Desclericalizar/3. Recriar o princípio, novos ministérios

  Termino de oferecer hoje o trabalho publicado na última edição de ‘Iglesia Viva’.

Xabier Pikaza – 29.08.16

Após termos publicado os dois precedentes artigos do autor sobre DESCLERICALIZAÇÃO da Igreja, nos dias 29 e 30/08, precisamente:

 Termino de oferecer hoje o trabalho publicado na última edição de ‘Iglesia Viva’. Estes são os temas e motivos principais:

 Jesus não foi um reformador de instituições, nem quis criar uma ordem especial de novos ritos, mas desenvolver os da vida, partindo dos pobres, sendo morto por isso, pelos profissionais da política e da religião.

Pois bem, os seus seguidores fundaram comunidades para manter a sua memória, centrada na mensagem do Reino, no perdão e na partilha do pão, criando nessa linha diversos ministérios (de enviados e profetas, de mestres e servos, de anciãos e inspetores) que surgiram da mesma entranha messiânica e secular do seu movimento.

De um modo normal, por criatividade e pressão do entorno, os cristãos criaram ou aceitaram instituições de tipo hierárquico, que se mantiveram até o dia de hoje (ano 2016).

Mas o tempo desse tipo de instituições hierárquicas (clericais) está acabando e da raiz do evangelho hão de surgir, nas próprias comunidades, crentes liberados para o ministério evangélico.

  • Não se trata de transformar algumas instituições, suprimindo velhas e criando novas, mais modernas e democráticas num sentido externo, nem de mudar as pessoas que hoje governam, pondo em seu lugar outras melhores (coisa difícil e inútil, se se mantiverem mesmas estruturas).
  • Trata-se de superar a partir do evangelho a instituição hierárquico/clerical, não para abandonar cada crente à improvisação, e para condenar o grupo cristão à anarquia mas sim para ensaiar e promover a partir de Jesus espaços humanos de encontro afetivo, de palavra animadora, de perdão, de pão.
  • Trata-se de recriar a origem, como digo, apostando assim no evangelho de Jesus.
  • Trata-se de recuperar o sentido original da comunidade cristã, o seu impulso evangélico, a sua entrega cordial, a sua alegria, a sua utopia, no amor pelos pobres, universalmente ...Dessa maneira, no contexto, surgirão os novos ministérios, não para destruir desde logo o que existe, mas para aprofundá-lo e superá-lo, de modo que o velho cairá logo, como velho, pois o vinho novo continua precisando de odres novos.

É disso que tratam as reflexões a seguir, oferecendo um programa básico de recuperação evangélica e de recriação eclesial.

***

 

III . VOLTAR AO PRINCÍPIO PARA CRIAR ALGO NOVO

 

– No princípio as coisas não foram assim, mas assim se consolidaram a partir do século IV d.C. (constantiniano) e especialmente desde o século XI (Reforma Gregoriana), de modo que a Igreja Católica se tornou uma hierarquia feudal, dependente do Papa e dos bispos. O Vaticano II quis voltar às origens, mas não conseguiu fazê-lo de forma consequente e os seus textos incluem duas eclesiologias:

– Em teoria domina a eclesiologia de comunhão, a Igreja como Povo de Deus, comunidade de crentes, com ministérios que brotam da comunidade. O primeiro é o Povo Sacerdotal, Corpo de Cristo, presença (esposa) do Espírito Santo, e a seu serviço, se instituem alguns ministérios, que não são hierarquia (superioridade), mas serviço. Essa visão, que é dominante no plano teológico, tem menos influência na administração das comunidades.

– De fato, dominaram as formulações jurídicas e práticas da eclesiologia hierárquica, que não parte do corpo dos crentes (povo de Deus), mas da hierarquia que Cristo teria instituído como poder, para governar a Igreja a partir de cima. Os dirigentes têm o poder sagrado, que têm de exercer a serviço do povo, mas a partir de cima. Esta eclesiologia foi fortalecida no plano prático, depois do Concílio Vaticano II, com o fortalecimento da Cúria do Vaticano, embora esta pareça estar em crise com as tentativas de renovação iniciadas pelo Papa Francisco.

