Obediência e liberdade

Foi Jesus Cristo o maior conscientizador da autêntica liberdade. Por ela foi capaz de viver e morrer.

Por este motivo vai aqui um texto sobre o assunto na CELEBRAÇÃO DO SEU NATAL! Meu abraço de um Feliz e Abençoado Renascimento em Cristo Jesus! Célia

1. É difícil encontrar num Tratado de Direito e num Compêndio de Moral assunto tão maltratado quanto a relação entre ordem social e liberdade individual. A “epikéia”, termo grego usado por Aristóteles, é descrita por ele como a virtude que inclina uma pessoa a interpretar uma lei no sentido mais favorável à liberdade do indivíduo do que à intenção do legislador. Um legislador realmente sábio, como o era Solon, não dissocia a lei da liberdade, mas reserva a esta um espaço bem amplo no contexto da própria lei.

Uma interpretação benigna da lei é sempre mais legítima e inteligente do que uma interpretação mais severa. Uma lei sempre manifesta a vontade de alguém. Este alguém pode ser um tirano interessado em reduzir a um mínimo controlável a liberdade individual de seus súditos. Mas pode ser também a de um sábio que não quer reinar sobre um bando de escravos. É por isso que suas leis não visam diminuir a liberdade dos seus concidadãos, mas apenas circunscrevê-la, mantendo sua aplicação concreta dentro dos limites do possível e do realizável.

A capacidade do homem comum de usar de forma plenamente responsável a sua liberdade é reduzida. As mais das vezes nem sequer sabe o que é ser livre. Prefere o amparo seguro da lei às incertezas que a liberdade inevitavelmente oferece aos que a ela se confiam.

A lei é necessária, assim como o estribo é necessário a quem quer montar num cavalo. O apóstolo Paulo chama a lei de pedagoga, dando a entender que ela educa, educa para a liberdade, pois só é legítima aquela lei que educa para a liberdade. Uma lei que não se destina a ampliar o espaço interior e exterior destinado ao desenvolvimento de uma vontade cada vez mais livre, é arbitrária e criminosa.

Assim como o bom educador é aquele que torna a sua presença cada vez menos necessária, do mesmo modo pode considerar-se legítima somente aquela lei que um dia se torna desnecessária. Não merece o nome de ordem justa uma ordem social que só consegue manter-se mediante o emprego da força. Muitos policiais na rua não recomendam uma cidade como ordeira e civilizada.

A lei é um instrumento de valor relativo. O ideal de uma sociedade perfeita é a sociedade sem leis, onde os tribunais de justiça e os postos policiais desaparecem, cedendo lugar a escolas e a campos de esporte. Onde há tanto espaço para o lazer quanto o que é reservado ao trabalho. O chamado tempo livre é tão indispensável à boa saúde social quanto o que os economistas de todos os quadrantes culturais e ideológicos definem como tempo útil.

2. Tanto Cristo como o apóstolo Paulo acabaram perdendo a vida por se terem colocado do lado dos pobres e dos fracos. “Quando sou fraco é que sou forte” (II Cor 12,10). O que levou a elite judaica a descrer de Jesus foi o fato de Ele não ser dado a demonstrações de força. Zombavam da sua fraqueza: “Se és o Filho de Deus, então desce da cruz” (Mc 15,30).

A liberdade dos filhos de Deus que Cristo veio prometer como dom divino a seus discípulos é a mesma liberdade soberana que motivou todas as ações de sua vida aqui na terra. Nada impressiona mais a um observador honesto da vida de Jesus do que a incrível liberdade com que procedeu em todos os momentos da sua vida. “Minha vida ninguém m’a tira, mas eu a posso dar, se assim o quiser, e posso retomá-la quando me apraz” (Jo 10,17). O Pai Celeste é Deus porque “possui a Vida em si mesmo” (Jo 5,26).

A vida que temos não a devemos a nós mesmos: “Vós não tendes vida por vós mesmos” (Jo 6,53). Jesus viveu a sua vida em perfeita liberdade, pois nunca encaminhou ao Sinédrio um pedido de licença para pregar. Viveu a sua curta, porém sofrida vida terrena da maneira como quis. Sempre “bebendo do próprio poço”, diria Gustavo Gutierrez.

Ser livre como Cristo o foi significa “não depender de ninguém e não precisar de ninguém”. Nem sequer de Deus podemos depender se quisermos ser tão livres como Jesus o foi.

