1. Um corte transversal da população de uma paróquia nos diria que só uma minoria de católicos ainda frequenta a sua igreja, pois cresce continuamente o número dos que já não associam a salvação de suas almas ao que sua paróquia lhes oferece. Não estão à procura de certezas e de segurança, mas querem uma fé que os coloque no rumo certo. Querem ter a certeza de que o termo final de sua aventura existencial compense de alguma forma o espaço que ficou vazio em sua vida.
Quem pode morrer com a tranquila certeza de que deu de si tudo o que poderia dar? Quando o papa Marcelo II percebeu o tamanho da ilusão de quem se louva em títulos, ao afirmar que “não compreendia como um papa consegue escapar do fogo do inferno”, disse uma verdade que seus sucessores todos se esqueceram de levar a sério.
Não vai além de 15 % o número de fiéis católicos que no Brasil ainda frequentam regularmente uma igreja. Na Alemanha o número é o mesmo. Só na Polônia ele é de 50 %. Na Inglaterra anglicana a situação é ainda mais preocupante.
A quem esta situação preocupa? Evidentemente preocupa a quem continua esperando que os fiéis procurem uma igreja para se encontrar com seus irmãos na fé, e de lambuja com seu Deus. Não preocupa aos que interpretam o fato como sinal positivo, digno de ser saudado como prova de amadurecimento da fé em Cristo.
Para Jesus qualquer lugar era bom para se encontrar. Podia ser o átrio do templo ou uma sinagoga. Mas podia ser também uma casa de família ou até mesmo uma luxuosa mansão. Qualquer ocasião é boa para celebrar as maravilhas do Amor Divino. Quanto mais festivo o evento, tanto melhor. A presença de Jesus nas Bodas de Caná revela a preferência de Jesus por eventos festivos. São poucas as passagens que descrevem a presença de Jesus num velório. E sempre acabou por ressuscitar o falecido.
Meditando os Evangelhos com o carinho que merecem, fica-se com a impressão de que no âmago da filosofia de Jesus está a alegria de viver. “Um cristão triste é um triste cristão”. Não sei de quem é esta afirmação, mas ela me parece mais verdadeira do que tudo o que de meritório sadomasoquistas profissionais atribuem a suas práticas de penitências. Jesus foi flagelado, é verdade, mas nunca se flagelou a si mesmo ou a quem quer que fosse.
A autoflagelação é um despiste e serve para encobrir com o manto da virtude e do arrependimento tanto a ganância quanto o abuso de poder. O que a torna extremamente suspeita é o fato de que ela vem desacompanhada de qualquer lampejo de conversão. A penitência não serve para ajudar uma pessoa a se converter. Um membro do Opus Dei se flagela com o propósito de auto-justificar-se. É como se dissesse a si mesmo: “Pequei, mas apaguei o meu pecado com o meu próprio sofrimento”. O raciocínio teológico em que se apoia é este: “Foi sofrendo que Cristo salvou a humanidade”. Pois o sofrimento que Jesus enfrentou é praticamente o mesmo que pôs fim à vida de tantos soldados na série interminável de guerras que representam ainda hoje um dos flagelos mais temidos da humanidade.
2. O mundo em que vivemos não é um lugar muito seguro. E a Igreja católica também não o é. Nela só se pode sentir seguro quem não se atreve a questionar a pretensa sabedoria de tradições herdadas do paganismo. Nela até a cruz se transformou em símbolo de poder e em arma na guerra contra o crescente islâmico no passado e contra a foice e o martelo em época mais recente. Quem usa a fé como arma e acha que sofrendo e fazendo sofrer se coloca automaticamente do lado correto, faz parte do pequeno rebanho dos que ainda frequentam uma igreja. “Sereis perseguidos. Pois se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós” (Jo 15,20).
A Igreja católica só é um lugar seguro para quem faz da sua fé em Cristo um travesseiro e só a usa nas horas de dormir. Ela não é certamente o único espaço religioso feito sob medida para pessoas tímidas e ordeiras, mas é sem dúvida o que mais se presta a pessoas que desejam segurança acima de tudo. Que futuro pode ter uma instituição que insiste em ser antes de mais nada um baluarte seguro?