– Essa é uma situação esquizofrênica:

  • fala-se de comunhão e mantêm-se (em geral) os seus ideais,
  • mas continua a dominar uma eclesiologia de sacerdócio hierárquico,
  • com o aval do novo Direito Canônico (CIC, 1983)
  • e do Catecismo (CEC, 1993)
  • com retoques cosméticos, mas insistindo na natureza jurídica e hierárquica da Igreja, como se vem dizendo nos cinquenta anos após após o Vaticano II (1965-2015).

O que falta não é uma mudança de fachada, um retoque cosmético perante questões discutidas (celibato poucas “vocações”, ministérios femininos, exclusão da mulher, pederastia…), mas de identidade.

 

  1. Voltar ao evangelho, o sacerdócio dos pobres.

Depois de séculos de inércia clerical, por fidelidade à origem cristã e devido à nossa situação, devemos romper a estrutura clerical de hierarquia, não para negar o impulso e o trabalho da Igreja, mas, ao contrário: para recriar o seu impulso, no meio dos pobres (ter cheiro de ovelhas!) como Jesus, na praça pública, sem especialistas religiosos superiores.

Os ministérios são necessários para a missão do evangelho, mas Jesus não os estabeleceu como uma “ordem” ou classe de hierarcas. O NT e a igreja primitiva

  • não conheciam ministérios com sacerdócio hierárquico (o da Nova Aliança é de todos os cristãos),
  • mas serviços de irmãos e irmãs que realizam as tarefas do evangelho, de maneira que os ministérios (de apóstolos e profetas, doutores e mestres, e depois diáconos, padres ou bispos) não são sacerdotais, mas sim laicais. 

O sacerdócio messiânico ‘sagrado’ pertence a todos (à comunidade) de forma que os ministros concretos recebem nomes laicais: são

  • servidores (diáconos),
  • anciãos (presbíteros)
  • ou supervisores (bispos).

Uma vez que se reconhece este dado muda radicalmente a perspectiva, a partir da própria Bíblia e da história da Igreja. Nessa linha, o modelo sacerdotal dos ministérios entrou agora em crise, pela consciência moderna de igualdade / fraternidade e sobretudo por exigência de evangelho.

Padres e bispos não são sacerdotes por seu ministério, mas sim porque pertencem à comunidade sacerdotal da Igreja, em que todos são filhos de Deus e sacerdotes (pois oferecem e compartilham em Jesus e por Jesus a sua vida).

Bispos e sacerdotes são ministros de uma igreja à qual servem e da qual recebem (com a qual partilham) a Palavra e Sacramento de Jesus, sabendo que o sacerdócio pertence ao conjunto dos fiéis, e de modo especial aos pobres e aos excluídos (cf. Heb 7, 22 ss; 1 Pedro 2 5,9; Ap 5.10; 20: 6). De acordo com a formulação do Credo, a unidade e a santidade, a catolicidade e apostolicidade da Igreja não se expressam por uma ordem (ordo) de poderes, mas sim pela identidade cristã e pela comunicação de amor entre os crentes.

O poder (supremo, pleno, universal e imediato) da Igreja (representado segundo o CIC 331-332 pelo Bispo de Roma) é o amor de Deus em Cristo, que os crentes recebem e compartilham, com abertura a todos os homens, de modo que o próprio amor é o primado da igreja (cf. Ignacio: Carta aos Romanos, Introdução).

A unidade e autoridade eclesial não reside em um poder unificado, nem em uma organização central, mas sim na comunhão multiforme dos crentes, que apresentam e partilham a Palavra e o pão, começando pelos excluídos.

