Das fábricas italianas às prisões brasileiras

O legado do padre Renzo Rossi

Faleceu em Florença o padre Renzo Rossi. Republicamos a reportagem de Benedetto Ferrara que, em 2005, abordava a história e a missão do Pe. Rossi, por ocasião do seu 80º aniversário.

A reportagem foi publicada no jornal La Repubblica – Firenze, 25-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Renzo completa 80 anos. Pensemos também nele enquanto sentimos a nossa respiração que avança nervosa dentro deste túnel. Não sabemos o que encontraremos no fim da escuridão. Visto de fora, o Corpo 4 da penitenciária Lemos de Brito, de Salvador, na Bahia, é apenas uma enorme estrutura circular de cor amarela caindo aos pedaços. Nada de janelas, apenas pequenos buracos na parede. Não se ouvem vozes, não se ouve nada. Agora que fecharam o último portão de metal às nossas costas, acompanhados por um guarda carcerário armado apenas com um celular, caminhamos até chegar à galeria F.

Os rostos dos detidos que desfilam ao nosso lado são sombras. O superintendente de Justiça foi claro: “Há estruturas mais novas e mais seguras que vocês podem visitar e fotografar. Mas se vocês querem entrar no Corpo 4, saibam que não podemos garantir a incolumidade em 100%. Há mais de mil detidos, a estrutura é velha. Vocês decidem”.

E assim ninguém fala, até que entramos no cenário de um filme pós-atômico. Corredores circulares, um em cima do outro. As paredes desfeitas, rostos marcados que vivem voltados para o nada. Alguns sorriem, outros se escondem. O cheiro é o de um presente violentado pelo tempo, as imagens são as de um futuro que precisamente não existe. Mas era aqui que devíamos vir para entender melhor essa história. A galeria F é um dos símbolos dos anos obscuros de um Brasil sem democracia: anos de ditadura, de jovens torturados, mortos, desaparecidos.

Aqui, em meados dos anos 1970, um pequeno padre nascido em San FredianoItália, aparecia por aquele túnel sorrindo para encontrar TheodomiroPaulo e todos aqueles jovens marxistas em forma que certamente não queriam um padre ao seu redor. Mas um amigo, sim. E era isso que Renzo era para eles. À época, ele tinha pouco mais de 40 anos. Nascido no dia 31 de agosto de 1925, em 1965, depois de uma longa experiência nas fábricas de FlorençaRenzo Rossi partiu para o Brasil como terra de missão.

“Eu queria ir para a Índia ou para a África. No Brasil, já havia muitos católicos, me diziam, o que eu vou fazer lá? Mas, no fim, eu aceitei e vim para Salvador. Não foi preciso muito tempo para que eu compreendesse o quanto havia a se fazer nesta terra”.

Chegar aqui para tentar contar a sua vida em um documentário é uma pequena obra. Histórias demais. Colocá-las juntas será uma feliz condenação. Mas, por sorte, ele está aqui, com aqueles modos tão distantes da formalidade: “Tolo”, grita feliz a todos que encontra, rindo de olhos fechados antes de desferir um tapinha que se tornou o rito de um homem que quer comunicar afeto, um homem cheio de energia, que vence a timidez começando pelos gestos e depois passando para as palavras.

“Eles sempre me viram como um padre estranho, talvez porque eu tenho modos muito imediatos, irônicos e, às vezes, bruscos”. E talvez também porque o padre Renzo Rossi sempre gostou de viver em meio aos “outros”. Aos comunistas, aos operários, aos sindicalistas, aos presos, aos revolucionários, àqueles que nos dias das grandes ideologias viviam do outro lado.

“Eu comecei a fazer isso quando, como pároco, decidi entrar nas fábricas florentinas, nas oficinas do gás, depois na Fiat e na Galileo. Certamente, eram quase todos comunistas e me olhavam mal. Mas, uma vez por semana, eu pegava a bicicleta e ia para a frente da fábrica para cumprimentar a todos. No fim, muitos perceberam que eu não era um inimigo, mas estava ali para estar com eles e talvez dar-lhes uma mão”.

Uma mão verdadeira. Como quando, no outono de 1958, Renzo se esforçou para que fosse assinada pelo arcebispo Elia Dalla Costa uma carta em defesa dos operários da Galileo em risco de demissão. Um gesto que salvou o posto de trabalho a 900 pessoas. Uma vitória para Renzo, que lembra como, à época, encontrou a sua “primeira conversão”.

“Eu compreendi que eu só poderia viver nesse caminho. Eu não queria ficar na Igreja esperando, mas sim ir buscar as pessoas distantes da fé”. A “segunda conversão” chegaria no Brasil, quando ele começou a se dividir entre a paróquia de Alto do Peru e as intermináveis viagens de ônibus para oRioSão PauloRecife: “Eu ia para as prisões para encontrar os meus amigos presos”. Amigos conquistados com o tempo e, muitas vezes, com a paciência. O habitual grande desafio de Renzo.

“Mesmo esses jovens, no início, me olhavam com suspeita. Depois entenderam que eu não queria convertê-los, mas sim ficar junto deles e ajudá-los”. Emiliano José, ex-preso político, hoje escritor e deputado do partido de Lula, contou a história de Renzo Rossi em um livro. E chama a atenção encontrar hoje aqueles rostos imaginados durante uma leitura. Há Colombo Vieira, preso no dia 1º de junho de 1970 e torturado junto com a sua esposa, Jessie, no Rio de Janeiro, depois de uma tentativa de sequestro.

