A poucos dias da chegada do Papa Francisco à Irlanda, crescem as críticas e os apelos no país para que o Vaticano seja mais determinado na sua resposta aos vários escândalos de abusos sexuais de crianças e jovens.
ALEXANDRE MARTINS – 19/08/2018. Foto: LUSA/CIRO FUSCO
O Vaticano está a ser pressionado a ter uma atitude mais determinada
Quando o Papa Francisco chegar à Irlanda para uma visita oficial de dois dias, no próximo fim-de-semana, não deverá ter à sua espera gigantescos protestos contra o escândalo de abusos sexuais na Igreja Católica da Pensilvânia, revelado na semana passada.
Mas as críticas e os alertas de algumas personalidades políticas e religiosas, como a de uma ex-Presidente e o arcebispo de Dublin, indicam que o ambiente não será tão favorável como o da visita do Papa João Paulo II, há 39 anos.
Este sábado, o responsável pela arquidiocese da capital irlandesa, Diarmuid Martin, comentou a forma como o Vaticano tem reagido publicamente aos sucessivos escândalos de abusos sexuais na Igreja Católica. E a frase em destaque foi tão curta como forte: “Não basta pedir desculpa”.
Sobre o que espera ouvir do Papa Francisco, nos dias 25 e 26, o arcebispo de Dublin preferiu fazer uma referência ao contexto em que essa visita vai acontecer:
“É uma visita curta mas intensa, com muitas expectativas, felicidade e entusiasmo, mas também marcada por muita ansiedade sobre a nossa Igreja Católica, na Irlanda e em todo o mundo, e sobre o futuro da Igreja”, disse o arcebispo, citado pelo Irish Times.
Diarmuid Martin. – Foto: CATHAL MCNAUGHTON/REUTERS
Diarmuid Martin não se referiu ao caso concreto dos abusos sexuais na Pensilvânia, onde uma investigação de um grande júri, revelada na passada terça-feira, descobriu um padrão de abusos em seis das oito dioceses do estado norte-americano ao longo de décadas – foram identificados mais de 300 “padres predadores”, como lhes chamou o procurador-geral da Pensilvânia, e mais de mil vítimas entre a década de 1940 e o início dos anos 2000.
O arcebispo de Dublin deixou um aviso à forma como o caso tem sido tratado pelo Vaticano:
“Precisamos de uma Igreja com confiança, não a confiança da popularidade ou a arrogância, mas sim a confiança de homens e mulheres cativados pela mensagem de Jesus”.
Desde que o escândalo na Pensilvânia foi revelado, o Vaticano pronunciou-se apenas uma vez, na quinta-feira, através do porta-voz do Papa Francisco, Greg Burke:
- “Os abusos descritos no relatório são censuráveis em termos criminais e morais.
- A Igreja tem de aprender lições duras com o seu passado,
- e tanto os abusadores como quem permitiu que os abusos acontecessem devem ser responsabilizados”.
A ex-Presidente irlandesa Mary McAleese, uma católica praticante conhecida pelas suas opiniões progressistas sobre temas como o casamento de padres, a homossexualidade e o aborto, também comentou a visita do Papa Francisco.
E as suas declarações foram mais directas e contundentes do que as do arcebispo de Dublin – McAleese disse que esperava mais do Papa e criticou o seu “modo de pensar”.
Diferente, mas não muito
Mary McAleese, ex- presidente da Irlanda – / extra.ie
“Acreditei que este Papa era diferente porque ele disse que ia ser diferente. Disseram-nos que quando ele estava na Argentina costumava insistir na necessidade de se denunciar os casos de padres que cometiam crimes contra crianças”,
disse a ex-Presidente irlandesa, citada pelo Irish Times.
Mas os comentários que o Papa Francisco fez no Chile, no início do ano – quando disse que as queixas de que o bispo Juan Barros encobriu os abusos do padre Fernando Karadima eram “uma calúnia” –, foram uma desilusão para Mary McAleese.
- “Ele escolheu acreditar num dos lados – no lado que protegeu os bispos e padres abusadores”,– acusou a ex-Presidente irlandesa, apontando o dedo às estruturas da Igreja Católica:
- “A formação do Papa Francisco como padre e como bispo tem como base uma forma de pensar que põe em primeiro lugar a defesa da instituição”.
Depois dessas declarações, o Papa Francisco iniciou uma limpeza profunda na Igreja Católica chilena, aceitando a demissão de vários bispos.
Esta é a segunda visita de um Papa à Irlanda, separadas por 39 anos. Em 1979, quando o Papa João Paulo II chegou ao país, ainda faltava uma década para que o escândalo de abusos sexuais em instituições da Igreja Católica irlandesa começasse a ser conhecido em toda a sua extensão.
- Houve demissões na hierarquia católica, acusada num extenso relatório de “fechar obsessivamente os olhos” aos abusos de padres sobre crianças, durante décadas, pelo menos até meados dos anos 1990.
- O Papa Bento XVI pediu desculpa às vítimas de abusos sexuais do clero irlandês numa carta pastoral de Março de 2010, em que disse sentir “vergonha e remorso” pelos crimes na Igreja Católica.
Em 2013, o Papa Francisco introduziu no Código Canónico leis que transpuseram normas dos tratados internacionais de protecção das crianças e do combate à corrupção e ao terrorismo. As leis supunham “uma definição mais completa da categoria dos crimes praticados contra crianças e menores”, disse então o Vaticano.
Passaram a incluir
- o recrutamento e a venda de crianças,
- a violência e actos sexuais com crianças,
- a produção e posse de pornografia infantil
- e a prostituição de menores de idade,
e agravavam as respectivas sanções.
Mas essa actualização do quadro legislativo da Igreja Católica é ainda insuficiente para enfrentar as consequências de muitos outros escândalos de abusos sexuais que vão sendo revelados.
O Papa Francisco tem ainda de lidar, em nome do Vaticano, com os abalos provocados pelos casos revelados na última década e meia – na Irlanda, mas também nos Estados Unidos, na Austrália, na Nova Zelândia, no Chile e em muitos outros países em todos os continentes.


Uma resposta
Está na hora de parar de falar e começar urgentemente a AGIR!!