  1. Não se trata de conseguir poder.

O evangelho não quer tomar o poder, mas sim superá-lo. Não se trata de os pobres o assumirem e governarem melhor do que os ricos, mas sim de vencerem o poder, subindo de nível, com base no evangelho, não para estabelecer-se no caos, mas para criar formas diferentes de vinculação social para todos os homens.   A conversão cristã é uma ‘metanoia’ (mudança de pensamento: Mc 1, 15) e implica a superação de um poder social de mando (cf. Mc 10: 41-45).

As igrejas devem criar outras formas de presença e de comunicação, que não sejam na linha do poder. Não se trata de o Papa, os bispos e os padres, delegarem funções, dando às comunidades cristãs mais autonomia, pois eles não podem dar o que não é seu, mas sim de atuarem para além do poder, para que sejamos o que somos, em comunhão de liberdade, de modo que as igrejas

  • se expandam e se organizem por si mesmas,
  • com base na Vida e Memória de Jesus,
  • para se unirem logo (ao mesmo tempo), em comunhão dialogal,
  • criando ministérios de evangelho.

É compreensível que alguns, neste tempo de mudanças (2016), desejem um novo Concílio, que diga o que deve ser a Igreja com a sua hierarquia, seguindo o modelo de Constança (1414-1418). Eles gostariam de criar logo novas estruturas, resolvendo de cima para baixo questões como o

  • celibato,
  • a ordenação de mulheres,
  • o poder dos bispos,
  • a presidência da Eucaristia
  • e a celebração do perdão …

Mas:

Talvez este não seja o momento para um concílio de bispos, agora quando a maioria deles foi nomeada em linha ‘sacral’ e mesmo fundamentalista, pois um Vaticano III, em que só estivessem eles, seria pouco representativo da igreja e da dinâmica do evangelho. Por outro lado, um Concílio Católico é impossível sem a participação de outras igrejas, comprometidas em Jesus com o serviço dos pobres.

— É preciso começar a partir da vida. Mais do que um Concílio o que importa são igrejas que explorem e busquem caminhos de Evangelho, em comunhão mútua, sem esperar soluções externas. Por isso, parece necessário que ainda haja um tempo de busca, para compartilhar o sofrimento dos excluídos e abrir junto com eles um caminho de liberdade.

Ninguém (dentro ou fora da igreja) tem que dar aos cristãos autoridade para

  • pensar e celebrar,
  • organizar-se e decidir,

porque eles são autoridade (cf. Mt 18,15-20), concílio permanente.

Deve ser superada a endogamia. Um concílio fechado em temas da igreja seria um sinal de egoísmo, como vem dizendo o Papa Francisco. O que importa são os pobres, mais do que questões de Igreja. Como eu disse, toda a vida cristã é concílio, ou seja, reunião permanente dos convocados pelo Espírito de Cristo, para anunciar e ser evangelho. Assim sendo, o possível Concílio há de ser expressão de vida das igrejas, lugar de encontro e de oração permanente para todos os povos (cf. Mc 11, 17; 1 Cor 13).

Não se trata de começar criando novas hierarquias, mas sim de a igreja dizer com a sua vida que os pobres são evangelizados, de maneira que todos os cristãos podem reunir-se, num gesto de amor, para se comunicarem e oferecerem liberdade a oprimidos e excluídos, proclamando assim a sua fé em Deus criador, na linha de Jesus.

O autêntico Concílio é a vida diária das igrejas, em que se vão criando formas concretas e comprometidas de presença e de serviço aos pobres, em comunhão de vida.

