Mesa redonda
Muito foi já falado sobre as mulheres. Eu vou me concentrar somente numa mulher: Maria Madalena (MM).
Baseio-me em (e cito) especialmente 3 fontes:
1. O artigo “Maria Madalena e outras Marias”, da Biblista Irmã Mercedes Lopes, publicado no site “Ora et Labora” em 25/08/09
2. O artigo “Canonização e Marginalização: Maria de Mágdala” da Teóloga de Harward Karen L. King, publicado na revista “Concilium” Nr 3 de 1998
3. O livro “Maria Magdalena” de Marianne Fredriksson, um romance publicado na Suécia em 1997.
As duas últimas baseiam-se não só nos 4 Evangelhos, nos Atos dos Apóstolos, nas cartas de S. Paulo e nas cartas pastorais a ele atribuidas, mas também nos Evangelhos Apócrifos de Filipe e de Maria Madalena (ambos do século II, achados no século XIX no Egito, os quais os Gnósticos conservaram, mas foram rejeitados pela Igreja),
Porque MM?
MM era uma figura proeminente entre os seguidores de Jesus, com um papel e uma missão muito especial. Infelizmente a imagem dela foi deturpada – e das consequências desta deturpação nós mulheres na Igreja Católica sofremos até hoje.
(Eu não vou tocar nas muitas lendas acerca de MM, de ela ter sido esposa de Jesus, ou até ter tido filhos de Jesus, isso aqui não interessa)
Olhemos para as Mulheres no tempo de Jesus
Naquele meio elas não tinham muitos direitos e não valiam quase nada. A oração diária de homens judeus ”Louvo-te Senhor Deus do Universo, que não me criaste como mulher” – e a da mulher: “Louvo-te Deus que me criaste segundo a tua vontade”, diz tudo.
Jesus, porém, iniciou uma mudança radical a respeito das mulheres:
Segundo o Evangelho de MM. Paulo teria perguntado a ela sobre a posição de Jesus a respeito das mulheres: e ela teria respondido: Ele não tinha posições a respeito das mulheres. Ele as viu simplesmente e totalmente como pessoas . Ele nunca as adulava nem as quis proteger.
Para Ele discipulos e discipulas eram iguais. Com isso Jesus voltou ao início: “Deus criou os humanos segundo a sua imagem, homen e mulher ELE os criou”.
Então quem era MM?
Diz Irmã Mercedes Lopes: “Quando se pergunta quem foi MM, normalmente a resposta é: “uma prostituta arrependida”. E é isso que MM justamente NÃO foi. Não há no Novo Testamento ou na literatura cristã primitiva o mínimo indício de prova que sustente este retrato.
Nos 4 Evangelhos, MM é a mulher mais citada pelo nome. Chama a atenção o fato de MM ser citada em primeiro lugar em todos estes textos (com a única exceção em João 19,25, onde a Mãe de Jesus aparece em primeiro lugar).
Os Evangelhos do Novo Testamento e outra literatura cristã primitiva descrevem MM de forma coerente e constante como discípula proeminente e fiel de Jesus.
Diz Karen King: “O Evangelho de MM ilustra as características da virtude espiritual na calma de MM, em sua inabalável fé, em sua solicitude pelos outros discípulos, em seu destemor em face de possível perseguição, e em sua avançada compreensão espiritual dos ensinamentos de Jesus. Desta forma o Evangelho de MM a eleva a modelo de liderança cristã baseada em maturidade espiritual”.
“O Evangelho de MM apresenta assim o mais claro argumento da legitimidade da autoridade e liderança da mulher no cristianismo primitivo. Ao insistir que a autoridade deve basear-se na maturidade espiritual e não em distinções de sexo, o Evangelho de MM abre a possibilidade de um espaço não determinado pelo gênero, em que tanto a mulher quanto o homem podem exercer a liderança legítima que visa ensinar, pregar, e exercer a solicitude pelos outros.”
