Para o Papa Francisco a África é mais do que uma questão geográfica

“Em 26 de novembro passado, acompanhei um grupo de meus ex-meninos-de-rua quenianos num encontro com o Papa, após a audiência geral.  Apesar dos poucos momentos do encontro, em que ele disse algumas palavras e eles sentiram uma carícia da sua mão, eles ficaram conquistados por Francisco. Mas, depois, a pergunta   insistente era:  mas quando vem à África? Quando vem nos visitar em Kibera? Muitos outros se perguntam a mesma coisa na África”.

Renato Kizito Sesana, missionário e jornalista

 Um papa que fala mais de Jesus e de Evangelho do que de Igreja, mais de alegria, compaixão e misericórdia do que de lei e de valores não negociáveis, mais de sair e servirdo que de defender e proclamar. Realmente, poucos da minha geração ainda ousavam esperar que a primavera do Concílio Vaticano II voltaria.

Mas à África as mudanças promovidas pelo Papa Francisco ainda não chegaram. Afinal não temos as mesmas estações da Europa, e Bergoglio publicamente interagiu muito pouco com a África, com exceção dos necessários apelos à paz e algumas palavras durante as visitas ad limina das conferências episcopais africanas.

Durante a sua primeira viagem pastoral, a Lampedusa, nós o vimos se reunir com africanos que acabavam de desembarcar vindos da costa da Líbia. Estava diante de um mundo novo, que ele nunca tinha encontrado cara a cara, e os refugiados, na sua maioria muçulmanos, talvez nem soubessem quem era o papa, e muito menos o Papa Francisco.

Houve outras viagens, as primeiras nomeações de cardeais em fevereiro de 2014, e entre os 16 novos cardeais estavam dois arcebispos da África Ocidental: Jean-Pierre Kutwa, de Abidjan, e o pouco conhecido Philippe Ouédraogo, de Ouagadougou, de família majoritariamente muçulmana, que se autodefine como pequeno pastor da savana burkinabé.

Mas, em comparação com as outras nomeações, estas não constituíram uma grande novidade nem geraram grande interesse.Entretanto não houve nomeações de africanos para cargos importantes em Roma. Mas isto também pouco significa, porque Francisco não expressa sua consideração por um pastor levando-o para trabalhar no Vaticano.

De certa maneira a África desapareceu dos horizontes da igreja, ao mesmo tempo em que emergiam com força, obviamente, a América Latina e, em seguida, a Ásia. No ano passado falou-se de uma visita papal a Camarões, hipótese que havia sido reforçada por uma audiência concedida a Paul Biya, o seu presidente católico (coitados dos católicos!) e filho de catequistas. Mas algo não deve ter convencido o Papa Francisco, provavelmente o próprio fato de haver em Camarões uma relação não totalmente clara entre Igreja e política. E da visita a este país não se falou mais.

Quem ainda presta atenção às coisas africanas não deixou de notar que, durante a primeira fase do sínodo sobre a família, o Cardeal Kasper, numa entrevista,usou uma frase infeliz que deixou entrever um julgamento muito pesado sobre todo o episcopado africano, mas ninguém considerou necessário um esclarecimento.

No segundo consistório, realizada em fevereiro deste ano, os novos cardeais eleitores africanos foram dois: Berhaneyesus Souraphiel, arquieparca (arcebispo de rito oriental) de Addis Abeba, e Arlindo Furtado, bispo de Santiago de Cabo Verde. Dois pastores de dioceses com um pequeno número de católicos, periféricos em todos os sentidos, mas também periféricos em relação à África Negra, a África da grande explosão numérica do século passado, nunca antes vista na história da igreja. Aquela África que com quase duzentos milhões de fiéis em rápido crescimento já representa 17 por cento da catolicidade, e que, não esqueçamos, às vésperas dos dois últimos conclaves, se sentia no direito de reclamar que tinha chegado o tempo de um papa africano.

A Igreja africana está ausente da agenda do Papa Francisco? No entanto, na África, muitos esperam uma visita sua. Em 26 de novembro passado, acompanhei um grupo de meus ex-meninos-de-rua quenianos num encontro com o Papa, após a audiência geral.  Apesar dos poucos momentos do encontro, em que ele disse algumas palavras e eles sentiram uma carícia da sua mão, eles ficaram conquistados por Francisco. Mas, depois, a pergunta   insistente era:  mas quando vem à África? Quando vem nos visitar em Kibera? Muitos outros se perguntam a mesma coisa na África.

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Sabemos que Bergoglio, antes da eleição, tinha limitado suas viagens às que tinha de fazer como pastor, e nunca visitou a África, nem mesmo como turista. Não combinava com o seu estilo austero. Encontra-se portanto diante de uma realidade que conhece pouco, e quer dispor de tempo para ouvi-la e entendê-la.

Depois, veio o anúncio informal, no vôo que o trazia de Manila para Roma em 19 de janeiro, de uma possível visita à República Centro-Africana e à Uganda, até ao final de 2015.

Por que esses dois países?

Ir à República Centro-Africana, caso isso venha a ser possível devido ao enorme risco da segurança, significa mergulhar em todas as fraquezas da África. Em primeiro lugar devido à guerra e às violências sobre a população civil. Depois, porque é um país com grandes riquezas naturais que nunca foi verdadeiramente independente, disputado pelas multinacionais, sob a ameaça do fundamentalismo islâmico, e onde o tribalismo e as rivalidades religiosas explodiram nos últimos três anos.