 

  1. Para além do que há. Grande utopia.

Em outro sentido estamos diante da “plenitude negativa dos tempos” (cf. Gal 4: 4; Mc 1, 15), porque triunfou um tipo de globalização econômica e política, que levou a cabo um tipo de hierarquização perversa, com o triunfo do Capital (Mt 6, 24) e de estruturas hierárquicas, por meio das quais uns privilegiados (ricos-poderosos) dominam sobre os pobres. Já está triunfando em todo o mundo um capitalismo anti-divino, contrário ao que deveria ser a igreja, de tal modo que alguns agoureiros, há algum tempo, puderam dizer que o Reino Final do Capital já foi instaurado (F. Fukuyama, Fim da história, 1992)

Pois bem, contradizendo essa afirmação, continuamos na história, buscando a catolicidade cristã da graça, que se expressa a partir dos pobres. Assim, por coerência histórica e espírito evangélico, os ministros das igrejas (todos os crentes!) devem voltar ao lugar onde esteve Jesus (e os primeiros cristãos: Madalena, Pedro, Paulo …) entre os famintos e marginalizados do Império antigo, para redescobrir e recriar a catolicidade do evangelho.

O que une os crentes não são uns dogmas formulados de maneira helenista, nem umas leis do Código Canônico, nem uns hierarcas superiores, mas uma mutação do Evangelho, que se expressa no amor recíproco do pão partilhado e do perdão celebrado (realizado!) por todos os crentes. Assim o dizia a declaração fundadora do Concílio de Jerusalém, onde os representantes das comunidades discutiram, dialogaram e acabaram pondo-se de acordo no fundamental: “Pareceu-nos, ao Espírito Santo e a nós …” (Atos 15, 28).

Este “pareceu-nos …” significa que o Espírito de Cristo se revela através do encontro e da concórdia ativa entre os crentes (cf. Gal 2: 9-10), a serviço da comunhão, do pão partilhado. Certamente, na Igreja existem diferentes funções (cf. 1 Cor 12-14), e assim o próprio Jesus disse a Pedro: “Simão, Simão … roguei por ti, para que a tua fé não esmoreça; e tu, quando te converteres, confirma os teus irmãos”(Lc 22: 31-32). Pedro cumpriu a sua tarefa muito importante no começo da Igreja (cf. Mt 16: 17-19; Jo 21), mas com ele fizeram-no Madalena e a mãe de Jesus, com Tiago e Paulo e muitos outros, de modo que a palavra e a presença de Jesus se espalharam através da comunhão das igrejas (cf. Mt 18: 15-20).

É importante que os crentes escutem de uma maneira pessoal a Palavra, através da Escritura ou inspiração interna, como enfatizaram os cristãos evangélicos (com os quais devemos encontrar-nos, depois de quinhentos anos: 1517-2017). Mas é muito importante também a vida das comunidades, que exploram e tateiam, que abrem e oferecem caminhos de experiência compartilhada (de evangelho), num tempo em que muitos de nós se sentem ameaçados por um individualismo sem alma e por grupos de pressão que querem impor-nos seus ditames.

Isso pressupõe que o sacerdócio de Jesus volte a ser parte da vida das igrejas, pois o batismo, a eucaristia e o perdão não são um direito de bispos e padres, mas um elemento essencial das comunidades que podem acolher novos crentes e celebrar a memória de Jesus. A hierarquia não faz a eucaristia, mas pelo contrário a eucaristia celebrada pela comunidade, reunida em nome de Jesus, torna possível o surgimento de uma comunidade onde os crentes têm dons e ministérios diferentes a serviço do corpo eclesial (cf. 1 Coríntios 12-14).

A grande maioria dos hierarcas atuais da igreja de hoje não são ditadores soberbos nem aproveitadores imorais, mas sim pessoas sacrificadas, de moral elevada, mas a instituição de poder que eles exercem não provém como tal do evangelho. Eles têm zelo de Deus, como muitos judeus antigos (cf. Rm 10: 2), mas não na linha apropriada.

Esta é a ironia: como delegados de Deus, uns sacerdotes muito cumpridores da lei de Jerusalém (criticados por outros judeus), num pacto com o sistema imperial romano, condenaram Jesus, pretendente messiânico … mas muitos seguidores de Jesus, rejeitado pelos hierarcas e pelos soldados, voltaram a estabelecer uma hierarquia semelhante, compactuando com os novos soldados do mundo.