Ninguém ingressa numa autêntica Comunidade Cristã porque tem necessidades que só um outro melhor e mais sábio pode atender. Quanto mais necessitado alguém é da ajuda de terceiros, tanto menos livre é. Livre só pode considerar-se aquele que basta por completo a si mesmo. Gustavo Gutierrez diria que “livre de todo só é aquele que encontra em seu próprio poço as águas de que necessita”.

Livre, segundo a liberdade dos filhos de Deus, é aquele ao qual o Pai Celeste tornou participante da sua própria liberdade sem limites. A alma verdadeiramente soberana e livre é aquela que “tudo julga, mas por ninguém é julgada”, como afirma São João da Cruz.

Faz parte da condição de escravo da lei ter que justificar o que faz. Verdadeiramente soberano como Deus é aquele que “está em condições de se julgar a si mesmo sem necessitar que terceiros o façam por ele”. Quando Jesus afirmou: “Todo o poder me foi dado no céu e na terra”, completa esta afirmação com outra, tão categórica quanto a primeira: “O Filho do Homem não veio para julgar”. “Eu não vim para julgar o mundo” (Jo 12,47). “Eu a ninguém julgo” (Jo 8,15).

Uma das piores pragas da vida em comunidade é a figura do “anjo”, do confrade mais perfeito que os demais, encarregado de bisbilhotar a vida dos colegas. Raramente este “anjo” consegue enxergar os próprios defeitos com a mesma severidade com que julga os de seus colegas.

O que torna a justiça humana tão capenga é o desconhecimento praticamente total da parte dos que a administram dos fatores de natureza subjetiva que induzem uma pessoa a enveredar pelo caminho do crime. A solução não está em explicar o crime até o ponto de justificá-lo, mas em definir melhor o conceito de justiça. Fazer justiça não é o mesmo que restabelecer o império da lei. Em Cuba o império da lei é total, mas não é sequer parecido com o que na Inglaterra se entende por lei e por justiça social.

O caminho que conduz a uma ordem social justa não é o do império da lei, mas o da “lex charitatis et libertatis” de Santo Tomás de Aquino. Só lá onde cada um pode fazer tudo o que quer e como o quer, pode-se falar em sociedade livre. Só lá onde cada qual evita fazer tudo o que pudesse prejudicar a um outro é que se pode falar em Comunidade de Amor.

Evitar prejudicar a um outro é o mínimo que se pode esperar de uma Comunidade de Amor. Entre este mínimo e máximo que se pode esperar de quem aprendeu de Jesus como amar os seus irmãos, existe um espaço tão grande quanto o que separa o finito do infinito.

É este espaço sem limites que Cristo veio desbloquear e tornar acessível à ânsia de amor do coração humano. O Projeto do Pai Celeste, tal como Jesus no-lo veio manifestar, além de audacioso, é extremamente ambicioso. A glória e o grau de nobreza que Deus quer conferir aos homens é o mesmo com que revestiu de honra e glória o seu Filho.

Passados 2.000 anos, ainda é raro encontrar quem aposte mais na liberdade e na capacidade de amor dos homens do que na pretensa sabedoria de um complicado Código de Leis. “Não tendes vida em vós mesmos”, diz Cristo em (Jo 6,53). Ninguém pode tornar-se bom ou melhor por seus próprios méritos. Deus é o único vivente que deve a sua vida a si mesmo. “Só o Pai possui vida em si mesmo” (Jo 5,26).

A vida que vamos herdar em virtude da nossa fé em Cristo é de natureza totalmente diferente da vida à qual a morte irá pôr um fim. Tudo o que nossa fé em Cristo nos revelou não tem comparação com o que a visão de Deus nos vai manifestar.

Deus nos deu a vida, mas não será Ele que vai vivê-la por nós e em nosso lugar. Somos nós que temos que aprender a viver esta e as muitas outras “vidas” que ainda estão à nossa espera no Além.

Pe. José Marcos Bach, SJ (in memoriam)
Natal de 2005.

Uma resposta

  1. Gosto muito de ler e reler os estudos e reflexões de meu primo Pe.Marcos Bach. Para mim ainda por muito tempo irão alimentar o meu espírito. Durante trinta e três anos de convívio e trabalho em conjunto pude experimentar de perto a sua amizade, respeito e amor! Que suas obras o acompanhem no Além e que muitos e muitas se beneficiem com elas! O que mais o caracterizou foi justamente a LIBERDADE e o AMOR! Ele dizia: “Só quem é livre pode amar e só quem ama é livre!

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