Sala de Imprensa do Vaticano – 02/08/2016
Tradução: Orlando Almeida
Na tarde de 27 de julho, primeiro dia da viagem apostólica à Polônia, por ocasião da XXXI Jornada Mundial da Juventude, o Papa Francisco encontrou-se com os Bispos da Polônia na Catedral dos Santos Estanislau e Venceslau, em Cracóvia.
O Encontro de Francisco com os bispos da Polônia foi reservado, não aberto à Imprensa. A seguir, a transcrição do diálogo, publicado só no dia /08/2016 pela SALA DE IMPRENSA do Vaticano, em italiano o polonês
Durante encontro, o Papa respondeu a algumas perguntas dos prelados poloneses.
Papa Francisco:
Antes de iniciar o diálogo, com as perguntas que vós preparastes, gostaria de fazer uma obra de misericórdia junto com todos vós e sugerir uma outra. Eu sei que nestes dias, com a Jornada Mundial da Juventude, muitos de vós estiveram ocupados e não puderam ir às exéquias do querido Mons. Zimowski.
É uma obra de caridade sepultar os mortos, e eu gostaria que todos, agora, fizéssemos uma oração por Mons. Zygmunt Zimowski e que esta seja uma verdadeira manifestação de caridade fraterna, sepultar um irmão que morreu. Pai Nosso … Ave Maria … Glória ao Pai … ‘Requiem aeternam …’
E, depois, a outra obra de misericórdia que eu gostaria de sugerir. Eu sei que vós estais muito preocupados com isto: o nosso querido Cardeal Macharski que está muito doente … Pelo menos chegar perto, porque creio que não se poderá entrar onde ele está, inconsciente, mas ao menos, chegar perto da clínica, do hospital, e tocar o muro, dizendo: “Irmão, estou perto de você”. Visitar os doentes é uma outra obra de misericórdia. Eu irei lá. Obrigado.
E agora, alguns de vocês prepararam perguntas, pelo menos, as enviaram. Estou à disposição.

S.E. Mons. Marek Jędraszewski (Arcebispo de Łódź):
Santo Padre, parece que os fiéis da Igreja Católica, e em geral todos os cristãos na Europa Ocidental, estão ficando cada vez mais em minoria no âmbito de uma cultura contemporânea ateia-liberal. Na Polônia, estamos assistindo a um confronto profundo, a uma enorme luta entre fé em Deus de um lado, e do outro um pensamento e estilos de vida como se Deus não existisse.
No seu entender, Santo Padre, que tipo de ações pastorais deveria empreender a Igreja Católica no nosso País, a fim de que o povo polonês permaneça fiel à sua já mais que milenária tradição cristã? Obrigado.
Papa Francisco:
Excelência, o senhor é Bispo de …?
Dom Marek Jędraszewski:
De Łódź, onde começou o caminho de Santa Faustina; porque foi lá que ela ouviu a voz de Cristo para ir para Varsóvia e tornar-se freira, foi exatamente em Łódź. A história da sua vida começou na minha cidade.
Papa Francisco:
O senhor é um privilegiado!
É verdade, a descristianização, a secularização do mundo moderno é forte. É muito forte. Mas alguns dizem: Sim, é forte, mas vemos fenômenos de religiosidade, como se o sentido religioso despertasse. E este pode ser também um perigo.
Creio que nós, neste mundo secularizado, temos também o outro perigo, da espiritualização gnóstica: esta secularização dá-nos a possibilidade de fazer crescer uma vida espiritual um pouco gnóstica. Lembremos que foi esta a primeira heresia da Igreja: o apóstolo João fustiga os gnósticos – e como, com que força! – onde há uma espiritualidade subjetiva, sem Cristo. O problema mais grave, para mim, desta secularização é a descristianização: tirar Cristo, tirar o Filho. Eu rezo, sinto … e nada mais. Isto é o gnosticismo.