Um país onde a Igreja é desafiada pela necessidade de dialogar, e dialogar a partir de uma posição de fraqueza. Um país onde a mundanidade do clero, para usar um termo bergogliano, em contraste com a pobreza generalizada, tinha atingido níveis que exigiram a intervenção de Roma em 2009.

Os relatórios dos bispos locais para a Santa Sé haviam escondido durante anos uma situação de corrupção de boa parte do clero, ávido de poder e de dinheiro, a que os bispos não sabiam como reagir, ou a que tinham optado por aderir.

Foram necessários um núncio apostólico vietnamita e depois um nigeriano e um visitador apostólico, o então secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos, Mons. Robert Sarah, guineano, agora cardeal prefeito da Congregação para o Culto Divino, para eliminar o problema, decapitando assim também algumas dioceses. Da maneira que aprendemos a conhecer o Papa Francisco, que gosta de ir à raiz dos problemas, não é certamente por acaso que escolheu este país como destino de sua primeira viagem africano. 

A Uganda, por apresentar um entrelaçamento de problemas geopolíticos,  não tem menos possibilidades de representar os problemas africanos e as periferias do mundo, com um presidente no poder há 29 anos que interfere pesadamente, inclusive manu militari, nos países vizinhos, e com os seus povos nômades do norte ainda sem acesso ao desenvolvimento, ainda que desigual, do resto do país.

Mas talvez interesse mais a Francisco devido a uma outra representatividade, ou seja, a atuação dos leigos. Com seus 22 mártires do final do século XIX, e os bem-aventurados catequistas Daudi e Jildo de 1918, este país tem dado à igreja africana o maior número de canonizados nos tempos modernos. Com uma particularidade: ao contrário do que aconteceu no resto do mundo, entre os santos e beatos africanos dos tempos modernos, há apenas duas freiras, e não há nenhum sacerdote (exceto o beato nigeriano Cipriano Tansi, que no entanto viveu no Reino Unido). Será que Francisco vai querer fazer do empenho dos leigos pela justiça e pela paz o tema dominante de sua visita à Uganda?

Então a demora de Francisco em voltar sua atenção para a África fica explicada pelo desejo de ouvi-la e compreendê-la, antes de ajudá-la a retomar o caminho.

 República Centro-Africana e Uganda são dois países que vão dar a Francisco a oportunidade de falar de problemas reais, dos pobres e da Igreja e dos seus pastores. Acima de tudo irão dominar os temas da paz e do diálogo com o Islão, temas globais, mas que têm ressonâncias dramáticas na África.

Por demasiado tempo os problemas de África foram varridos para debaixo do tapete. Chegou-se ao primeiro Sínodo Africano, em 1994, com muitas esperanças, mas depois faltou a parresia, a franqueza ao se expressar, tema em que tanto hoje Francesco insiste.

Assim, o sínodo reconheceu formalmente a ideia de inculturação, isto é, do necessário diálogo entre o Evangelho e as diversas culturas locais para um enriquecimento recíproco, mas os teólogos que a haviam elaborado não foram autorizados a participar e, em seguida, foram gradualmente silenciados.Hoje não se fala mais de inculturação, e muito menos se pratica ou se vive.

O sínodo enfatizou a necessidade do compromisso dos cristãos com a justiça social. Mas foram feitos poucos progressos. Em muitos países africanos, os líderes religiosos estão ausentes do debate público, e aceitam passivamente uma agenda social profundamente injusta. Acomodam-se com uma mistura entre poder político e serviço pastoral totalmente desvantajosa para eles, em que políticos tomam a palavra nas igrejas e nos serviços religiosos, fazendo com que (os religiosos) pareçam aliados do poder.

Recentemente, um amigo africano me relatou que, durante a cerimônia de posse de um bispo na sua nova diocese, os políticos locais participaram em massa dando à comunidade a impressão de que se tratava da investidura de um funcionário do governo. E isso acontece em muitos países.

Durante anos temos tecido louvores à juventude e ao frescor da fé e da Igreja africana. Mas se isto continua verdadeiro para as pessoas simples, na periferia do poder, a igreja dos pastores corre o risco de envelhecer precocemente e de gerir o serviço da autoridade com métodos que se tornaram velhos e inaceitáveis nos países de onde partiram os missionários que evangelizaram a África nos últimos dois séculos.

A África não é apenas geografia. Para a geografia ela é apenas um continente do outro lado do mar, nem mesmo muito grande. Mas a cultura e a ética africanas estão enraizadas em terrenos muito mais afastados do que os geográficos.  Para que a Igreja desenvolva raízes profundas na África talvez devesse recomeçar a partir das profundezas do coração, onde as pessoas se encontram entre elas e onde se encontram com Jesus.

O Papa Francisco com a sua capacidade de límpido testemunho, de sinceridade, de parresia e, mais ainda, com a sua proximidade e empatia com os pobres, pode oferecer à Igreja africana um estímulo extraordinário para recomeçar a partir do coração.

 

Tradução: Orlando F. R. Almeida

 


Renato Kizito Sesana

È missionario comboniano e jornalista italiano. Foi Diretor da Revista Nigrizia e, no Kenya, fundou New People e Radio Waumini. Em Nairobi,  criou a comunidade  Koinonia, ao serviço dos meninos-de-rua. Na  Itália, é um dos fundadores da Ong Amani.

 Fonte (original): http://www.internazionale.it/opinione/renato-kizito-

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Uma resposta

  1. A Africa so serviu para enviar escravos para America, de resto, para nada mais prestou… piedade de nos..

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