Eis por que é importante fazer luz sobre o período de juntas militares no país latino-americano (1976-1983).

LUIS BADILLA – 20/03/2016 – Foto: Manifestação de protesto das famílias dos desaparecidos.
“… por que não abrir os arquivos no caso de outros Países, como o Chile, o Brasil, a Bolívia, o Paraguai, o Uruguai, o Peru, El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Cuba ... e assim por diante. A abertura no caso da Argentina é um precedente que poderia incentivar pedidos similares por parte de outros Países da região e aos quais seria difícil dar uma recusa.
Tradução: Orlando Almeida
A decisão agora quase oficial da Santa Sé de abrir os seus arquivos sobre o período da ditadura argentina, em particular de 24 março de 1976 a 10 de dezembro de 1983, sete anos terríveis em que no poder absoluto e totalitário se sucederam quatro juntas militares (com 12 pequenos e grandes ditadores), tem uma enorme importância, não só para os anseios de verdade e de justiça do povo argentino, mas porque se trata de condições indispensáveis e iniludíveis para uma verdadeira reconciliação. (1)
A decisão do Santo Padre tem um significado histórico para toda a região da América Latina, em particular os povos latino-americanos, que, quase todos, entre 01 de abril de 1964 (golpe militar no Brasil com João Goulart) e 11 Março de 1990 (dia da derrota de Augusto Pinochet no Chile) sofreram os horrores despóticos de dezenas de ditaduras aprovadas e sustentadas pela lógica geopolítica e geoestratégica da Guerra fria e de Yalta que “entregaram” ( “deram em concessão”, preferia dizer Eduardo Galeano) aquela região do hemisfério americano a Washington, em troca de outras regiões entregues a Moscou.

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Há ainda muitos detalhes que precisam ser definidos sobre o uso dos arquivos, como por exemplo a identificação do período exato que tem interesse para a pesquisa; a modalidade de consulta assim como as pessoas autorizadas a ter acesso ao arquivo; a possibilidade de ter cópias autenticadas dos documentos considerados fundamentais para a justiça argentina …
Em suma, não será um processo fácil e rápido, além do fato de que por enquanto não se trabalha na preparação dos documentos acessíveis, operação bastante complexa.
O que podem conter esses arquivos?
Basicamente três tipos de ‘paper’:
(a) relatórios periódicos das Nunciaturas para a Santa Sé (com documentação anexada, em particular sobre as intervenções da representação diplomática vaticana junto às autoridades locais);
(b) correspondência entre o Vaticano e o Núncio sobre questões inerentes a assuntos humanitários e assistenciais (denúncias, pedidos de ajuda, informações de amigos e parentes em busca de notícias sobre familiares desaparecidos, torturados ou mortos, testemunhos);
(c) coleta de informação neutra, ou seja, informações que não são atribuíveis à Nunciatura porque obtidas através dos canais diplomáticos usuais (conversas particulares com outros diplomatas, políticos, homens de governo, episcopados locais).

Argentina: Arquivos vaticanos e ditadura
O que se pode esperar de tais materiais?
Depende. Certamente ninguém que conheça minimamente a questão poderá esperar que destes ‘paper’ saia uma reconstrução orgânica da história política argentina no período das quatro Juntas militares. Se aqueles que têm tal pretensão não levarem em conta a realidade e os mecanismos diplomáticos, ficarão desapontados.
Ao contrário, é realística e muito útil, especialmente para aqueles que fizeram ao Papa Francisco o pedido de abertura, a possibilidade de ter uma grande quantidade de informações fidedignas para cruzar com outras fontes, sobretudo com as oficiais, para alcançar, se possível, a verdade sobre muitos casos de pessoas desaparecidas, mortas, privadas dos seus bens, incluindo os mais valiosos: filhos nascidos na prisão e depois sequestrados e entregues a outros
As muitas verdades
Da consulta e leitura cuidadosa desses documentos é altamente provável que se possam achar muitos traços seguros para descobrir verdades escondidas há anos; em particular, e sobretudo, a verdade sobre as violações maciças e planejadas dos direitos humanos.
Ao mesmo tempo, é provável que seja possível conhecer as controvérsias e as divisões do Episcopado argentino sobre a atitude a tomar perante as ditaduras, particularmente sobre aquela espécie de dilema perene conhecido em outras situações históricas críticas: consegue-se mais no âmbito humanitário negociando e dialogando com o poder ou ao contrário é mais útil um confronto aberto e frontal, acompanhado pela denúncia pública?
Ao mesmo tempo, é altamente provável que se possa ler, de uma maneira diferente da que foi codificada durante anos na imprensa, o papel e o comportamento de determinados homens da Igreja, muitas vezes acusados injustamente.
Uma pergunta e um precedente
Deve-se considerar um outro aspecto que esta importante decisão coloca sob forma de uma pergunta: por que não abrir os arquivos no caso de outros Países, como o Chile, o Brasil, a Bolívia, o Paraguai, o Uruguai, o Peru, El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Cuba ... e assim por diante. A abertura no caso da Argentina é um precedente que poderia incentivar pedidos similares por parte de outros Países da região e aos quais seria difícil dar uma recusa.
Esta consideração, por enquanto puramente teórica, faz-nos pensar em uma pergunta-hipótese distante mas não irrealística: os arquivos do Vaticano contêm realmente informações que podem ajudar a reescrever a história da América Latina? Pensamos especialmente naquelas décadas em que a região, os católicos e as hierarquias, foram vítimas de acusações falsas, de desinformação pilotada, de estereótipos e clichês; em suma daquele fenômeno que, no caso de Mons. Oscar Romero, símbolo desta realidade, fez o Papa dizer que ele foi mártir das balas e da língua.
Em 30 de outubro de 2015, o Papa Francisco falando a um grupo de peregrinos de El Salvador disse: “Gostaria de acrescentar algo que talvez nos tenha passado desapercebido. O martírio de Dom Romero não aconteceu apenas no momento da sua morte; foi um martírio- testemunho, sofrimento anterior, perseguição anterior, até à sua morte. Mas também posterior, porque uma vez morto – eu era um jovem padre e fui testemunha disso – ele foi difamado, caluniado, enlameado, ou seja, o seu martírio continuou até mesmo por parte de seus irmãos no sacerdócio e no episcopado. Não falo por ouvir dizer, eu escutei estas coisas.
Isto é, é bom vê-lo também assim: como um homem que continua a ser um mártir. Bem, acho que agora quase ninguém ousa fazê-lo. Depois de dar a sua vida, continuou a dá-la deixando-se ferir por todas incompreensões e calúnias.
Isto me dá força, só Deus o sabe. Só Deus conhece as histórias das pessoas, e quantas vezes pessoas que já deram a sua vida ou que morreram continuam a ser apedrejadas com a pedra mais dura que existe no mundo: a língua”.
Notas:
(1) Juntas militares entre 1976 e 1983:
1976-1980: Jorge Rafael Videla e Emilio Eduardo Massera y Orlando Ramón Agosti;
1980-1981: Roberto Eduardo Viola, Armando Lambruschini e Omar Domingo Rubens Graffigna;
1981-1982: Leopoldo Fortunato Galtieri, Jorge Isaac Anaya e Basilio Lami Dozo;
1982-1983: Cristino Nicolaides, Rubén Franco e Augusto Jorge Hughes.
As eleições democráticas e livres, após sete anos, foram vencidas, em 30 de outubro de 1983, pelo candidato da “Unión Cívica Radical”, Raúl Alfonsín, que tomou posse em 10 de dezembro de 1983.
Luis Badilla