Essa ironia nos leva ao coração da história. O normal é que a Igreja tenha criado seus ministérios com traços do poder mundano, correndo o risco de perder a sua identidade messiânica e tornar-se sistema ‘sacral’ * , por influência do ambiente hierárquico judaico, helenista e romano. É normal que tenham surgido ministérios como ordens de sacralidade, distinguindo hierarquia e laicado e aplicando aos hierarcas umas categorias ontológicas próprias do ambiente pagão, mas não do evangelho (porque assim, apesar de tudo, conseguiu-se transmitir algo do evangelho). O anormal teria sido o contrário; pois bem, hoje nos é pedido esse “anormal” (supra-normal): recriar a Igreja com base no Evangelho.

 

  1. Sacerdócio comum, ministérios novos.

Os ministros sagrados (bispos e reis), estabelecidos como hierarquia, configuraram a história da Europa até o advento do modelo funcional e burocrático moderno. Eram eficazes, mas mais do que a sua maneira de atuar importava o seu ser (valor ontológico, sagrado). Os hierarcas da Igreja se levantaram e enfrentaram (= se vincularam) com imperadores e reis como classe escolhida, inviolável, nobreza espiritual da auréola divina, príncipes de um mundo que precisa de principados (cf. Guerras de las Investiduras: siglos XI-XIV).

As coisas mudaram na sociedade civil (para o bem e para o mal), mas a Igreja Católica continua mantendo teoricamente esse modelo, e interpreta os seus ministros (bispos) como funcionários de um Sistema ‘Sacral’, organizados por lei sob o Papa. Supõe-se que bispos e padres têm vocação pessoal e são enviados das igrejas, mas eles continuam a ser investidos a partir de “cima” (o modo feudal) e receber honras de um “ordo” (casta) superior, correndo o risco de tornar-se empregados de uma burocracia centralizada em Roma.

Mas, ao contrário do dito acima, a autoridade dos ministros não é um poder divino separável das comunidades, nem uma honra adicional, nem uma habilidade própria de pessoas que conseguem atrair mais clientes ou vender melhor seus produtos, mas sim a sua vida concreta, na comunidade dos chamados pelo Deus de Cristo. Não há nada nem ninguém acima dos fiéis, pois o seu próprio amor mútuo, na comunhão da Palavra e do Pão, é verdade definitiva. Nesse sentido, todos os cristãos podem e devem escutar e difundir o evangelho, de formas apropriadas, com gestos diferentes, como ensina 1 Cor 12-14 e todo o Novo Testamento.

Por isso, a primeira coisa é potenciar o sacerdócio comum, graça que todos os cristãos podem e devem compartilhar por Jesus em abertura para Deus e comunhão de vida, compartilhando assim um sacerdócio que se identifica com a própria existência cristã, interpretada como dom de Deus e comunhão de amor mútuo. Este é o sacerdócio comum, de modo que na Igreja, em princípio, não há lugar para consagrados especiais, nem sedes santas, nem lugares santos ou pessoas, roupas, músicas ou cores oferecidas a Deus por serem diferentes. Não existe para Jesus um mundo de Deus acima, como esfera superior de sacralidade platônica, porque este mundo em baixo (especialmente os pobres e excluídos) é presença de Deus.

Jesus identifica religião e vida, experiência de Deus e humanidade, em amor compartilhado, ao serviço dos pobres. Tudo na igreja é profano (= laical), sendo ao mesmo tempo sagrado, próximo a Deus, expressão do seu mistério. Por isso, a missão cristã não é criar um tras-mundo de santidade, mas achar e cultivar a vida de Deus por Cristo, neste mundo. Para ser o que é e fazer/dizer o que Jesus lhe confiou, a Igreja não precisa de uma hierarquia ‘sacral’ ao estilo antigo, nem estruturas de poder, como o sistema político-econômico, nem edifícios, centros de coordenação burocrática, em linha de totalidade. Basta-lhe a Palavra e o Amor mútuo de Jesus, de modo que todos os seus fiéis ouçam e digam, partilhem e celebrem a Palavra, o Perdão e o Pão.