Há uma outra heresia que também está na moda, neste momento, mas deixo-a de lado porque a sua pergunta, Excelência, é nesta direção. Há também um pelagianismo, mas este deixemo-lo de lado, para falar dele em outro momento.
Encontrar Deus sem Cristo: um Deus sem Cristo, um povo sem Igreja. Porquê? Porque a Igreja é a Mãe, aquela que te dá vida, e Cristo é o Irmão mais velho, o Filho do Pai, que faz referência ao Pai, que é quem te revela o nome do Pai. Uma Igreja órfã: o gnosticismo de hoje, pois é mesmo uma descristianização, sem Cristo, leva-nos a uma Igreja, diríamos melhor, a cristãos, a um povo órfão. E nós devemos fazer com que o nosso povo sinta isto.
O que eu recomendaria? Vem-me à mente – mas acho que esta seja a prática do Evangelho, onde exatamente está o ensinamento do Senhor – a vizinhança. Hoje nós, servos do Senhor –bispos, sacerdotes, consagrados, leigos convictos – devemos estar perto do povo de Deus.
Sem vizinhança só existe palavra sem carne. Pensemos – gosto de pensar nisto – nos dois pilares do Evangelho. Quais são os dois pilares do Evangelho? As bem-aventuranças, e depois Mateus 25, o “protocolo” com o qual todos nós seremos julgados. Concretude. Vizinhança. Tocar. As obras e misericórdia, tanto corporais como espirituais.
‘Mas o senhor diz essas coisas porque está na moda falar da misericórdia este ano …’. Não, é o Evangelho! O Evangelho, as obras de misericórdia. É aquele herege ou descrente samaritano que se comove e faz o que deve fazer, e arrisca até o dinheiro! Tocar.
É Jesus que estava sempre no meio do povo ou com o Pai. Ou em oração, a sós com o Pai, ou no meio do povo, lá, com os discípulos. Proximidade. Tocar. É a vida de Jesus … Quando Ele se comoveu, às portas da cidade de Naim (cf. Lc 7,11-17), comoveu-se, foi e tocou no caixão, dizendo: “Não chores …”. Vizinhança. E a vizinhança é tocar a carne sofredora de Cristo.
E a Igreja, a glória da Igreja, são os mártires, é claro, mas também muitos homens e mulheres que deixaram tudo e passaram a sua vida nos hospitais, nas escolas, com as crianças, com os doentes …
Lembro, na República Centro-africana, uma freirinha, de 83/84 anos, magra, valente, com uma menina … ela veio me cumprimentar: ‘Eu não sou daqui, sou do outro lado do rio, do Congo, mas toda a vez, uma vez por semana, venho fazer compras, porque são mais acessíveis’. Disse-me a idade: 83/84 anos.
- ‘Há 23 anos estou aqui: sou enfermeira obstétrica, ajudei a nascer duas/três mil crianças …’
- ‘Ah… e vem aqui sózinha ?’.
- ‘Sim, sim, pegamos a canoa …’.
Com 83 anos! Com a canoa, passava uma horinha e chegava. Esta mulher – e muitas como ela – deixaram o seu País – é italiana, de Brescia – deixaram o seu País para tocar a carne de Cristo. Se formos a estes Países de missão, na Amazônia, na América Latina, encontramos nos cemitérios os túmulos de muitos homens e mulheres religiosas que morreram jovens porque não tinham anticorpos para as doenças daquela terra, e morriam jovens.
As obras de misericórdia: tocar, ensinar, consolar, “perder tempo”. Perder tempo. Gostei muito, uma vez, de um senhor que foi confessar-se e estava numa situação tal que não podia receber a absolvição. Veio com um pouco de receio, porque tinha sido mandado embora algumas vezes: ‘Não, não … vá embora’.
O padre ouviu-o, explicou-lhe a situação, disse-lhe: ‘Mas tu, tu, reza. Deus te ama. Vou te dar a bênção, mas volta, prometes?’.
