A ética, assim como a moral, tem, por séculos afora, experimentado uma adaptação, um amoldamento às culturas e uma adequação a ideologias e pensamentos de época (o zeitgeist dos filósofos) atrelados aos sistemas sociais, políticos, econômicos e até religiosos. Deste modo, pudemos contemplar que tanto a ética como a moral, através dos tempos, vêm experimentando mudanças, evoluções (ou involuções), a ponto de que, um fato ético há mil anos, ser totalmente rejeitado hoje; e vice-versa.
Sobre isso temos falado, com relação a uma “nova moral” enraizada em nossa sociedade de fim de milênio, proveniente de correntes existencialistas, racionalistas, pragmáticas, hedonistas e esotéricas. Ora, se a ética social muda de acordo com os tempos e as culturas, como posso adotar um comportamento, tido hoje como ético, se amanhã ou depois ele sofrerá condenações ou críticas? Na verdade, talvez seja esta a maior dificuldade das pessoas adotarem, no mundo, posturas mais ou menos éticas, baseadas nas ciências particulares ou nos costumes sociais. O que hoje é certo, amanhã é rejeitado. Querem alguns exemplos? O aborto. No passado todo mundo era contra. Quem fazia, fazia às escondidas. Hoje, apesar de ainda condenado por lei, já há, por causa da nova ética social, um debate mais amplo, com pessoas se manifestando publicamente a favor. Outro exemplo. O adultério. Nas rodas sociais escuta-se pessoas, homens e mulheres, contando suas aventuras e deslizes extraconjugais, como virtude, como vantagem. E essas aventuras dão status de pessoa moderna e “cabeça feita” a quem as pratica. Mais um?
Acima de todos esses desvios de moral e de ética está a lei de Deus. Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13, 8). Esta frase, longe de representar um simples jogo de palavras, exprime uma verdade: a imutabilidade de Deus. “Assim como era no princípio, agora e sempre”. Deus é eterno e seu projeto é para sempre. Desses valores permanentes brota a Moral, que nada mais é que “uma parte da teologia que estuda os atos humanos, considerando-os em ordem ao seu fim sobrenatural”. Por teologia, é bom esclarecer, entende-se a ciência da relação recíproca entre Deus e o homem.
O objeto da teologia não é somente Deus enquanto acessível à razão ou enquanto revelado, mas também todos os seres enquanto podem ser vistos à luz de Deus. (Santo Tomas de Aquino, in S.Th. P1, Q1, A7)
A teologia para inserir-se na vida do povo, precisa entender e falar de economia, de política e fazer sociologia com os seres da sociedade. Os atos humanos são aqueles executados pelas pessoas, com conhecimento, liberdade e livre vontade, dentro de uma reta-consciência, ou reta razão. O fim sobrenatural de todo homem, é o Reino, para o qual ele foi criado, e para cuja condução Cristo fez-se homem, morreu e ressuscitou. Em ordem à moralidade, os atos humanos aproximam ou afastam o homem de seu fim sobrenatural eterno. A teologia moral tem suas fontes:
a) na Sagrada Escritura
Por ser a própria Palavra de Deus; é a primeira e principal fonte da Mo-
ral. “A Bíblia é uma série de cartas enviadas por Deus aos homens, para
os exortar a viver santamente”;
b) na Tradição cristã
Trata-se da fonte complementar da Sagrada Escritura; a Tradição se manifesta de diversos modos, e é infalível só quando reconhecida e sancionada pelo Magistério da Igreja; a Tradição nos chega: 1) pelos “Pais da Igreja”; 2) elos teólogos posteriores à patrística;
c) no Magistério da Igreja
O Papa com o Colégio Universal dos Bispos.
A lei de Deus, revelada pela inerrância Bíblica, torna-se universal e eterna. Pode ser aplicado a qualquer caso, particular e concreto, em qualquer tempo. A isso se chama lei eterna. Sobre lei eterna podemos nos socorrer de dois clássicos:
a) Santo Agostinho
“A lei eterna é razão e vontade divinas que mandam observar e proíbem alterar a ordem natural”.
b) Santo Tomas de Aquino
“Ao plano da divina sabedoria que dirige todas as coisas e movimentos das criaturas em ordem ao bem comum de todo o universo, chamamos de lei eterna”.
