Celibato: Graça vinda do alto ou imposição de um fardo?

Por José Lino e Beatriz

Logo que tomamos conhecimento da fala do cantor Pe. Fábio de Mello sobre celibato e castidade, onde ele deixa transparecer que fica impaciente quando ouve as pessoas se perderem em argumentos rasos sobre se o padre pode ou não pode se casar, nós nos sentimos tentados a fazer, também, algumas considerações sobre o assunto, buscando, contudo, dar uma abrangência maior ao tema. Acreditamos que Pe. Fábio e outros, que escolheram “ficarem só”, possam, realmente, encontrar a verdadeira alegria, a verdadeira paz e verdadeira realização, afinal de contas, supõe-se que para se sentirem assim devem ter feito a escolha certa, com total liberdade e consciência do que estavam fazendo. Parabéns para ele e para todos.

Nós, padres casados, que, também, um dia fizemos voto de castidade, e nos fizemos, momentaneamente, celibatários, sem ter a dimensão total de nossa escolha, por razões que não dependiam de nós, pensávamos que tínhamos a certeza de que estávamos de posse do céu, até que descobrimos que podíamos chegar lá por outros caminhos muito menos áridos, onde podíamos colher belas flores, sem nos machucar nos espinhos, construindo a nossa felicidade a dois e, sobretudo, que podíamos ser muito mais úteis ao “Povo de Deus” , sendo casados.

Meu, nosso questionamento, hoje, a respeito do celibato e castidade é muito mais amplo. Qualquer um ou uma, sendo padre ou não, freira ou não, católico ou não, pode ser celibatário(a). Que a castidade transcende o celibato, é certo, pois é uma virtude a ser observada por todos. O celibato, contudo, é um conselho, é um caminho a ser percorrido por quem quiser, sem distinção de raça, sexo e religião. Não concordamos, isto sim, é com a obrigatoriedade do celibato para o padre, que, conforme Paulo, na Carta aos Hebreus, deve ser um homem escolhido entre os outros homens e constituído a favor dos homens como mediador. Até onde se pode saber, o Apóstolo não aconselhou e, muito menos, exigiu que esse “mediador” fosse celibatário.

Quem abraça este estado de vida, o faz, a princípio, em função de si mesmo: abre mão do que é humano e terreno (sexo) para viver só para Deus e para o próximo, em busca da perfeição. No casamento, o caminho é um pouco diferente, não, porém, menos perfeito: não se renuncia ao que é natural e sagrado na natureza humana, buscando-se, igualmente, a perfeição. Assim não fosse, estava tudo errado! Evidente que nos dois casos deverá a escolha ser livre e consciente, e não se admite meios termos. Se a “vida consagrada” fosse a opção de santidade mais perfeita, o lógico é que a maioria das pessoas por ela devia optar. No entanto não é bem assim. No entanto, cá fora, no mundo, há muita gente casada se santificando e buscando a perfeição pessoal, e conseguem.

Sem estigmas, mas o certo é que quem se fecha no seu universo particular e individual, por mais perfeito que seja, se mantém, querendo ou não, distanciado da realidade do mundo e dos homens, por quem deve oferecer dons e sacrifícios. O Povo de Deus, com certeza, seria muito mais bem servido e assistido, se seus pastores e guias não estivessem amarrados, obrigatoriamente, por uma norma tão arcaica quanto desumana. Um conselho não pode virar regra geral para todos. Sem entrar, é claro, no mérito dos motivos que, historicamente, tornaram obrigatória prática tão infeliz, é forçoso admitir que tal regra, até hoje, é bastante mal cumprida por muitos membros do clero.

A regra é que, quando uma coisa não dá certo, não atinge os objetivos a que se propôs, o que se deve fazer, no mínimo, é uma correção nas estratégias. Seria pouco inteligente persistir num caminho que vai nos levar ao nada, ou seja, a lugar nenhum. É isto, infelizmente, o que vem acontecendo com a disciplina, que há séculos, tornou obrigatório o celibato para os candidatos ao sacerdócio, dentro da Igreja Católica. Lamentavelmente, no entanto, o que se vê nas páginas negras da história da Santa Madre Igreja (leia-se: clero, ou hierarquia católica) é um cenário triste de depravação, vindo da parte daqueles que, antes de todos, deveriam dar o exemplo, já que foram eles que fizeram a lei. (Jornal Rumos- última edição- Julho/agosto/2009).

A abrangência do assunto, como dissemos no início, é muito mais ampla. Longe de nós, tomar nosso tempo com discussões estéreis, mesmo porque o nosso problema pessoal já está resolvido. Nosso foco, hoje, do lado de cá, enxergando as coisas sob outro ângulo, vivendo e sentindo na pele a realidade dura, mas gostosa, junto de nossas famílias, é a angústia de ver o Povo de Deus que anda no deserto…, sem pastores…, porque poucos são os que se dispõem a “viver a alegria” de ser só… Com certeza, o que o Povo de Deus mais precisa é de bons pastores, não necessariamente pastores celibatários. Não deve ser à toa que, de uns tempos para cá, os confessionários estão criando teias de aranha e os parlatórios paroquiais ou salas de aconselhamento espiritual cederam lugar aos consultórios psicológicos e de análises.

