
Felipe Portales (Chile) –27/01/18
Foto: bostonglobe.com
“Infelizmente, esta proteção “familiar-corporativa” foi consagrada por Francisco durante a visita ao nosso país
- com o apoio total a Barros
- e o seu duro ataque às vítimas da seita de Karadima que continuam buscando verdade e justiça.”
Tradução: Orlando Almeida
A recente visita papal deixou um gosto amargo em nosso país. Para além dos apelos positivos de Francisco à pratica do amor, da paz e da justiça, e do seu pedido de perdão em La Moneda pelos abusos sexuais de eclesiásticos, ficou profundamente obscurecida pelo seu incompreensível apoio ao bispo Juan Barros, que, devido à sua estreita ligação histórica com a seita virtual de Fernando Karadima, foi rejeitado persistentemente por uma grande parte dos católicos de Osorno e por um amplo setor da Igreja chilena e do nosso país.
Já havia causado um grande e compreensível escândalo a sua nomeação por Francisco como bispo da cidade sulina em janeiro de 2015. Tudo se agravou quando nós chilenos pudemos ver pela televisão que o pontífice desqualificou de maneira ofensiva a grei de Osorno como “tonta” e manipulada por “esquerdistas”(!).
E agora culmina com os desacertos no nosso país,
- acusando as vítimas de Karadima – que responsavelmente acusaram Barros de abusos psicológicos e de cumplicidade e encobrimento de abusos sexuais –
- de proferir “calúnias” contra o bispo de Osorno…
É muito importante ressaltar que
obviamente Juan Barros desempenhou um papel central na seita de “El Bosque”, desde quando – junto com ter sido nomeado secretário do arcebispo de Santiago, Juan Francisco Fresno, em 1983 – foi designado Vigário da Paróquia de El Bosque em 1985, tornando-se o “segundo” de Karadima (ver Mónica González, Juan Andrés Guzmán e Gustavo Villarrubia.– Los secretos del imperio de Karadima – Os segredos do Império Karadima-, Edit, Catalunha, 2014, página 129).
Ou seja, só com isso ele já estava moralmente inabilitado para ser bispo.
Além disso, no livro citado refere-se que “uma fonte que durante anos esteve muito próxima a Karadima afirma que o reitor Benjamin Pereira ia expulsar Juan Barros do Seminário porque este insistia em referir-se a Karadima como se fosse um santo. Assim, ao tomá-lo como secretário, Fresno o teria livrado da expulsão, permitindo que fosse ordenado quando Pereira já não estava lá”(Ibid, p.128).
Além disso, Juan Carlos Cruz e James Hamilton afirmaram, de forma pública e reiterada, que Barros e outros sacerdotes de El Bosque,
- presenciavam abusos sexuais contra diversas vítimas de Karadima
- e não reagiam.
Por outro lado, as primeiras denúncias apresentadas contra ele, em 1983, por Francisco Gómez Barroilhet e outros jovens, em carta ao arcebispado de Santiago, deram em nada.
Em 1984, “Gómez perguntou ao seu amigo Juan Hölzel, ex-seminarista jesuíta que chegou a trabalhar no Arcebispado na área de imprensa, que averiguasse o que acontecera com a carta. Hölzel respondeu que
“a carta tinha sido recebida, lida, rasgada e jogada no lixo”. Quando Francisco Gómez perguntou se valia a pena enviá-la de novo, Juan Hölzel respondeu: “Enquanto Barros estiver aqui, não vale a pena” (Ibid, p.129).
Houve também pelo menos duas vítimas dos abusos psicológicos realizados através de “julgamentos públicos” típicos das seitas; elas denunciaram Barros como um dos seus abusadores.
São os casos de Luis Lira Campino, que envolveu também os bispos Tomislav Koljatic e Andrés Arteaga (ver Ibid, p.125) e de Juan Debesa Castro, que também envolveu Arteaga (ver Ibid., P.187).
E Barros também foi acusado por Juan Carlos Cruz por uma sórdida manobra orquestrada por Karadima, ao escrever uma carta ao Arcebispo Fresno, na qual “informava que dois jovens de El Bosque se tinham dirigido a ele para contar que Juan Carlos os havia assediado sexualmente. Os denunciantes foram Guillermo Ovalle (Chadwick) e Gonzalo Tocornal (Vial)”(Ibid., P.191).
Todas essas informações foram recolhidas pela juíza Jessica González, que investigou a denúncia apresentada contra Fernando Karadima por José Andrés Murillo, Cruz e Hamilton. O problema foi que, devido aos prazos extremamente reduzidos de prescrição estabelecidos pelas leis chilenas para os crimes sexuais, Karadima teve o seu processo sobrestado, sendo finalmente sancionado pela Igreja.
E no processo civil movido pelas vítimas contra o arcebispado – por encobrimento do caso durante anos – ocorreu outro fato que deixa ainda pior a situação do Estado do Vaticano e do papa.