Não precisa de capital nem de grupos de ativistas bem organizados, nem de propagandas separadas especiais, de acordo com os princípios de um mercado de notícias ou valores, mas sim da vida dos fiéis, segundo o Evangelho, na contramão do Todo, como uma boa nova universal de liberdade e alegria compartilhada, na própria história, sem instituições ‘sacrais’ separadas. Nesta linha, o sacerdócio é a própria vida cristã, e só a partir do sacerdócio comum (= da comunidade sagrada) se pode e deve falar de ministérios especiais, a serviço da missão e comunhão cristã.

O sistema submete todos ao capital e ao mercado global. A igreja, ao invés, quer uní-los a partir (em torno) da Palavra, do Perdão e do Pão, em diálogo concreto pelo qual possam acolher e partilhar a vida.

O sistema quer ter vida própria, como um valor em si mesmo, e assim mede o seu êxito ou fracasso sem levar em conta os homens concretos (nessa linha, Mc 6, 24 diz que o Capital é o anti-Deus). A igreja, por outro lado, não pode separar-se do nascimento, vida e morte dos homens, divinizando-se a si mesma, pois não há nela nada nem ninguém maior do que os homens e as mulheres concretamente, que celebram a presença de Deus na sua vida.

  1. Um tema de celebração.

Atualmente, a Eucaristia oficial depende de um complexo ritual, com ministro hierárquico varão e ordenação sagrada, de modo que os batizados não podem proclamar e partilhar a Palavra e consagrar (= abençoar) o Pão de Jesus por si mesmos, como se fossem clientes de patrões superiores (que se reservam esses “poderes”). Esta situação opõe-se à palavra de Jesus (onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome …ali estou eu no meio deles: Mt 18, 20) e à intenção fundamental do evangelho que descobre e celebra a Vida de Deus na própria vida dos homens.

A tradição da ordem hierárquica (segundo a qual não há Eucaristia sem um ministro ordenado a partir de cima, célibe e varão) inverteu a experiência de Jesus e da Igreja primitiva, que começava pelas comunidades que nomeavam seus próprios ministros, em comunhão (como é lógico) com as comunidades do entorno. Mas chegou a hora de inverter esta inversão, para voltar à raiz do evangelho, de modo que o conjunto da igreja recupere a sua liberdade criadora, o seu sacerdócio de base, superando a dicotomia atual de clero e laicado.

O primeiro é portanto o sacerdócio de base. Sempre que um grupo de cristãos se reúna, em boa fé, em nome de Jesus, ouça a sua palavra e invoque a sua memória no pão e no vinho compartilhados, podemos e devemos dizer que há Eucaristia, encarnação sacramental de Deus por Cristo, igreja. Atualmente, essa eucaristia não poderá chamar-se “oficial”, se não a preside um bispo ou presbítero, em nome da Igreja hierárquica. Mas é verdadeira Eucaristia, mantendo a memória de Jesus e a sua palavra, em comunhão concreta, em torno do Pão de Jesus, a partir do sacerdócio de base. O atual modelo de igreja hierárquico/burocrática, com uma cúpula ‘sacral’ que garante a sua unidade e missão, é secundário, posterior, e deve ser superado, para recuperar a liberdade das primeiras igrejas que celebravam por si mesmas a eucaristia, em comunhão com outras igrejas.

