Bento XVI em defesa da família natural: pai, mãe e filhos

Do longo discurso de Bento XVI à Cúria romana no Natal de 2012, destacamos a defesa acalorada da Família Natural de Pai, Mãe e Filhos e sua forte denúncia ao “dogma” de Simone de Beauvoir de que: “Não se nasce mulher; a gente se torna mulher”.

“De acordo com tal filosofia, o sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e preencher pessoalmente de significado, mas uma função social que cada qual decide autonomamente, enquanto até agora era a sociedade quem a decidia”. – do texto abaixo.

João Tavares


 

Discurso do papa Bento XVI à cúria romana na apresentação de votos natalícios

Sala Clementina – Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2012

Senhores Cardeais, Venerados Irmãos no Episcopado e no Presbiterado, Queridos irmãos e irmãs!

Com grande alegria, me encontro hoje convosco, …
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Num tratado cuidadosamente documentado e profundamente comovente, o rabino-chefe de França, Gilles Bernheim, mostrou que o ataque à forma autêntica da família (constituída por pai, mãe e filho), ao qual nos encontramos hoje expostos – um verdadeiro atentado –, atinge uma dimensão ainda mais profunda. Se antes tínhamos visto como causa da crise da família um mal-entendido acerca da essência da liberdade humana, agora torna-se claro que aqui está em jogo a visão do próprio ser, do que significa realmente ser homem.

Ele cita o célebre aforismo de Simone de Beauvoir: «Não se nasce mulher; fazem-na mulher – On ne naît pas femme, on le devient». Nestas palavras, manifesta-se o fundamento daquilo que hoje, sob o vocábulo «gender – gênero», é apresentado como nova filosofia da sexualidade. De acordo com tal filosofia, o sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e preencher pessoalmente de significado, mas uma função social que cada qual decide autonomamente, enquanto até agora era a sociedade quem a decidia.

Salta aos olhos a profunda falsidade desta teoria e da revolução antropológica que lhe está subjacente. O homem contesta o fato de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um fato pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria. De acordo com a narração bíblica da criação, pertence à essência da criatura humana ter sido criada por Deus como homem ou como mulher. Esta dualidade é essencial para o ser humano, como Deus o fez.

É precisamente esta dualidade como ponto de partida que é contestada. Deixou de ser válido aquilo que se lê na narração da criação: «Ele os criou homem e mulher» (Gn 1, 27). Isto deixou de ser válido, para valer que não foi Ele que os criou homem e mulher; mas teria sido a sociedade a determiná-lo até agora, ao passo que agora somos nós mesmos a decidir sobre isto. Homem e mulher como realidade da criação, como natureza da pessoa humana, já não existem.

O homem contesta a sua própria natureza; agora, é só espírito e vontade. A manipulação da natureza, que hoje deploramos relativamente ao meio ambiente, torna-se aqui a escolha básica do homem a respeito de si mesmo. Agora existe apenas o homem em abstrato, que em seguida escolhe para si, autonomamente, qualquer coisa como sua natureza. Homem e mulher são contestados como exigência, ditada pela criação, de haver formas da pessoa humana que se completam mutuamente.

Se, porém, não há a dualidade de homem e mulher como um dado da criação, então deixa de existir também a família como realidade pré-estabelecida pela criação. Mas, em tal caso, também a prole perdeu o lugar que até agora lhe competia, e a dignidade particular que lhe é própria; Bernheim mostra como o filho, de sujeito jurídico que era com direito próprio, passe agora necessariamente a objeto, ao qual se tem direito e que, como objetivo de um direito, se pode adquirir.

Onde a liberdade do fazer se torna liberdade de fazer-se por si mesmo, chega-se necessariamente a negar o próprio Criador; e, consequentemente, o próprio homem como criatura de Deus, como imagem de Deus, é degradado na essência do seu ser. Na luta pela família, está em jogo o próprio homem. E torna-se evidente que, onde Deus é negado, dissolve-se também a dignidade do homem. Quem defende Deus, defende o homem.

