres da ativa costumam se sentir representantes de uma verdade que os transcende e que é considerada intocável e eterna. No momento em que a subjetividade pessoal eclode num colega, por motivos de atração sexual por uma mulher (por exemplo), o sistema cai com todo o seu peso sobre o dissidente e o esmaga sem piedade, por mais apiedados e carinhosos que possam ser os consolos interpessoais, repito. O que acontece aqui, afinal? Trata-se de uma atitude típica do século que terminou dez anos atrás, e que foi um século marcado por fé inquebrantável em sistemas considerados intocáveis. Nesse sentido, a rejeição dos padres casados na igreja católica é tão típica do século XX como a rejeição dos dissidentes soviéticos, nazistas, franquistas, salazaristas, maoístas por parte de movimentos que se autoproclamavam donos da verdade. Tanto o estalinismo soviético como o nazismo hitleriano como também o franquismo espanhol, o salazarismo português e a revolução cultural de Mao Tse Tung não suportavam dissidência. Nisso se expressa de forma eminente o caráter do século que passou, um século marcado por adesões inquebrantáveis, como se deduz facilmente de uma análise do que esse século produziu em termos de crueldade. Todos os movimentos ditos revolucionários (ou reformistas) do século XX se assemelham na forma em que tratam os dissidentes: o ‘camarada’ (colega, amigo, companheiro, correligionário) que duvida da verdade do movimento em algum ponto (por minúsculo que seja) é violentamente hostilizado e muitas vezes paga com a vida sua dissidência. No caso da igreja católica, paga com a destruição de sua imagem dentro da instituição. A idéia básica é que paira acima das pessoas uma verdade eterna, incorporada no sistema (no movimento).

É contra esse comportamento típico do século XX que grita Áureo Kaniski, como se pode deduzir dos títulos que ele dá a seus trabalhos. A ‘obstinação’, o ‘anacronismo’ e a ‘constante vida de renúncia’ são três facetas de um fenômeno que caracteriza os movimentos do século XX, não só a igreja católica. De forma acertada, Áureo fala em anacronismo, pois todos nós podemos verificar que o século XX se afasta de nós a passos largos. As novas gerações não são nem obstinadas, nem ‘renunciadas’, nem aferradas à tradição e nisso são muito diferentes das pessoas que (ainda) pertencem ao século XX. As novas gerações ultrapassam com leveza barreiras erguidas no século passado, como se pode observar claramente no campo da sexualidade, mas também em outros setores da vida. O mundo tornou-se bem mais complexo e assim se abre um largo horizonte de negociação dos conflitos, diálogo entre discordantes, globalização, encontro de culturas e de mentalidades. O fenômeno é totalmente novo, nunca dantes experimentado na história da humanidade (pelo menos nas dimensões em que se manifesta hoje). O grito de Áureo anuncia esse tempo novo e por isso seus livros estão perfeitamente integrados na sensibilidade própria do novo século. É um grito que proclama a humanidade de todos nós para além da crueldade, rejeição, desprezo, marginalização, em direção ao diálogo e a convivência entre modos diferentes de se viver e praticar o seguimento de Jesus.

Eduardo Hoornaert

e.hoornaert@yahoo.com.br

Uma resposta

  1. Tenho, também, esses bons livros do Áureo.
    ÁUREO AMIGO, aguardo sua resposta positiva para continuar constando como bom assinante de nosso jornal Rumos.
    Abraço do Giba.

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