
Leonardo Boff – 19 Março 2019 – Imagem: Os ventrilocos-bonecos/ pixabay – IHU
“Escandalosamente, assim como se fez com Cristo, tomaram as vestes nacionais e sortearam-nas entre si”, escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.
E ele pergunta: “Por que chegamos a este ponto tão baixo em nossa história? Celso Furtado morreu carregando esta interrogação: “por que o Brasil, sendo um país tão rico, seja tão atrasado e tenha tantos pobres?” Ele mesmo respondeu em seu livro que vale revisitar: “Brasil: a construção interrompida” (Paz e Terra, 1992)”.
Eis o artigo.
Em um dos seus escritos perguntava F. Nietzsche:
“Pode um burro ser trágico? Pode na medida em que sucumbe ao peso de uma carga que não pode carregar, nem pode livrar-se dela”.
Há uma boa parte de nossa população que é de “burros trágicos” num duplo sentido da palavra:
Num primeiro sentido, “burro trágico” é aquele que facilmente se deixa enganar por candidatos que suscitam falsas promessas, com slogans apelativos meramente propagandísticos, como
- “Deus acima de tudo e o Brasil acima de todos” (lema nazista),
- “fora PT”,
- “combate à corrupção”,
- “resgate dos valores tradicionais”
- “escola sem partido”
- contra a”ideologia de gênero” “combate ao comunismo”,
- contra “a cultura marxista”.
Estas duas últimas bandeiras são de uma “burrice trágica” e palmar única,
- num tempo que nem mais comunismo existe
- e que ninguém sabe o que significa exatamente “cultura marxista”.
Estes que gritam estas consignas
- e que se proclamam “gente de bem”
- são os mesmos que mentem descaradamente,
a começar
- pelo atual capitão-presidente, por sua “famiglia”,
- por aqueles que disseminam conscientemente fake news, ódios, raivas fenomenais, injúrias de todo tipo, palavrões que nem seus familiares poderiam ouvir
- e que mandam para o inferno, com complacência, para Cuba, Coreia do Norte ou para Venezuela os que pensam diferente.
Curiosamente
- ninguém os manda para China, onde de fato vigora o comunismo-maoísmo
- porque sabem que lá o comunismo funciona pois se produziu a maior economia do mundo
- e que pode enfrentar militarmente a maior potência militar do mundo: os EUA.
Esse primeiro tipo de “burro trágico” é fruto
- da ignorância,
- da falta de informação
- e da maldade contra quem pensa diferente.
Existe um segundo tipo de “burros trágicos”: aqueles que
- são consequência de uma estratégia política de criação de “burros trágicos”,
- voluntariamente mantidos analfabetos,
- para melhor manipulá-los e terem sua base eleitoral cativa.
Fazem-nos crédulos e seguidores de um “mito” inventado e inflado sem qualquer conteúdo digno de um “mito”.
Essa classe, criadora de “burros trágicos”, nem toda, graças a Deus, tem pavor
- de alguém que saiu de condição da “burrice trágica”
- e chegou à cidadania e a desenvolver espírito crítico.
O atual governo somente ganhou a maioria de votos porque grande parte dos eleitores foram manipulados com mentiras, na condição de “burrice trágica”.
Negou-se-lhes a verdadeira intenção escondida:
- de diminuir o salário mínimo,
- de cortar direitos sociais, para muitos, da bolsa-família,
- de modificar a legislação trabalhista para favorecer as empresas,
- de liquidar a farmácia popular,
- de diminuir os vários acessos dos pobres ao ensino superior
- e, acima de tudo, da profunda modificação do regime das aposentadorias.
- De subordinar nossa economia e política aos interesses do capital dos Estados Unidos, para onde foi esta semana prestar contas ao império.
Se tivessem revelado esta intenção jamais teriam ganho a eleição.
- Por isso, ela resulta espúria, mesmo feita no rito democrático.
- Escandalosamente, assim como se fez com Cristo, tomaram as vestes nacionais e sortearam-nas entre si.
Nem falemos de alguns ministros que são de uma “burrice trágica” e supina como
- a Ministra da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos,
- o Ministro da Educação que sequer domina nossa língua, pois é um imigrado colombiano,
- o ministro do Meio Ambiente que não conhecia o nome de Chico Mendes
- e o Ministro das Relações Exteriores, no qual a “burrice trágica” alcança sua quintessência.
Por que chegamos a este ponto tão baixo em nossa história? Celso Furtado morreu carregando esta interrogação:
“por que o Brasil, sendo um país tão rico, seja tão atrasado e tenha tantos pobres?”
Ele mesmo respondeu em seu livro que vale revisitar:
“Brasil: a construção interrompida” (Paz e Terra, 1992):
“Falta-nos a experiência de provas cruciais, como as que conheceram outros povos cuja sobrevivência chegou a estar ameaçada. E nos falta também um verdadeiro conhecimento de nossas possibilidades e, principalmente, de nossas debilidades.
Mas não ignoramos que o tempo histórico se acelera, e que a contagem desse tempo se faz contra nós.
Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta na construção do devenir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação” (p. 35).
As forças atuais em continuidade de todo um passado, se empenham em interrompê-lo na forma de uma “burrice trágica”.
Ou talvez, pensando positivamente, está se armando a “nossa crise crucial” que nos permitirá
- o salto para um outro tipo de Brasil,
- com outros valores
- e com menos processos de proposital “emburrecimento” da política brasileira.
Leonardo Boff
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/587587-parte-do-brasil-e-composta-de-burros-tragicos
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Respostas de 3
É lamentável este artigo. Nem deveria ser publicado.
Boff, você não tem nada de bom para dizer do novo presidente e do novo governo que mal e mal começou? Parece que você aprovou o regime lulista de 13 anos de roubalheira, incompetência e enganação. Sai dos livros e das teorias e cai na real.
Beto, este é um site aberto a várias ideias, inclusive às de Boff. Sabes bem que há no Brasil várias linhas de pensamento teológico, eclesiológico, sociológico e política. Poderias enviar tuas crítica diretamente para o Leonardo Boff.
Achei este artigo de uma clareza maravilhosa. Só não enxerga quem não quer: que Boff tem toda a razão. Grande parte da população realmente se deixou levar pelo ódio pregado pelos meios de comunicação. E estes nem se dão conta que a roubalheira é geral, que TODOS os partidos roubaram e roubam. Lula não era perfeito, mas era um Presidente respeitado internacionalmente. Agora o mundo se ri do nosso Presidente. Devia fazer pensar. Mas pensar não é o forte no momento neste país. Infelizmente.