
Andrea Grillo – 21 de maio de 2017 no blog: Come se non
Foto: cittadellaeditrice.com
Tradução: Orlando Almeida
Muitas vezes acontece, no entanto, que a proposta do silêncio seja impulsionada por uma preocupação não litúrgica, mas extra-litúrgica: alimenta-se de uma lógica “antimodernista” que facilmente leva a ver o silêncio como “negação da palavra” e “negação da ação”.
A discussão decorrente da divulgação da notícia sobre um “prefácio” (ou posfácio) que J. Razinger escreveu para o novo livro do cardeal Sarah, dedicado ao tema do “silêncio” não pode deixar de enfrentar duas frentes de questões, que se ligam uma à outra em torno do tema do “silêncio” e poderiam ser distinguidas nestes dois níveis:
a) Por um lado, a questão relaciona-se com o “silêncio” como “tema litúrgico”, e como tal merece uma leitura cuidadosa e livre de preconceitos. Ninguém duvida que hoje a recuperação de uma “experiência do silêncio” seja decisiva para a qualidade e autenticidade da ação ritual. O que está em discussão é qual deve ser o caminho, o método e a abordagem correta para preservar e promover tal silêncio.
b) Por outro lado, deve-se reconhecer que, também na frente institucional, em particular nas relações entre o “Papa” e o “Papa Emérito”, o silêncio é uma dimensão fundamental para garantir – rebus sic stantibus (estando as coisas como estão – NdR) – a clareza no exercício da autoridade, evitando conflitos ou abusos de poder.
Um raciocínio breve em torno de ambos estes perfis e do seu delicado entrelaçamento permitirá esclarecer melhor o teor das objeções levantadas e seu caráter objetivo e desapaixonado.
A liturgia e o silêncio: uma história secular
Desde há um século o Movimento Litúrgico defronta-se com uma redescoberta do valor do silêncio para a ação litúrgica: a partir da primeira obra de O. Casel (De philosophorum graecorum silentio mystico) até às reflexões mais recentes de Giorgio Bonaccorso (Il tempo come segno: vigilanza, testimonianza, silenzio – O tempo como sinal: vigilância, testemunho, silêncio – EDB, 2004) – para indicar apenas dois, entre os especialistas do tema – poderíamos identificar um renovado sentido de “mediação ritual do silêncio” que atravessa todo o século.
A ação ritual, em outras palavras, constitui uma “mediação do silêncio” que a liturgia realiza de maneira multimídia: a música, o gesto, a imagem, o espaço, preparam, acompanham e estruturam um “encontro íntimo” com o Senhor e com os irmãos, que exige silêncio como qualquer intimidade.
Esta linha de redescoberta sabe, no entanto, que o silêncio ritual não se gera principalmente por subtração, mas por sucessão, por sequência e por contraste. Sabe sobretudo que o silêncio litúrgico é “palavra do e para o silêncio” e “ação do e para o silêncio”.
Muitas vezes acontece, no entanto, que a proposta do silêncio seja impulsionada por uma preocupação não litúrgica, mas extra-litúrgica: alimenta-se de uma lógica “antimodernista” que facilmente leva a ver o silêncio como “negação da palavra” e “negação da ação”.
Este modo de compreensão da importância do silêncio não tem raiz na liturgia, mas na apologética antimodernista. Ela facilmente identifica na Reforma Litúrgica, na redescoberta da Palavra e na retomada da “participação ativa” autênticas distrações do silêncio, uma espécie de “substituição arbitrária de Deus pelo homem”.
Para este modelo de leitura da liturgia o silêncio garante o primado de Deus, enquanto que a ação, a palavra e a adaptação dos ritos seria abuso humano sobre a tradição que, como tal, impede o silêncio.
Antimodernismo litúrgico e reforma da reforma
Nesta linha coloca-se, desde há muitas décadas o pensamento de J. Ratzinger e a sua retomada, em nível menos profundo e mais ingênuo, por R. Sarah. Em torno do “primado do silêncio”, eles, embora de formas diferentes, propuseram uma releitura da história e do evento eclesial que é marcado por um dualismo insuperável:
a Reforma litúrgica seria o “trauma” que teria interrompido a tradição e seria preciso recuperar a continuidade através de uma “reforma da reforma”.
O desenvolvimento do tema do “silêncio” serve perfeitamente para tal operação, que não é litúrgica, mas apologética. A queixa sobre a falta de silêncio nas liturgias de hoje seria culpa
- da Reforma,
- da ênfase na palavra
- e do ativismo pós-conciliar.
Este discurso é emotivo e desprovido de fundamento histórico ou de argumentação racional. As testemunhas dos tempos passados sabem bem que não é assim. E que voltando no tempo não se encontra o silêncio, mas ruído, paralelismo de ações, “função” mais que celebração.
Neste caso, as “razões de silêncio” – que são fortes e respeitáveis – levam Ratzinger e Sarah a uma espécie de “silêncio da razão”: o que se expressa é uma emotividade perturbada
- pelo Concílio,
- pela Reforma
- e pela modernidade,
à qual se quer contrapor um modelo idealizado e irreal.