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«Vinde e vereis». Esta palavra dirigida aos dois discípulos à procura, Jesus dirige-a também às pessoas de hoje que estão em busca. No final do ano queremos pedir ao Senhor para que a Igreja, não obstante as próprias pobrezas, se torne cada vez mais reconhecível como sua morada. Pedimos-Lhe para que, no caminho rumo à sua casa, nos torne, também a nós, sempre mais videntes a fim de podermos afirmar sempre melhor e de modo cada vez mais convincente: encontramos Aquele que todo o mundo espera, ou seja, Jesus Cristo, verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro homem. Neste espírito, desejo de coração a todos vós um santo Natal e um feliz Ano Novo. Obrigado!

Fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2012/december/documents/hf_ben-xvi_spe_20121221_auguri-curia_po.html

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Uma resposta

  1. Prezado Tavares,

    Neste início de 2013, você nos presenteou com uma parte do instigante discurso do Papa Bento XVI. Instigante porque versa sobre um tema que nos toca de perto, a família. Mas, sobretudo, porque faz algumas colocações que me parecem estranhas.

    A primeira estranheza surgiu quando ele cita a afirmação de Simone de Beauvoir, que ele chama de aforismo e você designou de “dogma” (essa sua colocação pareceu-me um alerta crítico ou mesmo uma provocação!): a gente não nasce mulher; a gente se torna mulher!

    Estranhei a tradução que ele propõe para o termo devient. A não ser que meus conhecimentos de francês estejam errados, parece-me que o verbo devenir significa exatamente tornar-se, vir a ser, e não ser feito, como ele propõe.

    Enquanto eu posso perceber, o que a S. de Beauvoir quis dizer foi: os seres do sexo feminino, segundo uma visão preconceituosa da sociedade, nascem com o corpo destinado a uma função determinada no ato de procriar, nascem fêmeas; e têm que se contentar com essa situação!

    Mas ser mulher é, para a pensadora francesa, muito mais do que isso. Só que a sociedade tem, através dos tempos, preferido reservar à mulher uma função subserviente, aparentemente mais condizente com sua natureza de procriadora (e cuidadora da prole), negando-lhe uma capacidade plena de pensar e, sobretudo, de fazer escolha. Talvez outras escolhas!

    As colocações do Papa me lembram uma postura dos pensadores estóicos: ao ser humano compete apenas buscar conhecer as leis que regem a natureza para acatá-las na íntegra. Mas, ao contrário daqueles filósofos dos tempos primitivos da era cristã, Bento XVI parece sugerir que a vontade não é tão importante para o ser humano: O homem contesta a sua própria natureza; agora, é só espírito e vontade … Agora existe apenas o homem em abstrato, que em seguida escolhe para si, autonomamente, qualquer coisa como sua natureza.

    Não me parece ser essa uma conclusão a ser deduzida dos escritos de S. Beauvoir. Aliás, se a mulher não puder escolher um outro papel que o de mera reprodutora submissa, como explicar a escolha das religiosas e missionárias? (O que vale também para os celibatários!)

    Estranho ainda a afirmação do nosso Pontífice de que o ser humano não pode buscar fazer-se, pois isto seria negar o próprio Criador. Como justificar, então, todo o processo educacional, sobretudo o processo de auto-educação, tão valorizado pela pedagogia moderna?

    Além disso, não consigo perceber uma negação da criação e, consequentemente, do Criador pelo fato de o ser humano ser dotado de vontade. Embora o criacionismo puro não seja uma das minhas convicções (o que não me impede de me considerar um bom cristão!), não vejo porque o próprio Criador não possa doar a uma de suas criaturas o dom da vontade, a possibilidade de escolher os seus caminhos pela vida.

    E, a meu ver, é exatamente isto que prega Beauvoir: que a mulher, ser humano dotado de vontade, não renuncie a esta magnífica possibilidade e, dentro dos condicionamentos da sua natureza, escolha os caminhos de sua realização.

    Gostaria de acrescentar ainda que não consigo captar o significado preciso das expressões sujeito jurídico e objeto, aplicados ao filho. Como, porém, não tenho formação especificamente jurídica, me abstenho de comentá-las.

    Mais uma vez agradeço a sua dedicação à nossa causa de Padres Casados e, particularmente as saudações natalinas.

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