1. Vemos a pedra que vem ao nosso encontro, mas não vemos a mão que a jogou. Por outra: percebemos o efeito, mas não percebemos a causa. Quando observamos uma realidade, o que vemos não é a realidade toda e por inteiro, mas apenas uma parcela de um Todo muito maior e mais amplo. Este Todo (hólos, em grego) permanece oculto e o que percebemos é apenas um reflexo seu. David Bohm chama de autofraude científica toda e qualquer tentativa de identificar como real a imagem abstrata que a nossa mente nos oferece a respeito da realidade total. Concorda com os sábios do antigo Oriente quando afirmavam que “a verdade não cabe em conceitos”. Einstein desistiu da ideia de compreender o universo material contentando-se com admirá-lo, quando descobriu que ele não cabia em equações e que até a mais bela teoria científica continha mais conhecimento falso do que verdadeiro.
A falácia do método dogmático de pensar e de lidar com a verdade total está em que absolutiza o relativo e atribui caráter definitivo ao que é apenas provisório.
2. Como evitar a armadilha da autofraude? Como livrar-se da espécie de conhecimento falacioso que em vez de nos iluminar com o conhecimento da verdade nos leva a um modo superficial e falso de interpretar a realidade? Não é juntando meias verdades que se consegue o acesso à verdade total. A visão do todo é indispensável para que se possa entender seus aspectos parciais. Cientistas há que definem este modo de abordar a realidade como holográfico.
Teilhard de Chardin o define como sintético em oposição ao que define como analítico. Dois cientistas dos mais renomados da atualidade, o americano David Bom e o biólogo inglês Rupert Sheldracke postulam a existência de um patamar psíquico extremamente sutil que eles denominam como o Não Manifesto do qual todo Manifesto procede.
O que um cientista observa e descreve não é a realidade em seu todo, mas apenas um aspecto parcial dela. A autofraude consiste em tomar este conhecimento parcial como se fosse total. O acesso à verdade total foge da competência do cientista e passa a ser da competência do místico. Um cientista procura entender o mundo em que vive, está à procura de explicações, ao passa que o místico se contenta com admirá-lo.
“O universo é um mistério, dizia Einstein”. Mistério muito mais insondável que ele é o Criador deste universo. O mistério não resulta da incapacidade humana de abarcá-lo em sua totalidade, mas resulta da consciência de que a realidade total é muito mais ampla e complexa do que o pouco que dela conseguimos perceber.
O Supraconsciente e o Não Manifesto sobrepujam de forma esmagadora a pequena e modestíssima porção do mundo total que conseguimos alcançar com a nossa inteligência e com o recurso de nossos limitados meios de observação. “O essencial é invisível”, dizia Saint Exupéry. O universo não contém espaços vazios, pois o que era visto durante séculos como vácuo é na realidade o seu oposto: um plenum. Há mais energia estocada no espaço vazio do que no espaço ocupado por corpos celestes.
Uma das teses prediletas do físico David Bohm está a de que “por detrás da ordem visível existe uma outra ordem, muito mais sábia e complexa do que tudo o que conseguimos expressar com o nosso conceito de ordem”. Sua tese sustenta que “por detrás da ordem visível existe uma outra ordem que ele denomina de Ordem Implicada”, a qual rege e determina tudo o que costumamos associar ao conceito habitual de ordem. Além disso, Bohm postula a existência de uma espécie de razão superior à qual dá o nome de insight, responsável, segundo ele, pela produção do conhecimento intuitivo ou inspirado. A inspiração é conhecimento puro, isto é, a informação procede diretamente dos planos extremamente sutis do supraconsciente sem a intermediação do pensamento racional. Foi assim que Newton descobriu a Lei da Gravidade, ou para ser mais exato, o caráter universal da Lei da Gravidade. Foi também por este caminho que Einstein descobriu os aspectos básicos da Teoria da Relatividade.