Segundo Marianne Fredriksson no Evangelho de MM uma das mensagens centrais de Jesus teria sido “não fazeis daquilo que eu vos ensinei leis nem regras como os escrivas fizeram”.
Além de discípula fiel MM também é: testemunha da crucifixão e do sepultamento de Jesus havia tantas discípulas como discípulos. E, no fim, junto da cruz somente estavam as mulheres, os homens tinham fugido menos João que era o mais novo de todos, quase uma criança. E MM é a preeminente testemunha de sua resurreição. Mais ainda, ela é a enviada aos onze com uma mensagem de Jesus. Jesus ressuscitado lhe dá instrução especial e a encarrega, qual apóstola dos apóstolos,de levar-lhes a boa-nova, isso tanto em João como no Evangelho de MM.
Diz Irmã Mercedes Lopes: “Após a ressureição ela reconhece Jesus quando ELE a chama pelo nome “Maria”. Em toda a Bíblia, chamar pelo nome faz parte dos relatos de missão. Portanto neste relato pascal se revela a importância da missão de MM nas primeiras comunidades cristãs: Ela é enviada por Jesus com uma mensagem para os outros discípulos e assim foi investida de autoridade”.
Karen King escreve: “O fato de ter sido escrito sob seu nome um evangelho e de ela aparecer de forma tão saliente nos escritos primitivos mostra que como Pedro e Paulo, MM era uma figura a quem se apelava como a um apóstolo. Ela era, portanto, uma figura muito mais importante na Igreja primitiva do que transparece no retrato canônico do Novo Testamento.
O que fizeram dela?
A mudança para a prostituta arrependida deu-se pouco a pouco.
Já os Apostolos a puseram de lado: “As suas palavras pareceram-lhes um desvario, e eles não acreditaram”, Lc 24, 9-11; Mc 16,9-11. Como Jesus ia falar a uma mulher? Esqueceram-se, p. ex., da conversa que ele tivera com a Samaritana.
Também pode ser significante a ausência dela nos Atos dos Apóstolos.
Nas cartas pastorais atribuidas a Paulo, as mulheres em geral voltam a ser tratadas não como Jesus as tratou, mas como era a praxe na época: “Mulheres precisam cobrir a cabeça, homens não, porque são feitos à imagem de Deus…. mulheres não podem falar na igreja” etc., etc.
Karen King salienta: “Também Gregório Magno no século VI contribuiu muito para o rebaixamento de MM. Na descrição dele, MM perdeu toda aparência da devotada discípula. Tornou-se um modelo para as mulheres se imolarem por causa de seus crimes de sexualidade – um retrato fantástico e de mau gosto. Ele só vê a mulher como objeto de sexo.”
“Esta invenção faz parte das típicas construções patriarcais ocidentais de papéis de gênero, que definem a mulher quase que unicamente segundo papéis heterosexuais em relação ao homem. O retrato da pecadora arrependida foi inventado para anular um anterior e muito vigoroso retrato de MM como discípula exemplar e líder apostólica.”
Portanto, nada de admirar que esta proeminência de MM não pudesse continuar.
Mercedes Lopes escreve: “No decorrer dos séculos confundiram então MM com a pecadora anônima que lavou os pés de Jesus (Lc 7,36-50). Porém, não há neste texto de Lucas nenhuma relação entre esta moça e MM. Segundo Marcos, MM seguia Jesus desde a Galileia. Portanto, ela devia ser conhecida na tradição por seu nome: Maria, e sua procedência: Magdala. A mulher que é apresentada neste texto de Lc 7,37 parece que não pertencia à comunidade dos discípulos e discípulas. É uma mulher marginalizada, anônima, corajosa e decidida que toma a iniciativa de entrar na casa de Simão, o fariseu, e de fazer com Jesus o rito de acolhida que seu anfitrião havia omitido”.