E esse padre “perdia tempo” para atrair este homem para os sacramentos. Isto chama-se vizinhança.
E falando aos Bispos de vizinhança, eu creio que devo falar da vizinhança mais importante: com os sacerdotes. O bispo deve estar disponível para os seus sacerdotes. Quando eu estava na Argentina ouvi de padres … – muitas, muitas vezes, quando ia dar os Exercícios, eu gostava de dar os Exercícios – eu dizia: ‘
- Fala com o bispo sobre isto …’
- ‘Mas não, eu telefonei e a secretária me disse: Não, está muito, muito ocupado, mas te receberá dentro de três meses’.
Ora este padre sente-se órfão, sem pai, sem a vizinhança e começa a esmorecer. Um bispo que vê na lista de chamadas, à noite, quando retorna, a chamada de um sacerdote, ou naquela mesma noite ou no dia seguinte, deve ligar para ele imediatamente. ‘Sim, estou ocupado, mas é urgente?’ – ‘Não, não, mas vamos combinar …’.
Que o sacerdote sinta que tem um pai. Se negarmos a [nossa] paternidade aos sacerdotes, não podemos pedir-lhes que sejam pais. E assim o sentido da paternidade de Deus se afasta. A obra do Filho é tocar as misérias humanas: físicas e espirituais. A vizinhança. A obra do Pai: ser pai, bispo-pai.
Depois, os jovens – porque é preciso falar de jovens nestes dias. Os jovens são “chatos”! Por que sempre dizem as mesmas coisas, ou “eu penso assim …”, ou “a Igreja deveria …”, e é preciso paciência com os jovens. Eu conheci, quando garoto, alguns padres: era uma época em que o confessionário era mais frequentado do que agora, passavam horas ouvindo, ou recebiam-nos na secretaria paroquial, ouvindo as mesmas coisas … mas com paciência. E, depois, levar os jovens para o campo, para a montanha … E pensai em São João Paulo II, o que ele fazia com os universitários? Sim, ele ensinava, mas depois ia com eles para as montanhas! Vizinhança. Ouvia-os. Ficava com os jovens …
E uma última coisa que quero enfatizar, porque eu creio que o Senhor mo pede: os avós. Vós que sofrestes o comunismo, o ateísmo, vós o sabeis: foram os avôs, foram as avós que salvaram e transmitiram a fé. Os avós têm a memória de um povo, tem a memória da fé, a memória da Igreja. Não descartar os avós! Nesta cultura de descarte, que é realmente descristianizada, descarta-se o que não serve, o que não interessa. Não! Os avós são a memória do povo, são a memória da fé. E conectar os jovens com os avós: isto também é vizinhança. Ser vizinhos, cria vizinhança.
Responderia assim a esta pergunta. Não há receitas, mas devemos entrar em campo. Se esperarmos a chamada ou que batam à porta … Não. Nós devemos sair a procurar, como o pastor que vai procurar os perdidos. Não sei, é o que me vem. Simplesmente.
Mons. Slawoj Leszek Glódz (Arcebispo de Gdańsk):
Caro Papa Francisco, estamos especialmente muito gratos que o Papa Francisco tenha aprofundado o ensinamento sobre a misericórdia que São João Paulo II tinha iniciado aqui mesmo em Cracóvia. Nós todos sabemos que vivemos num mundo dominado pela injustiça: os ricos tornam-se ainda mais ricos, os pobres tornam-se miseráveis, há o terrorismo, há uma ética e moralidade liberal, sem Deus …
E a minha pergunta é a seguinte: como aplicar o ensinamento da misericórdia, e a quem, sobretudo? O Santo Padre tem promovido um remédio que se chama “misericordina”, que trago comigo: obrigado pela promoção …
Papa Francisco:
… Mas agora vem a “misericordina plus”: é mais forte!