É bem provável que Jesus deparou com as inspirações mais sábias enquanto orava. A Bíblia diz que Ele passava horas e até mesmo noites inteiras orando. Aproveitava o silêncio da noite e a solidão de uma montanha para se encontrar a sós com o Pai Celestial. A oração que Jesus recomenda não é a que os pagãos costumavam praticar. Era o método que séculos mais tarde Teresa de Ávila denominou de “oração do silêncio”. É, segundo Teresa, a oração preferida dos que já atingiram a sétima morada. Teresa deu-lhe o nome de “oração do silêncio” porque nela não há mais lugar para palavras, conceitos e imagens. É, pois, oração em estado puro, fruto de uma comunhão direta e imediata com Deus. Trata-se no caso de uma forma de contato da alma com seu Bem-amado totalmente espontâneo, livre e isento de formalismos estereotipados.
O fato de Teresa atribuir esta forma de oração aos que ultrapassaram o limiar da sétima morada de sua evolução espiritual, deixa entrever que são bem poucas as pessoas que conseguem relacionar-se com seu Deus de forma tão íntima, espontânea e livre. Concordo plenamente com o teólogo jesuíta Karl Rahner quando afirma que “o cristão de amanhã ou será místico ou não será cristão”.
Por ora ainda é fácil ser cristão, como é fácil escapar do fogo do inferno. Mas Cristo seguramente não tem a intenção de elevar a submissão à categoria de virtude fundamental da humanidade futura.
Todos os que batem palmas à passagem do papa não o fazem porque são bons cristãos. É perfeitamente possível que o façam por não terem a menor ideia do que significa ser cristão e de ser discípulo de Jesus Cristo.
3. Pode parecer até mesmo herético afirmar que o essencial da mensagem salvífica de Jesus ainda permanece oculto. O que a Palavra Revelada nos diz não é tudo o que Deus pensa e tem em mente realizar. Há muito mais conhecimento ainda não revelado do que tudo o que nossas Igrejas costumam nos ensinar.
O adolescente tem a pretensão de saber tudo melhor que os velhos. A maior parte dos ensinamentos oficiais de nossas Igrejas é pretensioso, tão pretensioso quanto a atitude de um adolescente típico, que sempre se considera autorizado a pronunciar a última palavra. Do mesmo modo como o que está nos Evangelhos não é tudo o que Deus tem a nos dizer, é como atribuímos à sabedoria do nosso ego tudo o que estamos em condições de aprender. Para além do ego existem fontes de conhecimento que a maioria das pessoas não conhece, mas nem sequer sabe como explorar. Enganamo-nos a nós mesmos imaginando que sabemos tudo o que é possível aprender. Engano pior cometeria aquele que se julga dono daquilo que se poderia definir como conhecimento essencial.
É uma ilusão imaginar que a salvação da humanidade é uma questão de conhecimentos. Para saber quem é Deus não basta conhecer o universo. Nem sequer é verdade que para conhecer o homem é preciso conhecer Deus. Podemos conhecer a Deus sem conhecer o homem. O que, no entanto, não é possível, é conhecer o homem ignorando a presença de Deus tanto em sua natureza como em sua história. Em poucas palavras: o essencial ainda não nos foi revelado. Continua tão indecifrável e misterioso como sempre.
Pe.José Marcos Bach SJ (in memoriam) Ano de 2006
Enviado por Maria Célia Bach celiabach@gmail.com]
Uma resposta
“A maior parte dos ensinamentos oficiais de nossas Igrejas é pretensioso, tão pretensioso como a atitude de um adolescente típico…”. Esta frase meditei-a mais de uma vez e chego à conclusão de que esta realidade é verdadeira. Fazer o quê? Esperar que o adolescente cresça em idade, sabedoria e graça! Porém todos e todas temos o direito e o dever de evoluir com a graça de Deus e não nos apegar ‘à nossa roupa e calçados que não servem mais porque já crescemos’.