Opinião: Natal

Por Eduardo Hoornaert

Não se sabe praticamente nada acerca das circunstâncias concretas do nascimento de Jesus. Certamente não foi no dia 25 de dezembro, data da festa do solstício no império romano. No século IV, essa data foi estabelecida para comemorar o nascimento de Jesus. Quanto ao lugar de seu nascimento, os evangelhos de Mateus e Lucas mencionam Belém, cidade natal de Davi, para dar a entender que Jesus seria ‘filho de Davi’ e ‘rei da Israel’. Hoje os especialistas são quase unânimes em afirmar que Jesus nasceu mesmo em Nazaré. Não conhecemos tampouco as circunstâncias em que ele tenha nascido (numa gruta ou num presépio, por exemplo). Os evangelistas constroem suas narrativas sem precisão historiográfica, porque eles escrevem para animar pessoas a participar do movimento. O que lhes interessa são as idéias e iniciativas de Jesus, que o fizeram o personagem mais importante da história ocidental.

No século XIX surgiu por toda parte interesse por um conhecimento mais científico da vida de Jesus. Com isso, um número crescente de cristãos descobre que sabe pouco sobre a biografia propriamente dita de Jesus de Nazaré, mas que dispõe de informações suficientes para captar seu espírito, idéias e objetivos, o que é mais importante.

O que se pode dizer sobre os primeiros anos de Jesus cabe em poucas palavras: Jesus (Jeschua) nasceu entre os anos 7 e 3 antes de Cristo em Nazaré, na época um conjunto de grutas com aproximadamente duzentos habitantes. O ambiente era de pobreza. O povo da Galiléia pagava 14% de seus rendimentos a Roma e 21% ao templo de Jerusalém. O contraste entre ricos e pobres era enorme. Os camponeses se alimentavam basicamente de pão de trigo ou cevada, que levavam consigo ao campo. De vez em quando aparecia peixe no cardápio ou ainda sopa de malva. Carne quase nunca. Os esqueletos da época revelam falta de ferro e proteínas. Jesus provavelmente freqüentou uma escola de rabinos, pois sabia ler a bíblia. No quarto capítulo do evangelho de Lucas, ele aparece como leitor na sinagoga. Sendo filho de artesão (não necessariamente carpinteiro), ele deve ter conseguido seu primeiro emprego com a idade de quatorze – quinze anos, indo trabalhar com o pai em Séforis (a 5 km de Nazaré) ou em Tiberíades (outra cidade moderna construída por Herodes) em obras de construção civil. Não faltava trabalho na época, pois tanto os romanos como os vassalos herodianos eram grandes construtores, como comprovam escavações arqueológicas na Palestina (Massadá, o templo, teatros, aquedutos, circos, fortalezas, piscinas públicas, casas com serviço de água corrente).

Não se sabe se Jesus era casado. Nos evangelhos, ele é chamado ‘rabi’, e os rabinos normalmente o eram. Os evangelhos não dizem nada a respeito. O que se escreve hoje sobre um possível romance entre Maria de Mágdala e Jesus é baseado no evangelho de Filipe, um texto do século III, não confiável de um ponto de vista historiográfico. Sumamente importante é que, num determinado momento, Jesus rompe com a família e se alia ao profeta João Batista, protagonista de um movimento não-violento de oposição à opressão social e dependência colonial. Aí começa um novo capítulo de sua vida.

Esses parcos dados biográficos combinam bem com as imagens que a cultura popular produz em torno da festa de Natal. Fruto da emoção e da imaginação de sucessivas gerações de cristãos, o Natal é um evangelho, não ‘segundo Marcos ou Mateus ou João’, mas segundo pessoas comuns que não escrevem livros, mas expressam sentimentos por meio da arte e da criatividade. Nas catacumbas do século III já podemos contemplar as primeiras imagens do nascimento de Jesus: os magos do oriente, o menino Jesus nos braços de sua mãe, os pastores. Na idade média surgiu, não se sabe quando nem como (alguns dizem que é uma idéia de São Francisco), a cena completa: o presépio, o boi e o burrinho, os pastores, os anjos, os magos, os presentes (ouro, incenso e mirra), a estrela, os inocentes. São criações da imaginação e da emoção de sucessivas gerações cristãs, e não de teologia erudita ou de orientações pastorais.

Como festejar o Natal? O importante consiste em captar o espírito de Jesus, que transparece nas imagens do presépio e também nas informações históricas: a sensibilidade pela vida pobre, condição da maioria da humanidade; a ternura (Maria e José); a presença de marginalizados (os pastores formavam uma classe marginal na Palestina); o nascimento inacreditável de um ‘rei’ num presépio e não em berço de ouro; a procura intensa e crítica da verdade (os magos); a abertura ecológica (o boi e o burro). Tudo isso está na cena do presépio. É de se admirar que o espírito do povo comum consiga expressar com tanta singeleza, sem pronunciar uma só palavra, o essencial do cristianismo.

Uma resposta

  1. A tentativa de desconstruir o Jesus historico a partir de fatos romanceados e a partir de seus proprios interesses e mesmo pela absoluta falta de estudo e preparo para tal ,deixa ao leitor realmente a impressão que é pura mitologia cristã a vida e a farsa de Jesus de Nazaré,pois como diz nosso ilustrissimo Eduardo Hoornaert:”Fruto da emoção e da imaginação de sucessivas gerações de cristãos, o Natal é um evangelho, não ‘segundo Marcos ou Mateus ou João’, mas segundo pessoas comuns que não escrevem livros, mas expressam sentimentos por meio da arte e da criatividade.”

