O Fim Melancólico de um Apelo do Povo de Deus

Por Luís Guerreiro

A notícia já foi comentada em RUMOS, n. 210. Em 24 de janeiro de 2009, o Papa Bento XVI decidiu, sem exigir condições, levantar a excomunhão que pesava, desde 1988, sobre os bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, nascida da rebeldia do bispo tradicionalista francês Marcel Lefebvre contra as reformas do Vaticano II.

Em 29 do mesmo mês, um grupo de teólogos e teólogas de língua alemã assinaram uma Petição a ser enviada ao Papa, onde se exigia um “reconhecimento irrestrito das decisões do concílio Vaticano II”. Confiada a difusão da iniciativa ao movimento “Nós somos Igreja”, ela suscitou rapidamente uma grande adesão.

A Petição tinha a seu favor o cânon 212,3, do Direito Canônico, onde se diz que os “fiéis têm o direito e, às vezes, até o dever de manifestar aos Pastores sagrados a própria opinião sobre o que afeta o bem da Igreja e…de dar a conhecer essa sua opinião aos demais fiéis”.
Em 3 de março, foi comunicado à Conferência Episcopal alemã, reunida em Hamburgo, que as assinaturas da Petição alcançavam já as 36.300.
Depois, em 25 de março, os autores da iniciativa pediram ao Núncio Apostólico em Berlim que intermediasse uma data próxima para eles entregarem pessoalmente a Petição à Congregação para a Doutrina da Fé em Roma. O Núncio respondeu em 2 de abril, perguntando se não seria mais cômodo encaminhar a Petição, com as assinaturas, à Congregação para a Doutrina da Fé através da Nunciatura em Berlim. Mas, dado o significado e a ressonância que a Petição estava tendo, os autores insistiram em pedir que lhes fosse facilitada uma entrega pessoal.

Soube-se, em 9 de abril, data final para a recolha de assinaturas, que 54.104 pessoas tinham assinado a Petição. Fizeram-no por meio da internet ou de listas expostas nas paróquias. Provinham de 80 países de todo o mundo. O seu número era quase o dobro dos que assinaram outra lista que, simultaneamente, promovia a aprovação e adesão a Bento XVI: “SIM a Bento”.

Em 29 de maio, o Núncio informava que a Congregação para a Doutrina da Fé “considerava desnecessário receber os autores da Petição, cujo conteúdo lhe era bem conhecido e seria por ela levado em conta no futuro”.

Em 15 de junho, a conselho do Núncio, os autores da Petição dirigiram-se diretamente à Congregação para a Doutrina da Fé, alegando que a recusa de um diálogo constituía uma enorme desconsideração com os assinantes, uma vez que a entrega da recolha das 33.000 assinaturas “SIM a Bento” pôde ser feita no âmbito de uma audiência geral e foi retribuída com uma carta de agradecimento do Papa.

Em 20 de julho, os autores da Petição dirigiram-se de novo à Congregação para a Doutrina da Fé: queriam saber por que é que, até à data, não tinham recebido nenhuma resposta ao seu pedido de poderem entregar pessoalmente a Petição em Roma.

Como se vê, a Congregação para a Doutrina da Fé não tinha mesmo nenhum interesse em receber a Petição com as assinaturas e, muito menos, em dialogar com os seus autores. De nada valeram os esforços e a intermediação do Núncio Apostólico em Berlim, Mons. Jean-Claude Périsset.

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