Pobreza: profetismo ou ideologia?

Texto sobre o que é Pobreza e Profetismo. No contexto espiritual do cristianismo, a pobreza é um mistério.

A cristologia nos revela, desde o princípio, que Jesus Cristo foi um “agitador” que subvertia as coisas: os pobres é que são felizes, o Reino é dos pequenos, as prostitutas e os cobradores têm primazia, tudo isso em superveniência ao dinheiro dos ricos, à força dos poderosos, ao saber dos intelectuais e à santidade dos “escolhidos”.

No Antigo Testamento não há relatos de pobreza voluntária. Lá, a indigência surge como castigo pela idolatria, pela imprevidência, ou decorrente da opressão sócio-politica. A partir do cristianismo é que a pobreza passa a ser buscada como uma ascese de vida. Após a proclamação das bem-aventuranças, a Igreja volta-se, ainda que lentamente, e mais no discurso que na prática, para uma vida de pobreza, simplicidade e desapego.

Há mais de quatro décadas que se busca, debalde, entre os renitentes, uma solidariedade cristã em favor dos pobres. Por muitos anos, no Brasil se discutiu quem eram os bem-aventurados: os pobres ou os pobres de espírito. E mais: o que é ser pobre de espírito? A moderna hermenêutica aponta a pobreza como um estado vivido por quem sofre carência de alimento, de moradia, de emprego, de terra para plantar e de dignidade de vida. No terreno espiritual essa simplicidade surge como a atitude humilde de quem quer se integrar com Deus. Os altos escalões religiosos ainda não chegaram a um consenso se a opção pelos pobres é bíblica ou ideológica.

É equivocada e desumana a interpretação escapista do “pobres sempre haverá entre vocês…” para justificar a pobreza crônica (e a nossa conseqüente apatia). Esse texto se refere a uma sentença exarada por Deus, que aparece durante o Êxodo (cf. Dt 15) como a dizer “já que vocês nunca serão suficientemente solidários, sempre haverá pobres no meio de vocês”. Essa premissa é reforçada, textualmente pelos versículos 7 e 8: “Se houver em teu meio um necessitado entre os irmãos, em alguma de tuas cidades, na terra que o Senhor teu Deus te dá, não endureças o coração nem feches a mão para o irmão pobre. Ao contrário, abre-lhe a mão e lhe empresta o bastante para a necessidade que o oprime.”

Nesse contexto, riqueza e pobreza segundo os evangelhos refletem a dialética do bem e do mal, que existe no coração do ser humano. É mais fácil ser espiritualizado (na verticalidade) que solidário (na alteridade). Ao dizer “ai de vocês que são ricos!” Jesus revela que sua opção não aponta para os remediados que não abrem a mão, que não se dispõem à partilha.  Na contramão do senso comum aparece quem invectiva a denúncia da opressão e da exploração. Para alguns, tudo cheira a marxismo, na medida em que não querem que se misture fé com política, teologia com economia, etc. A figura dos bispos-profetas que pregavam sobre a caridade, o amor ao próximo, a opção pelos excluídos, parece que desapareceu. Os discursos modernos ou são burocráticos ou espiritualizados, demasiadamente sacramentalistas e litúrgicos, como “ir à missa”, confessar-se, receber a Eucaristia aos domingos, fazer novenas e pagar o dízimo de vez em quando. Acabaram-se os bispos-profetas.

Enquanto isto, Jesus continua sendo crucificado diariamente no pobre que sofre. Calaram as vozes que preconizaram uma teologia libertária, com vistas ao bem-estar do pobre e do oprimido. Fizeram calar os profetas, mas não criaram nenhum projeto que visasse erradicar a pobreza, a miséria, o desrespeito ou a violação dos direitos humanos. Hoje não admitem que se busque a libertação socioeconômica através da teologia, mas quem assim proíbe é incapaz de apresentar propostas ou soluções decentes.

À questão de uns dez anos publiquei um artigo na revista vaticana “Trinta Giorni” em resposta à falta de sensibilidade de um articulista, prelado europeu, que fez uma matéria demonstrando desconhecer as realidades latino-americanas. Afirmei na matéria aludida, que hoje a maioria dos profetas do Continente havia sido amordaçada, mas que a pobreza, a opressão e o desrespeito aos irmãos de Jesus Cristo esta cada vez pior, pois há muito pouca gente que denuncie esses descaminhos, e menos ainda ouvidos capazes de escutar os clamores.

A alta hierarquia não admite que se fale em pobreza, pois temem críticas à riqueza da Igreja e a sua acomodação. Dom Helder Câmara († 1999) Arcebispo Emérito de Olinda e Recife tem uma sentença lapidar sobre essa controvérsia: “Quando alimentei os pobres me chamaram de santo; quando perguntei por que existe pobreza, me chamaram comunista”.

Hoje, quem tiver a ousadia de profetizar, denunciar os mecanismos de opressão, criticar a pompa da Igreja, o egoísmo e a indiferença, como fizeram Jon Sobrino, Hans Küng, Leonardo Boff e outros, é calado, sofre sanções ou, no mínimo, perde espaços e tribuna para manifestar sua voz.

Mesmo os leigos – e isto eu conheço muito bem – que ousem fazer críticas sobre a apatia da Igreja, a burocracia pastoral ou a inércia missionária, sofrem pressões, boicotes, censuras.

Antônio Mesquita Galvão – Doutor em Teologia Moral

kerygma.amg@terra.com.br

 

Uma resposta

  1. Na verdade, só há uma teologia, a teologia da libertação e a Igreja não admite e nem assume a Verdade ” Eu sou o Caminho, a Verdade e e Vida”.Como é dificil uma Igreja rica entrar do Reino de Deus…

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