S.E. Mons. Slawoj Leszek Glódz:
… Sim, e muito obrigado por este “plus”. Nós também temos o programa “plus”, promovido também pelo governo para as famílias numerosas. Este “plus” está na moda. A quem e como, especialmente? Em primeiro lugar, quem deveria ser o objeto do nosso ensinamento da misericórdia? Obrigado.
Papa Francisco:
Obrigado. Essa da misericórdia não é algo que me ocorreu, a mim. Este é um processo.Se nós olharmos, já o Beato Paulo VI tinha feito alguns apelos sobre a misericórdia.Depois, São João Paulo II foi o gigante da misericórdia, com a encíclica ‘Dives in Misericordia’, a canonização de Santa Faustina, e depois a oitava da Páscoa: ele morreu na véspera desse dia.
É um processo que vem há anos, na Igreja. Vê-se que o Senhor pedia que despertasse na Igreja esta atitude, de misericórdia entre os fiéis. Ele é o Misericordioso que perdoa tudo. Impressiona-me muito um capitel medieval que se encontra na Basílica de Santa Maria Madalena em Vézelay, na França, onde começa o Caminho de Santiago.
Nesse capitel, de um lado, está Judas enforcado, com os olhos abertos e a língua de fora, e, do outro lado, está o Bom Pastor que o carrega consigo. E se olharmos bem, com atenção, o rosto do Bom Pastor, os lábios de um lado estão tristes, mas do outro lado sorriem. A misericórdia é um mistério, é um mistério. É o mistério de Deus.
Fizeram-me uma entrevista, da qual mais tarde foi extraído um livro chamado ‘O nome de Deus é misericórdia’, mas é uma expressão jornalística, acho que se pode dizer que Deus é o Pai misericordioso. Pelo menos, Jesus no Evangelho mostra-o assim. Pune para converter. E depois as parábolas da misericórdia, e o modo como Ele nos quis salvar … Quando veio a plenitude dos tempos, fez nascer o Filho de uma mulher: com a carne, salva-nos com a carne; não pelo medo, mas pela carne. Neste processo da Igreja nós recebemos muitas graças.
E você vê este mundo doente de injustiça, de falta de amor, de corrupção. E isso é verdade, isso é verdade. Hoje, no avião, falando desse sacerdote mais que octogenário que foi morto na França: faz tempo que digo que o mundo está em guerra, que estamos vivendo a terceira guerra mundial em pedaços.
Pensemos na Nigéria ... Ideologias, sim, mas qual é a ideologia atual, que está mesmo no centro e que é a mãe das corrupções, das guerras? A idolatria do dinheiro. O homem e a mulher não estão mais no topo da criação, lá foi colocado o ídolo dinheiro, e tudo se compra e se vende por dinheiro. No centro o dinheiro. Exploram-se as pessoas. E o tráfico de pessoas hoje em dia? Sempre foi assim: a crueldade!
Falei deste sentimento a um Chefe de governo, e ele me disse: “Sempre houve a crueldade. O problema é que agora nós a vemos pela televisão, aproximou-se da nossa vida”. E sempre aquela crueldade. Matar, por dinheiro. Explorar as pessoas, explorar a criação.
Um Chefe de governo africano, eleito recentemente, quando veio à audiência disse-me: “O primeiro ato de governo que fiz foi reflorestar o País, que tinha sido desmatado e destruído”.
Nós não cuidamos da criação! E isto significa mais pobres, mais corrupção. Mas o que pensamos nós quando 80% – mais ou menos, checai bem as estatísticas e se não é 80 é 82 ou 78 – das riqueza está nas mãos de menos de 20% das pessoas. “Padre, não fale assim, senão o senhor é [tido como] comunista!”.
Não, não, são estatísticas! E quem paga isto? Pagam as pessoas, o povo de Deus: as garotas exploradas, os jovens sem trabalho. Na Itália, de 25 anos para baixo, 40% estão desempregados; na Espanha, 50%; na Croácia, 47%. Por quê? Porque há uma economia líquida, que favorece a corrupção.