Colombo tem o rosto marcado por um passado que ficou em cima dele. No entanto, o seu sorriso é muito doce. “Renzo era diferente de nós, mas também era um de nós. Fiquei surpreso um dia quando eu fui encontrá-lo na sua favela, porque eu o vi com a túnica vestida e me dei conta de que ele era um padre de verdade”.

Sim, é isso que Renzo é: um padre de verdade, que explora o mundo e escuta os outros, sem nunca perder as suas certezas. Não alguém que se afasta da Igreja. Mas alguém que trouxe a Igreja com prazer para as favelas, as fábricas, as prisões. “Sou um pároco e sempre respeitei a hierarquia. Mesmo quando era preciso mandar tudo às favas, eu certamente não retrocedi”.

Por outro lado, o seu ser um padre o ajudou a não perder força e credibilidade. Mesmo nos momentos mais dramáticos, como quando tentou dar uma mão a Theodomiro Romeiro dos Santos, condenado à morte em 1971 por ter matado um policial no momento da prisão. A condenação havia sido convertida em prisão perpétua, porque Theodomiro era menor de idade, e, depois de nove anos de galeria F, havia chegado a liberdade condicional.

“Foi Renzo que me deu 10 mil dólares para a fuga, ele fez isso justamente neste banco”, contaTheodomiro, agora juiz do trabalho em Recife, enquanto, no jardim do Centro de Treinamento de Líderes, preparamos as câmeras para a entrevista. Esse senhor alto com a barba branca, à época jovem muito magro, pouco mais do que adolescente, fala com lentidão e emoção.

“Eu sempre desconfiei da Igreja, mas Renzo era, acima de tudo, um homem de solidariedade. Por isso, eu sempre acreditei nele”. Entre todas as histórias que Renzo recorda com energia e emoção, há também a de Janaína Teles, filha de César Amelinha, militantes comunistas, presos em dezembro de 1972. Janaína, que então tinha sete anos, foi obrigada, juntamente com o irmão, a assistir às torturas às quais seus pais eram submetidos. Naqueles dias, a menina escreveu uma poesia que girou o mundo. Hoje, aos 37 anos, ela diz: “Eu sempre repito para ele: Renzo, eu não acredito em Deus, mas confio em você”.

E o padre de San Frediano, depois de ter lhe chamado de “tola” rindo, sacode a cabeça com os olhos fechados, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, a discussão vai continuar. Porque Renzo, o jovem dos dois mundos, não consegue ficar parado. E é bom vê-lo voltar à sua paróquia para celebrar a missa diante do seu povo, acompanhá-lo e descobri-lo emocionado como uma criança.

É aqui que você tenta captar o sentido de uma vida. “Seguramente, eu tive mais do que o que eu dei. Eu acredito em Deus, mas sei também que aqueles que não creem, mas vivem para os outros, são sempre melhores do que aqueles que se dizem cristãos só porque vão à igreja”. Frases simples. Verdades. Sempre com aquele sorriso insolente. E com aqueles olhos que se fecham para vencer a timidez e continuar vivendo assim.

“Eu não tenho medo da morte”, diz ele, enquanto desce da van. As pessoas estão ali esperando por ele, ouvindo-o, aplaudindo-o, fazendo-lhe festa. Renzo completa 80 anos. E você só sente vontade de abraçá-lo. Mesmo que você saiba que, indo ao seu encontro, você vai receber aquele abençoado tapa.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/518817-das-fabricas-italianas-as-prisoes-brasileiras-o-legado-do-padre-renzo-rossi

 

Uma resposta

  1. Quem o conheceu e privou da amizade desta figura carismática só pode admirá-la. Eu tive um pouco desta felicidade. Ele contagiava com a sua alegria, simplicidade e abertura nas discussões dos problemas. Quando o novo papa está pedindo insistentemente aos padres e cardeais para não abandonarem as periferias, ele já fazia isto muito bem em Salvador, montado numa bicicleta, no final da década de 60 no Alto do Peru. O seu espírito cristão, a luta pelos direitos humanos, o respeito ao pensamento divergente, o esforço para incorporar todos independente de ideologias a uma causa comum contra a miséria e discriminação eram as suas preocupações pastorais. O trabalho discreto e silencioso junto à comunidade e aos presos políticos, trouxe um pouco de alívio a muitas famílias durante a ditadura militar. Visitou penitenciárias do Brasil inteiro levando consigo uma carta de apresentação de Dom Avelar. O ex- deputado Haroldo Lima testemunhou no jornal A Tarde de 27/03: “Pe Renzo foi amigo parceiro e confidente dos que sofreram tortura e amargaram anos de prisão”. E Emiliano José escreveu uma relíquia imperdível prefaciado por Fr Beto: “As asas invisíveis do Pe. Renzo” – Ed. Casa Amarela, 2002. Diz entre outras coisas que “falar em ditadura, presos políticos e anistia no Brasil, necessariamente tem que falar no Pe. Renzo”. Ele acreditou e assumiu muitos riscos na vivência de sua fé, em Salvador, nos estados por onde peregrinou e também no exterior. Hoje incorporado ao Cristo, anjo de asas invisíveis, ele realiza a sua páscoa definitiva.

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