“De maneira sutil, a deturpação da figura de MM como a pecadora mantém uma velha atitude de suspeita em relação às mulheres, passando a ideia de que sua natureza e seus corpos são espaços perigosos, identificados com pecado. E os corpos inferiorizados e culpabilizados são mais facilmente submetidos.”
Desta maneira, a discípula fiel, que acompanhou Jesus durante sua vida pública, que era testemunha da crucifixão e ressureição, foi transformada em pecadora arrependida. Mesmo que esta deturpação da figura de MM não fosse muito consciente, “ela é um desvelamento do medo que o androcentrismo tem de perder o poder. Porque, se a tradição da discípula e apóstola permanecesse, haveria o perigo de que as mulheres descobrissem a sua importância nas origens do cristianismo e se sentissem animadas a assumir com autoridade, dignidade e pleno direito, seus espaços de reflexão e de decisão. As mulheres estariam lado a lado com os homens.”
Resultado para nós
Portanto, se a verdadeira imagem de MM. tivesse vingado, a nossa situação hoje provavelmente seria differente. E talvez houvesse na Igreja mais liderança em vez de poder, mais espiritualidade e menos leis, prescrições e rubricas.
Na vida civil a mulher ganha cada vez mais espaço, e até na Igreja Luterana isto é o caso. Somente na Igreja Católica Romana a mulher permanece em segundo plano, digna somente de servir os homens (sacerdotes).
MM era uma figura muito importante no início do cristianismo. Com a “queda” dela veio a queda de todas nós.
Para encerrar uma frase de Marianne Fredriksson que também se pode dizer de Jesus: “O mundo produziu muitos grandes pensadores com ideias novas, mas em regra somente um pequeno número de gente os compreendeu e entendeu o que falavam; a maior parte das mensagens deles foi sempre mal entendida e ajustada aos preconceitos predominantes de cada época.”
Respostas de 4
Que bom seria se, a exemplo da Igreja Anglicana, também houvesse em nossa Igreja Católica a coragem e a dignidade de se ordenarem mulheres diaconisas, presbíteras e bispas! Quanta visão e posicionamento cruel oriundos de um machismo celebatário poderia ser superado e quanta humanidade poderia ingressar em nossas enrijecidas veias!
Texto muito importante para conhecer um pouco mais do papel (ou da falta dele) da mulher na Igreja. Aos poucos as mulheres vão preenchendo os espaços, mais teólogas produzindo estudos e textos, mais teses sendo apresentadas, até que com o tempo, a Igreja venha a reconhecer a verdadeira importância da mulher.
Pela experiencia que tive durante 40 anos de cacasada com um frei Pe. Capuchinho e depois abandonada, sem dizer nada foi a uma viagem a casa de uma prima e nao voltou mais, apareceupara assinar o divorcio.Fomos casados tambem na Igrja Catolica por licença do Vaticano.O que dizer? acho que mais nada. Tudo isto e CONFLITO?
LIADA LIMA, SÓ AGORA ESTAMOS REVISANDO AS MENSAGENS ENVIADAS ANO PASSADO. E ENCONTRAMOS ESTA SUA, NARRANDO UM FATO SUPER DESAGRADÁVEL QUE LHE ACONTECEU. ESTE FATO TALVEZ É O ÚNICO ACONTECIDO COM PADRE CASADO NO BRASIL, DEPOIS DE TANTOS ANOS…
LAMENTO MUITO E PEÇO A DEUS QUE LHE DÊ FORÇA, CORAGEM E ÂNIMO PARA CONTINUAR VIVENDO, E VIVENDO COM REALIZAÇÃO PESSOAL.
DIZ O VELHO DITADO: ANTES SOZINHA DO QUE MAL ACOMPANHADA. TALVEZ SEJA ESTE O SEU CASO.
VÁ AVANTE, VOCÊ VENCERÁ OLHANDO CONFIANTE PARA O FUTURO.