Três coisas esquecidas

Depois que o místico poeta do salmo 139 (138) se abisma ante a onipresença e a onisciência de Deus,  ele se detém na consideração dos planos divinos e vê que não consegue acompanhá-los:

“Mas a mim, como são difíceis os teus projetos! Meu Deus, como é grande a soma deles!  Se os conto… são mais numerosos que a areia! E, ao despertar, ainda estou contigo! “ ( l7-18).

O mesmo acontece com qualquer um de nós que pretenda agradecer um por um todos os benefícios de Deus, mesmo se limitando às maravilhas do próprio corpo.Pode passar dias e noites e não chega ao fim, mesmo porque a cada instante os benefícios se multiplicam. Basta pensar que numa simples gota de seu sangue, além da parte líquida, o plasma, se encontram glóbulos vermelhos para oxigenação do sangue; glóbulos brancos para ataque às bactérias,aos corpos estranhos, a destruição de células mortas, divididos em várias espécies segundo as respectivas funções; plaquetas para a coagulação do sangue, no caso de sangramento.
Sobre as três coisas esquecidas mencionadas acima, adianto logo que elas também constituem objetos de agradecimentos sem fim ao PAI CELESTE.

A primeira coisa das três é a ELETRICIDADE. Agradecemos pelo ar, pela água. Imagine tantos pobres nordestinos sofrendo pela escassez desta; pense nos que sofrem na Baixada Fluminenses, pelo excesso. Mas também devemos agradecer pela eletricidade. A humanidade hoje depende em tudo da eletricidade. Pense nos apagões: aeroportos, hospitais, escritórios, bancos, em nossas habitações. Mas eu quero me referir, de modo particular, à misteriosa eletricidade produzida dentro de nosso corpo.Sem ela teríamos o apagão da própria vida, pois nossos neurônios se comunicam pela eletricidade produzida no interior de nosso organismo e não apenas com elementos químicos, os neurotransmissores. Basta pensar que o marca-passo artificial é apenas um arranjo para ajuda ou substituição do natural com desempenho falho. Obrigado, Senhor, também pela ELETRICIDADE inclusive produzida dentre de nosso organismo.

A segunda coisa é a LEI DA GRAVIDADE.  Sabemos que “Matéria atrai matéria na razão direta do produto de suas massas e na razão inversa do quadrado da distância entre elas.” Assim – aproveite da piada – dá para pensar na atração de duas pessoas muito gordas uma perto da outra. Bom, nossa ideia é lembrar que o Criador, para possibilitar a vida aqui na terra, colocou os seres vivos num ambiente em que a lei da gravidade ajude a vida e não a prejudique. Imagine que a gente tivesse de viver na lua, com atração reduzidíssima sobre nosso corpo, e assim um pequeno salto, levantando qualquer um de nós para lá dos cinco metros. Num planeta maior que a terra, seríamos pesados até mais que o chumbo. Obrigado, Senhor, por nos ter colocado num planeta em que a lei da gravidade, só nos prejudica quando procuramos escapar às sentenças da balança!

A terceira coisa é a PRESSÃO ATMOSFÉRICA. Por força desta, nosso corpo sofre um pressão do ar de toneladas, por dentro e por fora, podendo assim equilibrar-se e viver. Com um desvio considerável da pressão atmosférica para mais ou para menos ficaríamos respectivamente achatados como uma lata de refrigerante esmagada na prensa, sangrando por toda a parte, ou seríamos vítimas do volume descomunal de nosso corpo, feitos balões. Assim, obrigado Senhor, pela PRESSÃO ATMOSFÉRICA tão bem regulada que somente se percebe, por exemplo, quando, o avião baixa rapidamente e certas pessoas sentem os ouvidos doerem a valer.

Diz-se que a vida é um milagre e, tomando-se milagre como uma coisa digna de grande admiração, ela é realmente um milagre. Pense na enormidade de peças de que nosso corpo é composto… de neurônios cerca de 100 bilhões em nossa cabeça… Pense nas condições necessárias para vivermos, como temperatura, água, e tantas mais… tudo organizado num enorme sistema e constate que a vida é realmente um grande MILAGRE!

Pelas TRÊS COISAS ESQUECIDAS, pelo milagre da vida: GRAÇAS, SENHOR!

Professor Antônio Lima dos Santos – Gov. Valadares – MG

Aos 96 anos, lúcido, escreve regularmente no Diário do Rio Doce.
Viúvo há cerca de três anos, foi bispo de Ilhéus – BA

profalsantos@gmail.com

PUBLICADO NO DIÁRIO DO RIO DOCE/Gov. Valadares/MG

 

Uma resposta

  1. Meu comentário é sobre esta figura especial, autêntica e carismática, o autor deste texto, escritor e tradutor inclusive de algumas obras de Fulton Sheen. Vale a pena recordar e compartilhar alguns fatos. Seu nome Antonio L. dos Santos, nome civil, era D. Caetano quando estava na ativa em Ilhéus e renunciou a diocese para se casar no inicio da década de 70. Atualmente, viúvo, é o único ex-bispo vivo da diocese de Ilheus que neste 2013 comemora o seu centenário. Um grande missionário capuchinho que com dinamismo e desapego coordenou uma diocese que posteriormente foi subdividida em quatro: Caravelas, Eunápolis, Itabuna e Texeira de Freitas. Montado numa vespa, à cavalo ou viajando de canoa, era sempre presença na vastidão do seu rebanho e também diariamente na sede com o programa radiofônico, a voz do pastor, na rádio diocesana criada por ele. Desceu do trono e viveu no meio do povo. Concluiu a catedral de Ilhéus cartão postal da cidade que durante mais de 30 anos estava com as obras paralisadas. Sua operosidade foi muito importante para a construção do porto de Ilheus e também para a criação da hoje Universidade Santa Cruz. Deixou um rosário de Obras Sociais na diocese, criando inclusive, infra-estrutura financeira para o seu sucessor, com os marcos que recebia da Alemanha pelas pregações que fazia nos intervalos das sessões do Concilio. Um dos poucos remanescentes do Concilio Vat II foi o responsável pelas reformas litúrgicas e pastorais, sendo um dos pioneiros na Bahia. Atualmente com 96 anos e lúcido, sua vida é uma Bênção de Deus. Sinto-me feliz pela amizade e por ter sido o último sacerdote ordenado por ele.

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