Nesta linha, a Grande Igreja é comunhão de comunidades autônomas, que aprendem a celebrar por si mesmas, escolhendo para isso seus ministros. Chegou o momento de explorar e expandir assim um tipo de celebrações que brotam da própria vida das comunidades, não por soberba ou protesto, por sectarismo ou rejeição dos ministros atuais, mas sim por fidelidade a Jesus e amor às igrejas, com o seu sacerdócio comum, desenvolvido onde homens e mulheres assumem e reafirmam a sua chamada para celebrar juntos o dom de Deus, integrados na Grande Iglesia. O sacerdócio é portanto um dom laical (do ‘laos’, povo) que Jesus ofereceu aos seus fiéis.

Os judeus nacionais se reuniam e formavam uma comunidade real, desde que  houvesse dez adultos, capazes de ouvir a Palavra e celebrá-la, rezando juntos, porque todos estavam “ordenados”, ou seja, habilitados pela Palavra, de modo que habitava neles a Shekinah, a Presença divina (cf. Mishnah, Abot, 3, 2-14). De modo semelhante, os seguidores de Jesus e, em seguida, todos os cristãos podiam juntar-se e juntavam-se formando uma comunidade real, em torno da Palavra e Pão-Vinho de Jesus, porque compartilhavam o seu novo sacerdócio de vida.

O sistema político-social e econômico é duro com os que não servem (não o servem), e portanto, exclui-os, expulsa-os dos seus benefícios. Precisamente entre esses expulsos é que a Igreja deve incrementar as suas comunidades, porque descobre e quer celebrar a Vida a partir da vida ameaçada dos homens, a fim de expressar o sentido da criação de um Deus que entra na história, expressando o seu amor gratuito no amor que os homens têm e compartilham.

 

  1. Conclusão, questões em aberto.

Como eu disse, Jesus foi homem do povo e cultivou símbolos laicais: Palavra que cura, pão e vinho, amor generoso e perdão. Não foi reformador de instituições, nem quis criar uma ordem especial de novos ritos, mas sim desenvolver os da vida, partindo dos pobres, sendo morto por isso, pelos profissionais da política e da religião. Pois bem, os seus seguidores acreditaram nele e fundaram comunidades para manter a sua memória, centrada na mensagem do Reino, no perdão e no pão compartilhado, criando nessa linha diversos ministérios (de enviados e profetas, de mestres e servidores, de anciãos e inspetores) que surgiram da própria entranha messiânica e secular do seu movimento.

Como tenho assinalado, de um modo normal, por criatividade cristã e pressão do entorno, os cristãos posteriores criaram ou aceitaram instituições de tipo hierárquico que se mantiveram até hoje (2016). Mas o tempo das instituições hierárquicas (clericais) está acabando e da raiz do evangelho hão de surgir, nas próprias comunidades, crentes liberados para o ministério evangélico.

Não se trata, pois, de suprimir ministérios, mas sim de fazer que tenham mais força missionária e evangélica. Não será, em princípio, a cúpula clerical que irá promover e dirigir de forma eficiente essa recriação dos ministérios, que pediu o Vaticano II e quer o Papa Francisco, embora seja desejável que ela participe, desmontando os mecanismos burocráticos da Cúria Romana e de outras cúrias episcopais, pondo-se ao serviço do evangelho.

A mudança já começou (como grão de mostarda) e continuará por obra de pessoas e grupos que assumam com uma nova ingenuidade criadora o evangelho, criando comunidades de serviço mútuo e de contemplação ativa. Não pode ser uma mera troca da cúpula clerical, algo que poderia ser feito com poucas variações, suprimindo o Estado e a Cúria Vaticana, nem uma mudança clerical, mas sim uma ‘metanoia’ ou conversão integral, não para destruir, mas para [construir] a partir do evangelho.

Não se trata de transformar algumas instituições, suprimindo velhas e criando novas, mais modernas e democráticas num sentido externo, nem de trocar as pessoas que hoje governam, pondo em seu lugar outras melhores (coisa difícil e inútil no lugar, se se mantiverem as mesmas estruturas), mas sim de superar com base no evangelho a instituição hierárquico/clerical, não para abandonar cada crente à improvisação e o grupo cristão à anarquia, mas para ensaiar e promover a partir de Jesus um encontro de Palavra, Perdão e Pão.

