Na Itália, os sacerdotes que deixaram a batina são entre 5 e 7 mil.
A maioria dos italianos é a favor do casamento dos padres. é o que revela uma pesquisa do Instituto Piepoli para a “La Stampa”. Um em cada três é contra. Viagem entre os “demissionários” que retornam à sociedade, frequentemente com uma companheira.
Mauro Pianta – Vatican Insider
Há os que se “converteram” em assistentes sociais, alguns trabalham numa fábrica, outros se reinventaram como empresários ou representantes. Os mais sortudos ensinam, muitos estão numa busca desesperada de um emprego, mas quase nenhum diz ter perdido a fé.
Bem-vindos ao (complicado) mundo dos ex-padres, daqueles que deixaram a batina para retornar à sociedade, muitas vezes na companhia de uma mulher. Uma sociedade que os vê lutando por uma nova vida e uma nova identidade, forçados pela necessidade de começar de novo sem nunca ter compilado um currículo ou procurado casa, órfãos do abraço da Igreja e da perspectiva de uma pensão concedida pelo CEI (Conferência dos Bispos Italianos).
Às vezes, prisioneiros de um perpétua “terra do meio” não só sociológica mas também psicológica, porque aqueles que deixam a batina não podem mais exercer (o ministério), mas para a fé católica o sacramento do sacerdócio fica impresso de modo “indelével”. De alguma maneira, portanto, são sacerdotes para sempre.
Quanto ao matrimônio, os que – entre eles – o celebraram com rito civil puseram-se fora da Igreja. Ao contrário os que, depois de um processo diocesano, esperaram a dispensa papal puderam dizer sim diante de um ex-colega.
Mas quantos são os “ex-padres”? É difícil dizê-lo. De acordo com as estimativas de algumas associações nos últimos cinquenta anos na Itália deram baixa 5 a 7 mil sacerdotes. Os últimos dados do Escritório Central de Estatística da Igreja Católica relatam 64 deserções (o termo inclui também os que deixaram por razões razões diferentes do matrimônio) entre os padres italianos em 2013 (43 de diocesanos, as demais de consagrados pertencentes a ordens religiosas). “Mas, em média – explicam os funcionários do escritório – a cada ano 10% dos demissionários muda de idéia”. Vale notar que no nosso país há cerca de 50.000 sacerdotes (para ser exatos: 47.560 dos quais 31.956 diocesanos e 15.604 religiosos).
31% são contrários; 3%. não sabem; 66% dos italianos são a favor do casamento dos padres
De qualquer modo a questão do exército dos ex-padres está na agenda do papa Francisco. Afirmou-o ele mesmo no encontro com o clero romano, em fevereiro passado.
“Temos esperança, mas não contamos muito com isso,” declara sem rodeios Giovanni Monteasi, 76 anos, “ex-padre desde 1983, um filho e uma vida de trabalho gasta na formação profissional. Ele é o presidente da ‘Vocatio’, uma associação de padres casados. “Não somos contra o celibato, mas pela liberdade de escolha: os padres deveriam ter a possibilidade de escolher se casar ou não.”
Na mesma linha Lorenzo Maestri, 83 anos, diretor de ‘Sulla Stada’: “Estou feliz por ter renunciado a esta igreja medieval, mesmo que eu tenha pago um preço altíssimo: fui pároco por 20 anos, quando anunciei minha decisão encontrei todos contra mim, do sacristão ao bispo. Fui pedreiro, representante comercial e depois professor. Para não falar da desconfiança das pessoas, embora nos últimos anos o clima tenha mudado … “.
É preciso fazer as contas com a consciência e com o fim do mês. Giuseppe I., 51 anos, siciliano, saiu em janeiro de 2014 e casou-se civilmente em Roma com a sua companheira que hoje é professora. Apenas alguns anos atrás, ela era uma freira.
“Éramos amigos. Fui eu mesmo – diz ele – que a acompanhei numa caminhada espiritual que a levou a entrar numa congregação e depois a tornar-se missionária na África”. Após um curto período de tempo ela deixa a missão, ele também vacila. “Nós nos apaixonámos. Foi como perceber uma passagem de Deus nas nossas vidas, como se ele quisesse criar algo de novo e diferente das nossas pobres existências”.
Inútil falar com o bispo, com o psicólogo, inútil o ano de discernimento num convento: o sentimento não se desvanece. “Agora estou procurando trabalho, frequento um curso de inglês, gostaria de dedicar-me a um trabalho social, em contato com os jovens. Enviei dezenas de currículos, mas ninguém me respondeu. Eu preciso trabalhar, é uma questão de dignidade. Vivemos de aluguel em Roma, apenas com o salário de A. (nunca pronuncia a palavra mulher, n.d.r.), os meus confrades desapareceram quase todos …”. Um filho? “Se chegar, estamos abertos à vida, confiamos na Providência”.
A amargura dos que se sentiram abandonados também marcou a experiência de Ernesto Miragoli, 61 anos, de Como, agora proprietário de uma construtora com quatro funcionários. “Eu era uma ‘promessa’ do clero de Como, – lembra – apaixonado por história da arte, colaborava com os jornais e as televisões locais. Apaixonei-me, podia servir a Igreja como casado mas me impediram de fazê-lo. Tinha trabalhado para a minha Igreja até à idade de 32 anos, mas desde aquele dia em 1986 tornei-me invisível, uma espécie de “leproso”.

Ernesto Miragoli e família – http://www.webalice.it/miragoli/index.html
Ajudou-me um leigo, o editor de um jornal local que me confiou uma página de crônica por 800 mil liras mensais. Um apoio que me permitiu ficar à tona, até que – depois de ler um anúncio – me transformei em um empresário da construção. Hoje temos três filhos, consegui a dispensa, vamos regularmente à missa e às vezes, quando ouço algumas baboseiras do altar, me dá vontade de subir e fazê-lo eu, o sermão …”
O “segredo” para não ficar prisioneiro de uma vida e de uma mentalidade de ex-padre? Mudar de ares, acumular experiências e só então voltar para a própria aldeia. É o caminho seguido por Giuseppe Zanon, 78 anos, de Gottolengo (Brescia):
“Os meus pais estavam doentes e me puseram no colégio. Aos 13 anos chegou um frade e me disse: “Vem para o seminário, vais poder estudar e brincar. Foi uma espécie de sequestro de pessoa. Aos 33 anos, desisti dos votos. Cristo não bate a porta na tua cara porque te apaixonaste, quem faz isso são os homens. Para mim, foi decisivo viver em Milão, ajudado por meu irmão e por um religioso. Lá estudei e me formei. Vivi vinte anos solteiro, então em 1991 conheci Daniela e nos casamos. Só então voltei a Gottolengo para ensinar letras no ensino médio. Hoje estou aposentado e dou uma ajuda na paróquia. Ofender-me se me chamam de padre? Não mesmo. Quando o pároco está doente, os amigos no bar fazem troça: “Vai tu dizer missa.” Mas estou feliz por ser um padre, mesmo se não “exerço” mais … “.
Tradução: Orlando F. R. Almeida
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Autor: Mauro Pianta
Fonte: http://it.aleteia.org/2016/01/08/cosi-viviamo-la-nostra-seconda-vita-da-ex-preti/
Uma resposta
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