Contava-me escandalizado um grande católico, que foi visitar um amigo empresário: ‘Vou te mostrar como ganho 20.000 dólares sem sair de casa’. E com o computador, da Califórnia, fez uma compra de não sei o quê e vendeu-a para a China: em 20 minutos, em menos de 20 minutos, tinha ganhado os 20.000 dólares. É tudo líquido!
E os jovens não têm a cultura do trabalho, porque não têm trabalho! A terra está morta, porque foi explorada sem sensatez. E assim vamos em frente. O mundo se aquece, por quê? Porque temos de ganhar. O lucro. “Caímos na idolatria do dinheiro”: isto foi me dito por um embaixador quando apresentou as Credenciais. É uma idolatria.
A Divina Misericórdia é o testemunho, o testemunho de muitas pessoas, muitos homens e mulheres, leigos, jovens que trabalham: na Itália, por exemplo, o cooperativismo. Sim, há alguns que são muito espertinhos, mas sempre faz algum bem, fazem-se coisas boas. E depois as instituições para cuidar dos doentes: organizações fortes. Ir por este caminho, fazer coisas para que a dignidade humana cresça.
Mas é verdade o que o senhor diz. Vivemos um analfabetismo religioso, de tal maneira que em alguns santuários do mundo as coisas ficam confusas: vai-se para rezar, há lojas onde se podem comprar objetos de piedade, rosários … mas há algumas lojas que vendem coisas de superstição, porque que se busca a salvação na superstição, no analfabetismo religioso; o relativismo que confunde uma coisa com a outra.
E aí é necessária a catequese, a catequese de vida. A catequese que não é só dar noções, mas acompanhar o caminho. Acompanhar é uma das atitudes mais importantes! Acompanhar o crescimento da fé. É um trabalho grande e os jovens esperam isto! Os jovens esperam … ‘Mas se eu começar a falar, eles ficam entediados’.
Mas dá-lhes um trabalho para fazer. Diz a eles para irem durante as férias, uns quinze dias, ajudar a construir casas modestas para os pobres, ou fazer alguma outra coisa. Que comecem a sentir que são úteis. E aí deixa cair a semente de Deus. Lentamente. Mas só com as palavras a coisa não vai! O analfabetismo religioso de hoje, devemos enfrentá-lo com as três linguagens, com as três línguas:
- a língua da mente,
- a língua do coração
- e a língua das mãos.
Todas as três harmonicamente.
Não sei … Estou falando demais! São ideias que vos digo. Vós, com a vossa prudência, sabereis o que fazer. Mas sempre a Igreja em saída.
Uma vez atrevi-me a dizer: há aquele versículo do Apocalipse “Eis que estou à porta e bato” (3:20); Ele bate à porta, mas gostaria de saber quantas vezes o Senhor bate na porta por dentro, para que nós a abramos e ele possa sair com a gente para levar o Evangelho para fora. Não fechados, para fora! Sair, sair! Obrigado.
S.E. Mons. Leszek Leszkiewicz (bispo auxiliar de Tarnów):
Santo Padre, o nosso compromisso pastoral baseia-se principalmente no modelo tradicional da comunidade paroquial, estruturada sobre a vida sacramental. Um modelo que aqui continua a dar frutos. No entanto, percebemos que, também entre nós, as condições e as circunstâncias da vida cotidiana mudam rapidamente e exigem da Igreja novas modalidades pastorais. Pastores e fiéis parecem-se um pouco com aqueles discípulos que ouvem, se envolvem em muitas coisas, mas nem sempre sabem como aproveitar o dinamismo missionário interior e exterior das comunidades eclesiais.
