
Carlos Drummond – 23/10/2018 – Foto: Tuca Vieira / Oxfam Brasil
“O Brasil está caindo sob o feitiço político do mal. É como se eleitores caminhassem tal qual sonâmbulos rumo à destruição da democracia brasileira. Sob a influência do feitiço, tornaram-se cegos para a verdade sobre a política brasileira”.
A reportagem é de Carlos Drummond, publicada por CartaCapital, 23-10-2018.
As respostas de vários economistas às perguntas de CartaCapital sobre como os programas de Bolsonaro e de Haddad encaminham o aumento ou a redução da desigualdade e da soberania mostram diferenças abissais e reforçam o diagnóstico de Palley.
Segundo a professora Leda Paulani, da USP,
“inicialmente é preciso dizer que
- o programa de Bolsonaro como um todo
- é de uma pobreza inacreditável.
Parece que, em meia hora,
- alguém sentou, rascunhou aquelas frases mal alinhavadas
- e apresentou o resultado como programa de um candidato à Presidência de um país tão complexo e multifacetado como é o Brasil”.
Em relação à desigualdade, diz,
“é evidente que uma proposta
- que não fala em reforma tributária para reduzir o peso dos tributos indiretos
- nem em abolir os privilégios conferidos aos ganhos financeiros,
- que não menciona a necessidade de elevar os tributos sobre patrimônio para colocá-los em linha com o que se faz nos países mais desenvolvidos
- e, mais ainda, que propõe candidamente uma taxa única de 20% para o IR
vai contribuir em muito para o aprofundamento da desigualdade, uma mazela cuja redução estava em progresso e que a crise econômica fez regredir.
A proposta de criação da carteira de trabalho ‘verde-amarela’, em oposição à tradicional carteira azul que garante os direitos dos trabalhadores, vai na mesma linha.
Trata-se de
- uma espécie de ‘formalização’ do trabalho informal,
- além de subliminarmente tratar como antipatriota o trabalhador que insistir na carteira azul
- e, portanto, na manutenção dos seus direitos”.
A professora sublinha a fala do candidato a vice, general Mourão, depois desautorizada por Bolsonaro, no sentido de extinguir o 13º salário e o adicional de férias.
“É evidente que
- esse conjunto contribuirá em muito para o aprofundamento das abissais desigualdades já existentes em nosso país.
- Não há aqui muito mais a dizer porque o programa é muito pobre.”
Quanto às medidas do programa de Haddad para enfrentamento da desigualdade, diz Paulani:
“Não é preciso muito tino para perceber que
- uma proposta que defende a isenção do Imposto de Renda para todos os que ganham abaixo de cinco salários mínimos,
- compensando-se essa redução com a elevação dos tributos daqueles mais bem posicionados em termos de renda e de riqueza
- já é em si e por si um programa de redução de desigualdade.
“Além disso, a própria recuperação do crescimento, possibilitando a retomada de alguns serviços e programas públicos que estão com recursos congelados ou reduzidos, como o Bolsa Família, também contribuirá nesse sentido.
Em paralelo, serão tomadas as providências para a revogação da Emenda Constitucional nº 95, do teto dos gastos.
A criação do Programa Salário Mínimo Forte é mais uma medida nesse sentido.
“Dada sua importância quanto aos benefícios sociais pagos pelo sistema previdenciário – mais de 20 milhões de pessoas recebem benefícios de um salário mínimo –,
- o aumento de seu valor real é uma das políticas mais efetivas de redução das desigualdades.
- Se, além disso, passa-se a tributar vários rendimentos do capital que hoje são isentos (como os dividendos),
- então tem-se um programa muito forte de redução de desigualdades
- não só em termos da distribuição pessoal, como também da distribuição funcional da renda”.
Múltiplos aspectos do programa do PSL reforçam a desigualdade, concorda Felipe de Holanda, presidente do Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos:
“O mandato de independência do Banco Central apenas para o combate à inflação via elevação da taxa de juros, por exemplo, reforça a probabilidade de voltarmos a taxas de câmbio supervalorizadas,
- funcionais para o controle inflacionário,
- mas altamente danosas ao emprego industrial.
“O programa de Haddad segue a direção oposta, pois estabelece compromissos com um mandato dual do Banco Central
- (controle de inflação e determinado patamar de geração de empregos), algo praticado nos EUA
- e que impediria loucuras como a elevação da taxa básica de juros a 14,25%, entre 2013 e 2017,
- que foi um dos principais fatores de aprofundamento da recessão recente”.
Na macroeconomia, observa o economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP,
“Bolsonaro fala em reduzir a zero o déficit primário e gerar superávit em 2020, um espanto!
- O primeiro equívoco é insistir no ajuste fiscal a qualquer custo, o que se mostrou inviável, pois é impossível fazê-lo sem crescimento da economia.
- O segundo é não fazer uma autocrítica da abertura comercial e da privatização já realizadas nos anos 1990.
- Isso tudo tende a aprofundar as disparidades regionais e de renda”.
