Ao analisar o momento, Lembo atira em quase todas as direções.
Poucos são poupados. Entre eles o presidente de seu partido, o PSD, ministro das Cidades, Gilberto Kassab, e os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, ambos do PMDB.
Para ele, os “equívocos” do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff podem ser tributados ao “instituto maldito da reeleição”, que considera nefasta para o país.
Não por outra razão,prevê que a reeleição para o Executivo, o voto proporcional e o financiamento de campanha pelas pessoas jurídicas são os alvos de uma reforma política.
Disparou seu bodoque também na direção dos tucanos, alguns dos quais classificou como “raivosos”, com destaque para o senador paulista Aloysio Nunes Ferreira, candidato a vice na chapa derrotada de Aécio Neves: um senador não pode dizer quer ver a presidente sangrar, estoca Lembo “É feio”.
Sobrou até para a Casa das Garças, centro de estudos em economia dirigido pelo economista e ex-presidente do BNDES Edmar Bacha, “confundida” com “Casa dos Cisnes”.
Célebre por “convidar” a burguesia a abrir a bolsa, quando ainda era governador de São Paulo, em 2006, no momento em que o Estado foi sacudido por uma série de ataques comandados pelo PCC, nesta entrevista Lembo volta a atacar a “elite branca” por sua visão “imediatista” e calcada em”interesses pessoais, não coletivos”.
A seguir, os principais trechos:
Claudio Lembo: Eu fui profético.Às vezes, Deus fala pela boca dos loucos. Naquela época, aproveitei e falei. Disse que a minoria branca estava extremamente agressiva, por causa do PCC. Agora vejo a minoria branca toda na carceragem da Polícia Federal em Curitiba.
Valor: Mas a parcela que está na carceragem da PF...
Valor: ... é uma minoria dentro da minoria. Lembo: Felizmente, a burguesia brasileira é maior. É bom que seja.A que está lá é a mais ativa, a que mais viciou a máquina do Estado.
O governo do PSDB, de Fernando Henrique Cardoso, desmontou o que era planificação. Hoje o Estado brasileiro não tem nada de planejamento. É o empreiteiro que leva o projeto que interessa a ele e nem sempre ao Estado nacional. Até admito que a privatização deveria ter sido feita em alguns espaços, não em todos, mas acho que houve excessos.
- onde estava a CVM?
- Onde estava a auditoria?
- A direção ou o conselho de administração tinha de perceber que havia investimentos excessivos em determinadas áreas.s.
Lembo: Primeiro a gente precisa analisar a mudança da 8666 [Lei de Licitações], no governo Fernando Henrique, permitindo à Petrobras que não fizesse licitação, apenas chamada. Acho que aí está o primeiro erro. Deu dinâmica à Petrobras, mas deu também uma liberdade muito grande.
Outro ponto foram os exageros do governo Lula, que acreditou que o Brasil era uma grande potência. O Brasil não é uma grande potência. A área de petróleo é muito complexa. Com o pré-sal, enlouquecemos. Se no Mar do Norte não estão explorando petróleo com grande ativismo, por que teria de ser no Atlântico Sul? Ou ingenuidade ou malícia. Excesso de ingenuidade é má-fé.
Valor: A corrupção também foi exacerbada nesse período?
Lembo: Foi. Evidentemente, foi. E não só na Petrobras, mas também em outras áreas.
Valor: Quais?
Lembo: Se levantarem as tampas, vai ser muito complicado. A burguesia não quer que tampas sejam levantadas. Basta a Petrobras.
Valor: A “elite branca” à qual o senhor se referiu está nas ruas, nas manifestações contra o governo Dilma?
Um percentual elevado. Quem viu a avenida Paulista no domingo [15 de março] viu a classe média. E é bom que ela se movimente. A classe média é muito parada, muito sem vibração política. Mas ela está sendo injusta, porque ganhou muito no período Lula-Dilma.Eles não mexeram no bolso da classe média.Ela tem objetividade, uma nítida visão de interesse pessoal, nunca coletivo. E está apavorada. Quer ganho, mas não quer risco. Por isso, pede para as Forças Armadas voltarem. A burguesia está na rua.O povão, ainda não. Há alguma coisa em áreas específicas, mas é pouca gente. O movimento sem teto (MTST) eu acho muito ativo…
O Cunha lembra um pouco o Carlos Lacerda. É o carioca inteligente, pertencente àquela elite médica carioca, que é boa, intelectualmente bem preparada. O Cunha é sádico, duro, inteligente e tem carisma.E o Renan é outro homem inteligente. De outro tipo, mas inteligente. Então, se a Dilma me procurasse um dia eu diria: “Vá ler Maquiavel. Quando você não pode vencer o inimigo, aproxime-se dele”.Foi ingenuidade ter lançado candidato próprio para a Câmara e o Senado.
