Ratisbona, 547 meninos do coro da Catedral vítimas de abuso

O relatório final apresentado pelo advogado Ulrich Weber e divulgado pela mídia alemã: 49 culpados foram identificados. George Ratzinger, irmão do Papa Bento XVI, foi o diretor do ‘ensemble’ durante trinta anos.          

 

Violências corporais, dos tapas aos maus tratos e castigos físicos e violências sexuais, das carícias aos estupros. Cerca de 547 meninos do coro da Catedral de Ratisbona [Regensburg], dirigido durante 30 anos pelo irmão do Papa Emérito, George Ratzinger, foram vítimas desses abusos no decorrer de quatro décadas.

Este o resultado desconcertante que emerge do relatório final apresentado pelo advogado Ulrich Weber, encarregado em 2016 pela diocese alemã de esclarecer esta dramática situação que por anos oprimiu os pequenos integrantes do coro Regensburger Domsplatzen, os chamados “Pardais da Catedral”.

Weber tinha denunciado no ano passado que entre 1953 e 1992, cerca de um terço dos alunos do coro e da escola anexa tinham sofrido alguma forma de violência física, citando também fatos como espancamentos, privação de alimentos ou agressões carnais. Dezenas de vítimas tinham sido ouvidas pelo advogado (assim como os responsáveis pela instituição), e todos concordaram em denunciar que o coro era como “uma prisão”, “um inferno” e “um campo de concentração”.

Num primeiro momento a investigação apontava 231 casos de maus-tratos: 40 menores tinham sido estuprados, como o advogado declarou à BBC Mundo. Umas cinquenta crianças também tinham citado os nomes de dez responsáveis pelo coro, a maioria já falecidos. Mas os crimes já estavam prescritos, portanto de qualquer modo eles não seriam condenados. O relatório final mostra um número de vítimas duas vezes maior e confirma que 49 culpados foram identificados.

Em 2010, os abusos no coro tinham sido admitidos pelo então bispo de Ratisbona, o cardeal Gerhard Ludwig Muller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé até 1 de Julho último, ele aliás também acusado por Marie Collins – que se demitiu de membro da Pontifícia Comissão para a Tutela dos menores e vítima ela própria de abusos no passado –

  • de ter feito pouco para combater a pedofilia no Vaticano
  • e até de, ao contrário, dificultar às vezes o trabalho do grupo criado pelo Papa Francisco.

E também neste caso Müller tinha sido acusado de má gestão, embora sete anos atrás ele tivesse admitido publicamente os crimes. Com uma ressalva: que os episódios de violência não coincidiam com o período do mandato do professor Ratzinger, diretor do ensemble de 1964 a 1993.

Por seu lado, monsenhor Georg ressaltava que não tivera conhecimento de casos de violência sexual, embora numa entrevista ao jornal conservador da BavieraPassauer Neue Presse“, tenha declarado que alguns garotos lhe tinham falado de uns episódios estranhos que ocorriam na escola preparatória, que, no entanto, não o tinham levado a pensar que deveria intervir de alguma forma: “«Se eu tivesse sabido do excesso de violência utilizado, eu teria feito alguma coisa”.

Ainda assim Ratzinger pediu perdão por ter dado alguns tapas ou “puxado a orelha” aos garotos nos anos 70, quando era costume – até nas escolas – dar algumas bofetadas nos alunos como meio prático de obter ‘disciplina e rigor’, requisitos necessários” para atingir um nível musical e artístico superior”. Ele mesmo havia recebido algumas quando criança – disse ele. E confidenciava que tinha ficado “aliviado” quando os castigos físicos foram proibidos por lei, no início dos anos 80.

Weber havia questionado a veracidade das declarações do irmão de Bento XVI: “Na minha opinião, ele não diz toda a verdade”. E durante a conferência de imprensa para a apresentação do relatório, Weber atribuiu-lhe “corresponsabilidades” porque – afirmou – “fingiu não ver, ou, de qualquer modo deixou de intervir“.

Em todo o caso, não é ele o principal acusado do caso. No relatório é apontado o nome de Johan Meier que, entre 1953 e 1992, foi diretor da escola anexa ao coro e morreu pouco depois da aposentadoria, em circunstâncias ainda misteriosas. A pesquisa mostra que Meier foi o principal responsável pelos assédios. Testemunhas falaram de cadeiras jogadas por ele contra os alunos – uma vez tinha quebrado uma nas costas de um garoto – ou do costume de levar dois ou três meninos, geralmente entre os 8 e os 9 anos de idade, para o seu quarto para lhes oferecer álcool e depois puní-los. Um sistema por meio do qual obtinha prazer sexual.

Às vítimas a diocese de Ratisbona – que no ano passado admitia num comunicado que 72 ex-alunos do famoso coro haviam sido espancados com tanta violência que tinha sofrido lesões corporais – ofereceu reparação financeira no valor de 2.550 euros para cada um.

O porta-voz da diocese Clemens Neck garantiu cooperação plena com o advogado Weber, cujas conversas com as vítimas foram de vital importância. Reafirmou também que o trabalho de investigação prosseguirá de maneira autônoma e que apenas o relatório final será decisivo. O que foi divulgado hoje mostra a face mais horrível do coro que, com mais de mil anos de história, é provavelmente o mais antigo do mundo.

http://www.lastampa.it/2017/07/18/vaticaninsider/ita/vaticano/ratisbona-bambini-del-coro-del-duomo-vittime-di-abusi-gzkrckhwodvvqde3mp2fhn/pagina.html

 

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