Santo Padre, o senhor, na ‘Evangelii gaudium’, fala dos discípulos missionários que levam com entusiasmo a Boa Nova ao mundo de hoje. O que o senhor nos sugere? Em que coisa nos encoraja, para que possamos edificar no nosso mundo a comunidade da Igreja de modo frutífero, fecundo, com alegria, com dinamismo missionário?
Papa Francisco:
Obrigado! Gostaria de enfatizar uma coisa: a paróquia é sempre válida! A paróquia deve permanecer: é uma estrutura que não devemos jogar pela janela. A paróquia é mesmo a casa do Povo de Deus, na qual ele vive. O problema é como a paróquia é organizada!
Há
- paróquias com secretárias paroquiais que parecem “discípulas de Satanás”, que espantam as pessoas!
- Paróquias com as portas fechadas.
- Mas existem também paróquias com as portas abertas, paróquias onde, quando alguém vem perguntar alguma coisa, se diz: ‘Sim, sim … Entre. Qual é o problema? … ‘. E se escuta com paciência … porque cuidar do povo de Deus é trabalhoso, é cansativo!
Um competente professor universitário, um jesuíta, que conheci em Buenos Aires, quando se aposentou, pediu ao Provincial para ser pároco de um bairro para fazer essa outra experiência. Uma vez por semana vinha à Faculdade – ele dependia dessa comunidade – e um dia me disse:
- “Diga ao seu professor de eclesiologia que no seu tratado faltam duas teses’
- ‘Quais?’
- ‘Primeira: o Povo Santo de Deus é essencialmente cansativo.
- E a segunda: o Povo Santo de Deus ontologicamente faz o que lhe parece melhor. E isto cansa!’
Hoje ser pároco é cansativo: dirigir uma paróquia é desgastante, neste mundo de hoje, com tantos problemas. Mas o Senhor nos chamou para que nos cansemos um pouquinho, para trabalhar e não para descansar. A paróquia é cansativa quando é bem estruturada. A renovação da paróquia é uma das coisas que os bispos devem ter sempre debaixo dos olhos:
- como vai esta paróquia?
- O que você faz?
- Como vai a catequese?
- Como você a ensina?
- Está aberta?
Tantas coisas … Lembro de uma paróquia em Buenos Aires; quando os noivos chegavam:
- ‘Gostaríamos de nos casarmos aqui …’.
- ‘Sim – dizia a secretária – os preços são estes’.
Isso está errado, uma paróquia assim não pode...
- Como são acolhidas as pessoas?
- Como são ouvidas?
- Há sempre alguém no confessionário?
Nas paróquias – não naquelas que ficam nos bairros pequenos, mas nas paróquias que ficam no centro, nas ruas principais – se há um confessionário com a luz acesa, sempre há pessoas que vão lá. Sempre! Uma paróquia acolhedora. Nós bispos devemos perguntar isto aos padres:
- ‘Como vai a sua paróquia?
- E você sai?
- Visita os presos, os doentes, as velhinhas?
- E o que faz com as crianças?
- Como se divertem e como funciona o oratório?
[O oratório] é uma das grandes instituições paroquiais, pelo menos na Itália. O oratório: lá os garotos brincam e pode-se conversar um pouco com eles, um pouco de catequese. Voltam para casa cansados, alegres e com uma boa semente. A paróquia é importante!
Alguns dizem que a paróquia não funciona mais, porque agora é o tempo dos movimentos. Isso não é verdade!
Os movimentos ajudam, mas os movimentos não devem ser uma alternativa à paróquia: devem ajudar na paróquia, apoiar a paróquia, como a Congregação Mariana, como a Ação Católica e tantas realidades.
Procurar a novidade e mudar a estrutura da paróquia?
O que vos digo poderá talvez parecer uma heresia, mas é como eu a vivo: creio que é algo análogo à estrutura episcopal, é diferente, mas análoga. A paróquia é intocável: ela deve permanecer como um lugar de criatividade, de referência, de maternidade e todas estas coisas. E lá desenvolver a capacidade inventiva; e, quando uma paróquia se desenvolve desta maneira, realiza-se o que – a propósito dos discípulos missionários – eu chamo “paróquia em saída”.