A lei eterna possui três propriedades distintivas: a) imutável; b) é norma suprema de toda a moralidade; c) é universal. Da lei eterna e natural, dimana a lei divina, positiva, que é aquela que, procedendo de Deus, atua legislativa e judiciariamente sobre a vida humana. Por exemplo, os decálogos morais e outras leis contidas no corpo doutrinário da Escritura. A lei moral, portanto, exclusiva da criatura humana, é aquele conjunto de preceitos que Deus promulgou, a fim de que, cumprindo-o, o ser humano atinja seu fim último, sobrenatural, passando, entretanto, pela convivência com os demais seres, enquanto ser-vivo.
A nova moral e a ética distorcida não provêm da lei moral, eterna, mas do relativismo racional implantado na sociedade humana. Nesse relativismo, determinados são bons e morais enquanto, num contexto histórico e temporal, servem a determinados propósitos ou perfilam-se sob certas ideologias. Como exemplo, podemos invocar a tortura política. Num determinado compartimento histórico, ela foi considerada um ato moral: era utilizada como defesa da oligarquia reinante no poder. No relativismo, de inspiração humana, o ato é moral hoje; amanhã não se sabe. Tudo se torna relativo. Nisso situa-se a diferença entre a moral e a ética cristã e suas correspondentes sociais. Enquanto as primeiras se interpenetram com a lei de Deus, eterna e imutável, como está no cerne das Escrituras, as outras, de inspiração mundana, caem no relativismo da permissividade humana. Esta é, portanto, a distância que separa a ética cristã da ética social: uma é religiosa, tem base na moral que dimana da Palavra de Deus (os decálogos morais, o Evangelho como um todo, e em especial o “Sermão da Montanha”, e as epístolas) e transita graças à fé; a outra tem fundamentos morais, mas cede à tentação do relativismo e da moral de situação. Sobre essa ética do mundo, relativista e utilitária, há uma interessante advertência de São Paulo:
Não se amoldem às estruturas deste mundo, mas transformem-se pela renovação da mente, a fim de distinguir qual é a vontade de Deus; o que é bom, o que é agradável a ele, o que é perfeito (Rm 12, 2).
O discernimento novo (o uso da ética cristã) leva-nos a distinguir e colocar em prática a vontade de Deus, que leva à vida abundante e à justiça. O pecado, a situação de injustiça e o egoísmo, deixam pesados os corações, tornando-os incapazes de entender o desígnio de Deus. O pré-requisito para a vivência de uma ética cristã é ter fé, e fazer dessa fé uma norma solidária de vida. Essa fé deve crescer, desenvolver-se, afirmar-se; é de sua natureza ser vivida e realizada pela atitude de uma vida moral, fiel aos mandamentos de Deus, como caridade, perdão, solidariedade e partilha. A fé que age no amor fraterno é o núcleo central da ética cristã. Esse fundamento ético calcado nas exigências do Evangelho nos ensina que Deus e o próximo são inseparáveis. Amar a Deus e esquecer-se do próximo, ou com ele não comprometer-se, é tão inconsistente como querer ajudar as pessoas e esquecer-se de Deus. Vai sempre faltar o centro da questão; é como falar sozinho, como jogar sem a bola, ou coisa parecida. O próximo, colocado por Deus em nossa vida, torna-se o objetivo e o destinatário da nossa fraternidade.
Talvez o grande problema de nosso país, fonte e causa de todos os males, esteja no fato de a política, os sistemas do estado e as relações sociais não serem conduzidas pela ética cristã, mas pela moral do mundo, pela ética de situação e, especialmente, de conveniência. A teologia moral nos assinala a existência de sete pecados, chamados “capitais” cuja raiz, é fácil observar, é o egoísmo. Na avareza vemos muitos traços da exploração social. Desprezando a lei divina, o avarento adota o ser humano, seu próximo, como alvo de sua rapina, e comete um pecado semelhante ao roubo, O que é o roubo? Apropriação de coisa alheia, contra a vontade razoável do dono. Ora, sob esse conceito cabem os preços altos, os salários pagos, a sonegação, o confisco do governo através de congelamentos e tributação excessiva, as tarifas públicas, os juros bancários que caracterizam usura. Toda essa gama de atitudes pode receber o nome de exploração, ou até de roubo.