Sobre as mudanças recentes descarregam-se todas as culpas, sem discernimento.
O Movimento Litúrgico – de Casel a Bonaccorso – reconhece ao contrário que para “favorecer o silêncio” é preciso atravessar a Palavra e a ação sacramental, redescobrindo as suas lógicas secretas, as exigências
- de ação e de tato,
- de visão e de imaginação,
- de movimento e de canto.
O silêncio não embalsama a assembleia, não pretende uma retirada geral e uma paralisia da ação, mas ao contrário exige uma ação e uma palavra coral. É este o ambiente que gera o silêncio místico e a ação silenciosa.
Alguns exemplos dos últimos tempos
A razão desta “cisão” entre silêncio e reforma litúrgica – que Ratzinger e Sarah têm em comum – é uma espécie de desespero sobre a “actuosa participatio” (= participação ativa – Cf. nº 30 da Constituição Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II – sobre a Liturgia – NdR).
E o exemplo mais ilustre deste desespero é constituído pelo Motu Propio Summorum Pontificum, em que o horizonte do silêncio se abre apena por meio de uma hipótese artificiosa e incontrolável de “paralelismo” entre duas formas do único rito romano.
Com este MP o pontificado de Bento XVI consagrou de alguma forma uma cisão: não tendo esperança de “mediar o silêncio no rito reformado”, pretendeu renovar, por meio de uma ficção jurídica muito ousada, a vigência do rito já não vigente, para recuperar um “horizonte de silêncio”.
Esta medida, que de alguma forma também se apresenta como uma confissão de impotência, funda-se no “preconceito apologético e antimoderno” de leitura da liturgia como a “ação de Deus” e não o homem.
Esta contraposição termina com duplicar a realidade, cindindo em cada passagem o que é de Deus e o que é do homem. E constrói um sistema blindado, onde os “direitos de Deus” avançam só e somente mediante o que “silencia o homem”. E o silêncio é aqui, evidentemente, lembrete simbólico poderosíssimo, que parece confirmar esta abordagem “assustada”.
Também no livro recente “Últimas conversas” – e depois até mesmo no inédito publicado por ocasião do seu 90º aniversário – J. Ratzinger não sai desta visão bastante estreita da liturgia: que talvez – por sua própria admissão – derive do seu invencível “Lust am Widerspruch…”, “gosto da contradição.” E R. Sarah repete simplesmente este estereótipo não argumentado, reduzindo-o quase a um slogan.
O silêncio como método: litúrgico e institucional
Há portanto razões de mérito para discutir não a justa exigência de “silêncio”, mas o modo distorcido e apologético de referir-se ao “silêncio”, reevocando
- nostalgias da sociedade fechada,
- recuperação de estruturas hierárquicas,
- diferenças ontológicas insuperáveis,
- proibições e preconceitos superados.
Mas existem também “razões de método” que justificariam a perplexidade em relação ao “prefácio”, mesmo que R. Sarah tivesse escrito o “livro do século” sobre o silêncio. Exatamente porque, admitido e não concedido o limite considerado, a palavra do “Bispo emérito de Roma”, precisamente porque foi papa, tem de qualquer forma um peso e uma relevância que não é mais compatível com a sua renúncia.
A renúncia ao exercício do ministério determina uma condição singular da palavra de J. Ratzinger, que adquire autoridade “ipso facto“, em razão do seu ministério passado.
Por isso, a “imposição do silêncio” não aparece objetivamente como uma retaliação injustificada, ou como a privação de um direito da pessoa, mas como a salvaguarda necessária de uma autoridade que não pode ser de forma alguma “duplicada”, mesmo por engano.
Então, se já seria delicado ler uma opinião do papa emérito – sei lá – sobre as vacinas ou sobre as fases da vida – é totalmente inoportuno ouvir o seu elogio de um Prefeito de Congregação que recentemente foi objeto de censuras explícitas por parte do sucessor.
Uma palavra irresponsável corre o risco de se tornar “caso institucional” e “causa de divisão”, muito além das intenções com as quais foi escrita. Devido a esta “incontrolabilidade” da palavra, neste caso, o silêncio deveria impor-se.
Eis pois a necessidade de falar do silêncio, a necessidade de encontrar as antigas e as novas razões para o silêncio, mas sem nunca cair em um entusiasmo pelo tema tal que faça embaçar a lógica litúrgica e a tomada da palavra. As razões do silêncio nunca são tão fortes que forcem o silêncio da razão.
Andrea Grillo
Professor de Teologia dos Sacramentos em Roma, desde 1994, no Pontifício Ateneu S. Anselmo e de Liturgia em Pádua, na Abadia de Santa Jutina. É pai de Margherita e di Giovanni Battista.
É autor do blog Come se non.

Uma resposta
Hola!
Lo de Francisco es: una iglesia “en salida”.
(ya lo explicó histórico-magistralmente nuestro Cumpa E. Hoornaert)
Estas cosas que le pasan al ex-Papa son los resabios de: una iglesia “en-cerrada”.
Pero no hay peligro: Bergoglio sigue como “Pancho por su mundo”
¿no les parece?