Penso, por exemplo, numa paróquia – um belo exemplo que depois foi imitado por muitas – numa aldeia onde não era costume batizar crianças, porque não havia dinheiro; mas para o dia do santo patrono a festa começa a ser preparada 3 a 4 meses antes com a visita às casas e então se vê quantas crianças não são batizadas. Preparam-se as famílias e um dos atos da festa do patrono é o Batismo de 30-40 crianças que, ao contrário, ficariam sem batismo. Inventar coisas assim.
As pessoas não se casam na igreja. Estou lembrando uma reunião de sacerdotes; um levantou-se e disse: ‘Você já pensou porquê?’. E deu muitas razões com que nós concordamos: a cultura atual, e assim por diante.
Mas há um bom número de pessoas que não se casam porque casar-se hoje, custa! Custa para tudo, a festa … É um fato social.
E este pároco, que era muito criativo, disse: ‘Quem quiser se casar, eu espero’. Porque na Argentina há dois casamentos: é preciso sempre ir [ao cartório] civil e lá se faz o casamento civil, e depois, se quiserem, vão ao templo da sua religião para se casarem.
Alguns – muitos! – não se casam porque não têm dinheiro para fazer uma festa grande… Mas os sacerdotes que têm um pouco de engenho, dizem: ‘Não, não! Eu espero’. Naquele dia, se o casamento civil é às 11.00-12.00-13.00-14.00: naquele dia eu não faço a sesta! Após o casamento civil vêm à igreja, casam e vão em paz.
Inventar, buscar, sair, procurar as pessoas, pôr-se a par das dificuldades das pessoas. Mas uma paróquia-escritório hoje não funciona! Porque as pessoas não são disciplinadas. Vós tendes um povo disciplinado, e esta é uma graça de Deus! Mas geralmente a gente não é disciplinada.
Penso no meu país: as pessoas, se não se sai à procura delas, se não se faz uma aproximação, não vêm. E é este o discípulo missionário, a paróquia em saída. Sair a procurar, como fez Deus que enviou o Seu Filho para nos procurar.
Eu não sei se é uma resposta simplista, mas eu não tenho outra. Não sou um pastoralista iluminado, digo o que me vem.
S.E. Mons. Krzysztof Zadarko (Bispo Auxiliar de Koszalin-Kolobrzeg):
Santo Padre, um dos problemas mais angustiantes com que se defronta a Europa de hoje é a questão dos refugiados. Como podemos ajudá-los, uma vez que são tão numerosos? E o que podemos fazer para superar o medo de uma sua invasão ou agressão, que paralisa a sociedade inteira?
Papa Francisco
Obrigado! O problema dos refugiados … nem sempre, em todas as épocas, os refugiados foram como agora. Digamos migrantes e refugiados, vamos considerá-los juntos. Meu pai é um migrante. E eu estava contando ao presidente [da Polônia] que na fábrica onde ele trabalhava havia muitos migrantes poloneses, depois da guerra; eu era criança e conheci muitos deles. A minha terra é uma terra de imigrantes, todos … E lá não havia problemas; eram outros tempos, realmente.
Hoje em dia, porque há tanta migração? Não falo de emigração da própria pátria para outros países: isso é devido à falta de trabalho. É claro que vão procurar trabalho fora. Este é um problema doméstico, que vocês também têm, um pouco’…
Falo dos que vêm para cá: fogem da guerra, da fome. O problema está lá. E porque o problema está lá? Porque naquela terra há uma exploração das pessoas, há uma exploração da terra, há uma exploração para ganhar mais dinheiro. Falando com economistas mundiais, que estudam este problema, eles dizem: devemos fazer investimentos nesses países; fazendo investimentos, eles terão trabalho e não precisarão migrar.