    Bom, pelo menos ,ele se esqueceu de mencionar São Lucas,o UNICO que pode solucionar esse “Mistério”, para o sr Eduardo!
    Vamos aos fatos: a colocação litúrgica do Natal é uma escolha arbitrária, sem ligação com a data do nascimento de Jesus, a qual ninguém estaria em condições de poder determinar. Ora bem, parece que os especialistas se enganaram mesmo; e eu, obviamente, com eles. Na realidade, hoje – graças também aos documentos de Qumran* – estamos em condições de poder estabelecê-lo com precisão: Jesus nasceu mesmo num dia 25 de Dezembro. Uma descoberta extraordinária a sério e que não pode ser alvo de suspeitas de fins apologéticos cristãos, dado que a devemos a um docente judeu, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

    Procuremos compreender o mecanismo, que é complexo, mas fascinante. Se Jesus nasceu a 25 de Dezembro, a sua concepção virginal ocorreu, ocorreu, obviamente 9 meses antes. E, com efeito, os calendários cristãos colocam no dia 25 de Março a Anunciação do Anjo S. Gabriel a Maria. Mas sabemos pelo próprio Evangelho de S. Lucas que, precisamente seis meses antes, tinha sido concebido por Isabel, João, o precursor, que será chamado o Baptista. A Igreja Católica não tem uma festa litúrgica para esta concepção, mas a Igreja do Oriente celebra-a solenemente entre os dias 23 e 25 de Setembro; ou seja, seis meses antes da Anunciação a Maria. Uma lógica sucessão de datas, mas baseada em tradições não verificáveis, não em acontecimentos localizáveis no tempo. Assim acreditávamos todos nós, até há pouquíssimo tempo. Mas, na realidade, parece mesmo que não é assim.

    De facto, é precisamente da concepção do Baptista que devemos partir. O Evangelho de S. Lucas abre-se com a história do velho casal, Zacarias e Isabel, já resignado à esterilidade – considerada uma das piores desgraças em Israel. Zacarias pertencia à casta sacerdotal e, um dia, em que estava de serviço no Templo de Jerusalém, teve a visão de Gabriel (o mesmo anjo que aparecerá seis meses mais tarde a Maria, em Nazaré), o qual lhe anunciou que, não obstante a idade avançada, ele e a mulher iriam ter um filho. Deviam dar-lhe o nome de João e ele seria grande «diante do Senhor».

    Lucas teve o cuidado de precisar que Zacarias pertencia à classe sacerdotal de Abias e que quando teve a aparição «desempenhava as funções sacerdotais no turno da sua classe». Com efeito, no antigo Israel, os que pertenciam à casta sacerdotal estavam divididos em 24 classes, as quais, alternando-se segundo uma ordem fixa e imutável, deviam prestar o serviço litúrgico no Templo, por uma semana, duas vezes por ano. Já se sabia que a classe de Zacarias – a classe de Abias – era a oitava no elenco oficial. Mas quando é que ocorriam os seus turnos de serviço? Ninguém o sabia. Ora bem, o enigma foi desvendado pelo professor Shemarjahu Talmon, docente na Universidade Hebraica de Jerusalém, utilizando investigações desenvolvidas também por outros especialistas e trabalhando, sobretudo, com textos encontrados na Biblioteca essena de Qumran. O estudioso conseguiu precisar em que ordem cronológica se sucediam as 24 classes sacerdotais. A de Abias prestava serviço litúrgico no Templo duas vezes por ano, tal como as outras, e uma das vezes era na última semana de Setembro. Portanto, era verosímil a tradição dos cristãos orientais que coloca entre os dias 23 e 25 de Setembro o anúncio a Zacarias. Mas esta verosimilhança aproximou-se da certeza porque os estudiosos, estimulados pela descoberta do Professor Talmon, reconstruíram a “fileira” daquela tradição, chegando à conclusão que esta provinha directamente da Igreja primitiva, judaico-cristã, de Jerusalém. Esta memória das Igrejas do Oriente é tão firme quanto antiga, tal como se confirma em muitos outros casos.

    Eis, portanto, como aquilo que parecia mítico assume, improvisamente, uma nova verosimilhança – Uma cadeia de acontecimentos que se estende ao longo de 15 meses: em Setembro o anúncio a Zacarias e no dia seguinte a concepção de João; seis meses depois, em Março, o anúncio a Maria; três meses depois, em Junho, o nascimento de João; seis meses depois, o nascimento de Jesus. Com este último acontecimento, chegamos precisamente ao dia 25 de Dezembro; dia que não foi, portanto, fixado ao acaso.

    Sim, parece que festejar o Natal no dia 15 de Agosto é coisa não se pode mesmo propor. Corrijo, portanto, o meu erro, mas, mais que humilhado, sinto-me emocionado: depois de tantos séculos de investigação encarniçada, os Evangelhos não deixam realmente de nos reservar surpresas. Parecem detalhes aparentemente inúteis (o que é que importava se Zacarias pertencia à classe sacerdotal de Abias ou não? Nenhum exegeta prestava atenção a isto) mas que mostram, de improviso, a sua razão de ser, o seu carácter de sinais duma verdade escondida mas precisa. Não obstante tudo, a aventura cristã continua.
    Portanto amigos da sem rumo , digo , rumo, cuidem para que pessoas mais escarecidas escrevam artigos para este site,para não prestarem um des-serviço à evangelização!
    http://blog.bibliacatolica.com.br/doutrina-catolica/jesus-nasceu-mesmo-num-dia-25-de-dezembro/

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