A resposta é voltar às origens da mensagem de Jesus, à sua experiência do Reino, com o impulso dos primeiros grupos eclesiais que surgiram por obra do Espírito, para explorar novos caminhos em direção ao evangelho.

Três são, na minha opinião, as questões em aberto.

 

— Proclamação da Palavra: É ela que importa, e a seu serviço devem estar os ministros da mensagem (profetas, mestres, escribas). Mas não se tratará de uma palavra interpretada apenas de forma privada, como em alguns protestantes, mas sim de uma Palavra escutada, compartilhada e proclamada em nome da comunidade inteira.

— Compromisso de conversão e de perdão. Como demonstrou Campenhausen, os ministérios hierárquicos nasceram no século II-III dC. C. para assegurar a conversão perdão e comunhão na Igreja. Esta continua sendo a questão-chave: Para promover a conversão e afirmar/celebrar o perdão têm de surgir agora uns ministérios que não sejam hierárquico/clericais, mas sim muito eficientes, pois sem conversão social e perdão não há Igreja.

— Celebração do Pão Compartilhado, Eucaristia. Não há Igreja sem memória de Jesus e presença de Deus no pão concreto, pão dos pobres verdadeiros e de comunhão universal, que se celebra, vive e canta. Neste contexto, para este fim, devem surgir os novos ministérios eclesiais, não-clericais, mas muito eficientes. Cada uma destas questões exigiria um estudo à parte.

 

OBS. Nota do Tradutor: 

 * ‘Sacral’ – segundo o “Diccionario de la lengua española” (da REAL ACADEMIA ESPAÑOLA) este termo é sinônimo de sagrado. Mas o autor indica claramente que lhe dá um sentido específico, não coincidente com o daquele. 

 

Bibliografia básica:

  • Arbucke, G. A., Refundar la Iglesia. Disidencia y liderazgo, Sal Terrae, Santander 1998
  • Boff, L., Iglesia: carisma y poder, Sal Terrae, Santander 1982
  • Campenhausen, H. von, Ecclesiastical Authority and Spiritual Power, Hendrickson, Peabody MA 1997
  • Delorme, J. (ed.), El ministerio y los ministerios según el NT, Cristiandad 1975
  • Estrada, J. A., Como surgió la Iglesia, EVD, Estella 1999
  • Faivre, A., Ordonner la Fraternité. Pouvoir d’innover et Retour à l’ordre dans l’Église ancienne, Cerf, Paris 1992
  • Lafont, G., Histoire théologique de l´Église catholique, Cerf, Paris 1994
  • Montserrat, J., Hacia el nuevo concilio, PPC, Madrid 2010
  • Pikaza, X., Sistema, libertad, Iglesia, Trotta, Madrid 1999
  • Rahner, K., Cambio estructural en la iglesia, Cristiandad, Madrid 1974
  • Schillebeeckx, E., El ministerio eclesial. Responsables en la comunidad cristiana, Cristiandad, Madrid 1983
  • Sesboüe, B., No tengáis miedo! Los ministerios en la iglesia hoy, Sal Terrae, Santander 1998
  • Tillard, J. M., La Iglesia local. Eclesiología de comunión y catolicidad, Sígueme, Salamanca 1999
  • Vaux, R., Instituciones del AT, Herder, Barcelona, 1985
  • Velasco, R., La iglesia de Jesús, Verbo Divino, Estella 1992

 

Xabier Pikaza

 

Xabier Pikaza

Fonte: http://blogs.periodistadigital.com/xpikaza.php/2016/08/29/p388386#more388386

 

 

 

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Uma resposta

  1. Fico emocionado em ler um artigo tão completo e maravilhoso como esse onde encontramos até o ótimo “Cambio estructural en la iglesia” de Rahner. Obrigado por compartilhar!

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