3. Que tipo de cristão a humanidade vai exigir daqui para frente? Se os que continuam frequentando uma igreja não apresentam as condições mínimas para a tarefa de perpetuar o Espírito de Cristo e a audácia evangélica do apóstolo Paulo, é o caso de apelar, quem sabe, para a multidão dos que já não fazem mais parte de uma igreja organizada. As pessoas que já não frequentam mais uma igreja são pessoas que eliminaram o medo de pecar e de perder a sua alma da sua profissão de fé em Cristo. Encontram-se de costas para a Igreja de Roma, é verdade, mas seria injusto atribuir a sua atitude a uma falta de fé ou de indiferença religiosa. Muitos deles sonham com uma Igreja mais sensível às necessidades do Povo de Deus e aos Sinais dos Tempos. Sonham com uma Igreja mais afinada com os tempos de hoje.
Quem acompanha no dia a dia o ritmo com que o novo passa a substituir o velho, não se prende mais a tradições nem se inspira mais relembrando tempos passados. O culto da Belle Époquê até os franceses já não o praticam mais. O saudosismo deixou de ser virtude e sinal de fidelidade. Tanto o mundo como a Igreja para os quais a humanidade se está encaminhando sem o saber, é determinado por valores relacionados com a esperança de um futuro melhor.
A humanidade com que os homens e as mulheres de hoje sonham é uma humanidade mais evoluída que a atual, muito mais humana e muito menos agressiva. Tanto o cristão como o homem do futuro tem que ser muito diferente, muito mais livre, consciente e amável do que tudo o que a espécie em extinção, que é o Homo Sapiens, está sendo. Vamos precisar de um novo homem, de uma humanidade bem diferente da atual e de mais que tudo de um cristianismo radicalmente diferente do atual.
Há na consciência cristã espaço para preocupações muito mais relevantes do que tudo aquilo que ocupa e preocupa um papa ou um burocrata da cúria romana. Para ser bom cristão não basta empunhar a Bíblia ou entoar louvores a Deus. Daqui para frente terão que fazer parte da consciência de um cristão aspectos de fé em Cristo que até o presente só foram muito fracamente cultivados.
Responsabilidades sociais de natureza ecológica, assim como iniciativas destinadas a fomentar o espírito de cooperação em substituição à tendência atual que é predominantemente de ordem competitiva, são itens que é preciso resgatar da indiferença com que são tratados tanto no Código de Direito Canônico, como nos catecismos, em geral.
Só pode ser tido como mau cristão aquele que não se preocupa com a evolução da humanidade toda. Quem só pensa em salvar a sua alma terá provavelmente o destino que aguarda a todos que só pensam em salvar a própria pele. Ser cristão não é mais tão fácil e simples como o era no tempo de nossos avós. E está ficando cada vez mais difícil na medida em que aumenta a complexidade do ambiente social que estamos aprontando para os que virão depois de nós. Só merece ser chamado de otário quem acha que estamos em condições de oferecer a nossos pósteres um mundo bem melhor que aquele que herdamos. Qual o cristão que se pode orgulhar da Igreja a que pertence?
Texto escrito em 2006 (mas ainda atual) por José Marcos Bach (in memoriam)
Uma resposta
Atenho-me à pergunta do final do texto:”Qual o cristão que se pode orgulhar da Igreja a que pertence?”. Estamos todos na mesma “canoa do mundo”, seja qual for a Confissão religiosa a que pertencemos. O melhor de tudo é unir todas as forças existentes nas Igrejas cristãs para dar um impacto de veracidade, de integridade, de solidariedade,de justiça de amor para tudo e todos que carecem destes atributos. Toda Igreja que se diz de Jesus Cristo deve fazer jus a este nome sendo autêntica e verdadeira. A união das Igrejas cristãs é a força mais poderosa que dá o testemunho pelo exemplo!