O caso é que,
- diante do pronunciamento papal de que uma investigação do Vaticano havia isentado Barros de qualquer irregularidade,
- a Suprema Corte do Chile solicitou formalmente ao Vaticano uma cópia dos documentos canônicos correspondentes.
- E o Vaticano recusou-se a enviá-los! (ver Emol, 21-9-2016).
Mas o enfraquecimento da Igreja chilena causada pelas condutas lamentáveis dos bispos nacionais e do papa, não termina com o caso Barros.
Também foi muito penoso o fato de que, entre os oito cardeais da Comissão designados para reorganizar a Cúria do Vaticano, se encontrem dois que foram acusados de encobrir casos de abusos eclesiásticos:
- o chileno Francisco Javier Errázuriz Ossa
- e o australiano George Pell.
Particularmente grave foi o caso de Errázuriz, não só porque ele é compatriota, mas também porque ele mesmo reconheceu a proteção que ofereceu aos bispos e sacerdotes questionados acerca dos abusos!
Foram os casos
- do bispo Francisco José Cox;
- e dos sacerdotes José Andrés Aguirre Ovalle
- e do próprio Karadima.
Cox é da mesma idade que Errázuriz e foi colega de estudos de Errázuriz na Congregação de Schoenstatt. Serviu como bispo de Chillán (1975-1981). Depois foi nomeado para um alto cargo no Vaticano: Secretário do Pontifício Conselho para a Família, de onde em 1985 foi curiosamente “degradado”, voltando ao Chile para ser bispo auxiliar de La Serena!
Também foi nomeado, ao mesmo tempo, entre 1986 e 1987, secretário executivo da Comissão Nacional da visita de João Paulo II ao Chile.
Em 1990 tornou-se arcebispo de La Serena, substituindo Bernardino Piñera que se retirou por idade. Em 1997, ele foi removido de La Serena, também curiosamente, pois tinha apenas 64 anos, sendo a idade de aposentadoria 75 anos. E foi designado para cargos menores.
Finalmente, e diante da iminência de uma reportagem do jornal “La Nación” que traria inúmeras denúncias de predação sexual cometidas por ele em La Serena, foi enviado rápida e misteriosamente para um mosteiro na Alemanha em 2002, sancionado por “condutas impróprias”.
Curiosamente, Errázuriz declarou
- que Cox “tinha uma afetividade um pouco exuberante”,
- que “se dirigia a todo o tipo de pessoas,
- embora fosse mais surpreendente em relação às crianças”.
Além disso, lembrou que “quando nós, seus amigos e superiores, nos tornámos muito duros para corrigí-lo, ele mantinha silêncio e pedia humildemente perdão. Dizia-nos que iria esforçar-se seriamente para achar uma maneira diferente de trato com as pessoas, mas, infelizmente não conseguia” (La Nación, 2-11-2002).
Muito provavelmente, pelo estilo da declaração, Errázuriz está se referindo ao período em que ele era Superior da Ordem no Chile, ou seja, entre 1965 e 1971. Outro bispo que declarou “proteger” Cox foi o seu sucessor como Arcebispo de La Serena, Manuel Donoso (1997-2013), que em 2002 reconheceu ter recebido nove denúncias contra ele, mas que as descartou por considerar que “nenhuma era comprovável” (Ibid.).
As declarações anteriores provocaram duras declarações de uma das personalidades mais eminentes do PDC [Partido Democrata Cristão] da época, Jaime Castillo Velasco, que afirmou que o que estava acontecendo na Igreja “é tão lamentável, tão horrível, porque se trata de uma autodestruição (…)
- Não tem sentido a religião
- se ela forma seres capazes de se contradizerem da maneira que o fazem os sacerdotes homossexuais (pedófilos) (…)
É preciso ser muito claros e firmes na rejeição à traição ético-religiosa de sacerdotes que prometem uma forma de vida que não são capazes de manter e que oferecem um exemplo mortal para a sociedade. É por isso que não concordo com as palavras explicativas ou condescendentes que foram pronunciadas “(La Nación, 10-11-2002).
José Andrés Aguirre (“el curaTato”) foi condenado a 12 anos de prisão pela Suprema Corte em janeiro de 2005 por nove abusos desonestos contra menores e um estupro cometido entre 1998 e 2002. No entanto, a sua história de abusos, como ele reconheceu, começou em 1984 (ver La Tercera, 12-11-2013). E já em 1994, o Arcebispado de Santiago sabia que ele havia engravidado uma garota (ver La Nación, 15-10-2004).
Inclusive, “consultado por que o padre Tato não havia sido expulso da Igreja, logo que se soube que ele tinha cometido abusos e tido uma filha, Errázuriz disse que naquela época se pensou ser possível a sua reabilitação e posterior reintegração pastoral unindo-o a um movimento no exterior que “oferecia um excelente acompanhamento espiritual” (El Diario de Atacama, 18 de julho de 2004).