Já o programa de Haddad
- “tem o mérito de reconhecer o papel das políticas macro e industriais para recuperar a capacidade de crescimento da economia
- e fortalece a política social.
Ambas as frentes favorecem a distribuição de renda,
- a primeira a longo prazo
- e a segunda a curto prazo,
uma vez que a enorme desigualdade regional e de renda exige medidas focadas no tema”.
Sobre o programa de Bolsonaro e a soberania nacional Leda Paulani sublinha:
- “Quando se propõe a privatização indiscriminada de tudo que ainda pertence ao Estado brasileiro
- é evidente que não há nenhuma preocupação com a soberania,
- uma vez que, regra geral, são os grandes grupos internacionais que acabam comprando essas empresas”.
Mas para chegar a tal conclusão
- não é preciso ir ao programa do candidato,
- que, aliás, não ajuda muito, porque é muito pobre, como já disse.
Basta assistir às entrevistas do Posto Ipiranga, Paulo Guedes. Haddad referiu-se às propostas de Paulo Guedes como sendo produto de um ‘neoliberalismo desalmado’.
Eu concordo e acrescento que
- esse neoliberalismo desalmado,
- absolutamente insensível às necessidades da maioria da população,
- é produto de um ‘neoliberalismo descabelado’, ‘enlouquecido’,
- que deixado a si mesmo privatiza até o serviço diplomático.
Como falar em soberania com uma visão dessas? Essa deve ser, para eles, a última das preocupações.
A tutela militar, que certamente existirá, não garantirá nada nesse sentido, ao que parece,
- a não ser a tosca tarefa de ‘afastar a ameaça comunista’,
- que, além de completamente extemporânea,
- ou exatamente por causa disso,
- ninguém sabe o que vem a ser.
Assim, tudo indica que teremos
- uma política de terra arrasada,
- na qual não haverá a menor preocupação
- com a colocação, em mãos estrangeiras,
- de nossos ativos produtivos (mesmo que eles sejam lucrativos e se encontrem em setores estratégicos)
- e de nossos abundantes recursos naturais.
De outro lado, a política de
- atuar sempre no sentido de favorecer o mercado financeiro
- deve levar também à manutenção da taxa real de juros em níveis muitíssimo altos, em média, observados há quase três décadas,
- ou mesmo a aumentá-la.
Juros elevados implicam
- apreciação de nossa moeda
- e a continuidade do processo de desindustrialização,
- o que evidentemente não combina com qualquer apreço à soberania nacional”.
Segundo Felipe de Holanda,
- “o amplo programa de privatizações proposto pelo economista Paulo Guedes,
- realizado em curto espaço de tempo
- e em cenário ainda de elevadas incertezas (utilizando altas taxas de desconto),
- deverá render muito pouco ao governo,
- contribuindo, entretanto, para ganhos extraordinários das instituições financeiras envolvidas, considerada apenas a transferência patrimonial.
A liquidação de ativos estratégicos da
- Petrobras nas áreas de refino, transportes e varejo,
- assim como a privatização de ativos da Eletrobras
- e da área portuária,
aumentará
- a perda de coordenação do setor produtivo estatal,
- enfraquecendo mais ainda a soberania nacional”.
A diferença em relação ao programa do candidato do PT é imensurável, como explica Paulani:
“O termo soberania nacional
- aparece já no primeiro capítulo do programa de governo de Haddad e Manu
- e o mínimo que podemos dizer é que esta não é uma preocupação menor.
Fala-se ali da necessidade de
- retomar a política externa ativa e altiva
- levada à frente pelo ex-chanceler Celso Amorim nos governos de Lula.
“Assim, devem ser retomadas as medidas no sentido do
- fortalecimento regional da América Latina,
- bem como aquelas direcionadas à consolidação dos BRICS,
- iniciativa de caráter geopolítico das mais importantes e que teve no Brasil,
- até o advento do golpe que tirou indevidamente a presidenta Dilma do poder, seu principal porta-voz e protagonista.
“Há todo um capítulo dedicado à promoção de um novo projeto nacional de desenvolvimento, que passa não só por revogar o legado da era Temer
- (a EC nº 95, a reforma trabalhista,
- as privatizações,
- a entrega do pré-sal
- etc.),
como por tomar as medidas emergenciais capazes de tirar o País da armadilha recessiva
- (redução dos juros para os tomadores de empréstimo,
- programa emergencial de empregos
- associado à retomada dos investimentos públicos
- e ampliação da isenção do IR para as classes mais baixas de renda
- estimulando o consumo).
“Ainda mais importante
- é a preocupação, explícita no programa,
- com as medidas estruturais capazes de reindustrializar o País.
Não por acaso consta no mesmo capítulo a necessidade de manter a taxa de câmbio em níveis competitivos e de torná-la menos volátil”.
Segundo Lacerda, Haddad aposta na autonomia do País diante das grandes potências e conduzir um programa econômico mais sólido fortalece as bases do desenvolvimento autônomo, aspecto relevante para a soberania.

Carlos Drummond
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/584003-como-haddad-e-bolsonaro-pretendem-enfrentar-a-desigualdade
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