Frei Bento Domingues, O.P. – 29 maio 2016
- Ó Deus, Trindade Santa,/ ó luz mais radiosa que toda a luz,/ fogo mais ardente que todo o fogo,/ Tu és um oceano, a paz,/ Tu és um mar sem fundo,/ mais eu mergulho, mais eu me afundo,/ mais eu Te encontro, mais eu Te procuro ainda./ Sede que Tu saciaste no deserto um dia,/ para sempre ficar com sede de Ti[i].
Esta oração é um poema. Não precisa de comentários. Traz consigo a sua própria inteligibilidade simbólica. Pode exigir uma iniciação, mas nunca a sua substituição.
Tentei, desde muito cedo, inscrever-me numa corrente de pensamento teológico que pratica a modéstia subversiva como atitude básica da inteligência da fé. Estou a referir-me a S. Tomás de Aquino que, em poucos anos de vida – morreu aos 49 anos – produziu uma obra monumental de
- análise filosófica,
- de exegese bíblica,
- de seleção patrística,
sempre em confronto aberto e criativo com as várias correntes do seu tempo, de horizontes culturais e religiosos muito diferentes. Ditou um impressionante e rigoroso guião para principiantes na investigação teológica, para que não se perdessem na floresta de opiniões para todos os gostos[ii].
Procurou abrir novos caminhos, na escola de Alberto Magno. Mas os pseudo discípulos viram nesse guião um repouso, uma preguiça, um substituto de constantes interrogações.
Como escreveu Umberto Eco,
- fizeram de um incendiário, um bombeiro.
- Um pensador subversivo e condenado foi promovido a padroeiro de uma ignorante ortodoxia.
Para S. Tomás – que também era um grande poeta – a teologia não é um produto intelectual como a geometria. Pressupõe uma inteligência afetiva, de conaturalidade espiritual. Essa conaturalidade, paradoxalmente, não dispensa, pelo contrário, exige o estudo aturado, bebido nas mais diversas fontes, pois a graça não substitui nem diminui a natureza.
Nunca se esqueceu de unir duas atitudes que, aparentemente, parecem excluir-se:
- a razão argumentativa
- e o pensamento simbólico,
- a teologia afirmativa
- e a teologia negativa,
cuidando que o ridículo não fosse apresentado como defesa ou apologia da fé. O nosso modo de dizer Deus é sempre abissalmente inadequado.
Este cuidado é a alma da sua teologia. No entanto, para viver e pensar a fé cristã, no século XXI, não dispomos de nenhuma receita. Encontramo-nos polarizados por aceleradas mudanças em todos os domínios. Como se costuma dizer, teremos de encontrar o caminho, caminhando[iii].
- A liturgia dá que pensar se assumir a sabedoria inscrita na prática simbólica e ritual. O exercício do pensamento simbólico assume a presença e a distância. No Domingo passado, foi celebrada a SS Trindade. A festa do Corpo de Deus deixou este Domingo porque conquistou o seu feriado.
Como o Pentecostes não é uma clausura, mas a entrada numa criatividade sem fronteiras, as duas festas referidas nasceram para tentar entender, em novos contextos culturais, palavras e gestos simbólicos de Jesus que suscitaram vivas controvérsias.
Fora da linguagem do pensamento simbólico, tanto a celebração da SS. Trindade como a do Corpo de Deus, oscilam entre banalidades e subtilezas pseudo filosóficas. Digo isto, porque me lembro da confusão que me faziam na catequese, as explicações da Trindade à base do trevo e de uma palavra feminina para dizer três masculinos. Mas era lindo rezar três vezes ao dia, ao toque do sino, o toque das Trindades: de manhã; ao meio dia e ao escurecer. Tudo parava para santificar o dia, o trabalho e o repouso.
Na vida adulta delirava com as anedotas que se contavam desse mistério. Descobri místicos trinitários, teologias muito subtis, disputas conciliares e a loucura da separação das Igrejas do Oriente e do Ocidente mediante a arma ridícula do anátema recíproco sustentado por uma série de banalidades, incluindo as da formulação trinitária.
- Apesar de todas estas polêmicas, existia como não existindo.
- O teólogo K. Rahner escreveu que se o dogma trinitário fosse eliminado como falso, a maior parte da literatura religiosa poderia permanecer quase inalterável.
- Goethe não encontrava na fé trinitária a mais pequena ajuda. I.
- Kant escreveu algo que já evoquei nestas crônicas: “tomada em sentido literal, a doutrina da Trindade, mesmo se se julgasse compreendê-la, é totalmente inútil em termos práticos e, menos ainda, ao reconhecer que ultrapassa totalmente os nossos conceitos”.
- Leonardo Boff reagiu a essa posição. Durante o ano de silêncio imposto, escreveu uma obra que tentava mostrar a Trindade como a melhor comunidade.
- P. Blanquart via na expressão trinitária da fé virtualidades democráticas: todas as pessoas são iguais e diferentes, todas ativas sem subordinação, todas autônomas e todas em relação.
Essas tentativas valem o que valem. A teologia é uma vigilância da linguagem para não ceder à ilusão de meter Deus dentro dos nossos conceitos, transformando-O num ídolo. A teologia negativa favorece o humor e a ironia ao criar a boa distância e a boa proximidade.
NOTAS:
[i] Oração de Santa Catarina de Sena
[ii] Cf.Summa Theologiae,I parte; q.1,a.6,8, 9; q.3,prol. ; q.12; q.13;q.32; q. 46 a. 2
[iii] Cf Jacques le Goff, Em busca da Idade Média, Teorema, 2003, pag.90-91; Juan A. Estrada,
Frei Bento Domingues
in Público 29.05.2016
Fonte: https://www.publico.pt/opiniao/noticia/mais-te-encontro-mais-te-procuro-ainda-1733378?frm=pop

Uma resposta
Você inicia citando a poesia/vivência de fé de uma teóloga e depois só fala de homens… hoje não é apenas nos rodapés da história que encontramos a mulher na teologia… nem a Ivone Gebara aparece..necessitamos urgente de Ruah em nossas escrivaninhas …