Irá a Igreja legitimar os filhos de padres?

Por Luís Guerreiro

O cânon 277 do Direito Canônico diz que “os clérigos são obrigados a observar a continência perfeita e perpétua por causa do Reino dos Céus; por isso são obrigados ao celibato, que é um dom especial de Deus, pelo qual os ministros sagrados podem mais facilmente unir-se a Cristo de coração indiviso e dedicar-se mais livremente ao serviço de Deus e dos homens”.

Sabe-se que, quando se impôs definitivamente essa exigência, o cristianismo já levava mais de um milênio de existência e que os motivos de tal imposição não eram assim tão nobres como os que invoca o cânon. Uma das razões era evitar que as riquezas da Igreja fossem cair nas mãos dos herdeiros do clero.

Sabe-se também que, não obstante a lei, os clérigos continuaram a gerar filhos e muitos viveram em permanente concubinato. A Igreja sabe-o, mas fecha os olhos. E o mais grave é que, de consciência tranquila, jamais se importou com a sorte das mulheres envolvidas e do drama dos muitos filhos ilegítimos a quem se impõe também uma norma: “Não digas a ninguém quem é o teu pai”.

Parece que a situação tende a mudar. Só é de lamentar que não seja por amor à justiça.

No dia 10 de agosto passado, o jornal La Stampa da Itália trazia a público a notícia de que o Vaticano estaria disposto a reconhecer os filhos de clérigos, permitindo que eles sejam registrados com o nome do pai e possam herdar. Reviravolta súbita na lei do celibato? Nada disso. Tratar-se-ia de defesa preventiva. Com a banalização dos testes de DNA a Igreja ficou inquieta. Corre o risco de se ver obrigada a enfrentar uma avalancha de ações na justiça a reclamar o reconhecimento da paternidade. Daí a escapatória: é melhor reconhecer os fatos. Quanto ao direito de herdar, ela distingue, desde já, os bens pessoais do clérigo dos bens vinculados à função. Estes continuariam propriedade da Igreja.

Com tal solução, o Vaticano pretenderia evitar situação similar à dos Estados Unidos, onde os processos por abusos sexuais dos padres representam uma verdadeira catástrofe financeira para as dioceses: 1.350 milhões de euros nos últimos trinta anos.

Embora o jornal La Stampa seja um jornal geralmente bem informado sobre o que acontece no âmbito papal, ele foi logo desmentido pelo porta-voz do Vaticano. Mas, mais cedo ou mais tarde, é essa a solução que se irá impor, no entender de Giancarlo Zizola, um perito nos assuntos vaticanos. Ele lembra que “tanto o cardeal Ratzinger (futuro Bento XVI) como o cardeal Hummes já se pronunciaram nesse sentido”.

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