Ou seja, todas as sanções pelos seus crimes foram consideradas inoportunas! Deste modo, Aguirre foi enviado para a Costa Rica e Honduras em 1994.
Incrivelmente (ou nem tanto, pelo que já vimos), no seu retorno em 1998, foi nomeado para o Vicariato Pastoral de Quilicura e, em 2000, pároco de Nuestra Señora del Carmen da mesma comuna, onde continuou com suas condutas delituosas.
Mas o padre Tato também foi protegido pelo bispo auxiliar de Santiago, Sergio Valech. Assim, quando o caso se tornou público em 2002, a mãe de três das meninas abusadas por Aguirre em Quilicura, Silvia Leiva, disse que em 1999 foi denunciar os fatos a Valech.
Segundo ela, o bispo lhe disse
“para não acreditar em tudo o que se dizia, porque a imprensa iria assediá-las, ‘e eles são abutres que, onde têm comida, comem’.
Também disse que, se ela contasse alguma coisa, seria acusada de injúrias, porque a Igreja Católica é um elefante e eu sou apenas uma formiga”.
Intimidação que causou desânimo no seu marido que “me disse por que vais continuar lutando se és uma formiga nada mais” (La Nación, 21-10-2002). O mesmo jornal informou que o bispo – apesar dos pedidos insistentes – recusou-se a ser entrevistado. A senhora Leiva, dias depois, fez o mesmo relato num programa noturno da TVN. E neste [programa] foi mostrado como Valech se negou, aborrecido, a ser entrevistado por um jornalista do mesmo canal.
E em relação a Karadima,
- Errázuriz recebeu as primeiras denúncias contra ele em 2003, enviadas por Murillo através do Vigário da Educação, o jesuíta Juan Díaz.
- No entanto, Errázuriz não fez nada.
Somente em 2005 Murillo conseguiu que se desse início a um processo canônico. Mas o cardeal reconheceu perante a juíza Jessica González que ele segurou o processo durante vários anos!:
“A interrupção do procedimento administrativo entre 2006 e 2009 é da minha responsabilidade e foi uma decisão que tomei logo depois de ter ouvido o testemunho de monsenhor Andrés Arteaga (sic) em relação aos denunciantes” (González, Guzmán e Villarrubia, página 245).
O próprio cardeal Errázuriz, com toda naturalidade, justificou a atitude encobridora que prevaleceu na hierarquia da Igreja, afirmando:
“É preciso ter presente que o bispo tem uma função de pastor e pai, não só para o bem dos fiéis, mas também diante de cada sacerdote da sua diocese. Gostaria de saber qual o pai que vai ao tribunal para delatar os seus filhos” (El Mercurio, 26-5-2002).
Quantos filhos se teriam salvado de serem abusados, se Errázuriz não tivesse protegido “paternalmente” Cox, o padre Tato e Karadima!
Infelizmente, esta proteção “familiar-corporativa”
- foi consagrada por Francisco durante a visita ao nosso país
- com o apoio total a Barros
- e o seu duro ataque às vítimas da seita de Karadima que continuam buscando verdade e justiça.
Que contradição com a mensagem evangélica que nos diz que
“se alguém fizer cair em pecado uma destas (crianças) pequenas que acreditam em mim, melhor seria para ele que lhe amarrassem uma pedra de moinho ao pescoço e o jogassem no mar”. Mateus 18, 6)!

Felipe Portales
Fonte: https://www.rebelion.org/noticia.php?id=237218
.
– Do mesmo autor e sobre o mesmo tema:
Errázuriz, Karadima y Cox: profundas contradicciones papales
por FELIPE PORTALES 28 abril, 2015
Uma resposta
Hoje em dia, o Stake Casino se consolidou como uma das escolhas populares para jogadores brasileiros. Para entrar no site com seguranca, basta seguir o link confiavel disponivel aqui — Sistema provably fair com comprovacao independente de justica
. Com uma biblioteca diversificada, navegacao intuitiva e suporte local, o Stake atrai muitos jogadores.
“Explore milhares de caca-niqueis sem complicacoes!”
Registro no Stake Brasil | Crie sua Conta Instantaneo
A criacao de conta no Stake e simples. Usuarios do Brasil podem comecar a apostar em instantes. Basta visitar o portal usando a pagina indicada, apertar “Inscrever-se”, preencher seus dados e ativar a conta. Depois disso, adicione fundos e comece a jogar.
“Crie sua conta rapidamente e ganhe um bonus de boas-vindas!”
Bonus no Stake BR | Promocoes Generosas
Os bonus de boas-vindas sao um dos principais diferenciais. Novos usuarios podem ganhar um extra antes de comecar a jogar. Entre as vantagens estao ofertas de entrada, free spins e o sistema VIP.
“Receba 100% de bonus para aumentar suas chances!”