Mas há a guerra! Há a guerra tribal, algumas guerras ideológicas ou algumas guerras artificiais, organizadas pelos traficantes de armas que vivem disso: dão as armas a estes que são contra aqueles, e àqueles que são contra estes. E assim vivem! Realmente a corrupção está na origem da migração.
Como fazer? Eu creio que cada país deve ver como e quando: nem todos os países são iguais; nem todos os países têm as mesmas possibilidades. Sim, mas todos têm a possibilidade de ser generosos! Generosos como cristãos. Não podemos investir lá, mas para os que vêm … Quantos e como? Não se pode dar uma resposta universal, porque o acolhimento depende da situação de cada País e também da cultura.
Mas certamente podem-se fazer muitas coisas. Por exemplo, a oração: uma vez por semana a oração ao Santíssimo Sacramento rezando por aqueles que estão batendo à porta da Europa, e não conseguem entrar. Alguns conseguem, mas outros não … E então entra um e toma um caminho que causa medo.
Temos países que souberam integrar bem os migrantes, desde há anos! Conseguiram integrá-los bem. Em outros, infelizmente, formaram-se uma espécie de guetos. Há toda uma mudança que precisa ser feita, em todo o mundo, acerca deste compromisso, deste acolhimento. Mas de qualquer forma é um aspecto relativo: absoluto é o coração aberto para acolher. Isto é absoluto!
Com a oração, a intercessão, fazer o que posso. Relativo é o modo como posso fazê-lo: nem todos podem fazê-lo da mesma maneira. Mas o problema é mundial! A exploração da criação, e a exploração das pessoas. Estamos vivendo um momento de aniquilamento do homem como imagem de Deus.
E aqui eu gostaria de concluir com este ponto de vista, que por trás disto estão as ideologias. Na Europa, nos Estados Unidos, na América Latina, na África, em alguns países da Ásia, há autênticas colonizações ideológicas. E uma destas – digo isso claramente com ‘nome e cognome’ – é o ‘gender’! Hoje às crianças – às crianças! – nas escola ensina-se isto: que o sexo, cada um pode escolhê-lo. E por que ensinam isto? Porque os livros são daquelas pessoas e instituições que dão o dinheiro.
São as colonizações ideológicas, apoiadas também por Países muito influentes. E isto é terrível. Falando com o Papa Bento, que está bem e tem um pensamento claro, ele me dizia: ‘Santidade, esta é a época do pecado contra Deus Criador!’. É inteligente! Deus criou o homem e a mulher; Deus criou o mundo assim, assim, assim …, e nós estamos fazendo o contrário.
Deus nos deu um estado ‘de ignorância’, para que nós o tornássemos cultura; e depois, com esta cultura, fazemos coisas que nos fazem retornar ao estado ‘de ignorância’! Devemos pensar no que o Papa Bento XVI disse: ‘É a época do pecado contra Deus Criador’. E isso vai nos ajudar.
Mas você, Cristóvão, me dirá: “O que isso tem a ver com os migrantes?”. Faz um pouco parte do contexto, sabe? Quanto aos migrantes direi: o problema está lá, na terra deles. Mas como os recebemos? Cada um deve ver como. Mas todos podemos ter o coração aberto e pensar em fazer uma hora nas paróquias, uma hora por semana, de adoração e de oração pelos os migrantes. A oração move montanhas!
Estas foram as quatro perguntas. Não sei … Desculpai-me se falei demais, mas o sangue italiano me trai …
Muito obrigado pelas boas-vindas e esperamos que estes dias nos encham de alegria: alegria, muita alegria. E rezemos a Nossa Senhora, que é Mãe e que nos conduz sempre pela mão.
Salve Regina …
E não esquecer os avós, que são a memória de um povo.
Texto original em italiano:
FONTE: http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2016/08/02/0568/01265.html
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