Tucano não sabe transmitir e é odiento.Alguns senadores tucanos do Senado nutrem ódio que não é próprio da democracia. Um senador não pode dizer “quero vê-la sangrar”. É feio.
Valor: Estimular ainda que veladamente a discussão sobre o impeachment da presidente é um desejo real ou jogo de cena?
Lembo: É a postura real de alguns setores do PSDB. Particularmente aqueles que foram diretamente vencidos na campanha eleitoral.Estão muito cheios de ódio.
Valor: Então a tese do terceiro turno tem validade?
Lembo: É nítida. Muito nítida.Mas não é todo o PSDB. Também tem gente equilibrada. O governador de São Paulo não tem entrado nessa conversa.
Valor: Mas ele é um candidato quase natural à sucessão presidencial… Onde o senhor acha que o rancor vai desaguar?
Se a Dilma conseguir se equilibrar, ela leva os quatro anos de um governo difícil, de grandes sacrifícios, e chega ao fim. Não vejo condições psicológicas para o impeachment.Acho muito, muito difícil.
Os militares não querem. Eles sabem que foram vítimas da burguesia, que fez o golpe de 1964 e usou o instrumental das Forças Armadas. Eles entraram, exageraram, mas sempre apoiados pela burguesia. Não vão mais fazer isso nunca mais.
Valor: O senhor acompanhou as manifestações [de 13 e 15 de março]?
Lembo: Sim.
Valor: Na rua?
Lembo: Avançou muito mais…Todas as modalidades de crimes. E o PCC está forte…
Valor: Porque o crime recrudesceu?
Lembo: Sua pergunta exigiria tratamento sociológico profundo.O PCC tornou-se mais ativo e mais organizado. Ele retirou aquela ingenuidade de 2006 e ocupou todos os espaços, principalmente em relação à droga. Organizou-se muito bem, e a coisa é muito mais grave do que se pensa.
Valor: A política de segurança piorou?
Lembo: É complexo. Havia um excesso das polícias militares, eventualmente. A política de direitos humanos levou a uma posição de recolhimento da tropa.Isso fez com que a criminalidade crescesse. Por sinal, a PM de São Paulo está muito violenta.
Valor: Nos protestos de 2013 os manifestantes reclamaram muito da PM paulista.
Lembo: Agora as criancinhas estão beijando policiais. Não entendo o Brasil. É um país ciclotímico.
Valor: Como o senhor avalia o governo da presidente Dilma?
Lembo: No primeiro mandato, ela quis, não sei se visando o instituto maldito da reeleição, ser cada vez mais sensível à sociedade, ao povão. E com isso fez benesses.Benesse custa caro. A condução da economia foi muito complexa, difícil. Acho até que meio equivocada. Foi socialmente bom e economicamente mal.
Valor: As pesquisas mostram que a baixa renda ainda não se manifestou muito intensamente.
Lembo: Ainda não chegou lá. Daqui a pouco chega. O que a burguesia não percebeu, porque é muito imediatista, é que se a vitória não fosse da Dilma ia ser muito pior o movimento de rua. Ia ser uma coisa muito pior, agressiva.
Valor: Como retomar a paz social no país?
Lembo: Com a canseira. Isso aqui vai cansar. O país vai ter que purgar, vai ter que fazer análise. Vão ter que se integrar os grupos sociais todos. Brasília tem que se entender. O Executivo tem que se entender com o parlamento.
Valor: Essa crise de entendimento vai mudar o quadro partidário? O sr. acredita em reforma política?
Lembo: Eu só vejo duas reformas possíveis. Posso errar, mas acho que o fim da reeleição é inevitável.
A reeleição foi o maior desserviço à história política e administrativa do Brasil. Foi o maior estelionato eleitoral. Desde 1890, quando foi elaborada a Constituição republicana, nós nunca tivemos reeleição. Aí veio a grande figura do doutor Fernando Henrique Cardoso. Não sei o que ele fez no Congresso com o Sergio Motta e conseguiu a reeleição. Só deu imoralismo, safadeza, corrupção.Ela vai cair. Felizmente vai cair.
Outro é voto proporcional. Não pode haver coligação no voto proporcional, porque desintegra os partidos e não permite dar identidade aos partidos.
Um terceiro caso é o financiamento de empresa, que também cai, mas vai criar caixa 2, um problema muito sério.
Postado em 27 de março de 2015 às 2:41 pm
FONTE: http://www.tabiranoticias.com.br/2015/03/a-burguesia-foi-as-ruas-o-povao-ainda.html
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Uma resposta
Lembre-se que é minoria branca!
Nem todo branco compartilha o que eles fazem.
Espero que sejam condenados!