Como nossa política – ou melhor, nossos políticos – têm compromisso com as forças de exploração, usando uma ética de conveniência (o contrário da cristã), eles assumem um discurso que convalida sua adesão e coonesta a rapina dos exploradores: “… isso é para modernizar o Estado… é um sacrifício necessário… é um investimento social … todos devem apertar o cinto…”. Enfim, é a política dos fins (o enriquecimento de uma minoria) que justificam os meios (a exploração de muitos). Junto com os chamados “pecados capitais” a teologia moral reconhece outros, cujos efeitos nefastos na ordem social reclamam uma vingança do Alto. São os “pecados que bradam aos céus”, e são:
a) o homicídio
Matar alguém é crime e pecado; esse matar pode ocorrer pela miséria,
pela fome, pela omissão dos sistemas de saúde, pela violência, tortura;
b) sodomia
O homossexualismo; o uso indevido e antinatural do sexo (cf. Rm 1, 24-27);
c) a opressão dos fracos
Aqui estão incluídos muitos pecados que podem ser relacionados sob um título: exploração;
d) retenção dos ganhos dos operários
Este tem estreita relação com o anterior, pois se trata, igualmente, de um ato de opressão;
A lei moral, que se encontra na Bíblia, explícita ou implicitamente revelada, proíbe matar, explorar, fazer chorar, apossar-se, perseguir, roubar, cometer violência física e pressão psicológica. De outro lado, recomenda a partilha, o perdão, a harmonia, o uso da verdade, a caridade. Quando esteve no Brasil em 1979, o Papa João Paulo II, discursando em Belo Horizonte, deu como que um “puxão de orelhas” na ética capitalista da ditadura militar: “…é impossível ser feliz, vendo uma multidão de irmãos carentes das mínimas oportunidades de uma existência humana”. A sociedade daquela década já era dominada pela moral de situação ou pela ética de interesses. “Se a minha atividade, a minha empresa, o meu processo político, vão bem, o resto que se dane!”. Quem quiser ter a alegria de chamar a Deus de Pai, deverá, concomitantemente, ter a coragem de chamar o próximo de irmão. O projeto de Deus é essencialmente ético e estritamente moral. Ele não admite atitudes ambíguas, meias palavras, nem posturas incoerentes:
Que o falar de vocês seja sim, sim, e não, não, pois o que passa disso, vem do Maligno (Mt 5, 37).
Na prática constante do bem, o seguidor de Cristo realimenta sua fé. Esta, é um dom a ser vivido aqui na terra, enquanto estamos a caminho. No Reino, ela será desnecessária (cf. 1Cor 13, 13). Lá só importará o amor com que tivermos amado a Deus e ao próximo. E há ainda uma questão. Quando formos chamados à frente de Deus, não haverá mais tempo de retratações. Aí vale o amor e as boas obras, praticadas sob a inspiração da fé. Para o Reino, as coisas materiais, os bens ou os títulos humanos, não têm valor. Inclusive, para quem está a caminho, se estes bens forem obstáculos para a verdadeira felicidade, devem ser jogados fora:
É melhor perder um membro, que o seu corpo todo ir para o inferno (Mt 5, 30b).
O seguidor de Jesus só poderá participar efetivamente da atividade política, com força de transformação, imune à corrupção e ao assédio de ideologias espúrias, se compreender as exigências da ética cristã, cuja base floresce junto às fontes da fé e do amor. A ética capaz de gerar o compromisso gratuito com o outro, é aquela que vem da força moral da Palavra de Deus, contida nas Escrituras e, subalternamente, na Tradição e no Ensinamento Social.
Antônio Mesquita Galvão
Doutor em Teologia Moral

Uma resposta
Prezado Senhor Doutor Antônio Mesquita Galvâo,
Não sou doutora em teologia, somente mestra (da Gregoriana de Roma).
Li seu texto, que está muito bem escrito. Mas estranhei uma coisa: Entre os pecados que bradam aos céus o Senhor menciona homicídio, opressão dos fracos, retenção dos ganhos dos operários… todos pecados contra a humanidade. Mas logo em segundo lugar também menciona sodomia que o Senhor explica por homossexualismo. Não consigo concordar.
Primeiro: A cena em Sodoma não tem nada a ver com homossexualidade (não se fala em homossexualismo, porque isso significaria que seria uma doença, homossexualidade porém é uma orientação do ser humano, isso somente à margem). Em Sodoma eram os homens heterossexuais que queriam abusar dos estrangeiros, portanto queriam estuprar lós.
Segundo: Homossexualidade não é uma escolha mas uma orientação, uma identidade, com a qual o ser humano nasce, disso todos os entendidos estão de acordo.
Terceiro: Mesmo que o Senhor queira insistir que homossexualidade seja um pecado (que não pode ser, se Deus os fez assim) o que tem o amor mútuo entre dois seres humanos do mesmo sexo a ver com os outros 3 pecados contra a humanidade? Já que o Senhor quer por o Sexo no meio dos pecados que bradam aos céus, porque o Senhor não mencionou o estupro que no fundo é a mesma coisa como opressão dos fracos, exploração.
Atenciosamente
Irene Cacais