Que fique bem claro, quando falamos de celibato, não estamos como o povo de Israel, no deserto, com saudade das “cebolas do Egito”, queremos sim, é começar a ver a Terra Prometida, onde corre leite e mel! Não deixa de ser, no mínimo, intrigante, que através dos tempos, a hierarquia católica tenha privilegiado o celibato como um “super-status” para seus eleitos, e apesar de todas as evidências em contrário, continua a defendê-lo como essencial no exercício do sacerdócio.

Por outro lado, é ainda mais intrigante quando se olha o calendário litúrgico da Igreja, e se constata que a quase totalidade dos santos apresentados como modelos para o povo (católicos), são bispos, padres, freiras (quase todos virgens…, ou como quiser, celibatários). E onde estão os outros que, sem serem celibatários, observam a castidade? Estes fazem parte da grande massa que caminha no deserto da vida, também filhos de Deus, aqueles que, no início, receberam a bênção do Criador e a incumbência de frutificar, se multiplicar, encher a terra, de serem os dois (homem e mulher) uma só carne, e de serem perfeitos, conforme o mandamento do Senhor?

Ao que parece, esse caminho não é bem visto ou não dá “ibope”… Falsa a tese de que se o padre tiver esposa e filhos, não terá a dedicação exigida para seu rebanho. Isto nada mais é do que uma desculpa esfarrapada para justificar uma situação totalmente insustentável nos tempos atuais. Uma imposição, de caráter puramente humano, salvo engano, não é uma graça!.

É, da mesma forma, falso o raciocínio: ninguém é obrigado a ser padre, por isso, se escolheu sê-lo, é porque aceita o celibato. Mas não é bem assim, existe uma diferença significativa entre o celibato opcional e o celibato imposto por normas eclesiásticas.

No caso, por exemplo, de a pessoa querer ser padre, ter este ideal, apresentar as condições para sê-lo, mas não está disposta a ser celibatária, não tem vocação? Aí, ou ela é impedida pelos legisladores humanos de realizar seu ideal, ou então, sua escolha, caso o faça, não será totalmente livre, impondo-se uma obrigação extremamente pesada e contra sua própria natureza. Para estes o celibato não poderá ser classificado como uma graça, mas como um fardo. Levando tudo isso em consideração, enquanto a hierarquia católica continuar com essa vinculação “padre-celibato”, nós, Igreja Católica, só teremos a perder.

Estamos constatando, a cada momento, um grande número de pessoas sedentas de espiritualidade, surgimento de grupos espirituais e de seitas lideradas por interesseiros, e as filosofias orientais estão cada vez mais em moda. Mais uma vez é forçoso reconhecer: estão faltando pastores! Até quando? A qualquer lugar que se vai, observam-se igrejas e mais igrejas Evangélicas, e todas têm pastores que, bem ou mal, pregam o Evangelho. Não há muito tempo, conversando com o Sr. Arcebispo de Belo Horizonte, dissemos-lhe que nos bairros, e sobretudo, nas favelas da capital, existiam, aproximadamente, seis ou mais igrejas evangélicas para uma católica. Ele, simplesmente, nos disse: “Não temos padres”.

Desculpem-nos, mas é patético!!!

O que não se tem, com certeza, não são padres, mas pessoas que queiram ser celibatárias. Daí, dizer que não existem vocações, vai uma diferença quilométrica. Enquanto isso, o povo é orientado e convidado a pedir: “Enviai, Senhor, operários…”

De duas, uma, ou os administradores estão cegos, ou o Senhor da Vinha está surdo! Há dezenas de anos, quiçá centenas, que estão batendo na mesma tecla, e o som está cada vez mais desafinado! Já está passando da hora de mudar o foco e vivenciar o espírito, viver a maturidade religiosa, o tempo do conhecimento, do entendimento, da liberdade, da luz e do amor.

Respostas de 3

  1. Artigo muito bom. Eu já nem gastaria tanto “latim”,sabendo que isto está na mão de um único homem, “El Papa!”
    Estou com uma vontade grande de – à semelhança destes que se dizem evengélicos – tb criar uma religião.
    O que vcs acham de Igreja CAtólica Apostólica da Libertação Integral, É preciso libertar todo homem e o homem todo(paulo VI)?! Seria na linha da Teologia da Libertação

  2. Tudo o que foi dito acima está totalmente correto. Não faltam vocaçoes, o que falta é uma nova lei onde padres pudessem optar pela vida celibatária ou não. Combater as leis do clero seria o mais correto, pois a igraja necessita de bons pastores e não de padres insatisfeitos com a vida solitária ou furtiva que levam . Jesus não criou o homem e a mulher para viverem só, caso contrario teria criado todos do mesmo sexo e sem coração para amar e ser amado e ser feliz.

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